ARTIGO: Uma corrupção no coração da Mãe

Pe. José Lenilson de Morais – Pároco da Paróquia de Sant’Ana e São Joaquim em São José de Mipibu.

Não seria nenhuma novidade se, ao início dessa reflexão,  fosse proposta a já bem conhecida diferença desenvolvida pelo Papa Francisco entre o “pecador” e o “corrupto”.  A questão,  porém,  é bem mais complexa pois entre uma categoria e outra existe o que transita entre as duas realidades: nem se corrompe completamente nem caminha decididamente como pecador que procura “desesperadamente” pela graça de Deus.


Mas, calma, a questão não é simplesmente de moral ou menos ainda de moral sexual. O ponto nevrálgico é o da distorção da questão da integridade interior: “a pureza do coração” no sentido da Bem Aventurança de Mt 5, 8. Quando se perde o desejo da integridade,  de ser e agir pelo que se é e pelo que se escolheu, resta pouca esperança de conversão pois a consciência já foi completamente anestesiada.


A “corrupção do coração precede a corrupção dos atos” e é por isso que as instituições e, em parte até mesmo a Igreja,  perdem credibilidade e força profética.  Se os indivíduos se anestesiam mutuamente, relativizando tudo para se conformar a mensalidade do “carpe diem”, do “curta o momento” porque a vida é curta, não restará muito a se esperar do futuro da humanidade e mesmo da Mãe Igreja. 


Infelizmente,  o próprio cristianismo passa por esse sufocamento da consciência do certo e do errado,  do bem e do mal. Atente-se, porém,  que não tem nada a ver com ser mais tradicional ou mais aberto ao novo. A perda da “liberdade do filhos de Deus” supera as barreiras das correntes ideológicas intra e extra eclesiais. 


Qual uma possível luz para sair dessa cortante escuridão? Uma só resposta é pretensiosa demais para tão profunda e urgente questão. Mas, no caso específico dos cristãos,  da Igreja, do Clero, dos Religiosos,  dos Seminários e dos Leigos engajados, certamente uma pista vem da carta aos Filipenses 2,5. Haverá em nós algo dos sentimentos de Cristo? Nosso caráter,  nossa palavra e nossa vida revelam algo para as pessoas (e para nós mesmos) de Jesus de Nazaré? Há em nós uma conciliação entre verdade e compaixão ou misericórdia e justiça? Falamos de misericórdia por motivos evangélicos ou apenas para continuar a “amornar” nossa consciência institucional coletiva?


“Só o amor salva mundo!” Costumamos repetir poeticamente que o amor e a beleza salvarão o mundo. De que amor estamos falando. Do amor instintivo ocacional ou do amor e da beleza do Crucificado? Talvez seja a hora da Igreja e de outras instituições (que desejam ser sérias) se perguntarem: qual foi a intenção profunda de nosso Fundador? Ele errou ou fomos nós que nos corrompemos ao longo do tempo? Ainda podemos redescobrir nossa vocação original? Se sim, a hora é agora e a tarefa é de todos e para todos antes que seja consumada a triste constatação aplicada a qualquer instituição religiosa: em vez de agir com “entranhas de misericórdia”, ela tem uma entranhada corrupção de “mãe”.


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