A arte de falar ao povo do senador Geraldo Melo

Muriu De Paula MesquitaJornalista

Os fogos de artifício e o carro de som nas alturas anunciavam a chegada do homem que as pessoas queriam ouvir. O sol escaldante aquecia as expectativas daquela gente amontoada ao redor do jipe willys azul e amarelo, que tinha uma capota adaptada em formato de tamborete. Banquinhos de madeira eram carregados por algumas pessoas, como também serviam para sentar à sombra de uma árvore frondosa, que é um achado valioso no calor sertanejo do Rio Grande do Norte. Estávamos no ano de 2006 e o comício era na cidade de Parelhas, no Seridó potiguar.

Uma senhora de idade avançada exibia um “santinho”, que havia guardado por 20 anos no baú da saudade. O panfleto trazia a fotografia de um então jovem político sorridente, alinhado aos contornos gráficos de um catavento. De repente, o locutor anunciou o momento mais esperado pelos que estavam ali presentes:

Vai falar… O senador do povo. O tamborete. O governador que construiu a barragem Boqueirão, aqui em Parelhas. O vento forte está de volta. Geraaaldo Melooo!

Foto: Blog Carlos Santos

Em meio aos aplausos de muitos e alguns olhares desconfiados, o senhor baixinho, vestido de camisa amarela, subiu ao palanque e recebeu o microfone. Um respeitoso silêncio pairou por um breve instante diante do orador com semblante maduro e confiante, que estava pronto para falar.

Geraldo Melo: – É natural, Parelhas, nós estarmos aqui hoje…

A narrativa conversada, simples e, ao mesmo tempo, densa parecia hipnotizar o público. O mote era conhecido: as obras estruturantes que o ex-governador empreendeu no combate ao flagelo da seca; a expansão como projeto de Estado do programa de distribuição gratuita de leite para gestantes e crianças de família carentes, iniciado nos anos 80 pelo então Prefeito de Natal, Garibaldi Alves Filho; e a lembrança de uma rígida política de segurança pública, que permitia tranquilidade à população do Rio Grande do Norte, entre 1987 a 1991, período em que Geraldo Melo governou o Estado.

Foto: Do blog Política Pauferrense

Eu trabalhava à época como repórter na TV Potengi e fui convocado para colaborar na equipe de comunicação da campanha ao Senado. Já havia feito várias fotografias do candidato e resolvi apontar a câmera na direção de um senhor, com seus 70 e poucos anos. Ele parecia estar em transe com o efeito das palavras que ouvia. Me aproximei e perguntei qual era o nome dele. A espera pela resposta foi quebrada pelo orador em pleno discurso:

– Por favor, vocês aí no meio façam silêncio que tem gente aqui interessada em ouvir, disse Geraldo Melo.

E ele tinha absoluta razão. Os olhares de reprovação lançados em minha direção por uma turma da linha de frente confirmaram isso. Confesso que fiquei desconcertado por alguns minutos. Só fui relaxar mais tarde no carro a caminho do hotel. Sem cerimônia, Geraldo Melo me explicou que não era bronca pessoal comigo, e sim um recurso para manter o público atento. Aos poucos, eu compreendia melhor como funcionava aquele espetáculo de fala espontânea, envolvente e popular, protagonizado pelo ex-senador. Havia, de certo modo, um roteiro central pré-definido, porém sujeito às variações de tempo, lugar, idiossincrasias e personagens, escolhidos a dedo em cada cidade. O encerramento do comício era apoteótico, interativo, como se cada um ao redor tivesse sido tocado por um processo de catarse, emoção e conexão profunda, que se materializava na adesão ao chamado:

Geraldo Melo – Agora, eu vou fazer uma pesquisa de verdade. Gostaria de receber um sinal de você, que me ouviu com atenção. Quero saber se posso contar com o seu apoio. Preciso de uma resposta. Um aceno de que as minhas palavras tocaram você de alguma forma. Se você está comigo vamos mostrar a nossa união, de um jeito simples e verdadeiro. Olhe bem pra mim. Erga os braços e demonstre o seu apoio com as mãos!

Um monte de gente correspondia e o candidato alcançava com aquele ‘grand finale’ o objetivo simbólico. Na política, um aperto de mão, abraço ou gesto físico de apoio têm profundo valor no processo de demonstração de popularidade e humanização do candidato. Porém, muitas vezes, passam longe de representar intenções reais de voto ou apoio incondicional. Na dispersão encontrei o mesmo senhor com quem eu havia tentado falar durante o discurso. E tirei uma dúvida pessoal:

– E aí… Vai votar no baixinho?

Meio cabreiro, como se diz no interior, ele confessou em voz baixa, quase ao pé do ouvido:

– Rapaz, desta vez não porque minha mulher trabalha para o outro lado. Uma pena, né? Quem sabe falar bem de verdade é o baixinho. Saí mais cedo do sítio só pra ouvir a conversa dele.

Mesmo sem contar nas urnas, estas interações sociais alimentam a alma dos políticos e servem como combustível para seguir em frente. No dia seguinte, demos uma pausa nas carreatas para um café, numa outra cidade da região. Um menino esperto ouviu parte da conversa entre os adultos e perguntou:

– É verdade que o senhor é senador? Ao que Geraldo Melo sorriu e respondeu:

Geraldo Melo: – De jeito nenhum. Isso é apenas um apelido, que estes cabras safados que andam comigo me deram. E agora todo mundo me chama assim.

A explicação agradou. O garoto abraçou Geraldo, o que rendeu uma foto para a página da campanha na internet. Na volta para Natal, aprontaram uma comigo. Marluce Arruda – a fiel escudeira de Geraldo Melo – contou para ele que eu era primo do advogado Joanilson de Paula Rêgo, que também concorria ao Senado naquele ano. A fofoca levantou a dúvida se eu iria votar no candidato para quem trabalhava. Fui salvo da intriga pelo próprio senador, que falou mais ou menos assim:

Geraldo Melo: – Muriu chegou na equipe agora. Ainda vai conhecer melhor as minhas propostas e, depois, fazer a escolha livre dele. Deixem o rapaz trabalhar!

Por descuido e azar, eu desconhecia à época a informação de que Geraldo Melo havia se dedicado, inicialmente, também ao jornalismo, tendo sido diretor do jornal Tribuna do Norte e exímio redator. Foi o amigo – também jornalista e empresário – Max Fonseca, que me fez o alerta:

– Tu vais conviver com uma mente brilhante. Uma figura exigente, e que domina como poucos a arte de escrever.

Eu não tinha lá muita experiência de vida e, tampouco, na função de assessor político. Só me restava ficar acordado horas a fio na madrugada para revisar minuciosamente os textos, selecionar fotografias e batalhar um sinal de internet, uma vez que o processo de inclusão digital ainda engatinhava naqueles tempos, no interior do Nordeste. O fato é que segui na missão com um misto de insegurança e alívio porque o senador não chegou a dar muito pitaco no meu trabalho. A parte positiva é que recebi dele alguns outros ensinamentos valiosos, que mantenho comigo até hoje.

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O ser humano Geraldo Melo passa a primeira impressão de ser um sujeito cordato, culto e habilidoso com as palavras, que alterna hábitos refinados e simples, como comer de modo elegante uma galinha caipira com graxa usando garfo e faca, sem sujar a camisa. Um homem prático, mais propenso a posturas firmes do que a leveza, e que carrega consigo, além da inteligência privilegiada, uma força interior impressionante.

Talvez pelo fato de ser um amante da aviação e ter pilotado o seu próprio avião quando governador, Geraldo Melo conhece a geografia do Rio Grande do Norte com uma visão diferenciada e sabedoria perspicaz. É capaz de identificar ao longe formações montanhosas, reservatórios de água e povoados, que se tornam mais interessantes, quando combinados com histórias e impressões pessoais daquele que assistiu e contribuiu com o desenvolvimento de muitos destes lugares, nas décadas de 70, 80, 90, adentrando o século XXI.

Foto: Blog de Flávio Marinho
Geraldo com Franco Mouro – Foto: Arquivo pessoal de Geraldo Melo

O acervo pessoal de fotografias de Geraldo Melo tem valor histórico inquestionável. São registros de encontros políticos e sociais com baluartes da política nacional, como Tancredo Neves, Ulisses Guimarães e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Comícios históricos ao lado do Ministro Aluísio Alves; dos ex-governadores Monsenhor Walfredo Gurgel, Garibaldi Alves Filho e Lavoisier Maia, entre tantos outros nomes da vida pública nacional. Lembro de ter visto ainda retratos de artistas, como Chico Buarque, Fagner e Jorge Ben Jor à vontade nos jardins da bela casa que o senador morou com a eterna primeira-dama Ednólia Melo por décadas, no bairro Lagoa Nova, em Natal.

Encontros políticos com baluartes da política nacional, como Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, aqui em Natal

Nos anais do Senado Federal há o registro de que Geraldo José da Câmara Ferreira de Melo participou, no ano 2000, como vice-presidente do Senado Brasileiro do Fórum dos Senados no Mundo, ocasião em que ele representou oficialmente o governo brasileiro, na reunião que ocorreu em Paris, na França. Citei tudo isso para destacar que Geraldo Melo é um nome que figura nos anais do Congresso Nacional como luminar da inteligência brasileira e nordestina, de quem saiu da pequena cidade de Campo Grande, antiga Augusto Severo, para representar o Brasil no Senado francês, que é um dos símbolos do espírito de organização social, civilização e liberdade da cultura ocidental.

Geraldo Melo (esq.) vice presidente do Senado Federal com o senador ACM (Bahia) Foto: Blog do Prof. Escolástico

Esta é uma crônica de evocação. Um registro muito grato pela convivência curta, agradável, e de aprendizagem com este ser humano íntegro, que trabalhou pelo povo potiguar, de quem foi representante legítimo por alguns anos. Independente de filtros ideológicos e falhas humanas ao longo de nossas jornadas, devemos reconhecer os talentos desses líderes, que tiveram o dom e a sensibilidade de interpretar sentimentos populares, e emprestaram suas vozes e mentes, na eterna busca por caminhos de desenvolvimento e equilíbrio social , que o Rio Grande do Norte e o Brasil tanto precisam.

PS. Escrevi e guardei na caixa virtual de mensagens esta crônica sobre um tempo de aprendizado em que convivi com o senador Geraldo Melo. A despedida física do ex-governador potiguar deste círculo da experiência terrena reavivou lembranças da oratória prodigiosa, do patrão afável e exigente, e do conhecimento vasto que ele tinha e compartilhava sobre política, jornalismo e o Rio Grande do Norte. Em 19 fevereiro de 2021, Geraldo Melo leu o texto que eu havia escrito para um possível livro de crônicas. Para minha surpresa, recebi naquele mesmo dia uma mensagem de incentivo de Geraldo Melo, que era um exímio escritor. Desejo de coração um descanso pacífico, e que Deus conforte toda família, amigos e admiradores.

Geraldo Melo – Foto: Tribuna do Norte

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