A difícil arte de se livrar de calotes

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Se livrar de calotes e suas artimanhas é coisa dificílima. Mas, dizem que, facilmente uma mulher botou o cão dentro de uma garrafa e um menino descobriu o diabo, ao observar os seus pés de pato. Hoje, graças a santa Internet, os golpes aplicados se espalham bem ligeirinhos e logo se sabe entre os amigos, quem são aqueles que gostam de dar calotes. Eu já sou gato escaldado no assunto. Desconfiado feito galinha com prosa de raposa. Sou do tempo em que um tipo de calote aplicado no bairro das Rocas, em Natal, demorava se saber nas Quintas. Ainda os chamavam de ‘contos do Vigário’: “Fulano ou sicrana lhe pediu dinheiro emprestado. Se você emprestou, pode amarrar no rabo de uma cachorra de rua. Pode esquecer e dar por perdido, seu dinheiro!”. E a famosa frase: “Aquela pessoa, não paga promessa de areia, morando no pé do morro do Careca!”.

Conheci um sujeito que pedia dinheiro emprestado a todos os amigos, dizendo que era para comprar o botijão de gás. Era o ‘conto do gás’, que não caí porque já tinham previamente me alertado. Sabia de outro, que que os filhos estavam sempre doentes. Conto das doenças. De outro que ia alugar uma casa e estava precisando de pagar o caução. Conto do caução.

Antes, me perguntavam se eu tinha cartão e agora a moda é me perguntar se tenho PIX. Dizem, os que o tem, que é mais ligeiro para atender caloteiros e caloteiras, aqueles mais modernos tecnologicamente. Golpe “morreu a tal Maria Preá” era aplicado por um conhecido do meu bairro do Alecrim, que pedia ajuda para comprar o caixão de sua mãe, ela bem vivinha da silva… E a dona da ‘foice’, como não brinca em serviço, veio buscar primeiro o filho caloteiro. Dizem que não se trapaceia mãe e a morte… e na feira do Alecrim corria de boca em boca o velho e certeiro ditado: “Aqui se faz, aqui se paga!”.

Caloteiro não paga nem promessa a santo. É um tipo canalha e mau caráter. Ardiloso e falso. Nunca foi amigo de sua sombra. Perigoso até para ficar sozinho em uma casa, principalmente perto de uma biblioteca. Existem ainda os conhecidíssimos caloteiros de bares. Só bebem no fiado e sempre prometem pagar amanhã ou no final do mês. Todo caloteiro é bom cobrador, mas, pagar e honrar compromissos, não estão nos dicionários deles ou delas.

Em 2019, publiquei um livro sobre os bares da cidade do Natal e não contei os variados tipos de caloteiros que conheci em minhas andanças. Existiam aqueles que só iam ao banheiro quando o garçom chegava com a conta da despesa. Tinha outro, que dizia que ia pra casa urgente e voltava para o bar depois de comer e beber. E aquele que bebia em várias mesas e repentinamente fugia, feito o cão quando vê uma cruz. E isso, bem antes, de surgir o celular que facilitou e muito os pedidos de empréstimos em meio as orações e correntes religiosas…

Caloteiro não gosta de pobre e só anda no meio de ricos. É temente a Deus, gosta de luxo e adora um fiado em bodegas. Colecionam cartões de créditos, pois deixaram os velhos cheques sem fundos abandonados no baú do passado. A característica do caloteiro é se fazer de seu amigo, até lhe pedir dinheiro emprestado. Emprestou ao cujo, lhe perdeu a amizade. Eu já até emprestei importâncias irrisórias, só para não manter a amizade caloteira. Diz o sábio matuto que a facada doí, mas é só uma vez. Também, lá em Pendências/RN, se comenta esperançoso, que a dor de barriga, não dá só uma vez!

E por falar na cidade que me outorgou o honroso título de cidadania, minha mãe a dona Estela, me contava rindo e gesticulando a história do maior caloteiro de sua cidade, que tomara meu avô materno, o industrial salineiro, Hermógenes Medeiros, para seu compadre. Um belo dia esse convidou meus avós para um almoço em sua casa. Meu avô chegando, o compadre alegre grita para a sua mulher que estava na cozinha: “Mulher que alegria chegou meu compadre e a comadre para almoçar. Vá ajeitando um bom e farto almoço logo!”. E minha mãe dizia, que meu avô ainda ouviu a resposta da pobre e aflita comadre: “Você sabe condenado, que a bodega não lhe vende mais fiado e que aqui na cozinha, só tem as panelas vazias!”. A prosa corria solta e nem café aparecia. Aí, em pouco tempo, o dito compadre pede dinheiro emprestado a meu avô e manda um filho correr no mercado para fazer a feira da semana. E foi assim, que meu ingênuo avô, comeu do bom e do melhor as suas próprias custas. O cujo compadre morreu e nunca pagou ao meu avô, seu compadre…

Dizem que São Pedro recebeu as ordens de nem pegar na chave da porta do céu, quando aparece um caloteiro disfarçado de santinho do pau oco. Caloteiro diplomado, com mestrado ou doutorado tem conversa para botar bode na biqueira para tomar banho. São criativos em mentiras e desculpas: “Juro que lhe pago amanhã!”. Respostas programadas e repetidas. Caloteiro não se emenda, nem que mude de endereço ou religião: “Deixou de enganar o padre e agora vai aplicar calote no pastor… no Pai de Santo…”.

E quem me ensinou o pulo do gato, ou seja, a arte de se livrar dos calotes, foi seu Geraldo Costa, meu saudoso pai. Esse dizia-me que, caloteiro menino morria velho dando calotes: “Pau que nasce torto, até a cinza é torta!”. Papai era um tipo muito desconfiado com recuperação e santidade exagerada. Já minha mãe era uma santa compreensiva e sem maldade: “Um dia o pau torto se emenda!”, discordando de seu ranzinza e teimoso esposo até morrer.  Não sei se meu pai aprendeu a arte de se livrar de calotes, em sua terra berço, na Macaíba/RN, ‘de seu Mesquita’ ou em Natal, aonde veio morar quando criança. O certo é que meu avô paterno, teria sido dono de uma sortida bodega em Macaíba e teria falido de tanto vender fiados. Demorei, mas vou contar o segredo paterno a vocês. Seu Geraldo, sempre tinha na ponta da língua, as suas respostas aos pedidos mirabolantes de empréstimos: “Se você tivesse me pedido ontem!”. Ou: “Você me pegou desprevenido. Estou em pior situação do que você! “.

O povo de feira que sabe viver sem recorrer as faculdades, sabe dizer aquela antiga e boa desculpa aos caloteiros: “Hoje, estou liso, leso e louco, comprando fiado e pedindo o troco!”. Já um velho e bom amigo de Nova Cruz/RN, contou-me que o seu esperto pai, tinha sempre uma rifa já pronta na gaveta, caso alguém lhe oferecesse uma tal: “Elas por elas!’. Caloteiro é como macaco velho, não põe a mão em cumbuca.

Aprendi, que a verdadeira arte de se viver, é viver como preá, desconfiado com os ‘quixós’ que nos colocam nos caminhos diariamente. E só escorrega na casca da banana, aquele que não olha pro chão. E dizem, que o pior não é a queda, mas é o coice!

                Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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2 Comentários

  • Risalva A B Azevedo disse:

    E quem nunca levou um calote que atire o primeiro pix. Kkkkk…

  • Angela disse:

    Desse tipo ninguém escapa…ainda tem aqueles que se fazem de esquecidos (familiares, inclusive), outros que quando nos encontra diz”esqueci não, é que ainda não deu, tive tanta despesas esse mês”…e assim vão vivendo como bem querem. Os que emprestam é que tem que tomar cuidado.

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