FIGURAS MIPIBUENSES Luiz Olinto da Silva

Por JOSÉ ALVES – Editor do jornal e blog O Alerta

Luiz Olinto da Silva. Conhecido pelo mais antigos, como ‘Luiz do Padre’ e, posteriormente, ‘Luiz do Correio’ para os mais novos. Nasceu no dia 16 de junho de 1947, em Tibaldo, lugarejo do município de São José de Mipibu, hoje, conhecido como Pium de Cima.

Filho do agricultor e dono de grande extensão de terras, Manoel Olinto da Silva e Maria do Carmo da Silva. Luiz chegou ao mundo, assistida pela parteira Maria Preta (na época, não havia maternidade nas proximidades), que lhe deu as primeiras palmadas no bumbum, para o menino chorar, como era costume da época.

Poucos dias depois, ‘seu’ Manoel Olinto selou o cavalo e foi registrar o filho, no Cartório Único de São José de Mipibu, do tabelião, o português Bernardo de Souza Coutinho, que anos depois, seria prefeito do município.

No ano de 1951, sua mãe Maria do Carmo, acometida de uma doença, recebeu a visita do padre Antônio Barros, que lhe foi dar o último sacramento da Extrema-unção, atualmente chamada de Unção dos enfermos. No momento de aflição e como último gesto em vida, fez a entrega, por doação, ao sacerdote, do filho Luiz Olinto, que tinha, apenas, 4 anos de idade

Poucos dias, após o falecimento da mãe, o pároco da paróquia de São José de Mipibu, padre Antônio, acompanhado da senhora Laura Bernardo, foram acolher a criança. Eles viajaram num trole (pequeno veículo, acionado manualmente, rebocado ou motorizado, que se deslocava sobre via férrea, normalmente para efetuar transporte de pessoal, ferramenta, utensílio e material para o pessoal incumbido da conservação do trecho ferroviário) cuja linha férrea passava na propriedade do pai.

Troler é um pequeno veículo, acionado manualmente, rebocado ou motorizado, que se deslocava sobre via férrea

Algum tempo antes, o padre Antonio Barros tinha construído, um internato em São José de Mipibu, na rua 15 de Novembro. No início, funcionava numa casa de taipa, com três salas de aula, dormitório dos internos e uma cozinha.

Posteriormente, no local, foi iniciada a construção do atual Instituto Pio XII. A construção teve a ajuda dos internos que carregavam pedras e material para a construção no intervalo do recreio. Luiz Olinto lembra com orgulho e emoção de sua participação na construção do Instituto Pio XII.

Por ser uma criança com saúde debilitada, Luiz alternava, passando alguns dias no internato e quando piorava de uma doença, era levado a Casa Paroquial, onde tinha o cuidado e carinho da zeladora (espécie de governanta) da casa, Maria Joaquina.

Foi na Casa Paroquial que conheceu um colega, por nome Anchieta Barros, que tinha 7 anos de idade, sobrinho do padre Antônio Barros. Tendo se apegando a Luiz, pediu ao tio para que ele, também, passasse a residir na mesma casa, no que foi prontamente atendido pelo sacerdote.

Assim Luiz passou a morar, definitivamente, na casa do padre. Os dois – Luiz e Anchieta –   tiveram uma convivência fraterna. Cresceram juntos, como irmãos.

Quando criança Luiz participava de shows no único clube social da cidade, a Associação Esportiva Mipibuense e era convidado a se apresentar para cantar. Luiz também cantava para alegrar os padres que eram recebidos na Casa Paroquial no período de festas religiosas. A música que mais gostava mais de cantar chamava-se “Violão”. Essas apresentações deixavam o velho pároco Antônio Barros, bastante feliz.

Luiz lembra com um certo saudosismo de pessoas que fizeram parte de sua infância, como a senhora Laura Bernardo, Isolina Galvão (‘Zola’) prima do padre Antonio e que residiu até os últimos dias na Casa Paroquial.

“Tinha, também, Severina Bezerra, a beata Estefânia, que cuidava do altar, das flores, as contribuições do ofertório e era responsável pelos paramentos sacerdotais todos, impecavelmente, engomados”, diz Luiz.

Já adolescente, e já conhecido por “Luiz do padre” participava das atividades religiosas, ajudava nas celebrações, como coroinha. Na época, as missas eram celebradas em Latim, ficando os fiéis, atentos aos cânticos e a liturgia. Ele como sacristão, era responsável em abrir e fechar a igreja matriz.

Também tocava o sino da matriz ou capela, convocando os fiéis aos ofícios divinos e religiosos. Os sons e timbres variados, entre graves e agudos, transmitiam mensagens. Pelos repiques, dobres e toques, os sinos indicam qual solenidade acontecerá: procissão, bênção do Santíssimo, hora da missa. Pelos toques fúnebres toma-se conhecimento do falecimento de uma pessoa. Luiz conhecia todos esses sons. E lá ia ele, subindo as escadas da torre da igreja para tocar o sino.

Luiz acompanhava o padre Antonio Barros nas visitas e celebrações de aproximadamente 54 capelas, nos povoados e comunidades e distritos de São José de Mipibu. Algumas, atualmente, são cidades, como: Monte Alegre, Lagoa Salgada, Vera Cruz e, até no município de Nísia Floresta (substituindo o padre local)…

Segundo Luiz, “Eu viajava muito com o padre e sempre que tinha um período interrupção das atividade ou trabalho paroquiais, dava uma escapulida da vista do velho sacerdote e procurava as garotas para paquerar. Arranjei 54 namoradas. Uma em cada comunidade (solta um gostosa gargalhada). Uma delas, morava na comunidade de Fontes (Monte Alegre) e um colega de nome Alberto, tinha uma namorava no lugar. Pegamos um caminhão, alugado por Cícero Paulino, presidente do Cruzeiro F.C que transportava os jogadores que iriam jogar em Monte Alegre. Pegamos canoa em cima do caminhão. De Monte Alegre fomos, a pé, até Fontes. Chegamos a casa da namorada, todo suado e cansado.

– Ô de casa…Chamaram, batendo palmas. Do outro lado, apareceu uma senhora com cara de poucos amigos. Era a mãe dela.

– O que vocês querem? Tão procurando quem? Perguntou.

No momento, os dois ‘amarelaram” e desconversaram. – Queremos um pouco d’água.

Depois que bebemos, viemos embora sem vê as meninas, trazendo os presentes que levávamos numa sacola: sabonete Alma de Flores, perfume Riss e brilhantina Casé. Frustrados, retornamos, novamente a pé, a Monte Alegre. Para surpresa e tristeza nossa, o caminhão que transportava os jogadores, já havia retornado a São José de Mipibu. Tivemos que percorrer todo o trajeto, de Monte Alegre a localidade de Saué (próximo à Laranjeiras dos Cosmes), quando pedimos carona a Bibico (irmão de ‘seu’ Roque), que nos trouxe de carro até a cidade. Nem adianta contar a nossa decepção (sorri).

Aos 16 anos, recebeu a carteira de motorista e passou a ser motorista do padre Antônio nas viagens para as capelas. Em suas companhias, no Jeep da paróquia sempre tinha a companhia de Mirtes Gonzaga ou a secretária da paróquia, Graça Araújo.

“Quando o Jeep quebrava, era substituído pelo Jeep de aluguel de propriedade do senhor Dedé Palhano ou de Djalma Emerenciano. O taxista Otávio, na época do período das chuvas, quando não conseguia atravessar os rios por conta das enchentes,  era socorrido por granjeiros e fazendeiros, que traziam cavalos para transportar o padre e seus acompanhantes que seguiam até a localidade, onde situava a capela, para ministrar os sacramentos (batizados, casamentos e missa).

Certa vez, fomos lavar o Jeep do padre, na Lagoa do Bonfim (na época, não havia lava-jato). Juntei os amigos Agenor, Segundo, Manoelito, Ivan e Moacir pedreiro. Lá, compramos no barraco de Zé Santana uma garrafa de cachaça. O tira-gosto era uma fruta do mato, conhecida por Guabiraba. Colocamos o carro na lagoa e começamos a lavar. Ao final, pronto para retornar, sentimos falta de uma “santinha” que o padre colocava no interior do Jepp . Procuramos por todo o canto e não encontramos. Resolvemos parar de beber a cachaça e e combinamos que ´iríamos rezar para os santos rogando, que nos orientasse a encontrar a “santinha”. começamos a mergulhar na lagoa para. Qual nossa surpresa, encontramos a imagem num local que tinha uma areia branquinha dentro da lagoa. Acho que foi um “milagre”. Aí não deu outra, fizemos uma festa com alegria e continuamos a beber cachaça”( na época não havia Lei Seca), lembra Luiz.

 No período de 1951 a 1958, Luiz residiu na Casa Paroquial, crescendo em conhecimento e sabedoria. Estudou o curso Primário, no Instituto Pio XII, até o ano de 1960. No ano seguinte, fez o Exame de Admissão, no Colégio Salesiano São José (no bairro da Ribeira, em Natal).

Diante da dificuldade de se locomover em transporte rodoviário, para Natal. Na época, só havia a Empresa Albatroz, pertencente ao senhor Chico Isaías. Diante disso, Luiz retornou a São José de Mipibu onde concluiu o Colegial, no Grupo Escolar ‘Barão de Mipibu’ que tinha como diretora, a senhora Lourdes Peixoto.  Era nesse estabelecimento que funcionava o Ginásio Comercial.

Grupo Escolar ‘Barão de Mipibu

 Em 1965, aos 18 anos de idade, foi convocado para servir o Exército, O Brasil vivia momentos de tensão, já que os militares haviam ocupado o poder, com a revolução de 1954, e era visível o clima de tensão e apreensão, principalmente, nos quartéis militares. Nos dias de folga, Luiz retornava a São José de Mipibu, ficando hospedado na casa do padre.

No dia 1 de janeiro de 1966, foi incorporado ao Exército, passando seis meses de instrução. Nesse período, foi deslocado para trabalhar na Enfermaria do Quartel, no cargo de Auxiliar de Enfermagem. Era o final do de 1966 quando o 3º Batalhão de Engenharia e Combate, onde Luiz servia. O Batalhão de Engenharia do Exército Brasileiro foi realizar um exercício na cidade de Mamanguape, na Paraíba.

Luiz lembra de um causo, ocorrido no Quartel do Exército: “Quando estava servindo o Exército, comprei com o primeiro soldo (pagamento) comprei uma camisa fio Helanca (top da época). Só podia sair do quartel fardado. Para farrear à noite, fugimos do quartel pela mata, escondemos a farda na mata, passando por baixo de arames farpados, quando de repente um colega gritou: – Lá vem o sargento Hortêncio, que era terrível e temido por todos os soldados no quartel. Na pressa, rasguei a camisa fio Helanca do arame. O pior: foi um gaiato que nos fez essa confusão. Não era o sargento. Fiquei vários dias triste com o fato, por ter gastado todo o dinheiro que ganhara no mês”.

Luiz aplicando uma injeção, num paciente,em Mamanguape/PB,
sob a vista de Eliel (atualmente Mastologista do Hospital Onofre Lopes)

A farda verde oliva atraia as moças da cidade. Uma delas, conhecida por Bernadete, começou a flertar com o jovem soldado do Exército, daí para o namoro, não demorou muito.  Um ano depois, mais precisamente no dia 27 de janeiro de 1967, Luiz se casou com a jovem Bernadete, apenas no religioso. Já que como militar, não era permitido casar no Civil.

Luiz e Bernadete logo após o casamento

O enlace matrimonial de Bernadete e Luiz Olinto, foi realizado na Igreja Matriz de São Pedro e São Paulo, na cidade paraibana de Mamanguape, no ano de 1967. Presidiu a cerimônia o Cônego Antônio Barros (posteriormente elevado a Monsenhor) e o pároco Padre José Paulo. Foram padrinhos do noivo, Anchieta Barros e Lourdes Barros, e da noiva, o casal paraibano Astrogildo e Nazaré.

Na foto, vemos ainda: Edgar Barros, Badú Tomé, Elita Palhano, Mirtes Gonzaga e Antônio da Silva. A recepção ocorreu, na residência da noiva, com a presença dos familiares e convidados . A noiva vestia, na ocasião, um vestido passeio cor de rosa, penteado com solidéu e muito laquê, luvas branca e sapato branco. Luiz vestia terno escuro. Tudo transcorreu de acordo como mandava o figurino, como a última palavra em moda da época.

Na foto, a entrada de Bernadete na igreja, conduzida pelo seu irmão José Raimundo.

O casal, em foto recente

No ano seguinte (1968) Luiz foi transferido para a cidade de Assu, no Rio Grande do Norte, trazendo em sua companhia a esposa e o primogênito, Robson. Em Assu estudou no Colégio Nossa Senhora das Vitórias (dirigido pelas Irmãs Filhas do Amor Divino é um estabelecimento de ensino católico), onde cursou o Científico.

Posteriormente, o 3º Batalhão de Engenharia e Combate transferiu-se para o estado do Piauí, tendo Luiz passando a morar nas cidades Picos, Inhuma Valença e Oeiras. O mipibuenses ocupava o cargo de Chefe de Farmácia, nas cidades em que o Batalhão se estabelecia. Além do atendimento aos militares, prestava assistência aos servidores civis e familiares, além dos moradores das cidades.

“Meu primeiro serviço como enfermeiro, teve um caso engraçado: aplicar uma injeção na veia da esposa do comandante e só quem acertava a veia era o sargento Walter, como ele não pode, fui substitui-lo. Tremendo fui fazer aplicar a injeção . sob a vista do marido, que de pé, em posição de sentido, observava cada movimento e eu, cada instante mais nervoso. Tremia feito vara verde. Mas, graças a Deus acertei a veia da esposa do homem. Aí ele começou a bater palma, dizendo:

– Muito bem. Muito bem… Foi um alívio para mim.”

Em janeiro de 1972, Luiz Olinto deu baixa como militar permanecendo no Batalhão de Engenharia, trabalhando como servidor civil. Nesse mesmo ano, pediu para sair do Exército, retornando a sua terra, São José de Mipibu.

Logo que chegou se matriculou no cursou Técnico de Contabilidade, que era ofertado no Instituto Pio XII. Adquiriu um imóvel na rua Dr. Antônio de Souza, onde fixou residência.

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Luiz e os demais servidores da Agência dos Correios, de São José de Mipibu

Em 1976 participou do concurso dos Correios e Telégrafos, sendo aprovado. Trabalhou como Chefe da Agência. Em 1988, foi aprovado no curso Técnico Postal, realizado em Recife/PE, para exercer a mesma função, até 1999, quando aposentou-se pelo INSS, tendo permanecido nos Correios, até 2002.

Atualmente mora na Granja em Pium de Cima, com sua esposa Bernadete, recebendo a visita da família, composta por três filhos, sete netos e  quatro bisnetos, curtindo sua aposentadoria.

No recanto de sua granja, na comunidade de Pium de Cima
Luiz Olinto, a esposa Bernadete e os filhos
Curtido a vida com a esposa

Do BLOG. Agradecemos os relatos de Luiz Olinto e sua esposa Bernadete, juntamente com as fotos que ilustram esse texto.

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