Aonde andará meu guardião de Pendências/RN?

Foto Ilustrativa – Diário do Nordeste

             

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Já dizia o genial romancista Gabriel Garcia Márquez, que: “Recordar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração!”. E no meu caso, recordar meu passado divertido é, antes de tudo, adquirir um tom nostálgico para alegrar o meu cotidiano nessa pandemia miserável. Não é pecado esquecer as tristezas do passado, muito pior é não relembrar o lado engraçado e as pessoas que nos proporcionam gargalhadas. Os tipos populares me aparecem aonde quer que vá e diga-se, me marcam pelo resto da vida. É difícil esquecê-los, com seus trejeitos engraçados e totalmente diferentes dos que são tristes e só vivem para reclamar de tudo. São anjos que surgem em meu caminho e merecem todo o nosso respeito. Não os deixo serem chamados de ‘tipos folclóricos’, são tipos humanos populares. Folclore, são outros quinhentos!

Cidade de Pendências /RN

 Aonde andará o meu antigo segurança, capataz, guardião e companheiro para toda obra em Pendências? Cidade de meus ancestrais, que me outorgou o diploma de cidadania honorária. Aonde estará o senhor Edilson? E não me perguntem o seu sobrenome e outros pormenores de sua vida, que nunca me interessaram. Não sei se hoje é vivo ou já partiu para o céu dos alegres e solidários. Tipo queimado de sol, forte e baixo. Andava a pé ou de bicicleta velha, a cidade de ponta a ponta. Trabalhava de tudo, e só não fazia chover. Quando sabia que eu estava indo, ia me buscar no ponto do ônibus e ficava me guarnecendo de todos os perigos ou necessidades: “Doutor, deixe que eu levo sua maleta na cabeça. Todo peso pra corno é pouco!”. Não me deixava argumentar o contraditório, tinha sempre uma saída para tudo. Ninguém o vencia na conversa. Eu cansava de pedir que não me tratasse de ‘doutor’. Falar nisso, lembro de um amigo que morreu com o apelido de doutor, mesmo sem ter chegado à faculdade, nem para passear…

Meu amigo Edilson, foi indicado pelo primo Hermógenes, o qual já partiu. E acabaram-se as minhas preocupações de visitante: “O doutor quer almoçar um carneiro torrado? Quer que eu vá comprar a pé ou de bicicleta? Fique sabendo que, para um amigo, vou até a lua e ainda trago a bosta do cavalo de São Jorge, pra mostrar que eu fui, viu! Comigo é assim, matando a cobra e mostrando o pau!”. Seu pagamento era uns trocados e uma carteira de cigarros: “Doutor, me dê do mais barato, que vaso ruim não se quebra. Aqui já morreu muita gente que não fumava e nem bebia cachaça. Se vai um dia, querendo ou não!”. Anotei muitas filosofias do destemido Edilson: “Se o doutor tiver um inimigo lá em Natal, pode me levar que a minha peixeira manda embarcar o sujeitinho, viu!”. E ele ria com minha resposta: Nasci com sorte, Edilson, sem dinheiro e sem inimigos!

 Quando eu ia a um bar para bebericar e ouvir roedeiras boas, este ficava mais atento do que o famoso espião 007 e não permitia os pedintes encostarem em minha mesa: “Saía daqui, seu fela da puta, não venha chatear o doutor não, viu. Você não tá vendo ele lendo e escrevendo umas coisas aí, não?”. Nem precisa contar-lhes que o perturbador saía aos empurrões e mais ligeiro na corrida em direção a porta do que raposa avistando espingarda de caçador. Os curiosos até me achavam meio doido ou doido e meio. Com livro, agenda e óculos nas mesas de bares e bodegas.

Escritor e pesquisador Gutemberg Costa – Foto: Tribuna do Norte

 Uma manhã cedo, indo fazer uma caminhada pelas margens do velho rio de Pendências, cai na besteira de anunciar o desejo de comer um peixe assado por ali e, de pronto, me espantei com Edilson mergulhando de bermuda e sapatos. Nem demorou para trazer um peixe nas mãos, feito índio: “Agora o doutor vai comer o peixe com a cachaça que trouxe. Eu vou arranjar os gravetos e bater uma pedra na outra. O fogo sai bem ligeirinho!”. Quando fui questionar do seu pulo nas águas com roupa e sapatos, esse bem calmo se saiu assim: “Doutor, pobre não anda com documentos e dinheiro em bolso. Só deixei fora meus cigarros. O sapato e a roupa vão enxugar um dia. Só não tem jeito pra morte e cabra muito ruim. Gente ruim quando morre, ainda vem aparecer no terreiro de macumba, viu. Comigo ou é na hora ou não é!”.

 De outra feita, cheguei com fome a noite na casa de minha saudosa tia materna, tia Alda. Esta estava na missa na Igreja de São João Batista e, ao não achar a janta, pedi ao Edilson para fritar uns ovos caipiras com farinha, acompanhando o café: Faça uma farofada boa! E depois da dita no meu prato, percebi que até as cascas haviam sido colocadas na frigideira e o gourmet tentou me convencer de sua culinária estranha: “Pra que separar, doutor? O senhor num sabe que vai tudo por um buraco só e saí por outro. O senhor não assistiu na televisão, o doutor Varela dizer que casca de ovo é um santo remédio para as ossadas?”. E aí foi que pela primeira vez comi esse tipo de iguaria, mas como dizem a fome é o tempero da comida… Depois lembrei da melhor farofa que comi na feira de Caruaru/PE, com cachaça. Era uma farofa com tanajura, frita na manteiga do sertão…

O danado do Edilson tinha resposta para tudo. Simples e descomplicado. Analfabeto de pai, mãe e parteira, mas homem inteligente dos maiores que conheci. Imaginem se os mestres Ariano Suassuna ou Câmara Cascudo o tivessem conhecido. Suas tiradas e causos dariam um volumoso livro meu para o futuro. Era aquele tipo ‘Fabiano’ de Graciliano Ramos. ‘Macunaíma’ de Mário de Andrade ou o ‘Riobaldo’ de Guimarães Rosa. Quando acertar na mega sena, vou levar o Edilson, se ele ainda estiver vivo, é claro, para acompanhar-me em um café, em Paris e no vinho com charuto, no Chile e Portugal.

Um dia me contaram que um empresário natalense, riquíssimo, levou um amigo, bem pobre, mas espirituoso e presepeiro dos maiores. Um tipo Zé Areia. E quando o ricaço foi questionado pelos gastos com o acompanhante liso, teria respondido o seguinte: “Deixem de serem bestas, aonde eu andei não tinha amigo melhor para conversar e me fazer rir!”. Parece que foi o diabo quem inventou pacote de viagens, com tudo controlado e gente estranha…

Esses tipos, como o Edilson, são raríssimos hoje em dia. São eles, honestos, prestativos e leais ao extremo. Eles e elas herdaram a bravura do índio e o misticismo do negro. O bom humor dos palhaços e comediantes, desde as histórias de Pedro Malazartes. O Edilson, o qual nunca mais encontrei, é homem de fibra sertaneja, sapiente que não cai em conto do vigário e nem muito menos, dessa tal rede de internet. É passado na casca do alho, com doutorado  nas feiras e mercados. Um humanista, sem religião fanática. Cagado e cuspido, nossos bravos bisavós. Pobre de barriga cheia, como dizia minha mãe, dona Estela. Um quixotesco que encantaria novamente outro Cervantes. Euclides da Cunha, ao vê-lo, diria em alto e bom som: ‘Esse é um sertanejo forte’! E Monteiro Lobato não duvidaria que o mesmo tomou na infância, como eu, os xaropes, ‘Emulsão’ e ‘Fontoura’. Parece que foi criado no cuscuz com peixe frito na feira do Alecrim. Personagens populares, que viveram e ainda vivem com as boas conversas ouvidas pelos sábios anciões nos alpendres e calçadas.

 Procurei em minha bagunça uma foto do amigo Edilson, mas infelizmente não encontrei. Só desejo que tenha escapado dessa pandemia cruel. Que seus netos leiam esse texto para o vovô, esperto e lembrado como eu. Mas se alguém de Pendências me der agora a triste notícia de que este já está encantado, eu digo sem medo de errar que o velho Edilson entrou no céu, do mesmo jeito que entrou ligeiro no rio de Pendências. Com roupa e sapato e conversando alegre com o porteiro São Pedro, feito aquela Irene de Manoel Bandeira: Pode entrar, ‘seu’ Edilson, o senhor é um santo nordestino. Só fez amizades e provocou risos no povo. O senhor não foi acusado de falcatruas governamentais. Dividiu o pouco que tinha com os vizinhos mais necessitados e apesar das bravatas, só deixou amigos por onde pisou!

                        Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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4 Comentários

  • Didi Avelino disse:

    Que lindo texto, Gutenberg !
    Memórias como essa dão prazer de se ler e ir imaginando as cenas, como takes cinematográficos.
    Me identifiquei de pronto com o seu “Edilson” por dois motivos, particularmente, relevantes: primeiro, também me chamo Edilson, desde a Pia Batismal, e, segundo, pela verve sincera, bem humorada e oportuna do seu “guardião”, que bem caracteriza a nós, “nordestinos juramentados”.
    Torço para que esse personagem verdadeiro, que está tão presente em sua memória, também esteja bem vivo e saudável entre nós, afinal, precisamos muito de “guardiões” como o seu “Edilson” neste mundo, tão carente de gente com suas virtudes.
    Parabéns pelo texto. Saúde e vida longa para continuar nos brindando com histórias como essa.
    Abraço.
    EDILSON (Didi Avelino)

  • Guia disse:

    Viva Edilson!

  • Terezinha Tomaz disse:

    Texto maravilhoso pra um dia de domingo!

  • Angela disse:

    Recordar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração!”.
    Excelente texto. O viver era mais humanizado, por isso as memórias ficam no coração

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