Assim era a feira!

Júnior RebouçasComunicador e escritor

Iniciava com a chegada das carnes, os carregadores trabalhando muito nesse momento, e levavam nas costas, às vezes, um terço de um animal. A higiene ficava um tanto a desejar.
No final de tarde da sexta-feira, literalmente a feira iniciava, alguns marchantes já começavam a desossar suas carnes, clientes já na espera, ali aguardando.


Outros iam pro churrasquinho de Dona Ilza Cajuá e Tico. O carvão já tava queimando desde às 15h, com carne de porco, gado, tripa, coração, frango. Era uma variedade enorme de espetos! Uma delícia, dava gosto saborear.


À noite chegava e a cerveja gelada acompanhava. Era de costume e imposição da presença dos carrões e seus equipamentos de som com repertório duvidoso e chulo.


As bancas de carne já vendiam normalmente. Em Tico, cada um fazia sua própria conta, às vezes, o cliente era quem estipulava sua despesa. Esse moído passava a noite toda.


Faltavam banheiros, eram utilizados o do mercado ou o canteiro de obras da nova praça. A muvuca já no sábado de manhãzinha era grande, tomava conta da feira, era gente de todas as comunidades e bairros.


Mangaio, roupa, peixe, carne, relógio, celular, estribo, lanche, faca peixeira, corrente de ouro, corrente e pneu de bicicleta, a própria bicicleta velha ou nova, revólver, espingarda de soca, facão, foice, faca de 10 ou 12… Tinha de tudo, ao longo da manhã, a feira era pra negócio.


Até ‘táxi’ de carrinho de mão com trabalho infantil, transitavam. Garotas jovens, bonitas, naquela profissão milenar, eram alguns problemas sociais da feira.


Na praça, havia o troca-troca, muitos negócios se realizavam, matutos que vinham do sítio em lotação suprir as necessidades de sua manutenção.


Tinha o povo mais abastado, chegava cedinho, já vinha com a sacola na mão, muita coisa escolhiam.
Pedintes avulsos, carros de som de propaganda; vendedor de remédio de planta, havia cura pra tudo… piolho, caganeira, cefaléia, pereba, sarna, olhado, bucho inchado, espinhela caída, lundun, pano branco, unha encravada, esporão de galo, constipação, abestalhamento, problema de chifre, sarna, vício de baralho, de cachaça, doença do mundo, queda por rapariga, encosto de mulé, mais conhecido como fresco.


Vendedor de peixe oferecia tudo que era pescado… tilápia, avoador, tainha, atum, piaba, serra, corvina, meca, cação, o que o matuto pudesse imaginar.

A verdura toda exposta, mas era bonitinha, tinha qualidade e preço, do jeito que o freguês exigia. 
Havia doente, indigente, clamando por uma moeda, implorando!

Nas bancas de roupas, todos os modelos e marcas famosas, que causavam ao comprador até surpresa, com as grifes de origem duvidosa.

Também tinha muita coisa nas lojas do calçadão, aceitavam até cartão, na semana e no sábado, muita coisa boa.

A feira era formada de pessoas, trabalho e muito suor, carroceiros, cabeceiros, encrenqueiros, malandros, alguns iam até pra cadeia.


Muita coisa a ofertar, caixa de som usada, panela de pressão, chapéu de couro, boné, blusão, retratista no meio da rua, bicicleta de segunda mão que o caboclo compra e já volta contente, bossando, com a sua.

E na feira você encontrava, cela, arreio, chicote, freio, chibata, rédea, chapéu de couro, cinto, calça Lee, bota… tudo pra quem precisava montar.

O mercado também era aberto pra qualquer cidadão ir comprar e fazer sua boquinha, cuscuz com guisado de boi ou de bode, ovo frito, buchada, picado com arroz e farofa, queijo, ciquilho, raivinha, brote, bolacha, biscoito de nata, queijo de coalho salgado, de manteiga, carne de porco torrada, macaxeira, batata, vitamina de abacate com bolo da moça, macaxeira com graxa e carneiro torrado. Iguarias de Mipibu.

Tinha um carteado no meio da praça, quem queria, podia apostar, mas, deixava muita família sem comida.

O dia passava, o sol aumentava, o barraqueiro suava, e a mercadoria começava a boiar, era chegada a “hora do grito”.


E o povo mais pobre também começava a comprar, pechinchando, as sacolas meiando com tudo que existia com preço menor.


E Manezin, meu companheiro das farras, o Coroné do Agreste, no alto da esquina de sua varanda, com olhos de águia, não deixava nada passar, observava tudo. Já Fábio Couto, na sua rotina, levava a goma e o bolo da semana, que Dona Letícia tinha encomendado.

A partir das 13h a feira começava a minguar. As barracas começavam a ser desmontadas; os carroceiros, os bebuns ainda insistiam bebericando nas últimas tendas. Aí a turma da limpeza chegava pra tudo limpar e a feira acabar.

Assim era a feira da minha cidade! Depois veio a pandemia… E aí…

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