Crônicas do domingo

O Amigo Vivo Vingt- un Rosado!

Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Escritor e Folclorista.

Esse meu notebook é testemunha dos choros e risadas ao escrever este texto, o qual é mais agradecimento do que louvação. Longe de ser biografia, uma árdua tarefa já muito bem realizada pelo amigo historiador Geraldo Maia em 2017. Quem teve a felicidade de tê-lo conhecido, contará outras histórias, cada um a seu modo. Ele era múltiplo e irrequieto culturalmente. Quando ‘tramou juntamente com outro saudoso amigo, Raimundo Soares de Brito, também centenário, a minha entrada como sócio correspondente da Academia Mossoroense de Letras (AMOL). Só tive mesmo direito a tal aceitação e com muita honra. E quem danado teria coragem de desagradar o caçula de seu Jerônimo Rosado? Na então ocasião solene, ouvi do querido mestre Vingt-un, testemunhado pelo seu aliado do bem de Caraúbas, o maior elogio da minha vida até os dias atuais: “Raimundo, Gutenberg é o mais aguerrido mossoroense em Natal”.  Quem sabe se eu não estive nas trincheiras de Rodolfo Fernandes em 1927? E digo isso, sem querer causar ciumeiras a Pendências e a feira do Alecrim…

Já conhecia o bravo mossoroense como o editor que mais deu oportunidade aos escritores e escritoras do RN, mas foi o mestre Raibrito, que era uma espécie de seu irmão, que nos aproximou mais ainda. Esse sempre ia me ver na casa verde da Rua Henry Koster, número 23, e sabendo de minhas constantes hospedagens ali, até apelidou a residência de Raibrito na minha frente: “Amigo Gutenberg, quando enjoar do hotel Caraúbas, fique certo que terá guarida também no hotel dos Rosados”.

Sempre em Natal, o meu telefone residencial recebeu seus apelos irrecusáveis, através da voz de seu escudeiro Ranieri: “Seu Gutenberg, doutor Vingt- un está pedindo um disquete seu com textos para publicar na Coleção Mossoroense!”. Minha resposta a inquirição amiga era sempre a mesma: Pra quando ele quer o trabalho? E sempre ouvia bradando do outro lado da linha para o paciente Ranieri: “Pra ontem!”. Esse era seu jeito para ajudar os amigos a retirarem das gavetas os seus projetos esquecidos e renegados. Lembro agora de um comentário até realista de um crítico literário aqui de Natal ao trabalho editorial de Vingt- un: “Ele publica muito e é apressado!”. Quando soube que eu havia editado o meu livro sobre Santa Luzia e Os Olhos – Da religiosidade ao folclore, pela editora Boágua, de meu compadre Celso da Silveira, achou um disparate e lançou a segunda edição pela sua quixotesca Coleção Mossoroense.

Fazer o quê diante dos sonhos de Vingt-un? Todo mundo sabe que os ditos descansados não realizam nada na vida e muito menos ajudam ninguém. Desse modo amigável, muitos textos meus foram publicados, se não hoje os mesmos, ainda estariam esperando patrocínios ditos oficiais. Desconfio dos tipos calmos e que não praticam o bem na vida, esperando sempre o amanhã das farturas…

Certa feita fui visitá-lo em um hospital em Natal e chegando a seu apartamento tomei o maior susto da minha vida. Encontrei o amigo doente, bem sentado na cama, rodeado de pessoas, informando, conversando e dando ordens para não parar a sua editora conhecida internacionalmente. Dona América Rosado preocupada com a feira no quarto, só podia me explicar tal situação: “Gutenberg, eu não posso fazer nada, pois ele não atende aos médicos de jeito nenhum!”. Na ocasião, lembrei-me de outro santo irrequieto, o mineiro Darcy Ribeiro, o qual fugiu de um hospital e se escondeu de todo mundo para finalizar um livro. Ninguém segurou Vingt-un Rosado e Darcy Ribeiro, um minuto sequer em suas vidas literárias.

Uma vez o ‘seu’ Sabino do Hotel em Mossoró, depois de uma conversa boa, me apresentou a uma biblioteca no seu hotel fruto das artimanhas do bem de Vingt- un. Ele devia ter sido homenageado ainda aqui presente, como o pai dos escritores desvalidos do poder! Uma estátua sua em cada escola e biblioteca seria pouco se o nosso RN não fosse tão ingrato. Quando cheguei a Itabira/MG, bati minhas palmas turísticas ao ver uma placa com o honrado elogio dirigido aos visitantes: “Aqui é a terra do poeta Carlos Drummond de Andrade”.

E uma noite o assistindo em um evento cultural em Natal, vi que o mesmo havia esquecido a sua caneta na viagem e imediatamente emprestei a minha velha e gravada ao mestre. Não deu outra, deixe-a de propósito, mas logo cedo no outro dia recebo o recado de Ranieri ao telefone: “Professor Gutenberg, doutor Vingt-un esqueceu e trouxe a sua caneta. Ele tá dizendo que vai mandar pelo seu amigo Cid Augusto”. E recebeu a minha resposta na bucha: Diga que a caneta pode ficar com ele, será uma honra tê-la aí abençoada no santuário vantaniano.

Não podia comer doces, mas uma vez fui testemunha oculta ao ver um de seus bolsos recheado de bolo. Só fazia rir ao sentir nossa cumplicidade diante de seus pequenos delitos comestíveis infantis… Confesso que hoje quem recebe as proibições sou eu, mas às vezes faço como o sábio mestre, que antes de tudo, tinha um grandioso coração e um bom humor como os santos travessos…

             Nunca deixei sua casa sem livros na minha bagagem. Era sua marca franciscana. Preferia doar do que lucrativamente os vender. Na certa teria falido como dono de bodega ou livraria… De pouco estatura, mas diga-se, fazia muito medo aos gestores da cultura no RN. Aí de quem lhe negasse papel para ‘sua’ editora. E hoje como sentimos falta de suas bravuras nesses tempos de acomodação e falta de apoio editorial. É de se lamentar muito que o nosso gigante mossoroense partiu para outras bibliotecas…

Não perdeu um lançamento meu e, quando não ia, mandava um portador na fila: “Faça a dedicatória para doutor Vingt-un que ele está em Mossoró e não pôde vir”. Quando soube que o meu ‘Natal: Personagens Populares’, ia ser lançado em 1999, em uma edição restrita e numerada, mandou-me rapidamente um cheque e um bilhete: “Deixe o número 21 para mim…”. 

E por falar em seus curtos bilhetinhos do tipo Jânio Quadros, os quais tenho carinhosamente guardados, são humanamente indecifráveis. Pense em uma tarefa difícil destrinchar o que diabo eles diziam aos destinatários. Mas os amigos sempre lêem com o coração! Ficava revoltado nos lançamentos literários em Mossoró, quando observava pouco público o prestigiando. Uma tarde, na Livraria Independência, chegou a minha mesa de autógrafos e tascou a indagação bem séria e em voz alta: “O amigo já conseguiu vender mais de 10 livros?”. E quando soube que eu já ia despachando mais de 15, rindo muito retrucou imediatamente: “Só sendo milagre de Santa Luzia, você é um homem sortudo!”. Sorte mesmo minha gente, para um vivente da feira do Alecrim foi ter tido um Vingt-un Rosado, como amigo e forte padrinho cultural.

Teria causos e histórias para encher um livro, mas esse texto ficará com aquele gosto para o leitor me criticar: Faltou aquela… Tá pouco… Relendo recentemente uma crônica do nosso genial Câmara Cascudo, dirigida a um amigo seu que se encantara, me marcou a sua despedida no escrito emocional como esse aqui hoje: “Está vivo e vivo sempre permanecerá”. O aniversário centenário do amigo Vingt-un Rosado é agora em 25 de setembro de 1920. Pois então, comemoremos com muita alegria em nossas casas e bibliotecas!Quero apenas lembrar que meu velho mestre está vivíssimo nas memórias dos familiares e nos agradecidos amigos, como também nos saberes dos milhares de livros que editou para o Brasil e o mundo! E fica aqui de minha parte, essa singela gratidão, esperando que seja estendida aos meus netos e bisnetos! (Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN, 20/09/2020)

3 Pessoas comentaram
Francisco das Chagas Farias de Queiroz

Memórias bem relembradas
São como ventos soprando
Na mente de quem relembra
Cada passado brotando
Na fonte do bem querer,
Da amizade, do saber,
Que vai se imortalizando.

Kydelmir Dantas

Era as sim Dr. VINGT-UN
Não media distância para publicar o que lhe caía às mãos.

Antonio do Amaral

Que trajetória impressionante, amigo Gutenberg, a desse baluarte da cultura potiguar, Vingt-un! O Estado do Rio Grande do Norte deve sempre honrá-lo em seus compêndios memoriais.

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