A saudade também dorme no dia chuvoso?

Mariana Rodrigues – Psicanalista e Advogada e nas horas vagas, cronista

Oi, pai! Sei que minha tradição elaborativa é escrever na data da sua morte. Mas hoje, sentada ao birô, barganhando com a minha insegurança, pra tentar concluir um prazo processual, olhei pro lado e lhe vi sorrindo pra mim. Me perguntei: será que os mortos se orgulham? Será que o afeto vence a morte? Eu sei que a comédia vence.

Sorri, sorri e cheguei a gargalhar (baixinho pra não acordar Alex, que matou a aula de hidroginastica porque hoje choveu e deve ter mais água nas ruas mal saneadas do que na piscina do clube); e foi quando eu percebi que a saudade não compareceu no nosso fitar de olhares.

O que houve? A saudade também dorme nesse final de dia chuvoso? Não. Era um perceber diferente que se fez presente, senti que eu já consigo lembrar de você sem chorar (faz tempo) e agora também não senti saudade. Foi como se por um instante eu entendesse sua trajetória particular independente da minha.

Entendi que sua vida durou 50 anos e a minha já dura 29 e contanto, até quando, não sei, nem quero saber, porque se me lembro, uma das lições mais esplêndidas que li em você, foi a de que viver intensamente em nada tem a ver com saber o dia em que vamos morrer.

Hoje eu só me senti agradecida por você ter contribuído pra minha existência. Agradeci à sua foto e continuei trabalhando, com a certeza de que hoje, pelo menos por hoje, eu posso escolher quais angústias eu não quero ter.

Obrigada por me ensinar até com sua ausência. Talvez agora eu esteja pronta pra não escrever no dia em que você morreu, mas uma coisa eu sei: eu sempre vou escrever quando me fizer sentido o que eu sentir.

Te amo do tamanho do universo, que se não é infinito, se desconhece o fim.

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