DA RUA DO CAPIM AO ITAMARATY


Roberto Patriota é jornalista e escritor 


Nascido na então rua do Capim no dia 29/10/1916, hoje denominada rua poeta Ferreira Itajubá na cidade de Touros, Rio Grande do Norte, o diplomata Antônio Patriota declarava-se orgulhoso por ter quatro filhos e uma neta na carreira diplomática. Antônio Patriota foi um daqueles homens, dos quais podemos qualificar como “imortal” no sentido mais amplo da expressão. Amava a vida apaixonadamente e viveu todos os seus dias com bastante intensidade e um certo projeto bicentenário em mente. Ignorava a morte e nunca falava sobre doenças ou coisas negativas. Quando informado sobre algum amigo ou parente que se encontrava enfermo, desconversava. Superou a barreira cronológica dos 100 anos, poderia ter ido mais adiante se não fosse por um acidente doméstico, uma queda em piso molhado durante a madrugada que abreviou em muito o sonhado bi-centenário. 

Igreja Matriz de Touros/RN


Quando das suas constantes visitas a Natal e Touros, a família se dividia em grupos para poder acompanha o intenso ritmo que Antônio imprimia. Amava uma mesa farta, um bom whisky e uma conversa inteligente. Já próximo do centenário esteve em Natal a passeio, se demorou uma semana e conseguiu mais uma vez manter a sua vida social em dia, acordando cedo como sempre, caminhando na praia, reunindo amigos e parentes para os almoços e jantares e por vezes esticava o bom papo pela madrugada. Tinha uma vitalidade física espantosa.

Mesmo depois do centenário continuou dirigindo com carteira de habilitação renovada, lia sem precisar usar óculos de grau e tinha uma memória privilegiadíssima. Realizou centenas de viagens Brasília – Natal – Brasília, dirigindo seu carro. Manteve-se ativo no volante e nas estradas até os 86 anos de idade. Deixou de dirigir nas estradas, mas continuou dirigindo em Brasília aonde morava. Quando das suas visitas a Natal ou exterior, locava carros. Foi o homem mais independente que conheci até hoje. Hospedava-se sempre em hotéis, não aceitava convites para alojar-se na casa de parentes ou amigos, primava, sobretudo pela sua liberdade. Quando indagado sobre o segredo da sua vitalidade respondia fácil: Chivas Regal. Era o whisky da sua preferência. Bebia pelo menos quatro doses medicinais por dia ao longo de pelo menos sete décadas. 


Apesar de ter lutado bastante para galgar seu merecido espaço no mundo da diplomacia, Antônio Patriota sempre se considerou um homem de sorte. Deixou a cidade de Touros com 14 anos de idade e foi morar em Natal. Dois anos depois a família decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro. No Rio fez a vida trabalhando no comércio e estudando. Formou-se em jornalismo e fez mestrado em Economia, nos Estados Unidos.

Ingressou no Itamaraty sem ter nenhuma tradição familiar, prestou concurso com a cara e a coragem, por esforço próprio, foi aprovado e seguiu sua carreira avante. No entanto o fato de ter ingressado no Itamarati, no Ministério das Relações Exteriores, ter servido em vários postos em consulados, missões bilaterais, multilaterais nas Nações Unidas em New York, Genebra, Caribe e outros países, possibilitou o ingresso de alguns filhos na diplomacia.

O que mais lhe envaidecia era o fato de ter por assim dizer, criado uma dinastia no Itamaraty. Encaminhou quatro filhos e uma neta para carreira, além de um genro que já foi embaixador, e por tabela uma filha embaixatriz. Isso realmente o deixava muito orgulhoso. Costumava dizer que ninguém no Itamarati tem tantos parentes na carreira diplomática quanto ele. O fato sempre foi motivo de orgulho, ter saído de uma pequena cidade como, Touros no início do século XX, e ter conseguido galgar um espaço tão importante no contexto internacional. Além dos filhos e neta que encaminhou para a diplomacia, uma outra filha, Margarida Patriota é escritora de renome no Distrito Federal, foi à primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasiliense de Letras. Outro filho, Antônio de Aguiar Patriota foi ministro das Relações Exteriores e embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Itália e Egito. 


Quando era menino, seu tio, Nelson Ferreira Patriota, morava na então rua do Capim na cidade de Touros. Antônio costumava recordar que seu tio era amante da leitura, vivia cercado de livros, era um homem bastante culto para o ambiente em que vivia. Quase todas as noites reunia a família para ler sob a luz do candeeiro. Ainda criança, por volta de 1925, Antônio conheceu a trajetória de “Os Sertões”, do grande escritor Euclides da Cunha, através da narrativa do seu tio Nelson. 


Quando indagado sobre o segredo do seu sucesso profissional dizia, que não existe segredo para conseguir o que se quer da vida, afirmava sempre que mais vale ter vontade de viver, gostar realmente de viver, não ser pessimista, hipocondríaco, ter gosto por leitura, por música e praticar esportes. Até os 85 anos de idade jogou tênis, seu esporte preferido e quase uma paixão. Na visão de Antônio, o segredo do sucesso não passa de uma somatória de fatores, incluindo a sorte, que depende muito do modo como cada um ver a vida.

 Em seu centenário comemorado em Brasília em 2016, tive a oportunidade junto com o primo Eduardo Patriota, de falar por alguns minutos sobre o que representou Antônio Patriota no contexto familiar. Ele foi um otimista incondicional que tinha uma visão extremamente positiva da vida e da sua própria trajetória dentro do contexto global. Era avesso a gestos pequenos e comentários maldosos. Foi um homem essencialmente moderno, encontrava-se posicionado sempre na vanguarda do mundo, com o olhar voltado sempre para um futuro promissor. Tinha uma incrível percepção intuitiva sobre tudo e todos. Apesar de amar seu berço materno e seu país, foi literalmente um cosmopolita incondicional, sentia-se em casa em qualquer lugar ou nação onde estivesse residindo ou passeando. Continuará a ser uma espécie de guru de toda a família Patriota ainda por muitas décadas.

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