Domingo no Parque

Nilo Emerenciano  – Arquiteto e escritor

 

Vi ao longe, ao passar pela avenida Prudente de Moraes, um parque de diversões armado no estacionamento da Arena das Dunas. Impossível não lembrar dos parques de minha infância/adolescência, quando os parques ocupavam as praças e vias públicas, bem mais acessíveis para todos.

Eram presença certa nas principais festas da cidade. Nas comemorações de São Sebastião, ali na avenida 9, nas festas da padroeira de Natal, nos festejos natalinos e nas festas de Reis, em Santos Reis.
O Parque São Luís era o mais presente em todas as comemorações e mesmo na ausência delas. Era armado nos terrenos baldios, nas praças dos subúrbios e do centro, como a praça André de Albuquerque, onde se instalava com toda a exuberância. Os brinquedos eram simples.

 

A sempre disputada roda gigante, carrossel de cavalinhos, tiro ao alvo. Alguns parques traziam o trem fantasma, com múmias, esqueletos, morcegos, lobisomens e outros bichos que faziam a garotada gritar assustada. Inesquecível pra mim foi ver, meio apavorado, confesso, Conga, a mulher que virava macaco. Meu pai explicou depois que tudo não passava de um jogo de espelhos. Fingi que entendia, mas na verdade não fiquei convencido.

Na autopista (ou bate-bate) ensaiávamos os motoristas que um dia seríamos. A pouca grana nos obrigava a escolher criteriosamente qual brinquedo usar. No mais era dar voltas e mais voltas na praça, tirando onda com as garotas com que cruzávamos.

E as comidas? O cachorro quente de pão francês vendido inteiro ou aos pedaços, sendo o bico a parte mais barata. O refresco feito de umas garrafas coloridas colocado em um copo cheio de gelo raspado. Pipocas. Algodão doce. Rolete de cana. Pitombas. Laranjas descascadas em uma maquininha. Refresco (não se falava em suco nesse tempo) de maracujá. Sorvete. Geleia de coco. Cavaco chinês. Maçã do amor. Para as crianças também eram vendidos balões coloridos.

  

Um serviço de alto falantes alegrava ainda mais a noite transmitindo músicas de gosto popular. Havia as dedicatórias sempre enigmáticas. “A rádio difusora do Parque São Luís vai levar ao ar ‘A Flor do meu bairro’, na voz romântica de Nelson Gonçalves. Vai para Pedro, a quem M.T. dedica com muito amor”. As vezes também marcava encontros. “L.C. espera ao lado da entrada dos balanços.” Era bem mais interessante que as redes sociais, garanto.

Outdoor loudspeaker in the garden Sound in Park to Announce Release on blue sky copy space background

Havia uma Festa da Mocidade que sempre trazia novas atrações. Uma vez a novidade foi uma arena circular que anunciava um certo capitão-voador Tony. A gente sentava lá em cima, e o capitão montado em uma moto ia girando, girando, até passar praticamente na borda onde estávamos, fascinados. Depois fazia o mesmo com um automóvel. Em outra oportunidade trouxeram uma espécie de montanha russa bem reduzida, mas o suficiente para fazer o estômago vir até a boca.

Os adultos se encostavam em uma espécie de jogo de azar. O cidadão que atuava como crupiê manuseava com muita habilidade três copinhos que escondiam uma bolinha colorida. Puxa pra lá, pra cá, e o incauto apostava indicando sob qual copinho a bolinha se achava. Nem acertava o copo, a bolinha, e muito menos via mais a cor do dinheiro. Se a polícia se aproximasse o dono do negócio desarmava rapidamente a mesinha, botava embaixo do braço e sumia no meio do povo. Quinze minutos depois já estava operando em outro setor do parque. Esse jogo da bolinha, se rastreado ao longo do tempo, deve nos levar até a Idade Média ou mais longe ainda, por que, vamos combinar, bobos sempre existiram e sempre hão de existir. Senão os espertos iriam viver de quê?

Não se falava em nada politicamente incorreto. Digo porque havia também uma roleta de verdade. Alguém ganhava sempre (era o tapia) e aquilo atraia os trouxas dispostos a perder a grana da feira do dia seguinte. Mas tenho que admitir, aos meus olhos de menino era fascinante ver a bolinha rolar, saltitando entre aqueles números todos.

Arrisquei uma vez nas argolas. A coisa aparentemente era fácil. Um tablado de madeira ostentava convidativamente alguns brindes: sabonetes, cigarros, coisas do tipo. Ganhava quem conseguisse arremessar uma daquelas argolas e cercar um dos produtos expostos. Não é que ganhei? Deve ter sido a tal da sorte de principiante. Não sei como, mas peguei o jeito e tome a conquistar aqueles prêmios. Não durou muito. O homem recolheu as argolas na maior cara de pau, ou de paisagem, como dizem hoje, e declarou o jogo encerrado. E ficou lá, em pé, as argolas enfiadas no braço, olhando o vazio, esperando a minha retirada. Não reclamei pois já tinha os bolsos cheios de bugigangas e feliz com o feito.

Meu pai dizia, aproveite, meu filho, você um dia vai ter saudade de tudo isso. Eu não acreditava porque ansiava ser adulto o mais breve possível. Descubro hoje que ele tinha razão e que essa coisa de ser adulto é meio sem graça. E lembro com uma nostalgia gostosa os parques com seus brinquedos, os sons, as cores, os sabores, os amigos, as meninas e a vida que passava girando à minha volta, ligeira e frenética como um grande carrossel.

 

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1 comentário

  • Carlim d'Bee disse:

    Como sempre, Nilo nos brindando com sua ludicidade. Bela crônica. Ainda muito criança, acho que a última vez que o Parque São Luiz passou por João Câmara, ficou em minha lembrança um stand em quê vc entrava por um lado e saia pelo outro é dentro havia um c
    Grupo de Forró com bonecos, com triângulo, zabumba, sanfona e pandeiro. E a musica era Luar do Sertão. Nunca mais esqueci tal cena.

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