A Semana Santa em dois atos

José Alves – Jornalista e editor do blog e jornal O Alerta

Nesta Sexta-feira Santa deu uma saudade da Semana Santa de épocas passadas que vivenciei e, por isso, compartilho com os leitores do blog estes escritos

1º ATO

Minha infância, entre os anos 1959-1967, foi vivida na cidade do Assú, conhecida por ‘Cidade dos Poetas”. As semanas santas da minha época de ‘menino buchudo’ eram, antes de tudo, muito mais compridas. A semana representava, as imagens de santos cobertos com panos preto ou roxo, engomados cuidadosamente. Momentos de jejum, rezas, silêncio, retiros e procissões. Nos altares e nos paramentos do sacerdote, os tons de roxo convidavam a interiorização e chamava à penitência.

Tudo tinha início no Domingo de Ramos, onde na cidade, verdadeiros artesãos faziam os ramos verdes, da palhas da carnaubeira, lindas obras de arte, cada uma mais bonita de vê. Ao voltar da igreja, aquele ramo abençoado era exposto ao lado do santuário, ficando o ano inteiro, com o ramo ficando seco ser substituído, no ano seguinte, na mesma época.

Na Semana Santa não havia aulas, o que deixava a criançada mais feliz ainda, para brincar o dia inteirinho, sem se preocupar em aprender a leitura ou a tabuada.

Os fiéis eram ‘obrigados’ a se confessarem. As filas da crianças para as confissões eram tensas. Os que saíam do confessionário contavam para os outros o que o confessor perguntou e o que eles haviam dito.

Os dias principais – a quinta e a sexta-feira – eram regidos pelo silêncio. Na Sexta-feira Santa, a única que era sintonizada na cidade, a emissora de rádio AM Difusora de Mossoró, só transmitia músicas clássicas ou cânticos religiosos.

Nossos pais e catequistas orientavam para não brigar com irmãos, chamar palavrões, matar animais (passarinhos, com baladeiras, maltratar gato, cão…,por exemplo, pois era ‘pecado’).

A abstinência era total e rígida. Minha mãe, a professora dona Saturnina, saia de casa para o mercado público, para escolher o peixe que seria consumido durante toda a semana, alguns pescados na região (na Lagoa do Piató ou mesmo do rio Açú), entre eles, o Curimatã, o Tucunaré ou então, o famoso bacalhau da Noruega… O refresco, da fruta cajarana, era servido sem açúcar. Por sacrifício, o consumo de doces também era evitado. Não se podia nem mesmo chupar cana, pois seria desrespeito, já que Cristo tinha bebido fel.

Sexta-feira Santa a casa não era varrida. Coisas simples e sem nenhum sentido ofensivo eram consideradas pecaminosas e ficavam proibidas como: olhar-se ao espelho, usar batom e mesmo perfume, por serem gestos de vaidade. E mais: fazer a barba, cortar cabelo, tomar banho, namorar, ouvir música animada, cantar, dançar e assobiar seriam sinais de uma alegria incompatível com um momento tão triste e sagrado. Embriagar-se nesses dias seria o mesmo que condenar-se a inferno e nunca recuperar o juízo.

E ainda: manter relações sexuais nesses dias seria ‘pecado mortal,’ principalmente na Sexta-feira Santa. Espalhava-se oralmente tal crendice sob a alegação absurda de que o homem que assim procedesse, embora legalmente casado, ficaria impotente para o resto da vida e sua mulher, incapacitada para gerar filhos. As mulheres usavam saias e mantilhas negras, em sinal de tristeza pela morte de Cristo. Que coisa!

O único cinema da cidade do Assú – o Cine Pedro Amorim-, programava para exibir, durante toda a semana, a película ‘Vida, Paixão e Morte de Jesus Cristo”, ainda, em preto e branco. As pessoas formavam filas nas ruas próximas, para vê o filme e muitos saíam da sala chorando.

A marca maior da Sexta-feira da Paixão era a procissão do Senhor Morto. Aquela imagem do Cristo ensanguentando e com a coroa de espinho na cabeça, que ficava durante todo o ano, em um esquive de vidro, numa lateral da Igreja São João Batista, do Assu nunca me saiu da memória. Sempre quando ia a igreja, ficava olhando piedosamente aquela imagem, com tristeza, procurando entender a maldade dos homens.

Imagem do Senhor Morto, na Igreja de São João Batista, em Assú

À tarde, a procissão do Senhor Morto era a maior da cidade e arrastava multidões, chovesse ou fizesse sol, todos querendo chegar mais perto do andor a fim de tocar nas chagas de Cristo. O povo, em fila, ia pelas calçadas, em ambos os lados. À frente, o padre bem paramentado e solene. Na frente, a imagem do Senhor Morto e logo atrás, a imagem de Nossa Senhora, com um lençol branco nas mãos estendidas “seguindo seu filho”. O contexto daquele cortejo sagrado unia todos os católicos. Os fiéis caminhavam em silêncio, quebrado apenas, pelo som da matraca (objeto de madeira com duas hastes finas de ferro que ao ser balançado ressoa um barulho alto).

Na madrugada da “Sexta-feira Maior” para o “Sábado de Aleluia” havia a malhação do Judas, boneco feito com roupas velhas para ser queimado. Logo cedo, percorria as ruas da vizinhança para ver os Judas pendurados nas árvores ou postes de iluminação pública.

Ninguém dormia nessa noite, principalmente, aqueles que criavam galinhas. Eles precisavam ficar vigiando para que seus animais não fossem furtados de seus quintais.

Domingo da Ressurreição era o dia mais festivo. Todos vibrando com a subida de Jesus ao céu, logo cedo ia à igreja para receber a comunhão e ouvir uma nova mensagem de vida.

E tudo voltava ao normal.

2º ATO

Em 1975 (com 20 anos), aluno do curso de Estradas, da Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN) vim estagiar e, posteriormente, continuei trabalhando em empresas de conservação da BR-101, contratadas pelo antigo DNER, ficando localizado os escritórios, na cidade de São José de Mipibu/RN.

Minha vivência de movimentos de jovens, ligados à Arquidiocese de Natal, tendo o padre Hudson Brandão e, posteriormente, o saudoso padre Sabino Gentilli, como responsáveis pela Pastoral da Juventude, facilitou o contato com religiosos(as) da Paróquia de Sant’Ana e São Joaquim, que desenvolviam trabalhos com jovens da cidade, através de um compromisso de vida evangélica assumido na fé cristã.

O primeiro Grupo de Jovens que participei em São José de Mipibu foi fundado em 1975, sob a orientação de Ir. Lucilda, da Congregação das Irmãs da Divina Providência. Ela incentivou os jovens a utilizar a arte teatral como forma evangelizadora, pois percebia que o teatro possui um potencial comunicativo extraordinário, e de ter o poder de transformar e de evangelizar.

Lembro de uma apresentação da peça teatral, durante a Semana Santa, na década de 70. Após a cena da Ressurreição, os participantes da peça, se dirigiam ao público, com uma flor branca, gritando bem alto: “Milagre! Cristo ressuscitou. Aleluia!

Como eu era amigo de Conceição Barbalho, uma das atrizes da peça, ainda por trás da cortina, segurei-a pela cintura, impedindo dela acompanhar os demais colegas que circulavam entregando as flores aos espectadores.

Ela então, começou a gritar:

“-Me largue! Me largue! Me largue…(confundindo com o som da palavra milagre).

Até hoje , damos boas risadas, relembrando o fato.

Baixa a cortina

Anos depois, já sob a orientação do jovem padre Canindé Palhano (atualmente bispo de Petrolina/PE), trabalhou durante alguns anos com os jovens da cidade. Através dele, foi criado na paróquia um grupo de jovens, denominado Juventude Integrada Mipibuense (JIM). Os jovens eram muito atuantes na comunidade, principalmente, no apoio às missas semanais.

FOTOS DE ALGUMAS CENAS DA PAIXÃO DE CRISTO

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Poucos meses, antes da Semana Santa, iniciávamos os ensaios da Paixão de Cristo, para a encenação que seria apresentada em São José de Mipibu e cidades vizinhas. Tudo era amadoristicamente. Eu assumia a parte de diretor, contra regra (iluminação e som) e, ainda, representava alguns papéis: como Lázaro, coadjuvante de povo judeu. Mas, um dos papéis que mais marcou, foi ter representando “Satanás”.

Aqui eu representava o povo judeu (o segundo, da direita para a esquerda)

Numa das apresentações, o espaço totalmente lotado por espectadores ansiosos para vê a peça teatral, durante a cena da tentação de Jesus pelo satanás, no Horto das Oliveiras.

Eis o que aconteceu:

Abre-se a cortina, sob som de música de lamento e uma penumbra de azul, para dar efeito de noite. Jesus se destaca solitário, no centro da cena, ajoelhado no chão, orando. Por trás da cortina, eu estava vestido de preto, como se fosse satanás, com uma lata (daquelas de goiabada) e dentro pólvora. Eu segurava um cigarro que não conseguia manter aceso. Como a peça teatral era dublada, chegou o momento que eu deveria entrar em cena. Fiquei tentando acender o cigarro, até que uma fagulha chegou até a pólvora, criando um clarão e muita fumaça. Queimei meu rosto e meu personagem pulava de um lado para outro em torno do Cristo, parecendo ‘um cão chupando manga”.

Detalhe que os espectadores não viram:

Diante da tentativa em procurar reacender o cigarro junto a lata que continha pólvora, esqueci que o recipiente estava muito próximo ao meu rosto. Uma fagulha simplesmente lançou algumas labaredas para todos os lados no meio do fumaça provocada pela pólvora. E do clarão, visto por todos, aparece a figura de satanás, correndo e dando pulos feito ‘doido na rua’.

Santanás ( representado por mim) e Jesus Cristo (César Revorêdo)

Somente os colegas, que ‘brejando’ por trás da rotunda (cortina, geralmente de cor preta, que cobre todo o fundo do palco), perceberam que a labareda havia queimado minha barba (na época, deixava crescer a barba), cílios, sobrancelhas e parte do cabelo. A queimadura no rosto foi tanta, que sai pulando, no palco de um lado para outro, com as dores que a queimadura provocava no meu rosto.

Ao fechar as cortinas, para o ato seguinte, os colegas correram em minha direção para prestar os primeiros socorros. Continuei trabalhando, tanto como contra regra, e fazendo outros personagens da peça teatral. Acho que foi então que comecei a entender o porquê “o teatro não pode parar”.

Terminada a peça, a cortina se abre e os atores, diretor e os que trabalharam nos bastidores vão ao até o público e fazem o agradecimento habitual.

Nisso uma senhorinha de uns 80 anos, se aproxima de mim e diz, num gesto amável e maternal, diz:

“-Você estava muito parecido com o satanás”. E continuou: “até a catinga de enxofre do inferno você expeliu pela boca” (não sabia ela, que cabelo queimado fede pra caramba).

Fecha a cortina!

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3 Comentários

  • Roberto Cajuá disse:

    Muito me emocina rever momentos tão relevantes da nossa vida dos quais foram responsáveis para toda nossas vidas com certeza reviver o passado é projetar-se para um futuro digno. Parabéns Dedé.

  • Verônica Senra disse:

    Que coisa boa vc compartilhar conosco esses momentos únicos. Parabéns pelo texto e pela história. Amei!!!

  • Angela disse:

    Esses incidentes foram hilários. A descrição das cenas são perfeitas, parecia que eu estava assistindo a peça. São lembranças inesquecíveis.

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