Começou a folia

Rosemilton Silva – É jornalista, natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Tava eu ali sentado naquele banco da mesa do Bar do Ponto, com olhar fixo nos contornos da serra da Salambaia para uns, Samambaia para outros, desenhados pela chegada da aurora que teima em aparecer sem uma nuvem sequer, quando ouço os primeiros sons vindos já do lado de fora do Trairy Club com os pistons de Omar e Ciço Caé cortando o vento ainda um pouco frio com a introdução do Zé Pereira para em seguida os trombones de Everaldo e João Leão entrarem juntos com os saxofones de Deusdedith e Rivaldo e o contrabaixo de Mané Pataca dar a deixa para o tarol de Boba, o surdo de Miguelão e o Bumbo de Zé Zanolho iniciarem a caminhada festiva do fim do carnaval no rumo da praça.

Chagas Farias aproveita para fechar a geladeira, fazer as contas com os garçons e Borrego se encarrega logo de começar a limpeza, já que está ali. A noite não parecia de despedida, como agora também não. Aqueles que não foram para o clube já se levantam e vêm pra rua apreciar a disposição de quantos passaram a noite embalando sonhos de dias melhores depois daqueles quatro dias felizes, sem preocupações. Um namoro começando, um namoro velho acabado, um casamento abalado, e a vida continua depois do carnaval. Zé Garcia já prepara mais um grande bule de café. E lá surge os primeiros foliões na esquina da casa dos Ferreira de Souza, numa alegria incontida, mas o que se vê no rosto de grande parte deles é a saudade provocada pela tristeza como se fossem todos travestidos pelo riso que não demonstra qualquer sinal de satisfação pela chegada das Cinzas que monsenhor Emerson prepara para logo mais à noite.

Fogão surge no outro lado da rua, ali na esquina da casa dos Balelê e, imitando com a voz um piston, acompanha a bandinha dirigida pelo mestre Oscar já quase cambaleando de algumas cervejas a mais. A tradição da terra de Santa Rita manda que todos deem a volta pela praça e ao enorme bloco todos os que estão ali se integrem a ele. De longe, Boba me acena e pede para substituí-lo no tarol, quer continuar tomando a sua. Engulo o café que Zé Garcia me trouxe e rumo pra lá juntamente com João Bosco, que pega o surdo de Miguelão, e Marlício aproveita pra pegar o bumbo de Zé Zanolho e aí arrochamos pilha nova na batida do frevo. E fica a saudade que vai ser em parte matada quando os clarins voltarem a tocar logo após monsenhor Emerson “encontrar” a Aleluia do sábado para o domingo de Páscoa. E aí, só no ano que vem.

  • Crônica publicada no livro sobre Santa Cruz, intitulado “Crônicas da Casa de Maria Gorda, do autor.

Compartilhar em:

Entre na discussão!

Fique tranquilo, seu email está seguro.