Falta de bairrismo e dominação cultural…

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Meus conselhos aos que querem viajar são sempre os mesmos: respeitar a cultura anfitriã. Conhecer de tudo e provar o que for possível as ditas coisas estranhas, nas bebidas e iguarias culinárias. Mas, não fiquem obrigados a nada. Tenha seu gosto e sua opinião próprias. Defenda com unhas e dentes a sua cultura tradicional de sua região. Primeiro a sua comunidade. Saindo de longe, voltem para suas origens. Andando pela região amazônica, não comi carne de jacaré e de macaco para agradar a ninguém que me ofereceu. Não é da minha cultura alimentar, como também não provo certas comidas asiáticas. Nos restaurantes chineses e japoneses em que fui, perguntei e olhei muito antes de colocá-las em meu prato. O que não deixei de admirar foram suas decorações e culturas milenares os acompanhando. As boas tradições deixadas pelos nossos antepassados, também deviam ser seguidas assim por nós. Nós, da geração dos envergonhados com nossos bisavós, os europeus, negros e índios.

Sou dos pouquíssimos da família que guarda ainda em molduras em minha casa as antigas fotografias de meus ancestrais. Uma parenta, os olhando, disse-me na cara: “Deus me livre de decorar minha sala com tantos mortos!”. Graças a Deus, esta pessoa não voltou mais aqui, pois na minha casa não entra quem renega suas origens e história. Ai de quem soltar uma piada com o retrato em preto e branco de meus genitores, do tempo de seu casório, em 1944. Geralmente, os covardes ‘dominados’ não elogiam os seus e nem nos contam suas histórias, porque lhes faltam o que se chama de ‘bairrismo’. Não é fanatismo se ter amor e defesa por seu passado e sua história. Primeiro os meus, a minha cultura, para depois divulgar e apreciar a lá de fora.

Recentemente, passando em frente a única televisão de minha casa, na sala, percebi um bate papo com um jovem engenheiro, com mestrado e quase doutorado. Era um maranhense, quando criança e adolescente era lavrador como os pais. Estudou em escolas públicas, mas, coitado, em seu dicionário não tinha a palavra ‘bairrismo’. E aqui não vou dar a classificação de dois dos meus: o Aurélio e o Houaiss. Todo mundo já está cansado de saber que eu sou um ‘bairrista’ juramentado. Só digo que o tal jovem maranhense disse que sua preferência musical era a tal da dona ‘Lady Gaga’. Não sei de quem se trata essa senhora, nem mesmo se a dita cruzar comigo na feira de Nísia Floresta. Até pensei que o citado jovem fosse nominar a genial cantora e instrumentista Alcione, a nossa maranhense ‘Marrom’. Não sei mesmo se o doutor de camisa listrada e anel no dedo, conhece algo sobre os seus ilustres conterrâneos, ‘Catulo’ e ‘Ferreira Gullar’. Será que ele viu alguma apresentação do tradicional ‘Boi Bumbá’, como eu? Ou será também que tomou o refrigerante ‘Jesus’, que eu tomei pela curiosidade do gosto?   

Boi Bumbá – Patrimônio Cultural do Brasil, orgulho dos maranhenses

E esse jovem sem bairrismo nenhum, até me fez lembrar de uma antiga reportagem do velho ‘Fantástico’ com um pobre jovem trabalhador que cortava cana na zona canavieira pernambucana. Passando fome, frio e calor de segunda a sábado e, no domingo, disse ao entrevistador global que era o seu dia de ouvir aquele Michael Jackson em sua radiola. Digo sempre nas escolas e pequenas cidades, como o Padre Vieira dizia lá no Estado do Maranhão, mesmo sem ninguém dar a mínima atenção, que a falta de cultura é um grande perigo e só nos faz elogiar o que não conhecemos e gostar das coisas vindas dos outros. Ouvir música sem saber a tradução não me entra nos ouvidos. É muito difícil valorizar a prata de casa. Conto a história do nordestino que passou poucos meses no Rio de Janeiro e voltou chiando mais do que tampa de chaleira e só reconheceu o caranguejo que tanta comia, porque o danado lhe atacou com a pata um de seus dedos: – “Mami, arretire esse bicho do meu dedo que eu não sei o que esse cara quer comigo!”.

Eu só sei que não sei quase nada e muito menos proferir palestras, mas até que conversar eu engano o povo ouvinte, quando raramente sou convidado pelas prefeituras e seus órgãos de cultura. Infelizmente, não sei imitar os saudosos folcloristas Leonardo Mota e Ariano Suassuna. O velho cearense Leota, o qual não conheci, fazia o povo rir com suas histórias e exemplos de bairrismos. Já o paraibano Suassuna, com quem eu conversei tantas vezes, não cansava de alfinetar os seus ouvintes com aquela história da ‘mulher mãe besta’, rica e sem cultura nenhuma, a qual antes de conhecer as belezas naturais e históricas do nosso Nordeste, tinha viajado e gastado o mundo e os fundos para bater uma chapa em Disney: “Eu sou chique, meus vizinhos!”.

O paraibano Ariano Suassuna – Foto: Sintonia de Cultura

E por falar em gente besta e sem cultura, recordo agora a minha resposta a uma dondoca metida a muito importante, a qual me perguntou em uma de minhas conversações em uma cidade do nosso Alto Oeste: – “O senhor que se diz tão viajado, conhece Santiago de Compostela?”. E eu em minha língua respondi: – Não senhora, mas conheço Canudos e Monte Santo, na Bahia. Juazeiro do Norte e Caldeirão, no Ceará e as Pedras Encantadas, na Paraíba. Trindade, no Goiás e Aparecida, em São Paulo. Ela, coitada, apesar de ter dinheiro, falta conhecer muita coisa da história de seu povo. Percebe-se logo nas conversas dos que preferem a Europa, o racismo e o preconceito com os nossos santos, feios e pretos. Nem o padre Cícero, branco de olhos claros, não foi canonizado ainda, apesar do bairrismo religioso do cearense.

MONTE SANTO/BA E SUA IMPORTÂNCIA NA GUERRA DE CANUDOS – Blog do Florisvaldo

Gostei de ver certos gestos de bairrismo por onde andei. Ouvi o ritmo musical do Carimbó, na região paraense. Lá provei do divulgado caldo de tacacá, o pato no tucupi, o suco de cupuaçu, o qual, mesmo delicioso, perde para a nossa boa e relegada mangaba. No Rio Grande do Sul, ouvi suas músicas e provei de suas iguarias. Vi seu folclore europeu. Admirei muito o seu tradicionalismo e trouxe de presente uma cuia de chimarrão. Provei do tal, mas confesso que sou devoto mesmo do nosso café com pão na manteiga. Falando na deliciosa mangaba, o comerciante de lanches da rodoviária de São José de Mipibu, o já amigo ‘seu’ João, ao me ver encostar no seu balcão, nem me pergunta e logo vai enchendo um copo do meu suco preferido, a mangaba: Repita, seu João, eu sou bairrista! Ele não entende e sempre sorri com minhas prosas. Fico só observando que sou dos poucos fregueses de seus sucos.

Exposição ″Little America″: soldados dos EUA em casa na Alemanha | Cultura  europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 26.03.2018
Soldados americanos influenciaram no cotidiano da cidade do Natal,
durante a Segunda Guerra Mundial

A maioria mesmo toma aquele refrigerante de cor preta dos americanos… cultura da desgraceira Segunda Guerra Mundial deixada em Parnamirim e Natal… as visitas aqui de casa, se espantam quando perguntam se tem algo doce para a sobremesa do almoço: – sim, nunca falta rapadura nesta casa abençoada!

O americano, é pai do tal chiclete, que logo superaria a nossa boa rapadura. A invasão cultural norte-americana é uma lavagem cerebral miserável, segundo a escritora Júlia Falivene Alves, (2013). E o jornalista Fernando de Barros e Silva, chama esse processo de ‘americanalhação’.

Alunos das Escolas e Ceis da Rede Municipal de Ensino realizam atividades  de Halloween - Município de Ponte Serrada
Algumas escolas realizam atividades com seus alunos, como o Halloween, valorizando uma cultura importada

Agora tem até dia das bruxas e coisas, que nem me atrevo a falar… (bati na mesa da sala agora mesmo, três vezes). Quando os ditos sabichões me perguntam se já li tal autor estrangeiro, eu digo que sim. Só não me respondem se eles leram os nossos geniais Machado de Assis, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Rachel de Queiróz, Graciliano Ramos ou Zé Lins do Rego, entre outros. Um dia em uma de minhas conversas lá em Martins/RN, para um público escolar jovem, eu os aconselhei a fazerem um curso sozinho sobre o amor e o respeito as nossas tradições. Ou seja, o bom ‘bairrismo’: façam meus jovens, uma leitura com calma e anotando as principais obras de Mário de Andrade, Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna e principalmente o nosso Câmara Cascudo.

E por falar no nosso mestre, lendo recentemente um dos livros que me esperam por falta de tempo mesmo, do jornalista e cronista Tom Cardoso, ‘Fora do Tom’, 2016, me deparei com a sua chateação com as crianças de seu condomínio, geração shoppings e internet, sem bairrismo nenhum. E esse, para finalizar seu diálogo, esbraveja com uma ótima recomendação cultural literária para reciclá-las de uma vez por todas: “Vão ler Câmara Cascudo, seus merdinhas!”.

Digo que concordo plenamente com o ranzinza e humorístico Tom Cardoso. Quem me conhece sabe que não gosto de palavrões, mas tem limites com os que só defendem o que não conhecem. Só ouve o que a língua estrangeira impõe nas mídias. Adora Lady Gaga, em detrimento das Glorinhas Oliveiras e Núbias Lafayettes…

Vão ler e reler Câmara Cascudo para amar seu povo e suas tradições culturais! O bairrismo em dose certa, na ocasião correta, cura muitos males do estrangeirismo imposto em nossas casas. ‘Na minha rede não’, já dizia o nosso genial forrozeiro, Elino Julião. De goela a baixo, só peru quando lhe dão farinha molhada para encher o papo. Na minha casa quem manda é a cultura deixada como herança de meus pais e avós. Não me venha com estrangeirismos e certas ‘culturas’. O grande sábio poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, ficou encantado quando leu a bíblia de nossas tradições, o ‘Dicionário do Folclore’, de Câmara Cascudo, que as escolas do RN, pouco leem, infelizmente!

É preciso saber a arte de se livrar das pedras, em nossos caminhos. E bendito seja o bairrismo, em nosso paladar, gosto literário e musical!

               Outubro. Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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