BICHOS DA NOITE

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Sempre achei que a disseminação da luz elétrica acabou com as assombrações, assim como a TV pôs fim às conversas das famílias nas calçadas. Nessas rodas de prosa à luz da lua falava-se em tudo, notícia das chuvas, das feiras, do prefeito, da Candinha, a vida da comadre (e do compadre) e, claro, como não podia deixar de ser, estórias de visagens, almas errantes, lobisomens e outros acontecidos nas noites longas de verão.

Havia uma variedade de aparições: batatão, que depois descobri ser corruptela de boitatá, uma luz que corria atrás dos incautos; mula-sem-cabeça, resultado do amor proibido entre o padre e alguma desavisada; lobisomem, que na versão do agreste potiguar era alguém que rezava o padre-nosso às avessas nas noites de lua; a caipora, que estragava a caçada de quem não levasse fumo e cachaça como oferenda; e as almas do purgatório, grupo composto por crianças não batizadas, vítimas de crimes não resolvidos que clamavam por justiça, assassinos arrependidos, padres libertinos, noivas que morreram sem concretizar o casamento, políticos ladrões, enfim, todos que tinham deixado alguma pendência por resolver.

Mula-sem-cabeça – resultado do amor proibido entre o padre e alguma desavisada

Aí cada um tinha um relato. Sério, sem gracinhas nem possibilidades de descrédito. Em um largo na frente da casa dos meus avós, na rua capitão José da Penha, em Nova Cruz, havia um cacimbão dito mal assombrado. Um homem aparecia em pé, embaixo da copa de uma algarobeira e assustava quem passava. Dizem que pedia água, sedento. Pelo sim, pelo não, eu fazia as voltas mais absurdas para não passar ali à noite. E nem olhava pros lados do cacimbão.

Toda a vida senti uma enorme e inexplicável atração por esse tipo de coisa. Ouvia a conversa das tias, fascinado. Havia, por esse tempo, um programa na rádio Nordeste chamado Ronda dos Fantasmas. Eram três estórias de mal assombrados radiofonizadas, com uma sonoplastia aterradora, formada de gritos, som de tempestade, uivos de cães. Ao final o narrador desejava com voz cavernosa: – Uma péssima noite para vocês! Garoto, eu me enfiava embaixo do lençol com o radinho de pilha e mesmo morrendo de medo ouvia tudo aquilo.

Esse fascínio se estendia às HQs. Meu tio trazia do sebo de Cazuza, o primeiro sebista de Natal, revistas de Frankstein, a Múmia, Drácula desenhado por Nico Rosso, além de umas estórias de terror no magnífico traço de Flavio Colin.

Drácula, o Vampiro da Noite (1958), com Christopher Lee

E nos cinemas? O porteiro do Cine Poti, ali na Avenida Deodoro, era nosso cúmplice. Aguardava o início da projeção e abria o portão lateral para que nós entrássemos longe dos olhos do Inspetor de menores. Assim vi toda a série de Drácula, o Vampiro da Noite (1958), com Christopher Lee perfeito na pele do vampiro. Eram produções britânicas baratas, mas suficientes para provocar arrepios. Depois essas produções tenebrosas e sensuais foram perdendo o encanto, talvez pelo exagero na repetição da fórmula. Roman Polanski fez A Dança dos Vampiros (1967), uma ótima sátira com a linda Sharon Tate, que viria ser assassinada pela seita de Charles Manson em um macabro ritual. Fez a seguir O Bebê de Rosemary (1968), um clássico do gênero. Copola deu uma bem sucedida repaginada em Drácula de Bram Stoker (1992) antes que os vampiros e outros monstros fossem banalizados. A série Crepúsculo (2008) foi a estaca no peito dos mortos-vivos do cinema. Antes disso, em 2004, O Exorcista havia aberto um novo caminho, o das garotas possuídas pelo demônio, girando a cabeça em torno do pescoço e vomitando algo verde como abacatada. 

O Exorcista – 1974

Eu dispunha, em meu acervo particular, de quase todos os clássicos da literatura dita gótica. Bram Stoker, Mary Shelley, Lovecraft, Edgar Allan Poe, W. W. Jacobs, Ambrose Bierce. Praticamente todos os grandes escritores enveredaram por esse caminho, inclusive brasileiros. Monteiro Lobato escreveu o excelente Bugio Moqueado. Inglês de Souza é autor do conto Acauã. Alvares de Azevedo e seu Noite na Taverna é um marco. Aluísio Azevedo contribuiu com a novela Demônios. Até Machado de Assis, em A Causa Secreta, experimentou o gostinho da literatura tenebrosa. Tenho meus prediletos, claro. Venha ver o Por do Sol, de Lygia Fagundes Telles, é um primor que deveria estar presente em todas as antologias.

A Estranha (1977)

Depois surgiu um escritor americano especialista no gênero com um pequeno livro chamado Carrie – A Estranha (1977), que recebeu uma versão cinematográfica razoável, com John Travolta e Sissy Spacek no elenco. Stephen King é hoje, o mais prolifico autor de obras de terror, algumas de gosto duvidoso, como Christine ou o Cemitério dos Animais. Vendi todos esses livros nos sebos e não vou mais a esse tipo de filmes. Os cinemas de antigamente tinham projeção e som muito ruins, fazendo com que às vezes a gente risse em vez de se assustar. Mas com essas novas salas e a evolução da computação gráfica os efeitos são aterradores. O último vi com minha filha mais nova, herdeira desse meu gosto mórbido. Tomei cada susto de pular na cadeira. Acho que os produtores ganham por pulos dos espectadores. No final avisei: não me chame mais para esses filmes! Quem diria. Um velho aficionado como eu.

Um dia caiu em minhas mãos o Livro dos Espíritos (1857), do professor francês Allan Kardec. O título, claro me atraiu. Imaginei relatos de horror, almas de outro mundo, etc. Qual! Naquela velha edição estava um mundo novo. A resposta para todas as questões não explicadas até então e um roteiro para uma alma curiosa e cética. Céu, inferno, purgatório, limbo? Vida após a morte, diferenças sociais? Almas, espíritos, talismãs e tantas outras crenças, enfim, encontravam explicações perfeitamente racionais. Daí em diante meus interesses mudaram, mas isso é assunto para outra crônica. Afinal, há tantas assombrações no Brasil de hoje, mais perigosas e vampirescas que as da minha adolescência. Vamos pendurar alho em nossas portas tipo ensina Van Helsing, e preparar a estaca e o martelo para exterminar essas abominações que sugam avidamente nossas veias.

NATAL/RN

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