A moça do feijão verde

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Júnior Rebouças – É escritor e radialista. Reside em São José de Mipibu/RN

João Rezende, cinquentão, funcionário bem sucedido, gerente de grande banco, chegou ao limite do estresse em sua atividade laboral e antecipou a aposentadoria.

Ao se ver sem a velha rotina e longe das pressões diárias e horários, por um tempo, ficou meio perdido sem saber o que fazer. Só as caminhadas não eram mais suficientes. Em um período de seis meses, escolheu uma cidade pequena próxima à capital, comprou uma casa, fez as reformas necessárias que imaginava, montou um pequeno escritório e tudo mais que era preciso pra viver com sua amada esposa, naquele pensado paraíso escolhido.

Preparou uma residência pequena, de um quarto, cozinha americana, tudo adaptado ao que queria, alpendrada por completo, em um terreno com 40 metros de frente e 20 de fundo, ideal para o que desejava fazer: uma horta, cuidar de plantas, de cachorros, um minúsculo galinheiro e terminar seu interminável livro. Um romance que há cinco anos, vinha tentando pôr um final.

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Ele só esqueceu um detalhe: não era aquilo que sua amada queria.

Sua esposa simplesmente não acreditou, quando João Rezende avisou que, a partir daquele dia, iria morar na cidadezinha do interior que havia escolhido. Por cerca de três meses já vinham debatendo a enorme vontade do marido aposentado, em se mudar. Não havendo um consenso mínimo que fosse, em nenhum momento. Pelo contrário, ficavam, com o passar do tempo, mais acaloradas e agressivas. Sendo assim, João Rezende, decididamente, saiu do apartamento amplo, com todo conforto possível, localizado em área nobre e foi morar sozinho no interior.

Na primeira semana e com a euforia da novidade, não sentiu tanto. Mas com o passar vagaroso do tempo, de vez em quando a solidão se chegava, tomando conta do espaço e o deprimia um pouco.

Em curtíssimo tempo, com sua humildade e simpatia peculiar, já havia conquistado quase toda a vizinhança.

Seu Toin, homem simples, trabalhador braçal, era o responsável pela manutenção das plantas, horta, algumas poucas galinhas, da limpeza e também dos cachorros. Viúvo, pai de três filhos, Ritinha com 25 anos, uma mulher exuberante, um tanto maltratada pela condição social e financeira, João com 14 e Pedro com 12, também muito bonitos, genética certamente herdada da mãe. Mas a atividade principal de Seu Toin, era a venda de feijão verde, onde todos os membros da família participavam ativamente daquele processo comercial, aos sábados, na feira da cidade.

A esposa de João Rezende, inicialmente, todo final de semana, ia ficar com ele na casa, o tempo foi passando e as visitas de final de semana, ficavam cada vez mais raras. Ao ponto da acumular três meses que não aparecia.

O que transparecia é que o marido, apesar de solitário, não sentia muita falta de sua amada.

Nesse tempo, João Rezende já estava totalmente adaptado com a realidade local, conheceu algumas pessoas e já transitava socialmente muito à vontade pela cidade.

Havia um boteco próximo de sua casa, onde os vizinhos, no finalzinho de tarde, início da noite, costumeiramente, se reuniam ao chegarem de suas atividades de trabalho. A conversa rolava solta, falavam de tudo, futebol, política, mulheres e muita fofoca… tanto é, que o local era chamado de “fofocão de Seu Manel”. Havia também outro atrativo, o “pau dentro” – uma bebida inventada pelo dono do boteco que misturava cachaça de primeira cabeçada, raízes de plantas e casca de troncos das árvores encontradas em matas da região. Duas doses já eram suficientes pra deixar o cidadão um pouco tonto. João Rezende já fazia parte desse meio e se sentia muito a vontade com aquilo tudo, apesar de diferenças sociais e intelectuais.

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Mesmo fazendo algumas tentativas, nunca conseguiu dar um final na estória do seu livro. Em compensação se dedicava cada dia mais a escrever poemas falando de sua vida e tudo que o rodeava. Uma espécie de terapia literária.

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Num belo domingo de sol, chegou na casa João Rezende, uma jovem chamada Ritinha, oferecendo feijão verde, pois no dia anterior, a feira havia sido muito fraca e necessitava vender um pouco mais. Ele comprou tudo que a moça levou. Conversaram um pouco. Ela agradeceu e ao se virar para ir embora, deu meia volta na cabeça e soltou um sorriso maroto, com certa malemolência em se ir.

Até aquela ocasião, João Rezende não havia desejado mulher alguma, não fosse a esposa. Os dias se passavam e começou a visitar a casa de Seu Toin, onde passava horas conversando. 

Entre ele e Ritinha, os olhares, as trocas de sorrisos, já não haviam como disfarçar… Com o tempo, pequenos afagos, as afinidades e as necessidades mútuas, estavam conduzindo para um amor meio suave, sem pressa nem arroubos.

A venda de feijão aos domingos, tornou-se hábito. Era o dia que se amavam e namoravam candidamente. Conversavam e quando Ritinha ia embora ele ficava feliz, meio abobalhado.

Num sábado chuvoso, após chegarem da feira, Ritinha se arrumou com a melhor roupa, mas não colocou seu perfume predileto. Chamou seu pai pra uma conversa, que não demorou muito e logo depois foi para casa de João Rezende.

Chegou com um sorriso largo e foi abraçada por seu amor, que achou estranho ela ter vindo num sábado. Ela na maior alegria, aos berros, disse que estava grávida. Ele parou atônito, franziu a testa, uma fração de segundo, totalmente parado. Em seguida começou a gritar, pular de alegria, se abraçaram, se beijaram e choraram muito. Ritinha já ficou lá naquela noite.

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Pela manhã, João Rezende fez questão de ir na casa de Seu Toin, o casal fez o percurso com as mãos dadas e felicidade estampada no rosto. Um comentário de uma vizinha logo apareceu: – Assumiru hein, danadinha, sabia, minganaru não! Riram um pouco e seguiram.

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Lá chegando, encontraram algumas pessoas na sala e os dois irmãos de Ritinha chorando ajoelhados, um de cada lado da cama de seu pai. No final da madrugada, quase clareando, Seu Toin havia sofrido um ataque cardíaco fulminante e falecido. Ritinha aos prantos, gritava: – Matei meu pai! 

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