FOLGUEDOS DE INTERIOR

Igreja São João Batista,em Assu -Foto: Mossoró Hoje

PEDRO OTÁVIO OLIVEIRA – Natural de Assu/RN


Aproximava-se o mês de Junho e, em Assú, em um dos jornais mais badalados do interior do Estado – “A Cidade”, as Casas Pinheiro (de Zequinha Pinheiro) estampavam anúncios publicitários com artigos para o São João: tecido xadrez, fogos, caixas de chumbinhos de pólvora e demais indumentárias que estavam disponíveis para a venda. No mesmo periódico, anos depois, as Casas Gurgel (de Agnaldo Gurgel), Casas Costa (de José Dias da Costa) e as lojas de Evaristo Laurindo de Souza,  de Otácio Freitas e de Francisco de Assis Cunha (Chico Pacaré) também anunciavam os mesmos artigos.

Também preparando-se para a grande festa, Sinhazinha Wanderley, correndo contra o tempo, compunha o magnífico Hino de São João Batista, atendendo a um pedido do vigário da “Parochia de São João Batista da Ribeira do Assú”. 

Em Natal, capital do Estado, filhos da terra preparavam suas malas para virem participar dos festejos que já estavam próximos de terem início em sua terra-mãe. Punham-se a postos, pegavam o trem até Angicos, concluindo o trajeto por outros meios – mistos, caminhões ou carros. Ao chegarem à cidade, encontravam, estendida em dois varões de madeira, uma faixa confeccionada por João Chau a qual saudava os visitantes: “Sejam bem-vindos ao São João do Assú!”.

 Aquele era o período em que os hotéis, que tinham pouco movimento durante os outros meses, começavam a faturar, a encherem-se de hóspedes e de algazarra. Assim, Santos Gurgel encarregava Palmira de preparar os quartos e contratar ajudantes para o trabalho que se avizinhava.  A partir de então todos os estabelecimentos passavam a ter frenética rotatividade.

Foto: Açu-Ontem-Assú-Hoje

O salão de beleza de Lilita abria muito cedo.  Às 6h, as portas já estavam abertas para receber as senhoras e as moças que se preparavam para as festas culturais e religiosas, no Clube Municipal e na Igreja Matriz. Posta a dificuldade de adquirirem-se vestidos prontos em boutiques, as modistas e costureiras, como Giselda Wanderley, Maria Madalena (de Antônio Félix), Estela Santos, entravam pela madrugada, desenhando e confeccionando, em alta costura, os vestidos das senhoras e moças da sociedade assuense. Geralmente, cada freguesa encomendava três roupas: para a festa social, novena e procissão. Uma para cada ocasião. Previamente, Corália e Delzir, na sapataria, punham-se de pé para fazer pedidos de mercadorias, prevendo vendas satisfatórias no mês de festa. As mães levavam os filhos para escolherem seus sapatos.

Na Padaria Santa Cruz, os irmãos Solon e Afonso, guardiões da receita do biscoito Flor-do-Assú, intensificavam sua produção. Os visitantes compravam em quantidade para, na volta as suas casas, passarem semanas degustando a saborosa iguaria assuense.

Foto: Blog Assu na Ponta da Língua

 Monsenhor Júlio, com idade avançada, ficava sobressaltado com uma extensa programação a cumprir. Tendo que visitar a várzea assuense durante a festa, avisava a Eloy Fonseca, a quem confiava suas viagens corriqueiras, para preparar o Jeep. Assoberbadas de encomendas de quitutes salgados e doces, Maria Inah e Candoca trabalhavam exaustivamente para atender todos os pedidos. 

Enquanto isso, em Natal, Clarinha Amorim e Francisca Ximenes visitavam os conterrâneos, angariando recursos financeiros e doações para a Igreja do Assú, e aproveitavam o ensejo para convidá-los a formarem uma Colônia Assuense, em Natal e a participarem da novena dedicada aos filhos ausentes.  De porta em porta, com muita simpatia e de agradabilíssima palavra, Dona Martinha vendia suas maravilhas de comidas típicas: alfenim, grude, pé-de-moleque e diversos bolos. 

Para enfeitar o céu que protegia a população, o carpinteiro Nelson Belo e sua mãe, Dona Dadinha, trabalhavam na confecção de belíssimos balões que ganhariam rumo entre as estrelas. Mas Nelson já era um discípulo de seu pai, Manoel Belo, o qual já fora aprendiz do seu tio José Leão, um dos percursores dessa arte, em companhia de Moacir Wanderley. Além de uma tradição local, era uma herança familiar. Com isso, no ambiente familiar, Nilda, filha de Manoel e Dadinha, ingressava na feitura de balões, e foi quem assumiu o posto após o falecimento do irmão. A família era coadjuvante nas comemorações do Santo Padroeiro.

 Os carroceiros estocavam lenha para, nos dias 13, 23 e 28, venderem às famílias adeptas da tradição das fogueiras, que não eram poucas. E um deles era Chico Matias. Diante do calor das fogueiras, aconteciam os rituais de consagração de padrinhos/afilhados de fogueira, depois da reza da jaculatória “São João disse, São Pedro confirmou que Maria fosse minha madrinha que Jesus Cristo mandou”. 

Os artesãos do barro, lá da comunidade Buraco D’água, preparavam os utensílios domésticos para a venda na feira que se instalava religiosamente aos sábados defronte ao Mercado Público. E, de um sobrado de portas altas e largas, encravado no coração do Assú, na Rua Frei Miguelinho, as “Adolfinas”,  Marizinha, Julinha e Julieta, produziam meticulosamente mobílias em miniatura feitas de talos de carnaúba.

 E assim a pequena população de Assú estava cada vez mais perto da abertura da Festa de São João Batista, para a qual todo o clero assuense estava voltado com máximo empenho. Com muito esmero, Antônio Félix estava diariamente na Igreja, cuidando do que fosse necessário, como, por exemplo, marcar intenções para as novenas e tocar o sino. Ele, além disso, dedilhava o órgão da Matriz e cantava em Latim, em companhia do coral formado por Isaura Rodrigues e Cornélia Tavares.

Ali na sala de sua residência, no quadro da Igreja, Samuel Fonseca, o maior musicista assuense, grandioso em toda extensão da palavra, e Cecéu Amorim ensaiavam os cânticos das noites de novenas. Ele no piano e ela entoando os mais lindos louvores católicos.  A decoração da Matriz ficava por conta das senhoras, que encomendavam a Arabella Amorim, de uma habilidade invejável, os arranjos de flores cuidadosamente trabalhados.

Foto: Paulo Sérgio.

Acabara de chegar à casa paroquial, vindo do Seminário de Santa Terezinha, de Mossoró, Padre Canindé dos Santos, recém ordenado, que iria auxiliar o vigário de avançada idade nas missas e novenas. Posteriormente, Monsenhor Júlio foi aposentado e o jovem sacerdote assumiu a administração paroquial, impulsionando o nosso São João. Com muita irreverência, criatividade e gosto pela notícia fresquinha, Demócrito Amorim (Teté) relacionava as notícias que iriam compor a edição diária de “A Mutuca”, e logo mandava deixá-las para a impressão na Tipografia de Manuel Silvério Cabral (Cabralzinho). 

 Na mesma casa, Demóstenes escolhia as camisas de linho branco, as calças sociais de cor preta e os suspensórios que trajaria na primeira noite de festividades ao santo do lugar, na qual se fazia presente para registrar mais um capítulo do São João do Assu.

Da Avenida Senador João Câmara, Costa Leitão e Maroquinha organizavam as festas que tomariam lugar no Clube Municipal, no andar superior da Prefeitura. A atração daquele ano seria Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que era amigo do casal. 

 Pelas ruas, os devotos descalços, cumprindo suas promessas, rumavam para a Matriz. Lá, os fiéis começavam a chegar, a tomar lugar nos bancos e, dentre eles, estavam Ofélia Wanderley, Maria Augusta Fonseca, Maria das Vitórias Wanderley, Alba Soares e as irmãs Filhas do Amor Divino. Estas supervisionadas por Madre Cristina Wlastinic. A programação era constituída de missa, novenas marcadas pela passagem do ramalhete entre os noiteiros que simbolizava a integração dos diversos segmentos da festa,  retretas, tocatas e alvoradas, que eram brilhantemente protagonizadas pela Banda de Música do Centro Regional dos Escoteiros, coordenada pelo Maestro Cristóvão Dantas.

 A todo tempo, as doações chegavam para a Igreja Matriz: animais, terrenos, alimentos, artigos para missas. Alguns desses donativos seriam destinados ao leilão em prol da paróquia, que acontecia sempre após a subida do balão no palanque montado em frente da Matriz.

No Parque de Vaquejada São João Batista, dentre inúmeros vaqueiros, estavam os gêmeos, Barão e Mariano Tavares, e Chico Germano, disputando o almejado prêmio. Este último, com os braços marcados de fitas (que era o símbolo do ganhador), era ovacionado pelo povo por ser campeão de quase todos os torneios. A disputa também era marcada pelo forró que acontecia lá. Realizava-se, também, o famoso baile do vaqueiro na AABB, que era o momento de eleger a rainha que desfilaria em cavalgada pelas principais ruas do Assú.

Rainha da Festa 1977, Francis Soares Macêdo de Medeiros – Foto: Assu Antigo

Para as crianças e jovens, a diversão era no parque de diversão que se instalava durante a festa atrás da Matriz, de onde surgiam as paqueras, anunciadas pelo vozeirão de um locutor vindo de alguma terra desconhecida, “de alguém para outro alguém com amor e carinho”. Assim eram oferecidas as músicas. 

Com muita empolgação e alegria, Zulmira Dias, que se satisfazia em ter sua casa repleta de amigos, deu início a primeira quadrilha de rua, saindo da Manoel Montenegro com destino à Praça Getúlio Vargas. A Rádio Rural de Mossoró fazia a cobertura da festa por meio da voz inconfundível de Edmilson da Silva. Depois, nasceu em Assú a Princesa do Vale, da qual ele se tornou um entusiasta confesso.

Rainhas do São João, década de 1950. Da esquerda para direita: Tarcísio Amorim, Costa Leitão, Renato Caldas, Almaísa Pessoa, Arilda Pessoa, Elizabeth Tavares, Fernando Tavares Filho, Edson de Assis e Alexis Pessoa. Foto: Arquivo Pedro Otávio

 Era notório que todo o Assú envolvia-se na concretização dos tradicionais folguedos juninos que têm seu início num recuo de tempo de 294 anos. Todas as agremiações sociais e instituições da cidade tomavam parte nas funções dos eventos que compunham a festa de São João Batista, desde o Colégio Nossa Senhora das Vitórias até o Lions Club. Os agropecuaristas, representados pela Cooperativa Agropecuária do Vale do Açu, que tinha Francisco Amorim como presidente e Edmilson Caldas como gerente, também participavam das manifestações religiosas na noite dos criadores e fazendeiros. Entre tantos, eram eles Walter de Sá Leitão, Epifânio Barbosa, Miga Fonseca, Joaquim Carvalho, Sebastião Diógenes (Tião), João Leônidas de Medeiros, Sandoval Martins, Edgard Montenegro.

 Todo esse clima envolvente preparava a pequena cidade para o dia mais esperado, 24 de junho, com a celebração da Natividade de São João Batista, em que havia festa desde as cinco horas da manhã, com uma fabulosa alvorada. Além disso, havia também a retreta. Fechando o ciclo de comemorações alusivas ao santo padroeiro do Assú, acontecia a procissão. O andor era conduzido por homens devotos que trajavam ternos, caminhando pelas principais ruas da pacata cidade, precedidos pelo clero, políticos e por João Pio, carregando a Santa Cruz. A população via também aquelas pessoas que, movidas pela fé, carregavam pedras na cabeça. A extensão do cortejo demonstrava, e ainda demonstra,  a devoção que o assuense tem pelo seu santo protetor.

Procissão do Padroeiro São João, em Assu, na década de 50 – Foto: Arquivo Pedro Otávio

 Imersos nas disfunções sociais que a pandemia do Covid-19 vem causando, os devotos de São João Batista não estão participando da tradicional e antiga festa que culminaria hoje. Contagiados pela saudade, em suas residências, em seus corações, cada um faz sua festa como pode, com súplicas pedindo o fim do vírus. O Hino do Santo Padroeiro, neste ano, tem um tom mais emotivo. A Igreja Matriz está apática por não estar colorida pelas vestimentas dos seus frequentadores. No entanto, São João está mais atento aos nossos pedidos, volvendo seus “olhos clementes ao povo deste lugar”, verso que Sinhazinha Wanderley imortalizou com sua composição do Hino de nosso Padroeiro.

Assim como diria Castro Alves, “a praça é do povo como o céu o do condor”, e assim era em todos os anos nas tradicionais festividades juninas. Especialmente hoje, transportemo-nos espiritualmente para lá e, com os olhos marejados pela emoção, fiquemos silentes diante daquela maravilha de templo católico que abriga o nosso São João do Carneirinho e que carrega consigo a história de um povo festeiro, hospitaleiro e religioso. 
Nota: a presente crônica evoca lembranças de eventos, figuras e acontecimentos relacionados ao São João do Assú de diversas épocas


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1 comentário

  • Antônio Navarro disse:

    Apesar da maior parte da narrativa da crônica ser anterior a até meu nascimento, cresci no açu ouvindo muitos dos vultos aqui narrados. Para quem é da terra do são joao mais antigo do mundo, esses dias o coração fica saudoso, pequeno…lembrando do cheiro da fogueira, do sabor da comida de milho, das vaqueijadas, das procissões e festas deste torrão querido! Que saudade!

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