E o grande amigo Fernando Tovar se encantou…

Da direita para a esquerda: Tovar, Mery Medeiros, Gutenberg Costa, Leide Câmara e Artunio Maux. Arquivo: Gutenberg Costa.

GUTENBERG COSTA – Escritor, pesquisador e folclorista

Existem amigos e amigas que preferem as ditas homenagens póstumas. Visitam os hospitais e velórios. Digo, até respeito-os, mas todo mundo sabe que sou daqueles que adoram as conversas alegres nas calçadas e terreiros fraternais. Os cafés bem fortes, regados às boas risadas. Os causos divertidos contados em mesas fartas de bares. De não faltar às suas festas e trazer nas eternas lembranças seus momentos felizes.
Dos amigos e amigas que já partiram desta, além das fotografias, guardo deles e delas boas recordações. Cada um caberia em uma crônica, melhor ainda, as homenagens em vida que prestamos são o que fizemos de bom aos mesmos. As surpresas amigas, os presentes de viagens, as visitas inesperadas em suas casas, em dias de aniversários…
Já reclamava insistentemente o poeta e cronista Mário Quintana, em 1973: “Não sei o que terá acontecido com a espécie humana.” imaginemos esses tempos virtuais de hoje. Os amigos cada vez mais distantes com um bom dia, uma boa tarde e boa noite, floridos e sempre em nome de Deus, no meio das ditas e chatas mensagens. Ninguém quer conversas com café e tapiocas. Ninguém perde tempo em saber como o outro está vivendo.
Os convites são raros para viagens e passeios. Presentes de livros e discos, mais raros ainda. As inimizades são frequentes, em parte devido às religiões, ao futebol e à política, coisas particulares, que não víamos antes.
Eu tenho amigos e amigas – como minha mãe, dona Estela, classificava de “amizades do peito” – que são abecedistas, flamenguistas, dinartistas e aluizistas. Crentes e ateus. Só exijo deles e delas, uma amizade que seja verdadeira de irmão, como São Francisco e Vinícius de Morais as desejavam. Com tristeza e falsidade, ninguém, nem tente ultrapassar o batente de minha morada…
O escritor e cronista Fernando Sabino, em 1987, homenageando seu grande amigo Carlos Drummond de Andrade, quando da partida deste, o comparou a um amigo passarinho que todos os dias, alegremente, o ia visitar em sua janela. Drummond também quando não ia visitar o Sabino, ligava o telefone para ouvir suas prosas amigas. Estavam sempre presentes e as homenagens eram recíprocas e em vida. O nosso mestre Câmara Cascudo, era um daqueles que gostava de “tramar” coisas boas para homenagear seus amigos. Surpresas e tramas do bem, tão raras nestes tempos…
Não é fácil falar de um grande amigo quando este se encanta, principalmente se ele era exemplo de simplicidade e gratidão. Quando eu fui fundar uma banda carnavalesca de rua em Natal, entre os amigos de primeira hora estava o cantor e carnavalesco do bairro das Rocas, Luiz Gonzaga Fernandes Filho, que usava o pseudônimo artístico de “Fernando Tovar”, ao meu lado. O carnaval e a alegria momesca estavam em seu sangue familiar, vindo de sua mãe, dona Maria Nazaré, a dona Neném, que me contou muitas histórias dos velhos carnavais das Rocas e Ribeira, dos tempos das troças e bagunças ao cheiro das primeiras lanças perfumes. O estandarte da nossa referida banda foi confeccionado por um irmão de Tovar, o saudoso “mestre Tiano”. E diga-se, toda a sua família é de artistas em variadas áreas culturais. Sua casa era a segunda sede da Escola de Samba “Malandros do Samba”, do aguerrido “mestre Melé”, que eu tanto conheci.
Tovar me foi apresentado pelo também grande amigo Mery Medeiros. Se diz que um bom amigo sempre apresenta outro melhor. Há um velho e popular ditado: – “E me digas, com quem, tu andas?”. Em tudo que fiz ou estive envolvido o amigo Fernando Tovar esteve presente, sorrindo, contando histórias ou cantando belas canções com seu vozeirão peculiar aos exímios antigos seresteiros. Quando soube de minha pesquisa sobre os antigos carnavais da cidade do Natal, este chamou-me à sua residência nas Rocas e deu-me muitas fotos, que foram arrancadas de seus velhos álbuns fotográficos de família.
Quando completei meus 50 anos de idade, recebi como homenagem um café da manhã com amizades e familiares, organizado pela dupla Mery Medeiros e Fernando Tovar. E quando a nossa banda carnavalesca de rua foi homenagear cantores vivos, com o “Disco de Ouro” do carnaval natalense, o amigo Tovar foi um dos nomes lembrados. Na ocasião, no bar de “Zé Reeira”, o mesmo chorou emocionado com a nossa singela iniciativa.Assim, o grande Tovar não ficou esquecido pelo carnaval de rua de Natal.
Cada um de nós sabe muito bem o que fez ou deixou de fazer pelas boas amizades. Depois do leite derramado, são tarde as lamentações! De minha parte, eu digo que muito pouco foi feito para quem dedicou sua vida ao bem, à música, ao carnaval e às amizades.
Viva a amizade e viva o nosso amigo Fernando Tovar!
Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN, 30 de outubro de 2021

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