E Elza ganhou a Copa (II)

Alex Medeiros – Jornalista ([email protected])

Na sexta-feira, 18 de maio de 1962, o anúncio no Diário de Natal dizia: “Hoje Cine Poti, às 15h30, na tela “A Maior Aventura de Tarzan”, às 20h, na tela e no palco, Elza Soares, ingressos CR$ 50,00 e CR$ 100,00”. Era um privilégio para Natal ter duas apresentações da grande sensação da MPB que desde 1960 tinha uma agenda tomada de shows nos tradicionais espaços do Rio e São Paulo. Os anúncios com ela nas duas cidades enchiam os jornais.

Mas quando seu romance com Garrincha tomou proporções internacionais após a Copa do Mundo no Chile, os jornais foram os primeiros a condenarem o relacionamento, uma onda de moralismo tomou conta das redações e a então esposa do craque, Nair Marques dos Santos, com os filhos “abandonados” pelo pai, ganhou status de celebridade. Se Didi e Guiomar ganharam as páginas com suas brigas, Garrincha e Elza estavam estampados ali por terceiros.

E enquanto as tropas dos bons costumes perseguiam o casal, Elza esbanjava seu talento em shows quase diários nos mais tradicionais endereços noturnos do Rio e de São Paulo: Oásis, La Vien en Rose, 707, Mesbla, Cave, Bottle’s…

A cantora também já era um dos maiores nomes brasileiros em popularidade na América Latina, com apresentações em Buenos Aires, Montevidéu, Santiago. Em Valparaíso, na Copa 1962, cantou junto com Louis Armstrong.

Quando Garrincha decidiu pelo desquite com Nair e saiu de casa para morar com Elza, o inferno e o céu desabaram enganchados sobre os dois. Ela foi agredida duas vezes por cunhados do jogador e recebia ameaças telefônicas.

Mas as maiores e mais covardes agressões vinham da imprensa, que dimensionava os conflitos e as trapalhadas de Garrincha na relação com o Botafogo como se fossem consequência da interferência de Elza Soares.

Nair Marques expunha os filhos e fez do desquite uma pauta diária; um juiz chegou a decretar noventa dias de prisão para o jogador por não pagamento de pensão alimentícia. Entre agressões e chantagens, Elza se agarrava a ele.

Não temia as ameaças e até acrescentava provocações subliminares em shows e canções, como no espetáculo “Boato” e no samba “Eu Sou a Outra”. Quando o Botafogo foi para Guarapari (ES), a sociedade local os rejeitou.

Até o cantor Noite Ilustrada vestiu a camisa da moral e compôs “Volte pra Casa”, para Garrincha: “É verdade, você a ama / é verdade, você a quer / mas não se esqueça / quem tanto lhe reclama / com direito de esposa e mulher”.

Em todas as negociações salariais e contusões de Garrincha, a mídia aproveitava para inserir Elza Soares no papel de vilã e de responsável direta pelos desentendimentos. Mas ela apenas concordava com o que ele queria.

O guitarrista potiguar Joca Costa, que a acompanhou por muitos anos, nunca esqueceu a imagem de um baú lotado de velhas folhas de cheques e vales que Garrincha desperdiçou ao longo da carreira por não ter noção das finanças.

Elza guardou por décadas aquele baú como lembrança do seu Mané, seu Neném, que dava olé em todo mundo nos gramados e tomava dribles de dirigentes e falsos amigos. Ninguém mais que ela tentou dar-lhe longevidade.

No meio de tanta maldade feita pela imprensa contra Elza, levantou-se a seu favor o gênio de Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que em sua coluna malhava os “derrubadores” com notas ferinas que intitulava “Por Elza e outras”.

Certa vez ele dedicou um texto inteiro para chamar os jazzistas Buddy Rich e Gene Kruppa de dois chatos que inventaram um troço que parece jazz, mas não é. Ficou irado pelo público ter dado menor atenção ao show de Elza.

Em 1963, o Brasil praticamente parou para assistir uma entrevista de Elza Soares e Garrincha na inauguração de um novo programa na TV Tupi, que passou dias chamando a atração. Na capa da revista Intervalo, a manchete “Elza e Garrincha, um amor e dois campeões”.

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