Carnaval de cinzas

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Os tradicionais desfiles das Escolas de Samba do Rio e São Paulo esse ano vão acontecer apenas no mês de abril.  Culminância melancólica de um carnaval que não aconteceu. Anticlímax. Tudo muito triste. Sem Pierrôs ou Colombinas, bandas, blocos de sujo. O Galo da Madrugada não cantou pelas ruas do Recife, nem o Homem da Meia-noite e os outros bonecos percorreram as velhas ladeiras de Olinda. O Pelourinho em Salvador não vibrou com o batuque do Afoxé Filhos de Gandhi. Em Natal as Kengas recolheram seus requebros e Os Cão da Redinha aguardam um momento melhor para seu mela-mela. Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens ficaram em casa. Restaram as festas particulares pagas, arremedo sem graça do verdadeiro carnaval: o de rua.

Bloco Os Cão do carnaval da Redinha – Foto: Papo Cultura

Lembro o tempo do Corso, na Avenida Deodoro. Os blocos e carros particulares, cheios de moças e rapazes percorriam em festa a extensão da avenida. Lunik, Jardim de Infância, Magnatas, Apaches, desfilavam suas alegorias e tocavam suas bandas. As famílias se instalavam ao longo das calçadas jogando água e serpentina nos que passavam. O Bloco da Gentinha, do governador Aluízio Alves, arrastava uma multidão e fazia propaganda do governo. Suas cores? Verde e branco, claro. As escolas de samba imitavam de forma possível o carnaval do Rio de Janeiro. Algumas impressionavam pela sonoridade da bateria.

A escola Ferro e Aço no Samba era uma iniciativa de mecânicos e serralheiros. Aí Vem a Marinha, como atesta o nome, era dos Marinheiros e Fuzileiros Navais. Acadêmicos do Ar representava a rapaziada da Base Aérea. As três dispunham de respeitáveis baterias que enchiam a noite com seus repiques.

Malandros do Samba

A Malandros do Samba, do mestre Melé, quando invadia a avenida, cantava: “Ôôôôô,  Malandros do Samba chegou.” A tribo dos índios Guaranis, do Alecrim representava a luta e morte de um caçador vestido tipo Jim das Selvas, com uma faca espetada no peito. O resto do carnaval se dava nos clubes. A ASSEN, a AABB, o América, o Aero Clube, depois mudado para Tirol Tênis Clube.

Clube social do América
Clube do ABC

Ai do jovem que não era sócio do clube do América que foi, em certo tempo, o grande carnaval de clubes da cidade.  Quem não dispunha daquela carteirinha de couro vermelho ficava de fora, intimidado por Bernadão, e tinha que procurar a ASSEN, Clube dos Sargentos do Exército que fazia um carnaval mais popular e animado.

O rei Momo era o sempre presente Paulo Maux, de disposição invejável apesar, ou talvez por isso mesmo, do seu peso. Seu arqui-inimigo era Severino Galvão, pai de Babau e João Galvão.

Rei Momo Paulo Maux – Foto: Blog do Miranda
Severino Galvão, (ao centro) foi Rei Momo, muitas vezes, à revelia da prefeitura – Foto: IHGRN

Os blocos de elite a principio eram formados apenas por rapazes. Realizavam assaltos em casas de amigos que forneciam bebida, comida e garotas namoradeiras. O bloco entrava com a orquestra e a animação. Depois passaram a incluir garotas na turma. Era muito animado, acreditem, participei de um deles. Ao final do carnaval havia brincado todas e a minha energia praticamente se dissipara em cinzas.

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Foi meu último ano brincando carnaval. No ano seguinte ganhamos, eu, Levi Bulhões e Reinaldo Azevedo, meu compadre, a concorrência para fazer a decoração carnavalesca da ASSEN. Trabalhávamos arduamente enquanto a orquestra ensaiava. Ao final, na véspera do primeiro baile, entregamos a decoração e eu não queria ver carnaval nem pintado porque as músicas repetidas pela orquestra ainda ressoavam nos meus ouvidos.  Refugiei-me na praia de Jacumã, que na época era pouco mais que uma aldeia sem energia elétrica. Foi maravilhoso. A partir desse ano, sua majestade Rei Momo e Mestre Lucarino, onde estiver, me desculpem, mas a praia passou a ser a minha primeira opção.

Apenas anos depois voltei a ver o carnaval. Já eram tempos de Bandagália, uma tentativa de trazer os foliões de Olinda para as ruas de Natal. (Em Olinda e Recife a tradição sobrevive. Há quem ache que isso se deva a presença de Ariano Suassuna, que, secretário de cultura do Recife e depois do estado no governo Miguel Arraes, valorizou tudo que é pernambucano e nordestino de raiz. Madeira que cupim não rói, esses pernambucanos).

Aqui tudo acabou em tragédia. Os blocos de rua haviam sofrido um rude golpe com o acidente envolvendo o bloco Lunik, em uma ladeira das Rocas. A Bandagália também passou por um evento dramático. Estabeleceu-se o vazio e aí um grupo de empresários criou a micareta e o Carnatal deu seus primeiros ensaios na Praça Pedro Velho, trazendo bandas de Salvador e adotando o uso dos abadás e das pipocas, fazendo um carnaval que mais parece um desfile militar. Saíram de cena os frevos e marchinhas e ocupou o seu lugar a música axé dos trios elétricos. Há quem goste, não eu.

Talvez deva ser assim e o Carnaval verdadeiro precise acontecer à margem das festas oficiais e das iniciativas grã-finas. Sem cheiro de patrocínio ou apoio oficial de leis feitas para lesarem o erário. Só alegria, irreverência, muita criatividade e vontade de brincar até a quarta-feira de cinzas. Em 2023, livres do vírus e outras mazelas, quem sabe, estaremos de volta. Evoé!

NATAL/RN

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