Diário de uma cirurgia

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Filósofa

Tenho duas razões grandes para jamais esquecer o ano de 2020. A primeira deve-se ao confinamento ao qual eu e o resto do mundo fomos obrigados a viver, por causa do famigerado vírus chinês, que ainda segue tirando a vida de milhões de pessoas pelo mundo à fora. A outra razão é que eu vivi uma experiência de quase morte, assunto sobre o qual já lera e já ouvira muitos depoimentos. Porém, jamais imaginei que eu pudesse ser protagonista de tal situação.

Tudo começou quando fui ao consultório médico para um exame oftalmológico de rotina, uma vez que precisava trocar meus óculos. Para minha surpresa, a médica, pela qual nutro profundo respeito e confiança, afirmou que eu havia desenvolvido uma catarata e que esta precisava ser retirada imediatamente. Caso contrário eu corria o risco de perder a visão.

A catarata, segundo ela, estava quase penetrando na minha retina e caso isso ocorresse, da minha visão só restaria a lembrança de Bartô. O medo de ficar cega foi enorme e eu saí do consultório direto para um hospital, a fim de marcar a cirurgia, que segundo a médica, é um procedimento simples. Confiante nas palavras dela, parti para a cirurgia sem qualquer resquício de medo.

Meu olho esquerdo foi o primeiro a enfrentar o bisturi do cirurgião. Enquanto ele realizava o procedimento, eu tinha a impressão de ele apenas passava água no meu olho. Não senti nada e não vi nada. Voltei para casa, onde mais tarde retirei o curativo e passei a repousar, seguindo a recomendação recebidas.

Para minha surpresa, ao retornar ao consultório no dia seguinte, o médico disse que minha íris havia saído do lugar. Ele a recolocou no seu canto e já marcamos a operação do outro olho. Foi aí que eu vi a Jurupoca assobiar.

Fui devidamente preparada para a mesa de cirurgia. Pelo menos foi o que imaginei. Mas, quando o médico passou o bisturi do meu olho, senti uma dor terrível e soltei um grito de dor. O médico soltou outro grito de susto, passou uma reprimenda à equipe e retomou seu trabalho.

Nem preciso dizer o quanto sofri com a recuperação desta cirurgia, a qual todos me garantiam ser um procedimento simples. Para mim não teve nada de simples, uma vez que passei mais de 60 dias sentindo dores e ardência no olho. O pior é que ele me recomendou tomar um remédio que retirou todo o potássio do meu organismo, me deixando sem forças para nada. O tal remédio deveria ser tomado apenas por dois dias. Mas ele esqueceu de escrever na prescrição.

A medicação baixou minha pressão arterial e eu tive que ser levada ao pronto socorro. A pressão estava em 8×4. Estabilizada, retornei para meu berço, lugar no qual passei a sonhar com a minha morte e a minha chegada ao céu.

No primeiro dos sonhos, eu havia morrido e vi meu corpo inerte sobre uma maca, que era empurrada por um enfermeiro. No dedão do meu pé direito havia uma etiqueta com um número e meu corpo seria colocado numa gaveta, da mesma forma que a gente vê nos filmes do CSI. Quando o enfermeiro abriu a gaveta onde eu seria colocada, ouve-se uma voz vinda do corredor. Alguém dizia que ainda não estava na minha hora. O enfermeiro toca no meu pé e me manda sair. Eu levantei da maca e caminhei para a saída da emergência. Estava descalça, o cabelo assanhado e muito pálida.

Voltei a dormir e sonhei que havia morrido e estava no portão do céu, mas o anjo de plantão não queria me deixar entrar. Sequer ouvia meus argumentos. Até que se ouvia uma voz dizendo que eu tinha permissão para entrar. Estava sendo esperada.

Entrei em um prédio de arquitetura extraordinariamente belo e me deparo com um pátio, onde uma legião de anjos vestiam um traje especial feito em couro. Eles me recebem tocando trombetas douradas. A roupa dos anjos era feita de um couro brilhante de cor marrom e eles usavam botas de cano alto, que ia até o meio da coxa.

O ambiente era festivo e a luz que emanava no lugar era tão forte, que me deixava encandeada. O lugar era igual a um enorme jardim, com uma grama profundamente verde, muitas flores coloridas e árvores enormes. O local ainda contava com rios, cachoeiras e pequenas pontes ligando um lado a outro.

Eu andava deslumbrada por aquele lugar, do qual não queria mais sair. Eu andava como se quisesse desbravar toda a beleza do local no mesmo instante. Sigo caminhando distraída, quando percebo que bati em alguém. Ergo os olhos para cima e vejo-me diante de um anjo. Ele está vestido de azul e devia ter uns dois metros de altura. O anjo apenas me olha, sorri e me dá algo para comer. Eu como o que ele coloca em minha boca e tenho a certeza de que se trata de algo que vai curar todos os males do meu corpo.

Continuo minha caminhada solitária, porque naquele ambiente só vejo a mim. De repente, ouço alguém me chamando, dizendo que eu preciso voltar. Mas eu não quero retornar. Portanto, continuo minha caminhada e finjo que não escuto. Meu desejo é permanecer para sempre naquele lugar tão bonito aos meus olhos e tão cheio de paz.

Mas, de repente escuto a voz da minha mãe que diz:

“Senhor, por favor não leve minha filha agora. Eu não tenho quem cuide de mim”.

As palavras de minha mãe me fazem voltar imediatamente e eu acordo no meu berço com uma enfermeira verificando minha pressão arterial. Pelo visto, o céu vai ter que me esperar um pouco mais.

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2 Comentários

  • Risalva A B Azevedo disse:

    Os milagres maternos são sempre mais eficazes que os efeitos medicinais. Tem cada “médico” nessa terra de doentes, que só as mães para nos salvar.
    Feliz com a sua prorrogação da viagem ao céu!

  • IMIS ROSA UCHOA CORREIA disse:

    Eu entraria na TORPE justiça(?)com um processo contra o(s) médico(?), pelo menos para tentar furar a barreira corporativa que tao bem caracteriza as ações insensatas desses profissionais(?).

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