Grandes e admiráveis são as obras, Ó Senhor!

Cefas Carvalho – Jornalista e escritor

Ao atravessar a rua, percebeu ao lado, a igreja e quase involuntariamente fez com a mão direita o sinal da cruz no peito. Já na calçada, o coração aos pulos, arriscou um olhar atento para a igreja, discreta, toda em branco, e recordou o dia de sua ordenação trinta anos atrás. Era tão-somente um rapaz, cheio de sonhos e ilusões. Acreditava na Graça, no Espírito Santo e no Sagrado, mas, ao contrário de colegas de seminário, nunca tinha sentido a presença de Deus. Questionava-se quanto a ter, ou não, vocação.

Mas, enfim, foi ordenado padre e enviado imediatamente para uma paróquia na região litorânea. Casa paroquial das mais simples, município pobre, mais vila de pescadores que cidade. A juventude e a simpatia fizeram com que ganhasse a confiança da comunidade, das famílias. Durante as missas que celebrava, a igreja estava sempre cheia. Em contrapartida, ele pescava, barco ao mar, com os homens. E ajudava as mulheres a cuidar das crianças.

Sentia-se útil e querido, em paz com os homens e, talvez com Deus, mas consigo próprio enfrentava suas tentações, como Jesus no deserto, ainda que não apreciasse a comparação. Jejum e trabalho eram as maneiras com que lidava com as provações do inimigo, e em vez de deserto, tinha o mar, que curava suas feridas espirituais e o alimentava literal e metaforicamente. Passados cinco anos, a Arquidiocese o transferiu para outra região do Estado. Com choro e palavras carinhosas de ambos os lados, despediu-se da comunidade e subiu à serra. Uma cidade diferente, com pessoas menos calorosas, mas, igualmente necessitadas de conforto espiritual.

Enquanto lembrava-se disso tudo, olhou para trás, observando os vitrais da Igreja, mesmo à noite, belos, refletindo discretamente a luz dos postes na calçada. E recordou da primeira missa que celebrou na nova paróquia: Salmos 92, versículo 5: Grandes e admiráveis são as tuas obras, ó Senhor…

Emocionou-se. Chorou e chegou muito próximo de sentir a presença de Deus. E lembrou-se da comoção que causou nos fiéis, que, depois relataram da frieza do padre anterior, mais afeiçoado à reforma da casa paroquial e à quermesse da festa anual da padroeira do que às coisas do espírito. O distanciamento dos paroquianos foi aos poucos sendo quebrado e no transcorrer de dez anos, tornou-se um padre estimado e respeitado.

Tanto se dedicava à labuta – necessária – da paróquia, a reforma da Igreja, as barracas da festa, as burocracias de batizados, crismas e casamentos, quanto com a alma dos fiéis. Mas, havia a sua própria alma, esta, às voltas com as tentações e sempre com a lembrança de Cristo do deserto, na presença do Demônio – sempre ele, e que se apresentava de diversas maneiras – e em Cristo encontrava forças para admoestar seus espírito rebelde e ajustá-lo às coisas do Senhor e ao carinho e estima que recebia dos paroquianos.

No décimo ano como padre na cidade serrana, foi enviado, com mais três padres, para um curso em Roma. Conheceria então o Vaticano! Teria oportunidade de ver de perto o Papa e a História do Cristianismo. Lamentou que sua mãe não estivesse viva. Morrera quando ele se encontrava no segundo ano no Seminário, sonho de infância de Dona Vera, ver o filho padre, servindo ao Senhor!

E em Roma, encontrou bênçãos e, como sempre, tentações. Foi dos mais elogiados no curso, aperfeiçoou o latim, conheceu cidades italianas, viajou à Suíça e Espanha. Mas, também foi onde encontrou o Inimigo mais próximo, sempre a olhar para ele, sorrir sugerindo que cedesse à tentação. Foram dois anos de delícias e de fustigações, de alma e de carne. Voltou se sentindo mais sábio, mais experiente, mas, em compensação, menos próximo de Deus.

A arquidiocese, então, enviou-o para uma cidade-polo de uma região de grande comércio. Paróquia grande e com recursos, muita gente chegando à cidade, muito trabalho a fazer. Foram anos de trabalho duro nas coisas do Senhor. E também de ter de lidar com o profano, almoços com empresários, mais burocracias, anexos da igreja a construir, festas da paróquia a cada trimestre. Os anos se passaram de forma que ele nem sentiu. Como não sentiu, como pensava agora, o chamado do Demônio, seu canto insinuante, suas propostas a ferir corpo e alma e a afastar os servos de Deus do caminho das palavras sagradas, do que deve ser o propósito de todo cristão, uma vida honrada e em busca do Paraíso Eterno. E a escuridão, e o Inimigo se fazendo presente.

De repente, o barulho de uma buzina o acordou do torpor. Um grupo de jovens gritando ou cantando o fez olhar para a frente. E sorrir. Apreciava jovens se divertindo. Alegra-te, jovem, na tua mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade. Eclesiastes, 11. Durante anos, antes de tudo acontecer, celebrava esse versículo com alegria na alma.

Atravessou, então, mais uma rua. E chegou à casa, sempre na penumbra, na parte mais escura da rua. Olhou para a porta, coração quase saindo pela boca, sempre a mesma coisa. Sempre a mesma sensação de quando celebrou a primeira missa. À sua frente, o homem imenso, cumprimentou-o de maneira seca, mas, respeitosa. Desceu as escadas e aproximou-se do balcão.

Boa-noite, padre, vai querer o de sempre?

-Não, Júlio, hoje quero um gin tônica. É meu aniversário.

– Parabéns, padre! E o senhor chegou bem na hora, o show vai começar.

Bebeu o gin e pediu outro. Homens começaram a se aproximar do balcão e a sentar às mesas próximas ao palco. O mestre de cerimônias então anunciou ao microfone a entrada de Paulo. Olhou para o palco e observou o rapaz. Cabelos compridos, como um Davi, um Sansão. Belo como um modelo de Michelangelo. A música começou e o rapaz celebrava toda sua juventude e sensualidade. Até que, por fim, retirou a sunga e mostrou o esplendor de sua nudez. Que tudo que Deus criou seja abençoado pensou o padre: Grandes e admiráveis são as tuas obras, ó Senhor… Enquanto bebia mais um gole do gin e pensava se, mais uma vez, convidaria o rapaz para dormir em sua casa.

  • Conto que faz parte do livro “Não sei quantas almas tenho” (Editora Penalux).

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