FIGURAS MIPIBUENSES Padre Alcides Pereira

Padre Alcides Pereira da Silva, nasceu em São José de Mipibu, no dia 20 de junho de 1923. Foi ordenado padre, no dia 4 de dezembro de 1949, na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação ( antiga catedral) e teve sua atuação voltada, principalmente, nos municípios de Macaíba e Parnamirim, onde foi sua última paróquia.

Nos últimos anos de sua vida, já doente, residia no Seminário São Pedro, depois de tornar-se Pároco Emérito da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Parnamirim e deixar de celebrar missas.

Sobre Padre Alcides Pereira, o saudoso historiador Pedro Freire, em artigo publicado no jornal O ALERTA nº 274 (janeiro/2000), escreveu:

“Padre Alcides pereira da Silva nasceu em São José de Mipibu, na residência de seus pais, que moravam na, então rua 22 de Fevereiro, nº 79 (atual Praça Monsenhor Paiva), no dia 20 de junho de 1923. Filho de Augusto Pereira da Silva e Vicência Gomes Pereira.

Cursou o primário no Grupo Escolar “Barão de Mipibu”. Em 1937, ainda adolescente, ingressou no Seminário São Pedro, em Natal, onde studou durante seis anos. Em seguida, transferiu-se para o Seminário Maior, em Fortaleza. Ali concluiu o curso superior, cujo currículo incluía Filosofia e Teologia, habilitando-o para a missão eclesiástica, exercendo o ministério da igreja.

Pe. Alcides Pereira, aos 14 anos de idade

Já diácono, regressou ao Rio Grande do Norte, ordenando-se padre, em 04 de dezembro de 1949, em ato litúrgico realizado na (antiga) Catedral de Natal, sob a presidência do Arcebispo Dom Marcolino Dantas. Sua primeira missa foi realizada em São José de Mipibu, tendo comparecido a alta hierarquia do clero da capital, padres e associações de cidades vizinhas, autoridades especialmente convidadas, familiares e um grande número de fiéis mipibuenses, seus conterrâneos.

Padre Alcides foi designado para estagiar na Paróquia de Macau, ali permanecendo até agosto de 1950. A partir daí passou a vigário das paróquias de Santana do Mato, São Rafael, Canguaretama, Pedro Velho, Natal, Currais Novos, Santa Cruz e Nova Cruz.

Em maio de 1958 foi nomeado para o município de Coronel Ezequiel, onde permaneceu até junho de 1960, quando assumiu a Paróquia de Macaíba, administrando por 12 anos.

Matriz de Nossa Senhora da Conceicão – Macaíba/RN

Em 10 de abril de 1972, foi nomeado para a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Parnamirim até 1998, despedindo-se dos fiéis, numa concelebração presidida pelo arcebispo Dom Heitor de Araújo Sales.

Em julho de 1981, foi nomeado Capelão da Aeronáutica, servindo na Base Aérea de Parnamirim, exercendo, simultaneamente, as funções de capelão e pároco da cidade.

Quando aposentou-se do posto de capitão pela Aeronáutica, também o fez, das funções eclesiásticas. Ao deixar Parnamirim lhe foi concedido o título honorífico de Pároco Emérito da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima.

Em sua trajetória pelas diversas paróquias, fundou e estruturou associações religiosas, criou serviço de som e até sala de cinema, para proporcionar lazer à comunidade. Também era mestre na organização de quermesse ou outros eventos, por ocasião de festas, sob sua coordenação.

Padre Alcides empolgava nos seus sermões e pregações, por ocasião de atos litúrgicos ou celebração eucarísticas, empregando sua voz grave e firmeza no tema tratado. Isso o credenciou no seio do Clero do Estado, como um grande orador sacro.

Dotado de uma cultura esmerada, tornou-se desde jovem, um emérito poeta e compositor. É de sua autoria (letra e música) diversas canções e hinos – populares e religiosos cantados em festa e eventos religiosos.

Na extensa programação para comemorar o Jubileu de Ouro do nosso conterrâneo, realizaram-se diversas concelebrações, na Catedral, em Natal, em São José de Mipibu, Parnamirim, Macaíba e Santa Cruz”.

O escritor Valério Mesquita escreveu: “Padre Alcides Pereira da Silva faleceu no dia 20 de maio de 2011. Chegou, portanto, aos 88 anos de idade com firmeza e personalidade inconfundíveis. Ordenou-se no dia 04 de dezembro de 1949, em Natal. Chegou a Macaíba, em 19 de Junho de 1960, onde permaneceu no comando da paróquia até 3 de abril de 1972, somando quase 12 anos.  De Macaíba se transferiu para a paróquia de Nossa Senhora da Fátima, em Parnamirim, onde foi capelão da Aeronáutica, adquirindo patente militar até atingir a compulsória (resignação)”. 

Escritor Valério Mesquita fala sobre Padre Alcides

Valério cita o traço marcante do vigário mipibuense, “que passou por várias cidades, a dinamização da atividade religiosa, através do seu espírito empreendedor e restaurador de templos, comandando não apenas a obra de catequese em si mas, também, a vida social, recreativa, cultural e esportiva no seio da juventude e dos segmentos diversos da sociedade”. 

Padre Alcides Pereira entre Edilson Bezerra Karl Mesquita e Minervino Wanderley, diretor do IBGE de Macaíba e, ainda, Juarez Souza – Anos 1960 –
Arquivo: Valério Mesquita

“Padre Alcides era irrequieto, dominador, polemista e orador sacro. Praticava um estilo personalíssimo e pude testemunhar de perto o seu talento quando comandou a paróquia de Nossa Senhora da Conceição em Macaíba. Chegamos até a entrar em conflito, lá pelos confins dos anos 60 na célebre divergência competitiva social entre a Associação Pax Club e o Centro Social Paroquial. Depois, tudo voltou à paz”, relembra o escritor macaibense, que já foi prefeito do município.

“Em 1968, ele oficiou o meu casamento e a nossa amizade continuou em ritmo crescente em vários encontros, ora em Parnamirim, ora em Natal. O motivo de escrever sobre ele é porque daqui posso imaginar as solidões. A da idade e das pessoas que se afastam dos idosos e até da própria Igreja. Relembro a minha mãe quando repetia ao meu ouvido “Meu filho, a mocidade é uma maravilha, mas a velhice é um fracasso”. Infelizmente isso é verdade. Padre Alcides Pereira sofreu com a enfermidade e o desconforto do esquecimento. Por isso eu o relembro e o homenageio hoje, como o mais obstinado dos padres e um baluarte da sua geração”, escreveu Valério Mesquita, ex-deputado estadual e presidente da Fundação José Augusto.

Na manhã da sexta-feira, do dia 20 de maio de 2011, faleceu o Padre Alcides Pereira, com 88 anos. Ele era diabético e já estava internado há mais de um mês no Natal Hospital Center, onde o óbito foi confirmado às 6h20, por causas naturais.

O corpo de Padre Alcides foi velado no mesmo dia 20, no Seminário São Pedro, sendo celebrada uma missa, às 17h. Em seguida, o corpo foi levado para Parnamirim, onde ocorreu mais uma missa de corpo presente, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima.

Logo em seguida, o corpo foi levado para São José do Mipibu, terra natal do Padre Alcides. Em São José, o corpo foi velado, durante toda a noite, na da Irmandade São José, onde foi celebrada missa, às 9 horas, do sábado (21). Após a missa, o corpo foi sepultado no cemitério público de São José de Mipibu.

POUCAS E BOAS DO PADRE ALCIDES (Por Valério Mesquita)

“O padre Alcides Pereira foi um dos mais atuantes párocos que já passou por Macaíba. O seu serviço de som constituído de oito bocas-de-ferro centradas, estrategicamente, na torre da Igreja Matriz, espalhava som a quilômetros de distância. E isso o fazia respeitado e temido. O Cine Clube Paroquial foi uma das suas criações. A sua voz era empostada. Parecia ter guardanapos na garganta para servir bem à voz. Baixinho, de batina preta, grandes olhos azuis, microfone a mão, anunciava para toda a cidade: “Hoje, no Cine Clube Paroquial assistam a “Matar ou Morrer” com Gary Cooper. Depois missa na Matriz”.

“Essa outra aconteceu na Igreja Matriz de Macaíba, lotada, durante uma missa dominical. O padre Alcides fazia o seu eloquente sermão, quando se aproximou do altar o temido deficiente mental “Doido de Alexandre”, homem corpulento de um metro e oitenta de altura, agressivo e taciturno, que havia voltado a beber. Suspense e angústia entre os paroquianos. O louco quedou-se diante do padre que passou a dividir as atenções entre a oração e o homenzarrão que o fitava fixamente, gerando um clima de uma iminente agressão. O padre Alcides não deixou por menos. Pelas oito bocas-de-ferro, abriu o bocão e falou: “Alô, alô, tenente Geraldo, compareça urgente à Matriz. Um louco à solta!!!”. A polícia veio, numerosa e precavida. Mas, só com muito custo retirou o incômodo penetra”.

“Em outra ocasião, o padre Alcides celebrava uma missa , no final, quando proferia o “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”, foi interrompido pelas palmas profusas de um bêbado. Sem titubear, em cima da bucha, o padre proferiu pelo microfone: “Senhor, perdoai porque ele não sabe o que faz!”.

“Por último, me ocorreu a do batizado do filho do macaibense e fanático aluizista João Curador. Corriam os anos sessenta. Aluízio Alves era governador a quem o padre Alcides não via com bons olhos. O batizado foi marcado para às 17 horas. Igreja cheia. Aluízio no auge. A família de João Curador toda vestida de verde. O menino, que se chamava Aluízio, vestia enxoval verde, touca verde, bubu verde, sapatinhos verdes, tudo verde. Aluízio deu uma maçada de duas horas, para desagrado e irritação do padre Alcides. Quando o governador chegou, de repente, todos se reuniram em volta da pia batismal e aí o padre Alcides, possesso, se referindo à criança, soltou aquele seu vozeirão: “Tragam o gafanhoto!!!”.

Pe. Alcides faleceu, aos 88 anos de idade
Foto: Cacilda Medeiros

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