Derramo uma lágrima por poder contar sua história


Mariana Rodrigues – Psicanalista e Advogada e, nas horas vagas, cronista

 

Naquele dia, 22/10/ 2020, nos ligamos de 15 em 15 minutos. Foi bonito trabalhar com tantas interrupções de amor. Você saiu, foi consertar o carro, almoçou nordestinamente e chegou pra bater um papo com o vizinho da frente.

E eu, de lá, do lado do colégio Marista, escola em que você protagonizou um striptease numa aula de moral e cívica, me inquietei pra chegar em casa e ficar pertinho de você. Fechei o escritório, saí mais cedo e logo lhe vi do outro lado da rua, sentado na calçada. Era umas 17h55, fui entrar na garagem, certa que lhe abraçaria em seguida. Ouvi um barulho. Eu sabia que você estava atravessando a rua. Abri a porta do carro e me deparei com seu corpo no asfalto.

Um motoqueiro embriagado de álcool e falta de caráter, entrou em alta velocidade, fazendo zig zag sem parar (e não estava cantando cantigas infantis), e sequer freou.  Te certou em cheio. Fugiu.

Eu, que tenho mania de limpeza, me joguei no chão sujo de areia, suor e sangue e só conseguia lhe pedir: “Respira, meu amor, não me deixa”. Entre sua inspiração e expiração, eu contava uma eternidade. Seus pés descalços, um tênis no meio da rua, o outro pulou o muro do prédio. Eu, logo eu, não lembrava o número do Samu, pedia desesperadamente para que alguém ligasse. A rua São João parou pra acudir o Bardo da rua. E eu ali, estendida ao seu lado, pedindo pra você ficar comigo.

Obediente (ainda bem que você não puxou a papai!) abriu os olhos e sorriu o sorriso mais lindo que já lhe vi sorrir. Um calo de sangue do lado direito da boca, um corte aberto exibindo o osso do braço e uma perna à la Curupira. O saldo do susto é extenso, você quebrou da cabeça aos pés, mas seus remendos lhe fazem mais capaz, e a sua alma ficou mais exposta que as fraturas do corpo.

A gente brinca de rir do que nos faz chorar, mas agora mesmo, eu d. Corpos e almas que se quebram, ressurgem mais resistentes, meu amor. E as lições não terminam quando você voltar a andar. Espero poder lhe ajudar a enxergar todas elas.

Obrigada por ter me proporcionado a experiência de cuidado mais intensa da minha vida (até hoje) e por ter me forçado a um elastecer dos meus limites. É lindo ver um corpo se fechar, os ossos se consolidarem e a resiliência da pele humana.

2020 não veio pra brincadeira, azar o dele, nós também não. Nunca estivemos tão sincronizados como agora, e nada será como antes, porque hoje, somos mais fortes, juntos e cada um. E agora, eu, que sou psicanalista, advogada e revendedora Avon, estou pronta pra acrescentar técnica de enfermagem no meu currículo; a prática eu já tenho, me falta só a teoria.

Aguarde! E assim, seguimos vivendo de amor e das vivências mais intensas possíveis. Obrigada!

Compartilhar em:

2 Comentários

Entre na discussão!

Fique tranquilo, seu email está seguro.