A INDESEJADA

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor.

Na madrugada desta terça-feira uma pessoa muito querida partiu deixando uma imensa saudade e um certo vazio que sei, não será reposto, pelo menos nesta existência. Inevitável num caso destes as reflexões que surgem sobre a transitoriedade, a impermanência, as promessas das religiões e o auxílio de uma fé raciocinada.  E também sobre valores como afetos, amizade, carinho e – porque não? – amor.

Estamos a dois dias das solenidades de finados. Antigamente as emissoras de rádio passavam o dia inteiro a tocar músicas clássicas, o que fez com que até hoje eu sinta uma espécie de melancolia ao ouvir Bach, Mozart ou Beethoven. Nem ríamos nesse dia, em respeito aos falecidos. A profissionalização do trato com os nossos mortos veio mudar tudo isso.

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Morria-se, na maioria dos casos, em casa, no ambiente doméstico. E nos lares era feito o velório, com o morto exposto na sala e todos, amigos, crianças, vizinhos, participavam do ato de se velar o defunto. Habitualmente se servia petiscos e até bebidas, daí às vezes se dizer “beber o morto”. Jorge Amado em “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” descreve um desses velórios em que beber o morto se transforma em um périplo pelos bares e cabarés da cidade baixa de Salvador até culminar com uma segunda morte do personagem do Quincas. 

Hoje isso não seria possível, pois as pessoas passam desta para melhor nos hospitais e nas UTIs há horário limitado para visitações. Do hospital o corpo segue direto para as empresas funerárias onde é cuidado, barbeado, maquiado, vestido e é assim que a família vai voltar a vê-lo. E nessas empresas acontece o velório em um ambiente, digamos, distanciado. É um evento social, onde até chorar deixou de ser de bom tom e as crianças são mantidas à distância. No máximo se permite uma lágrima furtiva. E há uma espécie de animadora, uma profissional que dirige as exéquias. Longe estamos das cenas de choro rasgado, abraços aflitos e às vezes cenas de desespero.

Newton Navarro, nosso artista, escreveu um conto genial chamado “Os Mortos são Estrangeiros”. Em um vagão de trem viajam o policial, o morto e seu assassino. Durante a viagem policial e assassino se aproximam buscando, ambos, defesa contra o intruso – o morto. Ou contra a lembrança incômoda do fato de que um dia vamos todos nós.

Por isso usamos eufemismos ao nos referir à passagem. Manoel Bandeira, em Consoada, a chama de a Indesejada das gentes.  Rolando Boldrin diz que é uma viagem antes do combinado. Na linguagem policial o morto é presunto ou CPF cancelado. Na guerra, baixas. Os médicos dizem que perderam o paciente, nunca que ele morreu. Partiu, foi para o segundo andar, encantou-se, viajou, nos deixou, desencarnou, bateu as botas, são eufemismos usados para não falar a palavra que assusta: morte. Não adianta nossa resistência. A morte invade de forma brutal as nossas casas via telejornais, filmes, novelas. Crimes, Covid, desastres, barcos que afundam, prédios que desabam, enchentes que arrastam pessoas, morros que deslizam, polícia que mata e morre.

Há dias, um pastor que morreu havia anunciado a sua ressurreição em três dias. Parece incrível, mas o mais inacreditável é que em pleno século XXI ainda houve gente que acreditou e por isso mantiveram o corpo aguardando o milagre. Quem acredita numa coisa besta dessas acredita em qualquer coisa: que vacina dá AIDS e que a culpa dos seiscentos e tantos mil mortos foi do distanciamento social.

Centenas de pessoas se aglomeraram na frente da funerária para acompanhar a “possível ressurreição” do pastor goiano. Foto: MS Notícia

A civilização que mais lidou com a morte foi a egípcia. Seus escribas elaboraram até um Livro dos Mortos, uma espécie de guia de viagem para os que morriam. Os sacerdotes embalsamavam cuidadosamente os cadáveres na esperança que retornassem um dia. Só há um problema nisso tudo. É que eles conservavam as vísceras, mas retiravam os cérebros das múmias por acha-los inúteis (em algumas pessoas talvez seja verdade), o que nos faz pensar que se retornassem realmente, os faraós seriam todos anencéfalos.

Pronto. Falar em morte é uma forma de exorcizar nossos medos e tentar conviver numa boa com a ideia que vamos, todos nós, mais dia menos dia, seguir o mesmo caminho. A doutrina Espírita ensina que voltaremos em uma nova edição, revista, corrigida e melhorada pelo autor, como no epitáfio de Benjamin Franklin. Acredito nisso. Quero voltar por aqui, no Nordeste, para de novo, comer cuscuz, tapioca com ginga, queijo com raspa de rapadura, macaxeira, feijão verde e carne de sol, dançar um bom forró de pé de serra, ouvir Gonzaga, tomar café coado no pano, dormir em uma rede avarandada e acordar com a passarada…

E aí dizer junto com São Paulo, o apóstolo dos gentios: Ó morte, onde está seu aguilhão?

NATAL/RN  

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