BANDIDO BOM

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

A crítica está se derramando em elogios a um filme chamado Vingança & Castigo, um oeste lançado pela netflix como se fosse uma renovação do gênero. Sei não. Um velho fã de oestes como eu, que lamenta não haver novos cowboys ocupando as telas, olha atravessado para essas tentativas de renovação que descaracterizam completamente a fórmula mocinho x bandido x índios. Sou do tempo em que os mocinhos não matavam ninguém. Rocky Lane, Roy Rogers, Cavaleiro Negro, ou mesmo o Fantasma e Batman, apenas desarmavam e amarravam os bandidos. Tanto que o Coringa até hoje vive em algum lugar de Gotham.  Os cowboys tipo Zorro atiravam nas mãos ou laçavam os malfeitores em pleno galope. Na maioria das vezes liquidavam a fatura com um bom soco.

Os tempos mudaram. Batman se tornou um morcego sombrio e impiedoso. Superman virou um bom moço torturado por dúvidas. Django liquidou bandidos aos magotes usando, não uma Colt 45, mas uma metralhadora que tirou do caixão. Em Os Imperdoáveis (1992), Clint Eastwood, no papel de um pistoleiro aposentado, liquida quase a cidade inteira.

E ainda nem falei dos índios.

A cena é típica: John Wayne conduz uma caravana pela planície e ao longe surge a linha de cavaleiros portando lanças e velhas espingardas, gritando como loucos e morrendo feito moscas. Não me perguntem por que, mas sempre torci pelos índios nessa batalha desigual. Touro Sentado, Jerônimo, Nuvem Vermelha. E não me envergonha dizer que a derrota de Custer e do Sétimo de Cavalaria lavava a minha alma.

Afinal li Dee Brown, que contou o outro lado da história dando voz aos derrotados no livro Enterrem meu Coração na Curva do Rio. Depois veio um filme chamado Dança com Lobos que adota essa perspectiva “do lado de lá”. Tentativas de resgatar um pouco dessa história de perseguições e massacres. E a gente toma conhecimento da frase do General Sheridan, “índio bom é índio morto”.

Filme Dança com Lobos

Falo nisso tudo porque há no momento uma lei não escrita no Brasil que parece ecoar esse pensamento. Na política de segurança vigente, bandido bom é bandido morto. E uma prática de extermínio se estabelece, contabilizando em poucos dias mais de sessenta mortos, sendo que a última ação, no Complexo do Salgueiro, teve características de vingança, sendo oito executados, oito corpos abandonados em meio à lama como se lixo fossem. Esse abandono forçou mães, filhos, avós e vizinhos a entrar na lama do mangue para encontrar e resgatar os parentes mortos. Desumanidade. Desrespeito à dignidade daquela comunidade pobre, formada por maioria preta, e desrespeito a todos nós, cidadãos. Somem-se a isso os vinte e nove mortos em Jacarezinho, em maio desse ano e os vinte e seis “presuntos” em Varginha, e temos os altos números da “eficiência” policial no combate ao crime. São todos agora “bandidos bons”. Impossível não lembrar, sem querer forçar associações, o gesto do então candidato a presidente, simulando armas com as mãos.

Sessenta mortos, numa ação no Complexo do Salgueiro, teve características de vingança Foto: Jornal O Dia

Claro que não me engano achando que os bandidos são anjos de candura. Tenho consciência que, como diz Guimarães Rosa em Grande Sertão, “sol procura é ponta do aço” e que para combatê-los, são necessários leis e homens duros. E nesse embate as almas e corações se endurecem. Não esqueço o jornalista Tim Lopes, torturado e assassinado por bandidos quando exercia o seu ofício. Mas há uma diferença fundamental. Lucio Flávio, bandido famoso dos anos setenta, já a identificava ao dizer que bandido é bandido e polícia é polícia. Quer dizer, a polícia não pode adotar métodos da bandidagem sob pena de se tornarem, os policiais, bandidos também. Foras-da-lei devem ser investigados, caçados, presos, julgados e condenados dentro das normas legais. Com direito a defesa e tudo o mais.

Jornalista Tim Lopes, torturado e assassinado por bandidos quando exercia o seu ofício. Depois dos intermináveis socos e pontapés, o bandido Elias Maluco finalizou o crime decepando as mãos, braços e pernas do jornalista, usando uma espada ninja, tudo isso com o jornalista ainda vivo. O corpo foi carbonizado dentro de vários pneus, que os traficantes chamavam de micro-ondas.

Ah, mas as leis os protegem? Sim, protegem a todos nós. Vocês não gostam? Aperfeiçoemos nossas leis e nosso sistema jurídico. Já vimos um juiz atuando acima das instituições, ainda que, quero crer, bem intencionado no seu modo de ver as coisas.  Deu no que deu.

Não vamos permitir que a nossa visão seja distorcida pelo medo e concordar com esses absurdos. Corremos o risco de, como na música de Chico, um dia ter de correr dos homens lá fora e gritar “chama o ladrão”, por não sabermos mais distinguir uns dos outros. As famílias das crianças atingidas por balas “perdidas” devem saber muito bem do que estou falando. Quem viveu os anos de chumbo também.  Gilberto Gil, incomodado pelo massacre de 111 presos em Carandiru compôs uma canção que dizia que o Haiti era aqui. Com certeza, não vamos aceitar isso. Sabemos, sim, o que deve ser correto. O Haiti não é ou não deveria ser aqui. Afinal, como no Rap da Felicidade de Cidinho & Doca: Eu só quero é ser feliz / Andar tranquilamente na favela onde eu nasci. Será que é pedir muito?

NATAL/RN

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