Amigos e amigo da vida

Carlos Rogério, o “Carlinhos do Cartório”

Roberto Patriota – É jornalista e escritor

Ao longo da nossa existência colecionamos amigos, começamos a colecioná-los já na infância, e seguimos adicionando-os ao longo do tempo em espaço especial dentro do nosso coração. No entanto, boa parte de todos esses “amigos” costumam evaporar com o andar dos anos, fragmentados e consequentemente carregados por vento revolto em dia de tempestade. Só os verdadeiros permanecem fieis até o fim da jornada.

Poderia discorrer aqui sobre alguns poucos amigos que a vida me presenteou, mas destaco apenas um, até pela sua ausência. Refiro-me ao primo Carlos Rogério, o “Carlinhos do Cartório” como se tornou mais conhecido. Era eu adolescente e Carlinhos adulto, quase dez anos separou nossa impossível amizade de infância. No entanto, no inicio dos anos 80 me aproximei a ele depois de frequentarmos a mesma universidade.

Carlinhos era um homem carismático, de espírito juvenil e bastante generoso. Difícil vê-lo triste ou desanimado. Sua morte prematura foi um grande golpe para todos que o conheciam. Ele pertencia muito mais à vida que a maioria das pessoas que conheço. Era dono de uma alegria vibrante e contagiante. Participamos juntos de muitas “empreitadas” festivas, não festivas e de vida.

Foram tantas que fica até difícil enumerá-las, culminando com sua campanha para prefeito do município de Touros em 2004. A campanha eleitoral foi uma batalha difícil e complicada que resultou em injusta derrota eleitoral. Mais uma vez a cidade de Touros perdia naquele momento outra nova oportunidade de virar sua sorte política e o destino do seu povo. A campanha de Carlinhos mexeu com as massas populares como poucas vezes aconteceu na vida política daquele município. Seu nome representava naquela ocasião a bandeira renovadora que o povo tourense almejava há décadas. No entanto a luta política contra um poderoso sistema financeiro reverteu uma vitória anunciada por diversas pesquisas de opinião pública, semanas antes das eleições, em insucesso eleitoral ao abrir das urnas. Após a árdua campanha e seu resultado adverso, ele não se deixou abater.

No entanto resolveu afastar-se em definitivo da vida política, que na verdade nunca foi a sua vocação ou profissão. Concorreu e enfrentou o desafio após ser insistentemente convocado pelas massas populares e estimulado por amigos e familiares. É bem verdade que ele tinha um pouco de sangue político nas veias, seu pai, o tabelião Lindonor Patriota, que foi vereador por longos anos e seu tio, José Joaquim, prefeito de Touros. Se tivesse continuado na política teria sido facilmente eleito no pleito seguinte. Sabia disso, mas preferiu optar pelo bom senso.

Passado as eleições, continuou seguindo a vida como notário e homem de bem. Apesar da intempérie eleitoral, nunca deixou de atender os mais carentes, as pessoas mais necessitadas que o procuravam diariamente no cartório desde sempre. Sentia prazer em ajudar e o fazia sem nenhum interesse político. Nunca foi seu objetivo se tornar prefeito, sei bem disso, amava a privacidade e a liberdade. Acolhia os mais humildes por compaixão e também porque literalmente desconhecia a palavra não.

Poucos meses antes do seu falecimento fizemos um último “tour” pelo litoral norte juntos aos primos diplomata Antonio Patriota, Augusto e Eduardo, com paradas em Touros e São Miguel do Gostoso. Durante o passeio notamos que Carlinhos se encontrava pensativo, diferente do entusiasta habitual. Chegou a comentar que no dia seguinte realizaria exames médicos de rotina. Quando nos despedimos fiquei a observar um certo ar de preocupação em seu semblante, parecia um pouco tenso. Ao vê-lo se distanciar senti uma certa melancolia. Foi a última vez que o vi com vida.

Semanas depois fui informado da sua doença e tratamento. Preferiu se isolar de quase todos em condomínio na praia de Gostoso para cuidar da saúde. Meses depois o amigo José Avelino me ligou comunicando seu falecimento. Tudo aconteceu muito rápido como um relâmpago. E assim é a vida.

Apesar do passar dos anos a sua ausência continua fazendo muita falta. Não poder mais contar com a sua irreverência juvenil, suas gargalhadas zombeteiras, sua voz amiga a me ligar ao celular convidando-me para tomar umas cervejas, ou para o almoço, um mergulho na praia, ou para o jantar e depois assistir um filme na TV, ou simplesmente para as conversas amenas durante os finais de semana na sua casa de praia. Toda essa estima e atenção faz muita falta. Nossa amizade improvável se tornou sólida durante os anos e só teve fim com a sua morte em 2015.

Quando Carlinhos partiu, fiquei a imaginar que certamente Touros já não é uma cidade tão acolhedora como antes. Ninguém batia à sua porta que não fosse acolhido, ninguém recorria aos seus préstimos que não fosse atendido. A sua mesa estava sempre rodeada pelos velhos e novos amigos que não paravam de chegar. Quem chegava a Touros não demorava a conhecê-lo, pois ele se aproximava dos visitantes ou novos moradores colocando seus préstimos a disposição como só um autentico gentleman sabe fazer. De certa forma ele foi durante muitas décadas uma espécie não oficial de cicerone de Touros.

Carlinhos deixou viúva Selimá Maria Silva Nascimento e filhos Clarissa, Júlio José e Carlos José. Com sua partida uma grande parcela do povo tourense sentiu-se órfão também. Ele era um homem generoso por natureza, um otimista de raiz que amava o lado bom leve e aventureiro da vida.

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