FIGURAS MIPIBUENSES Manoel Amaro Freire

Por José Alves – Jornalista e editor do jornal e blog O ALERTA

Manoel Amaro Freire nasceu, em 13 de março de 1919, no povoado conhecido por Umbuzeiro, pertencente à época, distrito de Lagoa d’Anta (hoje, cidade), no município de Nova Cruz-RN.

Filho de Regina Gomes e Amaro Freire. Ela, uma costureira e o pai, caixeiro viajante. Manoel Amaro viveu sua infância e adolescência, entre Lagoa d’Anta e Lagoa Salgada, redutos das famílias dos seus pais.

O destino o fez encontrar, algum tempo depois, a jovem Maria de Lourdes Peixoto que estava acompanhada da sua prima Maria Dolves Peixoto, em uma festividade do padroeiro da Igreja São Pedro, em Natal. 

Maria de Lourdes Peixoto

Maria de Lourdes era filha de José Peixoto e Maria Gomes, proprietários da Fazenda Catolé de Fátima, localizada na ribeira do Rio Trairi, próxima ao distrito de Lagoa Salgada (na época, pertencente a São José de Mipibu).

Com 28 anos, Manoel Amaro levou a menina moça Maria de Lourdes Peixoto, ao altar. Casaram-se, no dia 18 de setembro de 1947, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Lagoa Salgada.

Manoel Amaro e Maria de Lourdes

Logo após o casamento, vieram fixar residência na cidade São José de Mipibu, onde, com muito esforço, construíram uma casa, à Rua Prefeito Juvenal de Carvalho, mesma residência onde nasceram cinco dos seus filhos: Maria de Fátima, Elza Maria, José Amauri e José Amilton (gêmeos) e Angelamaria de Lourdes. O primeiro filho, Hermes Emanuel, nasceu na Fazenda Catolé de Fátima, em Lagoa Salgada, pertencente aos avós maternos.

Residência ( como encontra-se atualmente) construída pelo casal Manoel Amaro e Maria de Lourdes, situada à Rua Prefeito Juvenal de Carvalho, 155,
em São José de Mipibu
Tela do pintor mipibuense, o primitivista José Estelo– Acervo: Elza Freire
Residência da Família de Manoel Amaro. Pintura de Francisco Iran – Acervo Elza Freire

Segundo sua filha Angelamaria Freire”, Meu pai era enérgico, e bastava sua presença para acabar ‘arenga’, entre os irmãos. Sua espontaneidade surpreendia, nos momentos de diversão, seja na dançando na Associação Esportiva Mipibuense, nos banhos na Lagoa do Bonfim, na praia de Barreta ou nos forrós, das comunidades rurais das  Laranjeiras, no Porto, em Nísia Floresta, no Cobé… 

Já outra filha, Fátima Amaro, lembra os bons momentos da culinária caseira: “Todos os domingos, era de praxe ter à mesa, aquele cozido, com pirão e bastante legumes, feito por minha mãe, Dona Lourdes. Que jamais irei sentir aquele sabor delicioso, que ela levou para a eternidade. E Papai levava até o martelo para mesa para bater o tutano, do qual aprendi a saborear”

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Momento de descontração de Manoel Amaro, com a filha Fátima Freire,
por ocasião de uma recepção de casamento, em Lagoa Salgada, em 1982

A neta Regina, que reside em Brasília, postou esse depoimento sobre os avós: “Saudades dos meus avós Lourdes e Manoel Amaro. A varanda da casa cheia de plantas, sendo que as preferidos dela, eram Antúrios e um pé de café. A “alma” da casa era a cozinha. Vovó Lourdes demonstrava seu amor cozinhando muito bem. Para quem não sabe, a casa tem um fogão a lenha. O que eu mais amava era comer feijão, com charque e coentro. O segredo de Vó Lourdes era colocar pimenta do reino no caldo. Os aromas tomavam conta da casa. O melhor prato tradicional dela era a pamonha e a canjica. Mas havia um pé de pupunha no quintal, que dava a frutinha laranja para apreciar. Ela sempre servia fruta pão, mandioca, inhame e tapioca. Os doces eram maravilhosos, principalmente, de caju. O cuscuz com leite fresco (que o leiteiro deixava de madrugada),nas ela amava fazer coalhada. A “Casa Brasileira” de dona Lourdes e sr. Manoel Amaro tem um acervo com ótimas lembranças da família mipibuense, de seis filhos, três netos e agregados. Gostaria de saber mais historias sobre Vô Manoel. Quantos partos ele realizou? Quantas historias preciosas que precisamos recordar e recontar“?

Manoel Amaro não tinha papa na língua. Era muito brincalhão. Seus pacientes se divertiam durante o atendimento, pois ele sempre estava dizendo uma máxima, um dito, uma brincadeira ou lembrando algum episódio passado. Achava curioso prescrever receita no verso de papel de presente, de papel de pão ou folha de caderno. Embora aposentado as pessoas peregrinavam em sua casa, trazendo histórias de de quem viu o pai, a mães, o avô sendo tratado por ele e, não dispensava ninguém.

PARTICIPAÇÃO NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Em 08 de fevereiro de 1945, Manoel Amaro embarcou para a Itália, no navio americano General Meigs, numa perigosa viagem de 14 dias, tendo em vista os constantes torpedeamentos de navios pela marinha alemã na costa brasileira.

Embarque do primeiro escalão da FEB para a Itália

Integrou uma tropa composta por 5.082 homens, que chegou ao porto de Nápoles, em 22 de fevereiro, como integrante da Força Expedicionária Brasileira – FEB, teatro de operações da Itália, incorporada ao V Exército, dos Estados Unidos.

Soldados brasileiros em combate na Itália – Foto: Google

A Força Expedicionária Brasileira teve participação marcante no desfecho da Segunda Grande Guerra, tendo vencido batalhas históricas como a de Monte Castello, considerada decisiva entre as Força Aliadas e o Exército Alemão, que tentavam conter seu avanço no Norte da Itália.

A batalha arrastou-se por três meses, de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945, durante os quais se efetuaram seis ataques, com grande número de baixas brasileiras devido a vários fatores.

Insígnia do 5º Exército Americano
Tomada de Monte Castelo, pelas forças da FEB – Foto Google

Numa das muitas batalhas por ele enfrentadas, foi alvejado por um tiro de fuzil no seu braço direito, sendo tratado pelos médicos e enfermeiros de um dos acampamentos. Esse episódio fez com perdesse a destreza e a habilidade no manuseio das armas, o que o fez iniciar os trabalhos de enfermagem.

Com o primo, José Soares, na Itália

Recebeu treinamento específico de enfermagem através da Cruz Vermelha, e, na condição de enfermeiro da FEB, ajudou a aliviar muitas dores e tratar ferimentos dos muitos compatriotas atingidos no front que escaparam com vida.

Quatro dos ataques não tiveram êxito, por falhas de estratégia, mas a batalha chegou ao seu fim, em 21 de fevereiro de 1945, após a vitória dos aliados, com a tomada de Monte Castello, por tropas brasileiras

A bravura dos soldados brasileiros era notável nos campos de batalha italianos, cuja tropa era composta por muitos sertanejos de origem interiorana, acostumados com a difícil vida pelos rincões do Brasil. Por essa razão a expressão “A cobra vai fumar” tornou-se o símbolo da FEB, vindo de um ditado brasileiro que significa “algo difícil de ser realizado, e se acontecer, sérios problemas podem surgir”. Cerca de 25.000 homens da FEB participaram dos combates na Itália, dos quais cerca de 450 homens não retornaram ao Brasil. 

Insígnia “A cobra vai fumar”
Símbolo do Exército Brasileiro

TÍTULOS E HOMENAGENS

Diploma da Medalha de Campanha, concedido pela Presidência do Brasil em em 19 de outubro de 1964, por meio do Decreto-lei 6.795, de 17 de agosto de 1944, por ter como integrante da Força Expedicionária Brasileira, participado de operações de guerra na Itália.

Medalha de Campanha
Título conferido pela ANVFEB pela participação dos membros
do Exército Brasileiro, no IV Corpo do Exército Americano
Braçadeira da ANVFEB
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BÊNÇÃO APOSTÓLICA E INDULGÊNCIA PLENÁRIA – Honraria recebida pelos soldados brasileiros, no final da Segunda Grande Guerra, pelo Papa Pio XII

Terminada a Segunda Grande Guerra Mundial, com vitória, também,  brasileira, Manoel Amaro retornou ao Rio de Janeiro junto ao seu contingente do 5° Escalão. Após essa rápida parada no Rio de Janeiro, retornou para Natal, onde encontrou seus pais, que, por várias noites choraram, aguardando o seu retorno. Por ser o filho primogênito a conduzir os irmãos, eles temiam que ele fosse morto nos campos de batalha.

Com os companheiros veteranos da guerra em Natal ( 3ª da esq. para a direita)

A ENFERMAGEM EM SUA VIDA

No retorno ao Brasil realizou cursos de Enfermagem no Rio de Janeiro e em Recife, chegando a trabalhar no Hospital Dom Pedro II. 

Entre os anos de 1970 e 1985, também desempenhou suas funções de enfermagem junto ao corpo técnico de Pronto Socorro do  Instituto Nacional de Previdência Social – INPS (atualmente  INSS), único hospital de urgência de Natal, antes da construção do Hospital Walfredo Gurgel. Nesse mesmo período, também trabalhou no Hospital dos Pescadores, localizado no bairro das Rocas, em Natal.

EM SÃO JOSÉ DE MIPIBU

Depois de seu retorno, definitivo, ao Rio Grande do Norte, instalou-se em São José de Mipibu e, entre os anos de 1946 e 1989, prestou relevantes serviços de enfermagem em geral aos moradores da cidade e de municípios vizinhos, socorrendo, dia e noite, todos àqueles que necessitassem de seus serviços, deixando exemplo de um homem que venceu com seus próprios esforços e pautou a sua vida no bem servir aos seus semelhantes.

Manoel Amaro era enfermeiro prático. Conhecido por “Médico do povo”. Aliviava as dores de quem o procurava. Alguns saiam de seu pequeno consultório, mais aliviado, também, por ele falar ‘arizias’, ou seja, brincadeiras, durante as consultas. Daí, saiam também com a alma mais aliviada.

A Prefeitura de São José de Mipibu em 07 de março de 2006, na gestão da prefeita Norma Ferreira, prestou-lhe uma homenagem nomeando o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial “Manoel Amaro Freire”, entidade da área de saúde,  vinculada à Secretaria Municipal de Saúde.

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Centro de Atenção Pisicossocial -CAPS “Manoel Amaro Freire”, inaugurado em 2006
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Por seus relevantes serviços prestados à comunidade mipibuense, a Câmara Municipal de São José de Mipibu, através de uma proposição do vereador José Eduardo Sales, lhe concedeu o Título Honorífico de Cidadão Mipibuense. O título lhe foi entregue, em sessão solene, no dia 19 de dezembro de 1991.

Título Honorífico de Cidadão Mipibuense, em 1991

Manoel Amaro Freire foi reformado pelo Ministério da Defesa / Exército Brasileiro, tendo recebido a patente de tenente, que é devida aos Ex-combatentes, integrantes  da Força Expedicionária Brasileira.

Depois de aposentar-se como enfermeiro do INPS, continuou trabalhando em seu ambulatório particular, em um pequeno imóvel, pertencia a “Seu”Nozinho (in memória), localizado por trás do mercado público de São José.

No pequeno ambulatório atendeu, sem distinção, por várias décadas a todos que o procuravam com os mais variados problemas de saúde, acrescente-se também, o tratamento também em animais. Naquela época, a existência de médicos e veterinários na cidade era praticamente nula.

Era ali, onde atendeu, por vários anos, as necessidades de enfermagem do povo mipibuense, tendo marcado seu nome na história da cidade pela presteza e atenção que dava a todos que o procuravam sem qualquer distinção. Pretos e brancos, ricos e pobres sempre receberam o mesmo tratamento.

Após fechar o ambulatório, em virtude da idade avançada, ainda assim atendeu as pessoas em sua casa, visto que, havia uma acentuada carência de médicos na cidade.

No dia 23 de Julho de 1992, veio a falecer no Hospital São Lucas, na cidade de Natal, em decorrência de problemas pulmonares.

Seu sepultamento ocorreu no cemitério público de São José de Mipibu. De forma espontânea a cidade literalmente parou, num dos maiores cortejos fúnebres já realizados nas terras de Mipibu, em respeito ao homem que dedicou mais de 50 anos de sua vida à assistência de saúde ao povo mipibuense.

A foto abaixo é um registro da visita feita por nós, ao Museu do Ex-combatente, localizado no 16º Batalhão de Infantaria Motorizado do Exército, em Natal.

DEPOIMENTOS

Da esq. para direita: Luiz, Elza, dona Lourdes, Manoel Amaro.
Abaixo: Fátima, Regina e Luís Carlos – 1980

PICADA DE COBRA

História contada pelo ex-prefeito de Nísia Floresta, George Ney Ferreira, num encontro casual com Amauri Freire(filho de Manoel Amaro), há três anos: “No cair de uma tarde na fazenda Monte, propriedade da família Ferreira, estavam três rapazes a pescar pelas levadas e locas do Vale do Trairi. A pesca era feita de forma artesanal usando o puçá e até mesmo as próprias mãos. Esse tipo de pesca é comum na região. No meio da pescaria, um dos três rapazes, ao enfiar a mão numa loca sentiu uma picada e, rapidamente, puxou para fora arrastando algo estranho à pescaria. É comum encontrar muçuns e traíras, peixes que costumam reagir com mordidas ao serem capturados.

Mas para a surpresa dos três rapazes, o bicho estranho era uma cobra surucucu, umas das serpentes mais peçonhentas do Brasil e da América Latina. O rapaz muito afoito diante do risco iminente até mesmo de morte, arrancou a cobra do dedo e continuou pescando. Por questão de minutos, passou a se sentir mal, com tonturas e dificuldades para enxergar.  De imediato, George Ferreira (tempos depois,viria a ser prefeito de Nísia Floresta), um dos três rapazes da malfadada pescaria, correu até a sede da fazenda, pegou um Jeep, de propriedade do seu pai e levou o rapaz até o ambulatório de Manoel Amaro, única alternativa para esse tipo de ocorrência em São José de Mipibu. Prontamente, o enfermeiro Manoel Amaro aplicou uma dose de soro antiofídico, único medicamento capaz de agir contra os efeitos produzidos por picadas de serpentes venenosas.

O rapaz ficou durante algumas horas em repouso no ambulatório, até que os efeitos provocados pelo perigoso veneno da serpente fossem dissipados.  À noite, parcialmente recuperado do perigoso acidente, o mesmo foi liberado para ir para casa.

Dias depois, George voltou a São José, procurou o enfermeiro Manoel Amaro e informou que o rapaz havia se recuperado totalmente e que não ficou com qualquer tipo de sequela. Naquela ocasião, o enfermeiro Manoel Amaro conversando com George informou que a pronta recuperação do rapaz só se deu porque o socorro foi imediato, e caso tivesse demorado mais meia hora o rapaz não teria suportado os efeitos mortais do veneno da cobra.

DE ENFERMEIRO A VETERINÁRIO

História contada e presenciada por seu filho Amauri Freire: “Entre as décadas de 1960 e 1980, havia uma tradicional corrida de cavalo- vaquejada- na sede do município de São José de Mipibu. Numa dessas realizadas no pátio localizado onde hoje é o conjunto da COHAB, ocorreu um grave acidente com um cavalo durante a puxada de boi. Os animais tropeçaram e o cavalo foi atingido, fortemente no peito pelo chifre do boi, derrubando os dois animais e o próprio vaqueiro. Passado o susto, o único que se feriu gravemente foi o cavalo, um belíssimo animal que participava daquela corrida.

Prontamente, alguns vaqueiros preocupados com o grave corte que sangrava sem parar, subiram com o animal lentamente pela rua do Jorge em direção ao ambulatório do enfermeiro Manoel Amaro. Imediatamente, o enfermeiro preparou os equipamentos cirúrgicos necessários para uma sutura e iniciou uma das cenas mais inusitadas já ocorrida no largo do Mercado Público. Diante de uma multidão que cercavam o animal, Manoel Amaro auxiliado pelo seu filho José Amauri conseguiu anestesiar o grande animal, deitando-o no calçamento da rua e iniciando os procedimentos de sutura de um corte de aproximadamente 20 centímetros. O ato cirúrgico durou aproximadamente meia hora sem que ninguém arredasse o pé do local.

Após a conclusão do procedimento, o cavalo demorou cerca de meia hora para recobrar os sentidos e foi levantado com a ajuda dos vaqueiros. Sendo levado andando para a fazenda de seu proprietário. Saliente-se que naquela época não havia reboque para transporte de animais. Cerca de um mês do ocorrido, o proprietário montado no mesmo cavalo voltou ao ambulatório de Manoel Amaro para agradecer pelo trabalho que salvou o seu animal naquele fatídico dia.

Um fato complementar nessa narrativa foi a presença de um dos seus filhos auxiliando o seu trabalho. Durante todo o período que ele exerceu a Enfermagem no ambulatório, Manoel Amaro tinha o costume de ensinar, aos seus filhos, a prática do auxílio durante os pequenos procedimentos cirúrgicos. Foi assim com Maria de Fátima, Elza Maria, Hermes e, por último, Amauri.

DANDO A LUZ NA ESCURIDÃO

História contada por Amauri Freire baseada em relatos do seu próprio pai: “Durante sua vida como Enfermeiro, era comum nas noites da casa número 155 da Rua Juvenal de Carvalho, alguém bater a sua porta pedindo por socorro. Numa dessas, um aflito pai, vindo do distante Grupo Novo, pediu ajuda a Manoel Amaro para socorrer sua filha, que entrara em trabalho de parto no meio do caminho, antes de chegar em São José.

A moça era trazida pela família caminhado pela estrada escura que levava à sede do município. Convém lembrar que naquele período não havia sequer táxi, quiçá ambulância. Os poucos veículos que prestavam serviço de táxi ficavam no centro da cidade e não trabalhavam à noite. Não resistindo as dores, a mesma parou de andar e foi rusticamente abrigada embaixo de uma árvore, enquanto o seu pai correu para São José em busca de socorro. Na época, não havia maternidade na cidade e os únicos recursos eram as parteiras ou o Enfermeiro Manoel Amaro. Prontamente, como sempre, Manoel Amaro arrumou em sua maleta de couro todo o material necessário para a realização de um parto e seguiu junto com o pai da moça até o local em que a mesma havia ficado.

Ao chegar ao local, os trabalhos foram iniciados, sendo iluminados apenas por um pequeno candeeiro, segurado por um dos presentes. Para a alegria de todos, mesmo diante de tanto improviso e dificuldade, a criança nasceu saudável e sobreviveu.

Esse episódio retrata a precariedade do sistema de saúde existente à época em São José de Mipibu, fatos como esse eram comuns na cidade. E Manoel Amaro jamais se furtou em socorrer a todos o quanto o procurassem, a qualquer hora do dia e da noite.

CAROÇO DE MILHO

Essa história foi publicada no blog do escritor e historiador, Luís Carlos Freire, sobrinho de Manoel Amaro: “Certa vez encontrei uma senhorinha idosa, lavando roupas do Rio Mipibu, nos fundos do Engenho Morgado, onde morava meu primo Tamires Ítalo Trigueiro Peixoto. Ao responder, ela contou um episódio ocorrida com seu filho, que colocou um caroço de milho no nariz. Encerrando a história, ela disse que “Mané Amaro era tiro e queda. Se ele não desse jeito, ninguém dava”.

OFERECEU PARA QUE A PACIENTE E SEUS FAMILIARES DORMISSEM EM SUA CASA

Uma história lembrada por Fátima Freire: “Eu estava num velório, quando uma senhora idosa, perguntou se eu era filha de Mané Amaro. Respondi que sim. Daí, ela relatou um acontecimento que ocorreu, há alguns anos atrás. Ela, morava na comunidade de Campo de Santana, em Nísia Floresta e saíram em busca de socorro médico para sua filha, que já estava desfalecendo em seus braços. Chegando ao ambulatório de Manoel Amaro, papai medicou a menina.

Em seguida, foi orientada que a medicação tinha que ser repetida no dia seguinte. Daí, Ela ficou apavorada, pois havia deixado outros dez filhos em casa e não havia mais transporte aquela hora para retornar à Campo de Santana. Papai falou que se a garota não recebesse a outra dose da medicação iria falecer. E convidou-a para que ficasse lá em casa. Ela não pensou duas vezes: passou o restante do dia e a noite. Ao amanhecer, a menina que já estava apresentando sinais de melhora, foi para o ambulatório e recebeu a medicação, e depois a família retornou a sua casa.

Ela fez esse relato, levando em conta a confiança que tinha em papai. Até hoje, tenho ouvido de pessoas que conheceram e testemunham alguns casos vividos dos serviços ambulatoriais prestados por Papai, que comentam: “Se Seu Mané Amaro tivesse aqui, esse menino não tava assim”. É muito comum ouvir isso!

ESTANCANDO SANGUE

Outra de Manoel Amaro, que foi relatada por Fátima: “Costumeiramente, éramos acordados, altas horas da noite, pelas pessoas que buscavam “socorro emergenciais”. Certa vez, estacionou em frente a nossa casa, um caminhão com feirantes. Eram ouvido, na rua inteira, gritos desesperados de uma mulher. O caminhão passou por um poste de trilho da estrada férrea, que quase amputou a perna da mulher. A mulher gritos e com a perna sangrando, vi papai correndo para dentro de casa, abrindo a gaveta de panos de pratos, levando para cima do veículo, e estancou o sangue da perna da mulher, orientando para procurar um hospital, pois ele fez o que estava ao seu alcance.

ARAME ARTESANAL

Mais um de Manoel Amaro: “Papai costumeiramente tirava um ronco após o almoço. Ele acabara de deitar na rede quando um carro parou um veículo. Era um casal, com uma criança com cinco anos de Idade. Os recebi, e mandei entrar, para aguardar um pouco o cochilo de papai, como fazia costumeiramente. O homem relatou que já havia passado por diversas clínicas e Pronto Socorro para retirar um caroço de feijão do nariz da criança, que já encontrava bastante inchado de tantas tentativas. O médico do SEMPS, Dr. Vivaldo Costa, sugeriu vir a São José de Mipibu, e procurar por Manoel Amaro, com quem já haviam trabalhado juntos.

Papai entrou, e com um fino arame, fez uma laçada, higienizando a peça no álcool, que artesanalmente acabara de criar. Deitou a criança na mesa da cozinha e, numa só tentativa, laçou e retirou o caroço de feijão. Os pais ficaram impressionados com a habilidade e criatividade da atitude repentina de Papai. E se foram embora, felizes!”

AGRADECIMENTO

“Agradecemos e parabenizamos o jornalista José Alves (Dedé), por nos oportunizar a veiculação dessa homenagem ao nosso saudoso pai em seu conceituado jornal “O Alerta”, o meio de comunicação mais antigo em atividade no município de São José de Mipibu e região”, declarou Amauri Freire.

A foto abaixo é um registro da visita feita por nós, ao Museu do Ex-combatente, localizado no 16º Batalhão de Infantaria Motorizado do Exército, em Natal.

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Do blog O ALERTA: Alguns escritos e fotos, foram cedidos, gentilmente, pelos familiares de Manoel Amaro, a quem agradecemos.

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16 Comentários

  • Vanda disse:

    Parabéns Dedé pela homenagem tão substancial de acervo rico e merecedor. A contribuição do Sr Amaro para o povo mipibuense é inestimável. Um homem íntegro, humanista e profissional exemplar. Cuidou das agruras do cidadão mipibuense com técnica e coração. Era uma referência na cidade. Parabéns pela homenagem

  • JOSE OLAVO RIBEIRO disse:

    Figura conhecida e destacada na vida mipibuense, cujos filhos são pessoas respeitadas e de Boa convivência.

  • Fernando Moraes. disse:

    Parabéns pelo texto, bela história do Sr. Manoel Amaro.

  • Tereza Barbalho disse:

    Parabéns pela merecida homenagem ao Sr Manoel Amaro.
    Sr Manoel Amaro e D. Lourdes descansem em paz🙏

  • Carlos Alberto Ferreira da Silva disse:

    O Herói de Dois Continentes.

    Sertanejo puro. Convocado para lutar na Itália, fez-se Herói. Ferido em combate, tornou-se enfermeiro que salvou vidas, curou e aliviou as dores de seus companheiros combatentes.
    Ao retornar para o Brasil, na cidade de São José do Mipibu-RN, continuou a sua vocação em salvar vidas, curar a dor física e reanimar, psicologicamente, os que o procuravam.
    O seu trabalho ecoou em Mipibu e toda a região, tornando-se um ponto de esperança.
    Falo do Senhor Manoel Amaro Freire – O Herói de Dois Continentes. Bom Filho, Bom Irmão, Exemplar Pai de Família, que construiu uma bela família, educando-as e encaminhando para o sucesso.

    Sr. Manoel Amaro, um exemplo de vida.

  • ANGELAMARIA DE LOURDES FREIRE disse:

    Boa tarde!
    Agradecida, honrada e orgulhosa pela homenagem à papai no Jornal O Alerta do nosso querido amigo, José Alves, a quem agradecemos por manter viva a vida deste que foi um cidadão, profissional e genitor generoso, ético, solidário, genioso mas verdadeiro com seus princípios.
    Aonde quer que esteja, continua a sua caminhada no ‘fazer o bem”.
    Grande abraço!

  • Geovani Soares Peixoto disse:

    Homenagem muito linda ao Sr. Manoel Amaro, essas não são estórias de carochinha, são realmente histórias verídicas. Que Deus abençoe todos familiares e que ele e sua amada esposa estejam com o Pai, em Nome de Jesus. 👍👏👏👏👏👏👏🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷

  • Geovani Soares Peixoto disse:

    Outra coisa, faltou ressaltar ( comentar) o nome de José Amilton Freire tbm filho de Manoel Amaro.

  • Geovani Soares Peixoto disse:

    Merecida homenagem ao senhor Manoel Amaro, isso não é estórias de carochinha, são realmente histórias verídicas.
    Que Deus abençoe todos os familiares e que ele com sua amada esposa estejam nós braços do Pai.

  • Roberto Soares da Silva disse:

    Manoel Amaro, homem íntegro e de bons costumes. Como filho de seu primo Jose Soares da Silva tenho grandes lembranças de quando na sexta feira , após término do expediente no INPS, ele voltando para São José de Mipibú,ele passava no bar e restaurante BAR DO EXCOMBATENTE comércio de papai e levava dois ou três filhos de Zé expedicionário, como papai era conhecido aqui em Natal, na Avenida 15 quase em frente ao MIDWAY MALL, e ele nos trazia de volta na segunda feira. Bons tempos da infância.

  • Fátima Freire disse:

    Parabéns Dedé! Por nos honrar e relembrar aos nossos conterrâneos, uma história que nos honra! Pela dignidade e magnitude que foi o meu Pai, deixando um legado de Bravura! De honestidade! E de Vida para com todos aqueles que com sua ajuda, sobreviveu!
    Muito Obrigado!

  • Eriberto Freire disse:

    Eriberto Freire Sub Tenente Bombeiro militar ( sobrinho de Manuel Amaro) parabéns a Dedé do Alerta por levar informações aos mipibuenses e por essas grandes homenagens ao meu inesquecível tio que além de relevantes serviços pela pátria o legado também deixado para a cidade de São José de mipibu e exemplo a ser seguido por todos nós que somos parentes.

  • Dário Silveira disse:

    Tive a oportunidade de conhecer S. Manoel Amaro e sua esposa D. Lourdes. Pessoas que guardarei na memória por toda minha vida por suas histórias. S. Manoel era sisudo, mas tinha um também seu momento bem humorado, já D. Lourdes sempre foi de uma simpatia ímpar, amiga de minha Mãe onde foram vizinhas nos seus últimos dias e as duas estavam sempre sorrindo. Guardo ótimas lembranças das duas. Sou amigo da família no qual tenho muito amizade, respeito e admiração.

  • Iolanda Ribeiro disse:

    Grande homenagem. É sempre bom sabermos da história daqueles que fez e faz parte da nossa cidade Mipibu.
    Parabéns família Freire.

  • ELZA MARIA FREIRE disse:

    Caro José Alves, Editor do Blog ” O ALERTA ” : Sou-lhe muitíssimo, infinitamente grata, por ter em reiteradas vezes , insistido que nós os filhos de Manoel Amaro Freire reuníssemos informações e documentos contemporâneos dos fatos que possibilitassem você fazer esse tão singular e para nós tão significativo registro a respeito do homem que ele foi , e um Pai do qual tanto nos orgulhamos, agora, por muitos realmente conhecido, em razão da sua persistência e grandiosidade do seu gesto. Atenciosamente, Elza Maria Freire.

  • Paulo Roberto de Lima Pastel disse:

    Belíssima homenagem,a um homem que marcou a história de muitos mipibuenses. PARABÉNS AO “O ALERTA”

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