ECOS DOS IDOS 60

Valério Mesquita (mesquita.valerio@gmail.com)

Uma testemunha ocular e auricular daquele tempo foi o coronel Queiroz (Benedito Florêncio de Queiroz), da reserva remunerada da Polícia Militar. Foi ajudante de ordens do monsenhor Walfredo Gurgel durante o período que governou o Rio Grande do Norte, de 1966 a março de 1971. o conheci desde essa época. Os nossos contatos, apesar de escassos, se tornaram amiudados graças ao cafezinho do Natal Shopping. Fiel amigo do padre governador, relatou fatos importantes dos bastidores políticos com excelente memória. Um deles, dentro do carro oficial com destino a Caicó, ouviu de Aluízio Alves que estava deixando o governo, solicitar ao governador eleito: “Monsenhor, gostaria de lhe fazer um pedido. É a indicação de Manoel de Brito para a Secretaria de Finanças”. “Aluízio”, responde o padre, “Para essa secretaria já escolhi um nome: é o Dr. José Daniel Diniz, meu sobrinho afim”. Aluízio não tocou mais no assunto e nem se aborreceu com Walfredo. Tempo depois, Brito foi para a Casa Civil.

No início do governo, Walfredo Gurgel enfrentou problemas com a nomeação do novo presidente da Fundação José Augusto. O Dr. Hélio Galvão, amigo de Aluízio e que viera de sua gestão, iria ser substituído. Falanges da “Cruzada da Esperança” pediam a sua permanência. Mas, o monsenhor assumira compromisso com outro nome. Houve crise. Em meio as escaramuças, certa noite, o governador foi esperar no aeroporto o líder Aluízio Alves procedente de Brasília. Naquela fase, partida e chegada de Aluízio sempre juntava correligionários. E no momento em que os dois se cumprimentavam, uma voz passional e anônima saiu da multidão: “Aluízio, ele demitiu o Dr. Hélio!!”. Aluízio virou-se dirigindo-se a aglomeração: “O governador agora é o monsenhor Walfredo Gurgel”. Assunto encerrado. Fez-se silêncio.

De outra feita, Natal recebeu a visita do então presidente Castelo Branco. Alojado na Base Aérea de Parnamirim, de lá, o marechal veio primeiramente à Reitoria da UFRN para receber o título de “Doutor Honoris Causa” das mãos do reitor Onofre Lopes. No gabinete do reitor, onde funcionou o Comando do III Distrito Naval, Castelo comenta para os circunstantes, na maior simplicidade: “Eu não sei porque o professor Onofre me confere esse título porque nem formado eu sou”. Risos. Convenhamos que era um tempo propício a essas coisas.

Mas, odisséia mesmo foi a construção da ponte de Igapó. Falo da primeira ponte, pois, a segunda, foi erguida no governo de Geraldo Melo. O padre governador enfrentou toda a sorte de problemas políticos e administrativos para concluir a obra tocada pela empresa Norberto Odebretch. O então Ministro dos Transportes Mário Andreazza sofreu todo tipo de pressão das lideranças políticas do Rio Grande do Norte que se digladiavam com a “Cruzada Esperança”. Algumas vezes, a empreiteira ficava de dois a três meses sem receber os pagamentos. Finalmente, o governador concluiu e inaugurou a obra. Mas, o radicalismo havia atingido o clímax. Para a inauguração não deixaram que comparecesse nenhum ministro da área civil. Todavia, apenas dois da cota da amizade pessoal do governador estiveram presentes: o da Aeronáutica e o da Marinha. O Rio Grande do Norte ainda se dividia entre os pastoris: verde e vermelho.

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