Carta à governadora

Aluísio Lacerda, jornalista e advogado

Excelentíssima Senhora Governadora, professora Fátima Bezerra.

Acompanhei o drama narrado pela própria vítima, José William. Anotei e analisei a nota publicada por vossa excelência. Nada sei sobre protocolos e procedimentos na área de saúde, mas sou um defensor do SUS – o melhor plano de saúde ao Sul da América.

Governadora, por favor, perdoe a ousadia, mas segue a sugestão: convide as agências de publicidade credenciadas pelo seu governo e lance o desafio: a população do Rio Grande do Norte precisa conhecer a Rede de Atenção às Urgências e Emergências do Sistema SUS.

Não basta “uma apuração aprofundada dos fatos”, conforme a nota da Sesap. Faça uma ampla campanha publicitária – em todas as mídias. Imprima-se cartilhas e as distribua na rede pública de educação e unidades de saúde. Mostre, escancare as “portas de entrada” do sistema (unidades básicas de atendimento e de saúde), hospitais de urgência, atendimento domiciliar, leitos de retaguarda, salas de estabilização etc.

Como informou a Sesap na nota pública, “todos os municípios e serviços conhecem os fluxos assistenciais de acesso, o desenho da rede e a complexidade dos serviços”. É verdade. Conversei rapidamente com alguns agentes públicos. Mas a população não conhece o fluxo assistencial do SUS, governadora.

Mas atenção. O cartão SUS do paciente José William foi emitido por Natal ou por outro município? O Hospital dos Pescadores é municipal. SUS municipal. E nesse embate SUS estadual versus SUS municipal também há o Ministério Público com luzes bem feéricas a observar. Se o cartão SUS do paciente José William foi emitido por outro município, talvez ele não tivesse sido atendido também no Hospital dos Pescadores.

Daí, governadora, a necessidade de ampla divulgação desse serviço essencial. No mesmo domingo, no Frasqueirão, um atleta com suspeita de fratura foi encaminhado a um hospital municipal. Lá o porteiro verificou que o cartão SUS era de Pedro Velho. Todos barrados na entrada. Nem a enfermeira da ambulância conseguiu falar com o médico de plantão. Qual o procedimento? Detectada a fratura, medicado, se necessário, existe no hospital um núcleo de regulação, que encaminha para outro lugar.

Bem sabe o leitor a quem interessa afetar a credibilidade do Sistema Único de Saúde, mas este dispõe de um bem elaborado protocolo de atendimento/acolhimento, incluindo a classificação de risco dos pacientes. A imensa clientela acha que tudo não passa de embuste. O roteiro é perfeito. Em qualquer parte do país há potenciais utilizadores prontos para cuidar do cidadão que se encontre em agravos de urgência ou emergência e procuram uma das portas de entrada de Rede SUS. Em todas os estados e na maioria dos municípios equipes multiprofissionais estão atentas e com a missão de abrir portas. Portas que salvam vidas.

É tamanho o zelo que algumas cartilhas e manuais mais parecem um instrumento de diagnóstico de doença. Gente que vive o dia-a-dia do SUS, que hierarquiza conforme a gravidade do paciente e determina a prioridade do atendimento. Se bem fiscalizado, é evidente.

É possível, governadora, que algum sábio recomende pensar novas estratégicas em saúde. Não é necessário. Considere enfrentar, sim, o sofrimento da maioria da população. Como? Elevando o padrão de atendimento a partir do conhecimento dessa mesma população sobre os serviços disponibilizados.

Uma boa divulgação sobre o alcance e o funcionamento da Rede de Atenção às Urgências e Emergências no Sistema Único de Saúde é mais do que uma prioridade, governadora, é a forma ideal, direta, efetiva e organizada para uma ampla intervenção.

(Originalmente publicado na Tribuna do Norte, edição de 09/11/2021)

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