Dia 1º de abril de 1981: Parece mentira, mas uma telefonista salvou milhares de vidas no RN

Por Leonardo Erys, G1-RN

Um açude estava próximo a romper e botar em risco famílias que moravam no entorno. Uma telefonista, com uma das raras linhas em cidades interioranas na década de 1980, então, corre para ligar e avisar a um município vizinho sobre o problema, mas tem a informação descredenciada, vista como piada. O motivo: era 1º de abril, Dia da Mentira.

O caso aconteceu em 1981 e envolveu as cidades de Campo Redondo e , no interior do Rio Grande do Norte.

A telefonista Maria de Fátima da Silva precisou insistir para as autoridades entenderem que o aviso não se tratava de uma brincadeira e conseguiu evitar uma tragédia ainda maior, já que mais de 1 mil casas na região foram destruídas e mais de 3 mil pessoas ficaram desabrigadas.

Foto: Tok de HistóriaFOTOS – Juliergui Andrade, via Elias Damasceno, publicadas originalmente no Facebook.

O ato dela foi considerado heroico, já que aquela situação é vista até os dias atuais como a maior enxurrada já registrada na região.

O caso

Maria de Fátima trabalhava em uma empresa de telefonia e operava a, praticamente, única linha que existia na cidade de Campo Redondo.

Ela foi avisada por pescadores sobre o iminente rompimento do açude Mãe D’Água após fortes chuvas e ligou para a cidade vizinha, Santa Cruz, já que a água desembocaria no Rio Trairi – o açude Santa Cruz também seria afetado. Mas ninguém acreditou, achando ser um trote do Dia da Mentira.

Ao invés de desistir, ela persistiu no contato mesmo após ter o telefone ser desligado. E foi aí que alguém lhe deu crédito e decidiu passar o telefone para o Monsenhor Raimundo Barbosa, pároco da cidade na época.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é image-30.png

“Falei com o Monsenhor Raimundo, mas ele não queria acreditar não. E eu disse: ‘pode acreditar, que é verdade’. Ele me disse que era 1º de abril, mas eu disse: ‘é verdade mesmo'”, contou Maria de Fátima, que hoje é aposentada como professora da rede estadual de ensino.

“Eu insisti, mas eles não queriam acreditar não, porque era 1º de abril. Eles acabaram acreditando, e aí saíram avisando na rua num carro de som”, completou.

Heroína

A insistência de Maria de Fátima foi reconhecida como um ato heroico que salvou a vida de milhares de moradores de Santa Cruz.

Durante as inundações, outros problemas ainda dificultaram a comunicação, como a a energia na cidade, que caiu.

Com 14 torres da rede de energia da CHESF derrubados, o Rio Grande do Norte permaneceu uma semana às escuras. Em Natal, o único hospital com gerador na época era o Walfredo Gurgel. Supermercados fechavam mais cedo com medo de assaltos. Sem energia, o bombeamento para abastecimento de água também foi comprometido.

“Com essas chuvas, faltou energia aqui em Campo Redondo e ficaram gerando energia do posto da Telern (empresa operadora de telefonias no RN naquela época) com a bateria de um carro. Fizeram uma gambiarra pra ela continuar avisando”, contou o professor Daniel Medeiros, de 45 anos, que é morador do município até os dias atuais.

A telefonista chegou a ser homenageada na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte quando a história completou 30 anos.

Desabrigados

Uma matéria noticiada no jornal Diário de Natal na época do episódio informou que mais de 1 mil casas foram destruídas, outras centenas danificadas e mais de 3 mil pessoas estavam desabrigadas. O evento foi tratado como “a mais violenta enxurrada já registrada no RN”. Segundo o jornal, pelo seis pessoas morreram.

“A tragédia aconteceu depois que açude Santa Cruz teve sua capacidade de represamento d’água duplicada de cinco para mais de dez milhões de metros cúbicos, em virtude dos arrombamento do açude Mãe D’Água e uma pequena barragem em Campo Redondo, distante 20 quilômetros”, cita o texto.

O texto diz que a situação parecia controlada até o momento em que o prefeito da cidade recebeu “comunicação de Campo Redondo de que as águas atingiam um metro e meio sobre a parede do Mãe D’Água”.

O prefeito, então, “utilizando de um serviço de som da municipalidade, apelava à população das partes baixas da cidade se retirarem de suas casas e procurarem pontos mais altos”.

As pessoas foram abrigadas em prédios públicos e residenciais. O então governador Lavoisier Maia decretou estado de calamidade pública no Trairi.

A ponte da entrada da cidade de Campo Redondo foi arrastada pelas águas.
A correnteza percorreu ainda cerca de 80 km e atingiu outros quatro município

O principal acidente, segundo a publicação, foi na BR-226, na ponte sobre o Rio Inharé, em que uma caminhonete em alta velocidade caiu no rio “quando se iniciava a erosão do aterro de acesso à ponte”. O veículo conduzia cinco passageiros e três morreram.

Relato de um morador de Campo Redondo

“Na época eu era uma criança de 9 anos e morava na Avenida Senador João Câmara, vizinho a casa do Bar do Pedoca e pude visualizar o terror das famílias com suas casas inundadas pela chuva torrencial que caia sobre as margens do açude. Posso dizer que foi uma noite de um pesadelo real que jamais será apagado de minha mente.

Há 41 anos, a cidade de Campo Redondo/RN, localizada na região do Trairí, a 142 Km da capital, vivenciaria uma data histórica e inesquecível e que marcaria para sempre a história daquela comunidade. A ponte arrastada pelas águas do dia 1º de abril de 1981 é o marco histórico deste importante acontecimento.

Parecia um dia normal, no dia 1º de abril de 1981, conhecido por todos os brasileiros “Dia da Mentira”. Realmente parecia mentira, mas a previsão do tempo não previa uma chuva torrencial que veio para região Trairí e que culminou na tarde/noite, no arrombamento da parede do açude Mãe D’água, no Campo Redondo.

As cenas da tragédia do dia 1º de abril de 1981, que desabrigou cinco mil pessoas e deixou o Estado do RN sem luz e água por cinco dias, ainda permanece na memória dos moradores do município de Campo Redondo e Santa Cruz.

https://tokdehistoria.files.wordpress.com/2015/04/1981-23-copy.jpg

Foram momentos de agonia que marcou as vidas dos cidadãos e fez heroína uma telefonista: Maria de Fátima da Silva, que fez contatos com o prefeito da época, Hildebrando Teixeira, para esvaziar a cidade antes do rompimento da barragem de Campo Redondo, distante 25 km de Santa Cruz, salvando milhares de pessoas.

O então governador Lavoisier Maia decretou estado de calamidade pública em toda a região do Trairi e levou fotos da tragédia ao presidente da República, João Figueiredo. O Ministro do Interior, na época, Mário Andreazza confidenciou ao prefeito de Santa Cruz só ter visto cena igual em guerra.

Com a solidariedade de todos, um grande mutirão envolveu as instituições públicas e privadas, ONGs, voluntários, igreja e as próprias vítimas. As três esferas do poder executivo esqueceram diferenças partidárias e também se uniram para reconstruir as cidades atingidas. As doações chegavam de todas as regiões do Brasil”.

Para o comunicador de Santa Cruz, Erivan Justino, “Após a enchente, lições de solidariedade aconteceram, com papeis decisivos da Paróquia de Santa Rita de Cássia, que doou os terrenos para construção de mais de 800 casas, formando assim o Conjunto Cônego Monte, e de instituições de todo o país que mandaram suprimentos para os desabrigados, além dos governos Federal e Estadual que ajudaram a reconstruir Santa Cruz”.

Compartilhar em:

Entre na discussão!

Fique tranquilo, seu email está seguro.