A arte que o tempo esculpiu

Mariana Rodrigues – Psicanalista e Advogada e, nas horas vagas, cronista

Coloco Chopin no volume 33 (que é a idade de Cristo, eu gosto), deito no chão da sala, não no chão, no colchão que amortece a realidade dura, mas que ninguém diz pra não borrar a frase de efeito, e eis que reparo que o tempo deixa rugas até nas paredes.

Fico minutos que poderiam ser horas olhando três buracos, e como as bordas chamam mais a minha atenção do que o que falta de reboco. Decidi eleger um que me parecesse mais bonito, eu queria emoldurar a arte que o tempo escupiu. Não que os outros não tivessem sua importância, mas a vida nos convoca escolhas o tempo todo.

Bem simétrica que acordei hoje, escolhi o do meio, talvez uma homenagem a minha frase grega favorita: “In Medio Virtus”, e depois de falar essa ruma de coisa, é que vem o que me faz derramar uma lágrima nesse exato momento: Chopin ainda toca, mas agora no volume 27 (é minha idade de hoje), eu percebo que estou bastante calejada, mas que a rigidez provocada pelas cicatrizes me conservam algo sensível, e que consigo ver beleza nas bordas das minhas faltas, e que também consigo eleger qual a ferida mais bonita que existe em mim.

Vou emoldurá-la nas minhas lembranças e vou terminar esse conjunto de palavras com uma frase de Schopenhauer, porque ele é maravilhoso e tem a primeira sílaba do nome, com o mesmo som de Chopin, e eu adoro ler Schopenhauer ouvindo Chopin, não porque sou chique ou metida a besta, intelectual (sei que foi isso que você pensou), mas porque eles me fazem chorar com qualidade, o que quase ninguém me provoca nessa vida. “A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende.”

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