Haja fogueira

Rosemilton Silva – Jornalista e escritor. Natural de Santa Cruz/RN

Manhã fria com muita movimentação. Nos roçados, o milho já sendo quebrado, levado pra casa, separado o dos amigos – uma tradição anual em tempos de inverno generoso e de colheita farta -, mulheres começando a tirar a palha, agachadas com seus ralos na bacia para a matéria prima da pamonha e canjica, enquanto os homens vão cuidando das tarefas de levar o milho e separar para a fogueira que vai ser acesa logo mais na boquinha da noite.

Na rua – como dizemos – os sacos de milho vão chegando e sendo distribuídos enquanto algumas pessoas compram um pouco mais ou estão entre aquelas – e são poucas – que não receberam o presente para a primeira festa da colheita, a de Santo Antonio casamenteiro. E aí não há diferença entre as mulheres do sítio com as da cidade. Todas cumprem a mesma tarefa de cuidar dos preparativos para a canjica e a pamonha.

Rapaz e moças se reúnem para traçar a noitada com quadrilha ensaiada ou improvisada. Bandeirolas são feitas com papel crepom e coladas em cordão para enfeitar salões e ruas. Chumbinhos, chuveiros, estrelinhas, fósforos, traques peido de “veia”, bombas de parede, mijão, ratinhos, bombas de parede ou de pavio, foguetões e muita fumaça que ninguém reclama misturando ao gosto do milho assado depois de um farto jantar com coalhada, canjica, pamonha, carne de sol assada na brasa, queijo de coalho e de manteiga feito pela manhã com leite natural produzido com capim e, aqui e acolá, torta de algodão. Há quem solte um balão para a admiração de todos.

A festa começa a ganhar corpo nos seus mais fervorosos detalhes. Gente se arrumando, vestindo roupa para a quadrilha ou para o baile que será tocado por um sanfoneiro, um zabumbeiro e um triangueiro que animam todos até altas horas da madrugada com pouco descanso e muita música. Lá pras tantas é chegada a hora da quadrilha “cantada” em francês rocambolesco do tipo “anarriê”, “anavan”, “balance”, “xangê” e por aí vai na maior animação e concentração pra ninguém “queimar” o bailado que encerra na cobrinha com o famoso “alavantu” e todos obedecem caindo na brincadeira mais esperada sem a necessidade do rigor de prestar atenção no puxador.

E viva São João que, a exemplo de Santo Antonio, também leva casais as fogueiras para a promessa de casamento, apadrinhamento e compadrio, coisa mais inocente do mundo e que muitas vezes é cumprida a risca por muitos de nós. Quem não teve um casamento, um apadrinhamento ou o compadrio na fogueira que não leva em consideração até hoje? Pois é! Poucos!

E aí vem os mais afoitos na fé para atravessarem as brasas espalhadas naquele longo e interminável caminho que testa a coragem de tirar alpercatas e enfrentar o braseiro sendo avivado pelo vento leve que desce serra abaixo nas noites dos festejos juninos mas que não aliviam os pés de quem se atreve a caminhar por sobre as brasas sem se queimar ou reclamar ao final. O perigo mesmo é no dia seguinte, na cinza que parece morta, mas queima muito mais que o braseiro da noite.

Forró pra tudo que é lado. Ano de inverno é assim mesmo. Alegria pela colheita, agradecimento pela fartura dividida com amigos, compadres, irmãos e na certeza de que daqui há pouca mais de uma semana tudo será repetido quando São Pedro abrir as portas do céu pra olhar aqui pra baixo. E por isso mesmo, enfeites e vestes vão sendo guardados para o São Pedro que, muitos não sabem, vem acompanhado com São Paulo e, por conseguinte, mas aí já sem a fartura das comidas típicas feitas com milho o que não esfria a animação. Viva São João do Carneirinho! Viva nossa cultura! Viva nossas tradições que, aos poucos, estão matando em nome de uma tal modernidade!

2 Pessoas comentaram
Rosemilton Silva

Peço desculpas por alguns erros de português e escrita no texto, uma vez que não o revisei antes de enviar para o blog.

Terezinha Tomaz

A modernidade acaba com a cultura popular!

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