Duas histórias de traições entre compadres e comadres…

          

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Não sou como diz aquela famosa propaganda religiosa, pois nem sou famoso e nem universal, mas tive muitas vivências em meus quase 63 anos vividos. Digo sempre a quem não sai de casa, com dinheiro no tal do pix, que ‘cobra que não anda, não engole sapo’ e nem muito menos tem o que contar aos netos. Esses, acreditem ou não! O povo diz que o sexo entre compadres e comadres é coisa amaldiçoada. Uma velha rezadeira da Serra de João do Vale, no Oeste Potiguar, me falou um dia sobre a antiquíssima crença na maldição sexual: “O senhô fique sabendo que se um compadre tiver uma enrolação com uma comadre, eles terão uma cama pegando fogo no inferno quando chegarem lá”. Como se sabe, o povo faz todo tipo de maldade, mas é temeroso com o inferno dantesco que só existe ranger de dentes e choros. Ao que parece, no paraíso tem risos e redes. Eu até já contei algumas histórias de traições, mas não entre comadres e compadres, que eram vizinhos e amigos. Amigos, da onça!

A crendice popular em sua religiosidade, acredita nas lendas e causos temerosos. No outro dia que cheguei aqui em Nísia Floresta já me contaram um caso de um compadre que chamegara com uma comadre. A língua do povo é mais comprida do que a linha do trem de Ceará Mirim. Quando eu tinha 17 anos e andava trabalhando de porta em porta em Maceió/AL, como vendedor ambulante, vi de tudo e ouvi histórias que dariam para encher vários livros. Um dia de segunda-feira, estando nas minhas vendas, me deparei no bairro periférico do ‘Vergel’ com uma senhora, dona de uma sortida bodega, daquelas que tem tudo empendurados nos caibros, de penico de ágata branco a rolo de fumo. Era a dona Maria Luíza, com cerca de 50 anos, a qual de branco só tinha os dentes. Sorriso fácil e exímia contadora de histórias, contou-me a sua história um pouco estranha: “Meu jovem, minha história é longa e até sofrida. Eu era casada com um sujeito, vagabundo e cachaceiro. O desgraçado era até violento e nunca trazia nem um quilo de batatas para casa. Vivia do meu suor, o miserável. Pois bem, um dia ele fugiu para São Paulo com minha comadre e vizinha aqui perto. A bandida deixou um casal de crianças e eu fiquei com mais três filhos, dois meninos e uma menina que tive desse condenado das costas oca”.

Minha mãe, dona Estela Medeiros, dizia que todo ‘Tomé’ encontrava a sua ‘Bebé’ na vida. Já papai, Geraldo Costa, mais ácido, falava que todo ‘Pé sujo’, logo encontra a sua ‘Bota de lama’: E aí, dona Luíza, o que foi que a senhora fez depois que seu marido fugiu com sua comadre e amiga?: “Meu jovem vendedor, eu fiquei criando meus filhos e trouxe o casal de filhos do meu compadre e vizinho aqui pra casa. Depois ele veio também e vivemos felizes até hoje. Ele é um homem honesto, bom pai de família e trabalhador. Me trata muito bem. A bodega cresceu muito como você vê aqui. Vivo num paraíso agora”. – E o seu marido e sua comadre, a senhora tem notícias deles? Aí a dona Maria, com toda a sua religiosidade católica, esbravejou na hora: “Eu lá quero saber nada daqueles condenados dos quintos dos infernos. Eles que vão para a morada dos demônios amaldiçoados. Vão viver na caixa prego! Eles, não terão o meu perdão, nem na hora da morte, viu!”. E saí daquela bodega, acreditando em um final feliz no meio de uma grande tragédia e traição nordestina. Daria documentário, romance e teatro…

E o outro caso, dos tantos que ouvi, se deu na cidade de Assu/RN, região de muitos familiares meus. Ouvi a história há muitas décadas, quando eu estava no mercado, tomando um suculento café da manhã, agarrado num prato de cuscuz com bode torrado. Café coado no pano. Foi a própria barraqueira, dona Betinha, que no meio de uma alegre conversa me contou, pedindo segredo, com muito medo, porque, na época, os envolvidos eram ricos compadres e comadres bem conhecidos de toda a sociedade do vale do Assu. A dita comerciante não sabia o bordão do colunista social Ibrahim Sued, o qual, nos anos 50, já dizia que em ‘sociedade tudo se sabe’. Segredo até se conta nas esquinas, no entanto sem dizer os nomes dos santos, espalha-se apenas, os milagres.

Bem, a dita senhora contou que dois casais de comerciantes eram vizinhos, compadres e muitos amigos. Uma comadre sempre visitava a outra e costumava dar de presente um bolo de chocolate, do jeito que a anfitriã adorava. A que recebia o bolo foi definhando e, desconfiada, foi a um médico em sigilo e levando um pedaço do tal bolo, descobriu, então, que o presente vinha com veneno dentro: “Cego desconfia de esmola grande!”. Depois a comadre traída soube das vizinhas, tipo ‘candinhas de janelas’, que a sua comadre envenenadora a queria mesmo morta, para então viver com seu marido, o seu compadre.

O romance já estava mais arroxado do que o de Romeu e Julieta. Só a pobre traída não sabia. Mas, quando a mesma soube, perdeu as estribeiras e foi até uma tipografia e encomendou um folheto contando toda a sua história, com nomes e tim tim por tim tim. Aproveitou a missa dominical do padre Canindé e distribuiu o tal panfleto com todos os presentes.

Contou a sua tentativa de morte e traição ao delegado, ao prefeito Walter de Sá Leitão, ao padre Xanduzinho e até o famoso fotógrafo seu Teté. A história abalou todo o vale do Assu, como naquele poema de Moisés Sesiom. A história correu solta de Pendências do padre Zé Luiz a Macau, do Monsenhor Penha. Todo cristão soube da traição, do bolo que deu rolo e quase matou a pobre da comadre. O poeta violeiro, Chico Traíra, só não rimou o causo em cordel porque o delegado, pediu que não o fizesse. O povo já diz que mexer muito naquilo, vai feder é mais…

Qual foi o desfecho dos dois casais, dona Elizabeth?: “Meu filho, graças a Deus e ao São João Batista, o delegado e o padre Canindé resolveram na santa paz de Deus. A dita criminosa saiu na calada da noite para Recife/PE, com seu marido e a mulher quase envenenada foi com seu marido para a capital, lá em Natal. Nem um dos dois casais separaram e, pelo que soube, vivem felizes até hoje. Todos ricos e unidos, criando os filhos e netos. Isso faz décadas. Tudo real e juro que é a mais pura verdade. Digo sem medo que foi assim mesmo até que a terra acabe com meus olhos e ouvidos!

E quem aqui não ouviu histórias de traições em suas aldeias? Essas contadas desde o ‘Novo Testamento’ aos antigos folhetins e almanaques do tempo de nossos bisavós. Eu sempre as havia lido com finais trágicos. Final feliz somente essas de Maceió/AL e Assu/RN. Uma ouvida em uma bodega, outra num mercado. Aliás, dou aqui uma dica a quem quiser escrever livros volumosos sobre as histórias do nosso povo sofrido e alegre, pode ir tomar café logo cedo nos mercados e feiras. Os contadores e contadoras de causos, nos pedem total segredo, mas assim mesmo nos contam. Estas, estão no gargalho, esperando sempre algum ouvinte como eu. Não ando com gravador e dou-lhes confiança e amizade. Só digo uma coisa, quando chego em casa, anoto tudo em velhos cadernos e agendas e só depois as conto em minhas andanças e hoje para vocês. Guardem segredo. Como dizia dona Estela, fica entre nós!

E na saideira, vou acrescentar que a carne é fraca e existe cristão para tudo e ainda sobra nesse mundão de amizades e traições. Como aquelas antiquíssimas histórias de meus livros infantis, bato o martelo no prego e viro a ponta. Finalizo neste domingo, afirmando com fé de velho tabelião, que os envolvidos viveram felizes para sempre, só não sei, se ainda estão viventes, como nós! Amém!

                              Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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