A vida feliz de viajante…

  Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.                

 Cobra que não anda não engole sapo, assim diz o sábio povo. Quem não viaja, não vê, não escuta e também não traz boas lembranças e histórias para contar aos seus filhos e netos. Meninos, eu vi! Sinto muita pena de quem se tranca em casa com tanto dinheiro guardado e perde os prazeres da vida liberta de viajante. Não sabem, coitados, calcular nem as riquezas que eu encontro nas feiras e mercados nos rincões que visito. Folclorista que muito anda, corriqueiramente vê e escuta de tudo. Eu confesso que já presenciei muita coisa boa nesse mundão esquisito e perigoso, como diria o falante “Riobaldo”, da clássica obra do escritor Guimarães Rosa (1908-1967).

Mil aventuras eu teria para contar aos meus netos, como a velha história das mil e uma noite. Minhas primeiras viagens, ainda antes da maioridade, foram para Recife e Maceió. A Recife fui acompanhando um amigo comerciante. Lá estive na antiga rodoviária do centro. Trouxe folhetos de cordéis do mercado de São José e a primeira experiência em cima de uma escada rolante, coisa que não existia em minha Natal.

Antigo Terminal Rodoviário do Recife/PE

Em Maceió, capital alagoana, fui trabalhar de vendedor ambulante de porta em porta. Vendia vários produtos que interessavam as residências. Passei um ano por lá e voltei por insistências e saudades de minha mãe. Conheci suas praias, feiras e mercados, como também seus bairros e algumas cidades alagoanas. Retornando antes de completar meus dezoito anos, deixei de seguir a nova rota da empresa na qual trabalhava rumo a Belém do Pará. Era considerado um bom vendedor, aquele que, com conversa, vende fácil e bota ligeiro um bode para tomar banho em biqueira, em dia de chuva!   

 Depois fiquei viajando durante minhas férias anuais. Quase toda a Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Bahia, Maranhão, Rio de Janeiro, São Paulo, Pará, Goiás e Rio Grande do Sul, onde provei do chimarrão, mas tive mesmo saudade foi do nosso café bem forte e coado em pano. Gosto de ouvir as vozes de Gonzaga, pai, e Gonzaguinha, filho, cantando juntos aquele refrão: “… minha vida é andar por este país…”. 

Sempre ando com uma agenda de lado e canetas para minhas anotações. Nunca tive paciência para diários. Li alguns deixados por algumas pessoas importantes, mas não gosto desse tipo de gênero literário confessional, prefiro as memórias e biografias. Os diários de Getúlio Vargas e Fernando Henrique Cardoso até recusei doações para a minha seletiva biblioteca.

                  

Já viajei em carro de boi, muito lento. Ônibus velho, avião na turbulência dos diabos. Barco barulhento, tipo lancha. Escapei fedendo de uma jangada em alto mar em Maceió. E fui de trem do Maranhão ao Pará. Trem, até confortável da Companhia Vale do Rio Doce. Aonde tomei muito o refrigerante maranhense denominado de ‘Jesus’, mas senti uma saudade danada da nossa natalense Grapete: “Quem bebe Grapete, repete!”. Eram os bordões ouvidos nas rádios Cabugi, Nordeste e Traíri do meu tempo. O Caldo de cana e a Grapete eram as duplas disputadas para o pão doce quente da Panificadora Cial. Quando provei do suco do Cupuaçu lá no Pará, dei logo a nota ‘9’ e deixei o ‘10’ para a nossa mangaba. Gostei muito do arroz no pequi e o empadão degustado no mercado de Goiânia.

Estranharam meu pedido de peixe, em Gramado e Canelas, no Rio Grande do Sul. Prefiro pescados e, por isso, me encantei com a peixada baiana, quando cheguei em Salvador. É claro que tirando o molho de pimenta forte, repetia muito o acarajé e o caruru. Toda a gastronomia, bem como o tradicionalismo, sem falar no misticismo afro baiano me encanta até hoje

Digo brincando aos companheiros e companheiras de viagens, que tive meu corpo fechado em Salvador por uma Mãe de Santo e ainda na Bahia, fui rezado pelas negras místicas da Irmandade da Boa Morte, as mesmas que rezaram o Jorge Amado. Isso quer dizer que viajo sem medo de acidentes e morte violenta. Um carro no qual estava indo de Natal para Mossoró estourou três pneus e não viramos. Um de cada vez e em pouco tempo um do outro. Outro saiu da pista e desceu um barranco, sem capotamento no caminho já perto de Pendências. Um avião teve que gastar toda a sua gasolina até descer e nada me aconteceu, numa vinda do Rio de Janeiro a Natal. Uma jangada quase virou em alto mar, em Maceió, mas nada nos aconteceu, além do medo.

Negras místicas da Irmandade da Boa Morte

 Sem superstições para viajar, vou sempre na frente dos automóveis conversando com os motoristas. Tenho um amigo que briga para ir atrás, com medo de morrer em um acidente. Dizem que a velha da foice, quando vem, nos pega em qualquer canto. Já me aventurei dormindo em tribos indígenas e em grupos de ciganos. Respeitando suas culturas e sendo por eles muito bem respeitado. Alimentando-me no chão e participando de seus rituais.                  

Quando ia me hospedar na casa do amigo Monsenhor Expedito, acordava bem cedo e corria com ele para sua missa: “Vá dormir meu amigo, aqui você é visita!”. E ria muito quando lhe convencia dizendo que em casa de Padre, missa com ele. Em casa de Pai de Santo, no terreiro com ele. Durante os dias em que estive muito bem hospedado em Nova Floresta, na Paraíba, na casa de seu Né, saudoso amigo e pai do amigo escritor Kydelmir, botava os pés fora da cama bem cedo e quando o dono da casa estava na mesa tomando seu café, eu já estava ao seu lado. Quando saí apertando a mão e agradecendo a hospitalidade tão amiga, ouvi o maior elogio que um hóspede pode receber: “Seu Gutenberg, você foi o único amigo de meu filho, que eu gostei de ter em minha casa. Só o senhor até agora passou no meu vestibular, viu!”.              

Monsenhor Expedito de Medeiros – Foto: Blog Silvério Alves

    

Nem precisa dizer que eu nasci com espírito de cigano para andar e viajar. Já tive duas malas quase prontas, no tempo em que recebia as ordens do amigo escritor François Silvestre, da Fundação José Augusto: “Amigo, se prepare para viajar a todo o Rio Grande do Norte e visitar os mestre e grupos folclóricos”. Chegava em um dia e partia no outro. Muitas conversas e lamentos dos nossos sofridos artistas populares, esquecidos e relegados pelos prefeitos de suas cidades. Uns mestres, já velhos e doentes. Outros, ainda esperançosos com dias melhores para o folclore na terra potiguar de Câmara Cascudo.                 

As melhores viagens que fiz, foram as que levei pouco dinheiro e que era recebido por amigos e amigas. Não conto as vezes que tive que sair às pressas de hotéis para a casa de boas amizades e também não conto as inúmeras vezes em que ao querer pagar a conta da hospedagem, fui avisado pela recepção de que uma trama já havia sido feita: “O senhor não se preocupe, já está pago o hotel por uma pessoa que não quer que o senhor saiba!”. Dizem, que os amigos, a gente conhece de longe e as traições sempre estão reservadas aos covardes e inimigos.   

 E quem gosta de aventuras como eu, agora, devem estar lembrando das suas também. E antes que observem, que não falei muito das boas amizades que fiz nessas inesquecíveis aventuras de viajante, errante e liso, eu lhes aviso que tudo no seu tempo e na sua hora.                   

Vou encerrar e só lhes prometo uma coisa, é que domingo, teremos outras besteiras contadas para espantar a tristeza e o liseu de alguns!                       Mês do folclore, morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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6 Comentários

  • Kydelmir Dantas disse:

    Grato pela citação ao meu saudoso pai (Seu Né). Em nossa casa serás sempre bem vindo.

  • Francisco das Chagas Farias de Queiroz disse:

    Parabéns a Gutemberg pelo texto bem escrito, onde expõe as lembranças de um viajante convicto que sempre fortaleceu e continua a fortalecer a cultura potiguar e nordestina com suas sábias ideias, luta e persistência. Cultura que cada vez mais é esquecida e colocada em terceiro plano por governantes e as novas gerações.

  • Vanda disse:

    Parabéns, Sr Gutemberg,pela boa escrita e a valorização da mistura cultural desse belo país. Tenho andado também por vários rincões desse lindo nordeste e confesso-lhe o meu encantamento de viajar e conhecer pessoas, e fazer amigos. Parabéns. O Senhor só enriquece nossas manhãs com seus textos magníficos. Bom domingo.

  • Terezinha Tomaz disse:

    Parabéns! Maravilhoso texto!

  • Grace Kelly disse:

    Texto em que nos aventuramos como caroneiro…Bravo!

  • Hallina Dantas disse:

    Parabéns 👏🏻👏🏻👏🏻 Maravilhoso texto.

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