BARBA, CABELO E BIGODE

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Antigamente se dizia que a cidade do Natal tinha um jornal em cada rua e um poeta em cada esquina. Gosto muito dessa imagem, pois nos dá uma visão romantizada da nossa cidade. Hoje a coisa mudou bastante e há uma Drogasil em cada esquina e três barbearias em cada rua.

Meu pai me levava a algumas barbearias. A que havia na hoje Praça Kennedy, chamada, salvo engano, Salão Dois Amigos, grande para os padrões da época, com várias cadeiras de barbeiros. Ficava próximo à Rádio Nordeste onde ele trabalhava. E também me fazia cortar o cabelo na barbearia do Grande Hotel enquanto tomava cervejas no bar, do qual guardo a lembrança da grande geladeira tipo armário, com várias portas guarnecidas de espelho. E da atendente, figura felliniana, que não importa quantas vezes passasse frente aos espelhos, sempre se olhava, sorria para si mesma e ajeitava os cabelos.

Mas a minha predileta era na famosa Travessa Venezuela, também no bairro da Ribeira. Famosa, os mais velhos sabem disso, porque abrigava o Cabaré Arpége, referência das antigas noites boêmias natalenses. O edifício ruiu, mas as lembranças ficaram. Eram dois barbeiros, apenas. Seu Joaquim e Batista. O que me atendia era Batista, figura digna de registro. A barbearia também era uma espécie de casa de penhor, pois havia um movimento diferente. Eu via quando ele erguia o assento da cadeira e de um escaninho escondido tirava, ou guardava, dinheiro, anéis, relógios e joias diversas. Devia ter outra atividade paralela, pois enquanto cortava – na verdade raspava – o meu cabelo, cantava pontos de Umbanda. “Como ele vem tão ligeirinho/ é o rei Nanã/ como ele vem pisando em flor/é o rei Nanã”. Eu era só um menino. Não sabia o que era Umbanda muito menos que rei era esse tal de Nanã. Mas gostava do que ouvia. Ou então contava historias picarescas e os outros fregueses riam, deliciados.

Travessa Venezuela, no bairro da Ribeira. Famosa, porque
abrigava o Cabaré Arpége. Parte da estrutura do prédio ruiu em 2008

Recitava versos de Renato Caldas dos quais eu também ria mesmo sem entender, mas percebendo que havia safadeza envolvida naquele ambiente masculino. “Menina me arresponda/Sem se ri e sem chorá:/Pruque você se remexe/Quando vê home passá”? Batista já tinha as instruções do meu pai e aparava meu cabelo com máquina zero apesar dos meus choramingos. Da minha turma de colégio e de rua eu era o único com o quengo raspado, convite para os “selos” de todos. Ah, não venham me falar em bullyng, coisa velha como o mundo. Lembro o capitão Guevara: “hay que endurecerse” para segurar a onda da rapaziada.

Porque falo em barbearias nesse domingo? É que ontem fui fazer barba e cabelo. Meu barbeiro é das antigas, trabalha só e não chega pra quem quer. É do tempo do “quer taico, aico, ou qué que mui?” dos barbeiros de ontem. Passa um tempão cuidando dos heroicos cabelos que me restam. Lá pras tantas chegaram dois fregueses, senhores de certa idade. Um vestia camisa do Flamengo e o outro uma camiseta de Nossa Senhora. O flamenguista queria falar no jogo, valor de jogadores, as chances do Flamengo no campeonato. O devoto da Virgem de Aparecida, porém, chamou a minha atenção. O torcedor disse em meio à conversa: – Rapaz, ainda bem que essa pandemia tá passando. Não estava aguentando mais.  O devoto retrucou: – Que nada! No começo foi ruim. Fiquei desbotado de não levar sol. As mãos encarquilharam de tanto álcool. O cabelo chegou ao pescoço e a barba ficou igual à de Tiradentes. Tinha lá coragem de vir ao barbeiro? Tomei tudo que disseram. Ivermectrina, croloquina, estricnina, o escambau. Tomava até creolina, se fosse o caso. Quando finalmente juntei coragem e vim cortar o cabelo não dormi de noite, apavorado. Nem deixei a mulher dormir. Bem feito pra ela, já que a doença foi desculpa pra fugir das responsabilidades de esposa. Quando eu metia a mão por debaixo do lençol ela logo perguntava “– Tomou banho? Lavou a boca? Passou álcool? Lavou a mão direitinho?” e me empurrava. Vê se pode? O vírus pega pela xereca?

Eu nem podia rir, com a navalha rondando perigosamente o meu pescoço. Mas o flamenguista perguntou: – E como você, meu velho?

– Ora. Vi que a vacina ia demorar porque o homem não falava em comprar, só pensava em correr atrás das emas. O povo morrendo e nada de atitude. Criei uma fake e disse que havia uma alternativa, outro viés, um caminho em que o vírus morreria por que não ia aguentar, já que na China não se usa aquilo. São uns amarelos comunistas de um só partido. Além do mais tudo lá é de través. O jeito era adotar uma segunda via, pra não precisar ficar respirando um na cara do outro.

Não resisti e perguntei: – E deu certo?

-Se deu? Deu tão certo que por mim essa Covid não acaba nunca…

 O barbeiro e o flamenguista riram discretamente. Procurei ser educado, elogiei a criatividade do homem, paguei e saí.

Por essas e outras é que não troco a velha barbearia por essas modernas com bar, sinuca, e outros trecos, menos uma boa e velha conversa.

NATAL/RN

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