CONVERSA DE ENGALOBAR

Foto Ilustrativa

Rosemilton Silva – Jornalista e escritor. Natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Tava eu ainda na cinza da fogueira de São João, esperando minha cumade para retirar as espigas de milho que a gente enterrou com a palha pra assar – assar ou cozinhar? – conversando com Tarcísio de seo  João Ataíde, que vinha “lá de baixo” essa hora da madruga, e que me conta que viu Ureal mais João Caravéia e a Morte lá no gango da minha cumade tomando umas cervejinhas. Três presepeiros juntos haverá de ter algo especial.

Foi o que aconteceu. A Morte descobriu que o pote vizinho a mesa deles estava cheinho de água pra lavar o salão no dia seguinte e não pensou duas vezes. Mandou descer cerveja inté num o c* fazer bico. Os outros dois, Ureal e Caravéia, não entenderam nada, mas não se fizeram de rogados. E tome cerveja. No fim das contas, pagaram apenas dez garrafas que estavam debaixo da mesa e que foram contadas pelo raparigal.

Tarcisio mal acabou de contar a estória – seria história? – quando minha cumade aparece a pé, porque deixou de andar na Mercswiss e Tarcísio se apressa dizendo que vai encontrar Marcelo, seu irmão, para abrirem o Cartório. Eu lembro a ele que é sábado e que seo João Ataíde deveria estar na feira.

Minha cumade Maria Gorda ainda longe, ali perto da bodega de Maria do Carmo, grita na direção da gente perguntando: “Tarcisim, meu fií, acabei de saber que as meninas quando foram lavar o salão, ouviram o tilintar de garrafas dentro do pote, coisa de umas catorze. Quem tava perto dalí era Ureal junto com Caravéia e a Morte. Com três felas desses não é difícil entender o que aconteceu. Mas fique certo que eles vão pagar as outras cervejas encontradas dentro do pote”.

Tarcísio me disse baixinho que Ureal deu calado por resposta e escafedeu-se. Passado o episódio, porque minha cumade era de reclamar apenas uma vez, fiquei certo que ela ia esperar os três voltarem por lá, o que não seria difícil. Pois bem, minha cumade vai se aproximando e começa a reclamar que Gonzaga andava calado, esperneando, tentando ispaiá brasa, querendo prolongar a agonia e Michael arrumando um jeito de fechar o cabaré dele.

Foto ilustrativa

Já Chicó de Maria Anjo continua se reunindo com os bodegueiros pra dar um jeito de modo a que Zé Dobico fique mais tomando conta do hotel pra ajudar Mariinha que cuidar da delegacia. Minha cumade quer ir lá na tipografia de Manoel Macedo encomendar a Manoel Bernardino uns panfletos anunciando a chegada de gente nova. E lá fomos nós pra rua da Usina.

Chegando lá encontramos Nazareno mandando fazer uns anúncios da campanha para União Santa-cruzense de Estudantes (USE), onde a foto principal era um caçote. E aí, vejo seo Tito saindo de casa com Hildebrando, também envolvido na campanha. E o caçote vinha fazendo a festa nos últimos dias de chuvas porque, além dos estudantes passarem o tempo na praça imitando o som do bicho, o que indicava a vitória de Nazareno, na pracinha o que mais tinha era o batráquio comandando a carroça chefe de nossa diversão que vinha a ser jogar os bichinhos em cima das moças. Campanha acirrada e que pela primeira vez acontecia com tanto vigor pelas duas partes envolvidas.

Enquanto minha cumade conversa com Manoel Bernardino, eu aproveito e peço licença para entrar na casa de dona Joabel e seo Manoel Soares pra me inscrever no curso de datilografia. Saio com o apito da usina e vejo professor Acácio, “inglês” até no cumprir horário, numa conversa animada com Lourdes Anunciada em frente ao escritório de Nóbrega & Dantas.

Usina Nóbrega & Dantas – Santa Cruz/RN – Foto:tribunadonorte.com.br

Minha cumade acerta os detalhes com Manoel Bernardino e vamos embora não sem antes ver que o Peba, embora não precisasse, estava catando piúbas pela rua e guardando no bolso do palitó. Ouço seo Lourenço me chamando para pegar o óleo Benedito que eu tinha pedido para alimentar a luz do Sacrário da paróquia. Peço licença a minha cumade e rumo no sentido contrário, descendo a rua da usina.

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