Dia de eleição

Rosemilton Silva – É jornalista, natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Tava eu ali na janela do sótão da Ferreira Itajubá, coisa de 4 horas da manhã, vendo aquela palma enorme rasgando o céu e que dizem ser um cometa e minha cumade Maria Gorda acha que é coisa do fim do mundo.

Sentia no rosto aquele vento já um pouco quente vindo das bandas da Samambaia e que me animava a continuar botando os papeis com nomes dos candidatos em envelopes deixados na casa de Mané da Viúva para serem cheios com os candidatos escolhidos pelo “majó” e “coroné” que seriam entregues aos eleitores.

De longe, vejo um vulto e já sei quem é porque reconheço a batida dos cascos da burra mula puxando a carroça em que Zé Romão traz a carne do gado morto na matança da beira do Trairí. Quando vai chegando perto, pergunto se a carne é de Zé Vicente ou Chico de Juca. Ele me diz que é do “majó” Theodorico pro almoço dos eleitores neste domingo. E me diz mais que Aluizio Bezerra, os Ferreira de Souza e os Fiuza também encomendaram uma matança, coisa de, se somado, dá pra 6 bois de campinadeira, gordo com mais de 50 arrobas.

Majó Theodorico Bezerra, o Imperador do Sertão (1978)

Sinto o cheiro do café sendo feito e acredito ser de Maria Anjo varando o beco do Sol Nascente onde Rozélia, certa noite, logo após a morte da professora Elizete, viu sua alma vagando por aquelas bandas, onde estão os quintais das casas da Frei Miguelinho e da Praça da Matriz.

Volto a colocar chapas de Jácio, Fiuzinha, Theodorico, José Ferreira de Souza e até de Adjuto Dias, mas nunca de Aluízio Bezerra porque, mesmo sendo sobrinho do “majó”, são intrigados de sangue a fogo.

A barra já quebrada, o sol começando a querer ferver o juízo dos cristãos, ouço minha cumade me chamar pra ir em Manoel Casimiro comprar uns 200 gramas de fumo de Arapiraca. Estranho, porque minha cumade não é de fumar. Ela me diz que é pra levar para uns eleitores que vão aparecer e que fumam feito caipora.

Descemos a Frei Miguelinho e vemos Miguel Farias abrindo o armazém lá no final da rua, já beirando o riacho do Pecado, começo do Alegre. Uma corneta levanta a tropa que chegou ontem à noite com intuito de não permitir bagunça na votação, coisa difícil de acontecer por estas bandas, segundo minha cumade Maria Gorda.

No Cartório de seo João Ataíde, o juiz Nabor Pires e o promotor João Diniz Filho estão reunidos com Pedro de Tico, juiz de paz da comarca. Zé Dobico é chamado e vem junto com o comandante do grupamento do Exército, sem esquecer que monsenhor Emerson desce a ladeira da rua Grande para se encontrar com eles, vindo acompanhado de doutor Jonas Leite.

Começa a eleição e os eleitores vão chegando na carroceria de caminhões. Pendurados em jeeps e, os mais bajulados, em carros fechados como a Rural Willys. E haja distribuição de envelope com uma senha para o almoço.

Minha cumade jura de pé junto que todos os eleitores ganharam umas apragatas de rabicho, um espelhinho redondo de bolso, um corte de tecido, um quinhãozinho mode comprar uns quilos de feijão e, sem contar, com o almoço generoso mais tarde. Ninguém volta pra casa antes do meio dia. O dia vai passando, a movimentação diminuindo e é chegada a hora de ir buscar as urnas nos distritos. Minha cumade Maria Gorda cochicha afirmando que Jácio vestiu-se de soldado e foi buscar uma urna em Lajes Pintadas e você vai ver que na apuração num terá um voto que não seja dele.

Não sei nada porque ainda não começou a apuração que dura até mais de uma semana. Mas, antes de tudo isso, tem a preparação. É preciso alistar os novos eleitores, bater foto, levar o cabra no cartório e Mané da Viúva era o mestre de cerimônia disso tudo.

Certa feita, Nilson Patriota, pessoa ligada ao “majó”, junto com Bizouro, apressaram Mané da Viúva porque o prazo estava terminando e ainda tinha muita gente a ser alistada. Mané da Viúva pediu calma porque as coisas não eram daquele jeito. Pra provar, bateu umas chapas, revelou às pressas e entregou a Bizouro. Não deu tempo nem de chegar no cartório, coisa de 200 metros, a foto já tinha amarelado.

Minha cumade ainda lembra de um caminhão que saía circulando pela região, com eleitores em cima e com títulos das cidades vizinhas. Saíam votando até a hora do encerramento da eleição.

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