FIGURAS MIPIBUENSES Dom Manuel Tavares de Araújo

Dom Manuel Tavares de Araújo nasceu em São José do Mipibu/RN, no dia 07 de julho de 1912. Se vivo estivesse, estaria comemorando 110 anos de nascimento, no próximo mês de julho. Filho de João Felismino de Araújo e Maria Fortunata Tavares de Araújo, que residiam na antiga rua 22 de Fevereiro, posteriormente mudado o nome para Praça Monsenhor Paiva.

O garoto Manoel Tavares aprendeu as primeiras letras, no Grupo Escolar Barão de Mipibu. Em 01 de maio de 1927, ainda adolescente, ingressou no Seminário São Pedro, em Natal, cumprindo os seis anos consecutivos, o rígido e disciplinado programa de estudos a um futuro sacerdote.

Em junho de 1933, recebeu a Tonsura ( em uso no seu tempo de seminarista), sendo transferido para o Seminário Maior, sediado em Fortaleza/CE. onde concluiu o curso de Formação Superior.

Nesse período graduou-se com os títulos de Ositário-Leitor e Exocista-acólito. Em 1935, recebeu a Ordem de Sub-diaconato e, um ano depois, Diácono. Concluindo o curso regressou a Natal, credenciado e apto a ordenação sacerdotal.

As cerimônias de ordenação e a primeira missa, ocorrera, na Igreja Matriz de São José de Mipibu, por ocasião do 1º Congresso Eucarístico Paroquial, ocorrido no período de 23 a 26 de outubro de 1936. O congresso constituiu-se de um grandioso espetáculo de fé cristã, que dificilmente se repetirá na cidade.

Congresso Eucarístico Paroquial de São José de Mipibu, em 1936

O padre Paulo Herôncio e o prefeito Áureo Tavares de Araújo (irmão do homenageado), não mediram esforços para o êxito da solenidade. O ponto alto foi a ordenação sacerdotal do padre Manoel Tavares, realizada na manhã, do dia 25 de outubro de 1936, pelo Bispo Diocesano de Natal, Dom Marcolino Dantas, coadjuvado por sacerdotes do clero norte-riograndense. A matriz tornou-se pequena para comportar o grande número de pessoas que participara, da ordenação de um conterrâneo.

No dia seguinte, já ordenado, o padre Manoel Tavares celebrou sua primeira missa, às 8h30, encerrando o Congresso Eucarístico.

Poucos dias depois foi nomeado Vigário da Paróquia de São José dos Angicos, onde passou mais de 22 anos, sendo o terceiro pároco com mais tempo a frente da paróquia, da região central do estado, permanecendo até o ano de 1959, quando foi escolhido para assumir, como bispo, a Diocese de Caicó.

Foi eleito 3º bispo da Diocese de Caicó, no dia 08 de janeiro de 1959. Sua Ordenação Episcopal foi celebrada dia 05 de abril de 1959, naquela cidade. Tomou posse na Diocese de Caicó, no dia 17 de maio de 1959, permanecendo de 1959 a 1978. Foram 19 anos de pastoreio.

Dom Manoel Tavares – Foto: 1959

Quando chegou a Caicó em 1959, a Diocese não possuía carro. O então governador do Estado do Rio Grande do Norte, o seridoense Dinarte de Medeiros Mariz, colocou a sua disposição uma Rural Willys Ano 1958, de propriedade do Estado, de cores verde e branca, com placa oficial, dirigida pelo motorista conhecido por Edson de Josias. Pouco tempo depois, ocorreu um acidente automobilístico, envolvendo a Rural, deixando o bispo gravemente ferido. Posteriormente, Dinarte Mariz lhe enviou outra Rural Willys- Ano1960, também do Estado, cor cinza e branca, com placa oficial. Esse veículo foi utilizado pelo bispo, durante muitos anos.

Criou duas paróquias: a de São José de Caicó e a de Nossa Senhora dos Aflitos, em Jardim de Piranhas, ambas em 09 de novembro de 1966. Acolheu na Diocese o Instituto das Irmãs Josefinas, que em seu tempo tinha casas na maioria das cidades da Diocese. Também recebeu as irmãs da Congregação das Servas do Coração Imaculado de Maria, na cidade de Jardim de Piranhas.

Dom Manoel Tavares nas Bodas de Prata de Ir. Ernestina,fdc – Foto: O Amor Divino Informa
Dom Manoel Tavares com Me. Fidélis, Ir. Amália e Ir. Benigna em Ponta Negra-Natal/RN – Foto: O Amor Divino Informa

A Fundação da Rádio

A primeira rádio de Caicó (Emissora de Educação Rural) surgiu em 1963, graças aos esforços de Dom Manoel Tavares com ajuda dos diocesanos e dos católicos belgas e alemães. Hoje, a diocese conta com quatro emissoras, sendo duas em Caicó (AM e FM) e uma em Parelhas (AM) e a última em Currais Novos. A inaugurada solene da Rádio Rural, ocorreu em 1º de maio de 1963.

Inauguração da Rádio Rural de Caicó – Fotos Exposição Rádio Rural

O nascimento da Rádio Rural de Caicó em maio de 1963 é marcado pelo comprometimento com a educação e a evangelização como meios de trazer progresso ao homem e a mulher do campo. A fim também de politizar e dar meios de conscientização através da educação, a Emissora idealizada e fundada por Dom Manuel Tavares traçou metas destinadas a alegrar a vida do sertanejo de modo que pudessem entrar no cotidiano dessas pessoas e a transformasse para melhor. Em palavras de Dom Manuel Tavares:

“Para mim, foi a maior coisa da minha vida que eu já fiz, foi a fundação da Rádio Rural. […] Não era somente religião, era também a educação do povo. Eu deixo a mensagem que ela continue, de tal modo que eu desejo que seja a fonte de educação religiosa e civil do povo do Seridó, porque o povo precisa de uma educação a toda prova.” (ARAÚJO, Dom Manuel, 2003).

Nesse sentido, durante as primeiras décadas, a Rádio não poupou esforços em direcionar suas programações para a educação de pessoas analfabetas e que tinham o mínimo de condições de sobrevivência. Por isso que o primeiro lugar contemplado foi a zona rural, mas em pouco tempo o esteio educativo da Emissora se estendeu também para a cidade.

Movimento sindical Rural

Apoiou o Movimento Sindical Rural, no período em que o Brasil vivia a ditadura militar. A contribuição do Movimento de Educação de Base para a Rádio Rural de Caicó não privilegiou somente a cidade, como também muitas áreas rurais da região do Seridó. O Movimento esteve presente na programação da Rádio cinco meses após sua inauguração em maio de 1963 e perdurou por mais duas décadas, o que contribui para fomentar a ideia de que ambas possuíam a mesma personalidade voltada para a educação popular.

Não é a toa que a Rádio Rural de Caicó também foi chamada informalmente de “Rádio MEB”. A missão educativa através da Emissora foi promissora para o MEB, mas também desafiadora. Durante o tempo de atuação do programa, estudos de área mostraram que as secas que assolavam o Seridó eram um problema a ser enfrentado pelo sertanejo, porque prejudicavam a agricultura, a alimentação e muitos fatores que implicaram diretamente na educação.

Setor Educacional

No setor educacional, é notável o seu esforço para dotar a diocese de um ensino que atendesse aos anseios da comunidade. Com a ajuda do Padre Itan Pereira, instalou no Colégio Diocesano o ensino médio, até então inexistente na cidade. Havia apenas um curso técnico de contabilidade (exclusivo para moças) funcionando no Ginásio Santa Teresinha. Não podemos esquecer a contribuição de dom Tavares para a implantação do ensino superior na região. Em 1973, cedeu gratuitamente as instalações do antigo Seminário Santo Cura d´Ars para ali funcionar o Centro de Estudos Superiores do Seridó, na época, Núcleo Avançado de Caicó, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Foi além. Liberou um dos seus sacerdotes para dirigir aquela instituição universitária. E, na impossibilidade legal da Universidade contratar pessoal técnico e auxiliar, fez um contrato de prestação de serviços com o MEC para que não faltassem apoio e logística àquele Núcleo.

Movimento de Educação de Base (MEB) – Exposição Rádio Rural

Não fez menos no plano espiritual. Teve a preocupação de dinamizar as paróquias, através de encontros, retiros, conferências e formando casas de religiosas para a animação pastoral. Desejou reciclar e aperfeiçoar o presbitério. Com os parcos recursos de que dispunha, enviou dois sacerdotes para cursar catequese no Chile e um para estudar ciências sociais em Roma. Dois padres especializaram-se no Instituto de Pastoral do Nordeste, dirigido pelo Padre Collard. Três seminaristas foram para a Bélgica a fim de concluírem seus estudos superiores. Os candidatos ao sacerdócio estudaram em ótimos seminários da época: João Pessoa, Olinda e São Paulo. Ordenou dez presbíteros pertencentes ao clero diocesano e um frade capuchinho acariense.

Foi um apóstolo itinerante. A Residência Episcopal era nas diferentes paróquias, onde ensinava a palavra de Deus, catequizando o seu rebanho com as novidades do Concílio e alimentando-o com o Pão da Vida. De pregação atualizada, profunda, teológica e simples, deixou saudades junto àqueles que admiravam seu carisma de pregador e sua piedade. Homem de oração e estudos. Somos testemunha de suas leituras diárias, repassadas aos irmãos no sacerdócio, sobretudo aos mais atarefados.

Participou do Concílio Ecumênico Vaticano II de 1962 a 1965 com todos os bispos do mundo, realizado em Roma, presidido pelo Papa João XXIII.

Implantou a reforma litúrgica do Concílio na diocese de Caicó. Estava sempre presente nas paróquias e até nas cidades que tinha, apenas, capelas. Nas Festas dos Padroeiros participava durante todo o novenário até o encerramento. Incentivou a participação dos leigos na Igreja, preconizada pelo Concílio Ecumênico II. Entre os padres do clero da Diocese de Caicó, em seu tempo, constava o Governador do RN, o monsenhor Walfredo Gurgel e que antes já tinha sido Deputado Estadual, Vice-Governador e Senador.

Renunciou ao Governo Episcopal da referida Diocese aos 29 de março de 1978 e como Bispo Emérito foi residir em Natal, onde exerceu importante apostolado, especialmente pela pregação, inclusive, na região do Seridó, onde sempre esteve presente. Durante seu Governo Episcopal na Diocese de Caicó ordenou 11 sacerdotes, sendo 10 do clero de Caicó e um frade da Ordem dos Capuchinhos.

Dom Manoel Tavares permaneceu a frente daquela diocese por 19 anos, quando em março de 1978 decidiu renunciar as funções de Bispo Permanente, sendo agraciado com o título honorífico de Bispo Emérito de Caicó.

Até os 84 anos, como bispo emérito ainda animava o povo de Deus no Seridó. Continuou com seu amor às paróquias e o vemos anunciando o Reino de Deus e dizendo a todos as palavras que se tornaram o seu lema: “In omnibus Christus” (“Em tudo Cristo”. Cf. Col. 3,11). A muitos consolou e deu esperança, mostrando o sabor das coisas divinas, como disse o Cristo à samaritana: Ah! Se tu conhecesses o Dom de Deus (Jo 4,10).

Mesmo na inatividade ele sempre mereceu o respeito e carinho dos seridoenses. Prova disso é que a Câmara Municipal de Currais Novos concedeu o título de Cidadão Curraisnovense e Mérito Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, pelo reconhecimento e gratidão ao seu trabalho apostólico.

Por ocasião dos seus 80 anos, em 1992, foi concelebrada uma missa em ação de graças, na Matriz de Sant’Ana e São Joaquim, em São José de Mipibu, presidida pelo, então, arcebispo Metropolitano de Natal, Dom Heitor de Araújo Sales, com a presença dos bispos de Cajazeiras/PB, Dom Matias e o bispo Emérito, Dom Nivaldo Monte, além de diversos sacerdotes e um grande número de paroquianos.

Foto: Portal Tribuna do Cabugi

Dom Manuel Tavares era um grande pregador, ainda hoje suas pregações são lembradas pelo povo. Apesar de ser filho de Senhor de Engenho, era um homem muito simples e tinha o espírito de pobre, quase nada possuía. Gostava muito de colocar letras religiosas em músicas populares, sendo a que mais se popularizou foi “Boas festas” com a música de Roberto Carlos. Ainda hoje é cantada em quase toda a Diocese de Caicó. Dom Tavares era muito simples. Era um homem de Deus.

Francisco Ribeiro, vice-provedor da centenária Irmandade São José, com sede na cidade de São José de Mipibu, publicou um depoimento sobre dom Tavares: “Era um grande amigo. Um bispo que sempre fazia o bem. Passou muito tempo fora e, quando retornou a São José de Mipibu, já com idade avançada, diariamente, eu ia pegá-lo para irmos para Matriz. Era uma pessoa que gostava de cumprir horário. Sempre às 5h30 da manhã já estava acordado. Era muito bondoso. Do salário que recebia da sua aposentadoria, comprava sacolão para distribuir com pessoas carentes das comunidades do Pau Brasil e Sítio Buraco. Por diversas vezes ajudava a montar os sacolões para distribuir nas residências de pessoas humildes.. Quando chegou de Caicó, repassou dinheiro com os mais necessitados. Ele dizia, que não gostava de riqueza, sempre me falava que o que gostava era de ajudar o próximo mais necessitado. Dom Tavares era um grande amigo e um grande homem”.

Túmulo mandado construir, ainda em vida, por Dom Manoel Tavares. Está localizado na Matriz de Sant’Ana e São Joaquim , em São José de Mipibu

Viveu 28 anos como Bispo Emérito quando faleceu, em Natal, no dia 18 de fevereiro de 2006. Está sepultado na Igreja Matriz de Sant`Ana e São Joaquim em São José do Mipibu/RN

Pesquisa de textos: Pedro Freire (Jornal O Alerta nº 280, agosto/2000), Sebastião Arnóbio de Morais (pesquisador da história do Seridó, Pe. João Medeiros Filho)

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