As baladas do fazendeiro

Alex Medeiros – Jornalista

O cantor Eduardo Araújo fez neste sábado (23), 80 anos. Começou a se relacionar com a música ainda adolescente quando saiu do interior de Joaíma e foi estudar em Belo Horizonte, conhecendo o rock americano de Bill Halley e Elvis Presley e logo se encantando com a versão britânica que começava a espocar nos inferninhos de Liverpool e Londres. E quando Roberto Carlos e sua trupe traduziram o vocal dos Beatles em “iê, iê, iê”, Eduardo se mandou para o Rio.

A Marvel City fervilhava com a onda jovem que experimentava novos caminhos musicais, estimulada pelo divisor de águas da Bossa Nova em relação aos ritmos nacionais e catapultada pelo tsunami da beatlemania. Algumas rádios e televisões cariocas escancaram as portas para a garotada, onde se destacavam nomes como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Renato Barros, Leno, Lilian e uma penca de outras figuras que logo invadiriam todo o País.

O livro “Nem vem que não tem – A vida e o veneno de Wilson Simonal”, lançado em 2009 pelo jornalista Ricardo Alexandre, conta que o rico pai de Eduardo foi ao Rio procurar um cara que botava toda essa turma nas paradas.

Era Carlos Imperial, um craque em abrir portas e também um maluco em fechá-las, de preferência com muita confusão. Malandro e de bom papo, carregava a tiracolo dois jovens auxiliares no papel de secretários executivos.

Os dois eram Erasmo e Simonal, que se dividiam entre as casas dos pais, a casa de Imperial e um escritório meia-boca. Não se sabe como foi a negociação do fazendeiro, mas logo o filho estava debaixo da asa de Imperial.

Num apartamento alugado bem acima dos padrões de todos os envolvidos na onda sonora, Eduardo virou queridinho do patrono que mandou Simonal colar no mineirinho rico com a missão de enturmá-lo. O aspirante a Elvis deslanchou.

Quando o reino de fantasia do rei Roberto Carlos se instalou no Brasil, Eduardo Araújo era um dos nobres com acesso aos espaços de sua majestade. A Jovem Guarda virou um dos maiores movimentos musicais e comportamentais.

Em 1964, Roberto pegou carona no carro de Ronnie Cord, que um ano antes entrou em disparada na Rua Augusta. E com O Calhambeque iniciou uma revolução, inspirando outros súditos a cultuarem grandes e caros automóveis.

. – . Pauta: Comemoracao dos 40 anos da Jovem Guarda no Conjunto Nacional. Credito: Jose Antonio/Divulgacao. Turma da Jovem Guarda.19 set. 2005. Caderno C, capa.

Erasmo e Simonal mexeram com a libido dos brotos em 1966 cantando o Carango, enquanto Eduardo se autonomeou O Bom, canção que ele dizia “meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear”. Coisa de menino rico.

A fase Jovem Guarda de Eduardo foi enriquecida pela parceria com a namorada Sylvinha, que foi parceira de amor e vida até morrer em 2008. Como Ronnie Von, Reginaldo Rossi e Sergio Reis, o fazendeiro foi noutras estradas.

Nos anos 1970, enveredou pelo rock psicodélico, deixando para os colecionadores, como Ronnie, discos cults. Também resgatou clássicos do samba-canção e do folclore de Minas, do Nordeste e até da região amazônica.

Por uma coincidência histórica, quando Eduardo Araújo nasceu, em 1942, o compositor Herivelto Martins escreveu “Ave Maria do Morro”, e que décadas depois teve no quase roqueiro a sua mais espetacular interpretação vocal.

De lá para cá, o mineiro tangeu seu gado para o gênero sertanejo, como o velho amigo de juventude Sergio Reis. Em Mais de 60 anos de carreira, tem uma história robusta na MPB para merecer o respeito e admiração de todos.

Nas minhas estantes, caixas e gavetas do passado, ainda tenho os velhos álbuns de figurinhas e as edições da revista Intervalo que destacam as muitas imagens e notícias de um dos mais rebeldes súditos do rei Roberto Carlos.

 

Compartilhar em:

2 Comentários

Entre na discussão!

Fique tranquilo, seu email está seguro.