Chorando baixinho

Heraldo Palmeira

Era meio de tarde quando a notícia chegou. A notícia que ninguém queria, mas insistia em se anunciar desde alguns dias antes. Eu estava na rua e não me permiti chorar. Resolvi chegar em casa primeiro, ir para um cantinho qualquer e abrir meu Gargalheiras que foi enchendo atrás dos olhos desde que a notícia que ninguém queria chegou.

Chorei baixinho, tentando a suavidade que sempre foi o jeito dela. Depois do aguaceiro, ficou o vazio das nuvens chovidas que a gente não consegue mais ver. Como vou chegar em Acari e subir aquelas escadas, sem dar de cara com Minha Linda e tascar um cheiro naquela cabecinha branca e cheirosa como poucas?

Como vai ser no próximo agosto, já tão pertinho, sem ouvir aquele “Meu lindo!” Ah, minha querida Vicência, dona Vicência, pedaço de mãe pela amizade imensa com minha mãe Toinha! Tão próximas que o móvel de guardar louças da minha casa da infância, que naquele tempo era chamado de buffet, esteve todos estes anos guardando louças na casa dela. E Minha Linda sempre fazia questão de falar com carinho daquele móvel como uma forma de ligação com mamãe e das nossas famílias.

Maria do Carmo e eu estamos sofridos, mas também sentimos a graça de ter podido ocupar um pedacinho do coração de nossa Vicência como filhos. Por isso, estamos em silêncio profundo e reverencial, porque agora nada precisa ser dito a Ioneide, Ivete, Ione, Loinha, Tenoca, Isaias e Iara, e aos demais que fazem parte dos seus núcleos familiares.

Acari também está órfã de uma das suas grandes mães, muito além dos seus filhos naturais e dos agregados como minha irmã e eu. Estamos todos órfãos de uma grande matriarca. Aprendemos a traduzi-la por muitas palavras que, ao fim, terminavam resumidas em “generosidade”.

Imagino que ela já está reunida com aquele “mói” de comadres que moldaram Acari e hoje dão um tom seridoense ao céu. Certamente felizes porque nós, todos os filhos delas, permanecemos amigos pela vida amando Acari e debaixo do manto de Nossa Senhora da Guia, que acabou de ser apresentada a mais uma das nossas meninas.

Imagine o “moído” celestial de Dareca, Do Céu de Gabriel, Dona Almira, Ina de Manoel de Cabocla, Iracema Brandão, Iva de Doutor Bezerra, Licó de Manoel de Cabocla, Maria José Mamede, Mirtes de Major Sátiro, Mônica de Chico Seráfico, Terezinha de Geraldo Galvão, Tetê de Bastião da Loja, Toinha de Doutor Nemésio, Ubaldina de Onessino, Vicência de Antenor Cabral, Zélia de Demétrio… A simples citação dos nomes dessas mulheres revela as bases sólidas da nossa comunidade sertaneja e mostra porque somos quem somos.

Eu ando desconfiado que, qualquer dia, a Padroeira em pessoa vem aqui para conhecer tudo isso ao vivo. Vicência, avise para Ela vir em agosto, viu? E que traga vocês todas na visita.

Eu vou ficar sem as risadas que dominavam nossas prosas, sem os segredinhos da política que ela tanto amava, sem aqueles almoços ou lanches da tarde tão felizes onde a mesa farta alimentava ainda mais nossos laços de união. Estou conformado, é o preço terreno que todos nós pagamos para que o céu receba mais uma filha do céu.

(Heraldo Palmeira, filho do amor de mãe de Vicência Cabral)

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