Dia de Reis

Rosemilton Silva – Jornalista e escrito. Natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Tava eu ali ajudando Mané da Viúva  a montar  sua  lambe-lambe  e  arrumando  minha caixa de engraxate na esquina do mercado daquele lado mais alto onde ficam as bicas de sangria da cisterna na rua Ferreira Itajubá quase em frente ao reservado de Zé Galego e a bodega de Zé Abdias na esquina da rua do Vapor vendo os quartos da sapataria de Chicó Fulô, os de  guardar  as  mercadorias  de  Ciço  Anulino, Tibúrcio, quase em frente a nossa casa no sobrado que dá pro beco da Aurora, pegada a casa de João de Chana e Sinhazinha, parede e meia com Edson casado com Nair irmã de Raminha, juntinho da marcenaria de compadre Arnaldo Moreira irmão de padre Moreira, coladinho dos Germanos, Chiquinha do Acordeon, Frassineth e Maria, dos foleiros Manoel e Ze de Elias, Zé do Côco e Branca que estão arrumando o matulão mode voltar pro Rio de Janeiro, quando minha cumade Maria Gorda aparece saindo da bodega de dona Chiu na esquina que encerra a rua.

Dia de Reis é dia de choro de Antonio da Ladeira e seus companheiros, é data de fazer a última apresentação e guardar o boi pros festejos do Natal deste ano.

Minha cumade vem subindo a rua na direção do mercado que já está cheio de gente comprando carnes a Chico de Juca e Zé Vicente, verduras a Hozana Brito, fã incondicional dos benefícios da berinjela e todos lamentando a cisterna seca por falta de chuva nos últimos tempos, coisa que não está fácil porque o açude Santa Rita e o Alívio também estão no barro esturricado que nem as cacimbas dão sinais de água.

Seca braba, dessas de doer no coração deixando Borrego, Meireles, Badaneco e outros botadores de água sem opção para atender os pedidos.

Minha cumade me chama pra gente ir ver e ouvir o choro dos foles e da sanfona dos Germanos. Mané e Zé de Elias nos foles mais Chiquinha com seu acordeon, numa despedia bonita com aquele coral formando por todos os demais Frassineth, Maria, Zé do Côco e Branca entoando a “Triste Partida” de Luiz Gonzaga depois de terem cantado a bela “Ave Maria Sertaneja”.

Aquele choro lindo faz a casa grande começar a encher de gente e outros ficarem do lado de fora antes de irem pra rua Grande fazer suas compras. Até Miguel Doido que não houve direito parou pra se deliciar com a sinfonia de despedida, que agora recebe a participação de Zito Borborema, casado com Chiquinha e que adotou Santa Cruz por uns tempos para sua morada naquela casa enorme de Sebastião Germano.

É assim todos os anos e minha cumade fica me dizendo que eu aprendi muita coisa com eles, tocando junto um dia pandeiro, outro zabumba, outro triângulo e, mesmo com cinco, seis anos, bateria e arremedo de sanfona. Dia de Reis é data de despedida, retorno dos padres Moreira, Assis e Tarcísio e quase hora dos seminaristas voltarem para seus estudos, mas antes vamos ter umas rodadas de poli de dona Noca na casa, ao lado do Quintino Bocayuva, onde todos estudaram as primeiras letras e, aqui e acolá sai uma cervejinha em Pedro Tico parede e meia com Gastão de um lado e Joaquim Tavares com suas ferragens do outro de frente pra casa paroquial onde monsenhor Emerson já vê a fila organizada por Meireles e Veludo para arrancar dente de muita gente que vem da zona rural, enquanto o irmão Sanderson se diverte no labirinto que é aquela casa construída por Emerson.

Bom, minha cumade me chama pra gente ir comprar alguns ingredientes de uma buchada que vamos comer mais tarde e depois disso, me sento no banquinho da minha caixa de engraxate enquanto Mané da Viúva conversa animado com um e com outro e bate seus retratos pra sustentar a gente.

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