Dia: 10 de outubro de 2021

Falta de bairrismo e dominação cultural…

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Meus conselhos aos que querem viajar são sempre os mesmos: respeitar a cultura anfitriã. Conhecer de tudo e provar o que for possível as ditas coisas estranhas, nas bebidas e iguarias culinárias. Mas, não fiquem obrigados a nada. Tenha seu gosto e sua opinião próprias. Defenda com unhas e dentes a sua cultura tradicional de sua região. Primeiro a sua comunidade. Saindo de longe, voltem para suas origens. Andando pela região amazônica, não comi carne de jacaré e de macaco para agradar a ninguém que me ofereceu. Não é da minha cultura alimentar, como também não provo certas comidas asiáticas. Nos restaurantes chineses e japoneses em que fui, perguntei e olhei muito antes de colocá-las em meu prato. O que não deixei de admirar foram suas decorações e culturas milenares os acompanhando. As boas tradições deixadas pelos nossos antepassados, também deviam ser seguidas assim por nós. Nós, da geração dos envergonhados com nossos bisavós, os europeus, negros e índios.

Sou dos pouquíssimos da família que guarda ainda em molduras em minha casa as antigas fotografias de meus ancestrais. Uma parenta, os olhando, disse-me na cara: “Deus me livre de decorar minha sala com tantos mortos!”. Graças a Deus, esta pessoa não voltou mais aqui, pois na minha casa não entra quem renega suas origens e história. Ai de quem soltar uma piada com o retrato em preto e branco de meus genitores, do tempo de seu casório, em 1944. Geralmente, os covardes ‘dominados’ não elogiam os seus e nem nos contam suas histórias, porque lhes faltam o que se chama de ‘bairrismo’. Não é fanatismo se ter amor e defesa por seu passado e sua história. Primeiro os meus, a minha cultura, para depois divulgar e apreciar a lá de fora.

Recentemente, passando em frente a única televisão de minha casa, na sala, percebi um bate papo com um jovem engenheiro, com mestrado e quase doutorado. Era um maranhense, quando criança e adolescente era lavrador como os pais. Estudou em escolas públicas, mas, coitado, em seu dicionário não tinha a palavra ‘bairrismo’. E aqui não vou dar a classificação de dois dos meus: o Aurélio e o Houaiss. Todo mundo já está cansado de saber que eu sou um ‘bairrista’ juramentado. Só digo que o tal jovem maranhense disse que sua preferência musical era a tal da dona ‘Lady Gaga’. Não sei de quem se trata essa senhora, nem mesmo se a dita cruzar comigo na feira de Nísia Floresta. Até pensei que o citado jovem fosse nominar a genial cantora e instrumentista Alcione, a nossa maranhense ‘Marrom’. Não sei mesmo se o doutor de camisa listrada e anel no dedo, conhece algo sobre os seus ilustres conterrâneos, ‘Catulo’ e ‘Ferreira Gullar’. Será que ele viu alguma apresentação do tradicional ‘Boi Bumbá’, como eu? Ou será também que tomou o refrigerante ‘Jesus’, que eu tomei pela curiosidade do gosto?   

Boi Bumbá – Patrimônio Cultural do Brasil, orgulho dos maranhenses

E esse jovem sem bairrismo nenhum, até me fez lembrar de uma antiga reportagem do velho ‘Fantástico’ com um pobre jovem trabalhador que cortava cana na zona canavieira pernambucana. Passando fome, frio e calor de segunda a sábado e, no domingo, disse ao entrevistador global que era o seu dia de ouvir aquele Michael Jackson em sua radiola. Digo sempre nas escolas e pequenas cidades, como o Padre Vieira dizia lá no Estado do Maranhão, mesmo sem ninguém dar a mínima atenção, que a falta de cultura é um grande perigo e só nos faz elogiar o que não conhecemos e gostar das coisas vindas dos outros. Ouvir música sem saber a tradução não me entra nos ouvidos. É muito difícil valorizar a prata de casa. Conto a história do nordestino que passou poucos meses no Rio de Janeiro e voltou chiando mais do que tampa de chaleira e só reconheceu o caranguejo que tanta comia, porque o danado lhe atacou com a pata um de seus dedos: – “Mami, arretire esse bicho do meu dedo que eu não sei o que esse cara quer comigo!”.

Eu só sei que não sei quase nada e muito menos proferir palestras, mas até que conversar eu engano o povo ouvinte, quando raramente sou convidado pelas prefeituras e seus órgãos de cultura. Infelizmente, não sei imitar os saudosos folcloristas Leonardo Mota e Ariano Suassuna. O velho cearense Leota, o qual não conheci, fazia o povo rir com suas histórias e exemplos de bairrismos. Já o paraibano Suassuna, com quem eu conversei tantas vezes, não cansava de alfinetar os seus ouvintes com aquela história da ‘mulher mãe besta’, rica e sem cultura nenhuma, a qual antes de conhecer as belezas naturais e históricas do nosso Nordeste, tinha viajado e gastado o mundo e os fundos para bater uma chapa em Disney: “Eu sou chique, meus vizinhos!”.

O paraibano Ariano Suassuna – Foto: Sintonia de Cultura

E por falar em gente besta e sem cultura, recordo agora a minha resposta a uma dondoca metida a muito importante, a qual me perguntou em uma de minhas conversações em uma cidade do nosso Alto Oeste: – “O senhor que se diz tão viajado, conhece Santiago de Compostela?”. E eu em minha língua respondi: – Não senhora, mas conheço Canudos e Monte Santo, na Bahia. Juazeiro do Norte e Caldeirão, no Ceará e as Pedras Encantadas, na Paraíba. Trindade, no Goiás e Aparecida, em São Paulo. Ela, coitada, apesar de ter dinheiro, falta conhecer muita coisa da história de seu povo. Percebe-se logo nas conversas dos que preferem a Europa, o racismo e o preconceito com os nossos santos, feios e pretos. Nem o padre Cícero, branco de olhos claros, não foi canonizado ainda, apesar do bairrismo religioso do cearense.

MONTE SANTO/BA E SUA IMPORTÂNCIA NA GUERRA DE CANUDOS – Blog do Florisvaldo

Gostei de ver certos gestos de bairrismo por onde andei. Ouvi o ritmo musical do Carimbó, na região paraense. Lá provei do divulgado caldo de tacacá, o pato no tucupi, o suco de cupuaçu, o qual, mesmo delicioso, perde para a nossa boa e relegada mangaba. No Rio Grande do Sul, ouvi suas músicas e provei de suas iguarias. Vi seu folclore europeu. Admirei muito o seu tradicionalismo e trouxe de presente uma cuia de chimarrão. Provei do tal, mas confesso que sou devoto mesmo do nosso café com pão na manteiga. Falando na deliciosa mangaba, o comerciante de lanches da rodoviária de São José de Mipibu, o já amigo ‘seu’ João, ao me ver encostar no seu balcão, nem me pergunta e logo vai enchendo um copo do meu suco preferido, a mangaba: Repita, seu João, eu sou bairrista! Ele não entende e sempre sorri com minhas prosas. Fico só observando que sou dos poucos fregueses de seus sucos.

Exposição ″Little America″: soldados dos EUA em casa na Alemanha | Cultura  europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 26.03.2018
Soldados americanos influenciaram no cotidiano da cidade do Natal,
durante a Segunda Guerra Mundial

A maioria mesmo toma aquele refrigerante de cor preta dos americanos… cultura da desgraceira Segunda Guerra Mundial deixada em Parnamirim e Natal… as visitas aqui de casa, se espantam quando perguntam se tem algo doce para a sobremesa do almoço: – sim, nunca falta rapadura nesta casa abençoada!

O americano, é pai do tal chiclete, que logo superaria a nossa boa rapadura. A invasão cultural norte-americana é uma lavagem cerebral miserável, segundo a escritora Júlia Falivene Alves, (2013). E o jornalista Fernando de Barros e Silva, chama esse processo de ‘americanalhação’.

Alunos das Escolas e Ceis da Rede Municipal de Ensino realizam atividades  de Halloween - Município de Ponte Serrada
Algumas escolas realizam atividades com seus alunos, como o Halloween, valorizando uma cultura importada

Agora tem até dia das bruxas e coisas, que nem me atrevo a falar… (bati na mesa da sala agora mesmo, três vezes). Quando os ditos sabichões me perguntam se já li tal autor estrangeiro, eu digo que sim. Só não me respondem se eles leram os nossos geniais Machado de Assis, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Rachel de Queiróz, Graciliano Ramos ou Zé Lins do Rego, entre outros. Um dia em uma de minhas conversas lá em Martins/RN, para um público escolar jovem, eu os aconselhei a fazerem um curso sozinho sobre o amor e o respeito as nossas tradições. Ou seja, o bom ‘bairrismo’: façam meus jovens, uma leitura com calma e anotando as principais obras de Mário de Andrade, Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna e principalmente o nosso Câmara Cascudo.

E por falar no nosso mestre, lendo recentemente um dos livros que me esperam por falta de tempo mesmo, do jornalista e cronista Tom Cardoso, ‘Fora do Tom’, 2016, me deparei com a sua chateação com as crianças de seu condomínio, geração shoppings e internet, sem bairrismo nenhum. E esse, para finalizar seu diálogo, esbraveja com uma ótima recomendação cultural literária para reciclá-las de uma vez por todas: “Vão ler Câmara Cascudo, seus merdinhas!”.

Digo que concordo plenamente com o ranzinza e humorístico Tom Cardoso. Quem me conhece sabe que não gosto de palavrões, mas tem limites com os que só defendem o que não conhecem. Só ouve o que a língua estrangeira impõe nas mídias. Adora Lady Gaga, em detrimento das Glorinhas Oliveiras e Núbias Lafayettes…

Vão ler e reler Câmara Cascudo para amar seu povo e suas tradições culturais! O bairrismo em dose certa, na ocasião correta, cura muitos males do estrangeirismo imposto em nossas casas. ‘Na minha rede não’, já dizia o nosso genial forrozeiro, Elino Julião. De goela a baixo, só peru quando lhe dão farinha molhada para encher o papo. Na minha casa quem manda é a cultura deixada como herança de meus pais e avós. Não me venha com estrangeirismos e certas ‘culturas’. O grande sábio poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, ficou encantado quando leu a bíblia de nossas tradições, o ‘Dicionário do Folclore’, de Câmara Cascudo, que as escolas do RN, pouco leem, infelizmente!

É preciso saber a arte de se livrar das pedras, em nossos caminhos. E bendito seja o bairrismo, em nosso paladar, gosto literário e musical!

               Outubro. Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

BEM-VINDO, MR. BOND

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

O agente secreto britânico James Bond, ou melhor, 007 (os dois zeros representam permissão para matar), foi, ao lado dos Beatles e os artistas da Jovem Guarda, um ícone pop da minha geração. Havia pastas 007, anel, pulseira, todo tipo de quinquilharia, além das revistas de cinema e TV com imagens do espião sempre cercado de belas mulheres. Nunca imaginamos que seria tão longevo e que sessenta anos depois ainda estaria fazendo das suas.

Tive a sorte de ver o primeiro filme da série logo no seu lançamento, na inauguração do Cinema Panorama, nas Rocas, em 1967, ano do incêndio do Mercado Público da cidade. O Panorama trazia algumas novidades, como o piso em rampa e a tela curva. O Satânico Dr. No, primeiro filme do espião, apesar de ter uma história meio boba e um vilão idem, agradou em cheio. Acho que pela produção primorosa a começar pela abertura e a música-tema, sempre espetaculares. Ou ainda a sensualidade de Úrsula Andress saindo do mar em um pequeno biquíni branco.

O Satânico Dr. No, primeiro filme do espião 007

Acima de tudo a presença carismática de Sean Connery, perfeito no papel do agente frio, cínico e extremamente seguro de si.  A cada novo filme a trama e as cenas de ação passaram a ser mais bem elaboradas e sem dúvida o episódio seguinte, Moscou Contra 007, foi espetacular, com todas aquelas sequências de ação eletrizantes. Para os padrões de hoje a violência era mínima, mais sugerida do que exibida, assim como os corpos das mulheres.

Filme Moscou Contra 007

Desnecessário dizer que fiquei fã e vi todos os filmes da franquia enquanto Sean Connery era o dono do papel. Goldfinger, Chantagem Atômica, Só se Vive Duas Vezes, Diamantes são Eternos. Depois, os atores seguintes – Roger Moore mais parecia um mauricinho que um agente secreto – arrefeceram o meu entusiasmo que foi desviado para os livros de Ian Fleming, o criador de James Bond que, dizem, era leitura de cabeceira do presidente Kennedy.

O sucesso de 007 deflagrou uma onda de filmes de qualidade duvidosa e até séries de televisão. Algumas cômicas, como o engraçadíssimo Agente 86. O Agente da U.N.CL.E. Napoleão Solo, Flint, Matt Helm, Austin Powers, OSS 117, Modesty Blase, além de subprodutos como Missão Impossível, As Panteras ou os mais recentes Jason Bournes e Atômica, são todos filhos ou netos do 007.

A moda dos espiões alcançou também a literatura e teve em O Espião que Saiu do Frio, de John le Carré, com todas suas reviravoltas, o ponto mais alto. A onda era tão forte que até escritores como Graham Greene aderiram. Greene escreveu o ótimo O Fator Humano, sobre um agente duplo que age por gratidão e amor. Tudo isso, claro, tendo como pano de fundo a guerra fria. No Brasil, os livros de bolso de Brigitte Montfort empolgaram a rapaziada.

Muitos anos depois a magia de 007 voltou com força. O improvável Daniel Craig, ruivo e com um jeito rústico, agradou em cheio. E começou com o que aparentemente seria o menos atrativo dos filmes: O Cassino Royale, que se passa em um cassino de Mônaco em torno de uma mesa de bacará. Mas o que não se pode fazer com um bom ator, um roteiro preciso e boa direção?

Daniel Craig no papel de 007, no filme O Cassino Royale

Esse novo Bond surgiu mais frio, atlético e truculento do que nunca. Veio decidido a ser durão com todos, bandidos e até os chefes do MI-6, o Serviço Secreto inglês. Contra todas as possibilidades, quase fez com que esquecêssemos o 007 original.

Agora Daniel Craig anuncia sua retirada de cena e já se especula sobre o seu sucessor. Sai por cima, deixando os fãs com um gostinho de quero mais. O último filme é 007 – Sem Tempo para Morrer, já nos cinemas. Quem sabe não queira vir curtir a sua aposentadoria no Brasil, onde há muitas belas mulheres mas também tanto a se investigar e descobrir, tantos vilões esperando a hora de responder pelos crimes de rachadinhas, offshores, orçamentos secretos, planos de saúde acusados de trambiques criminosos, contrabando de madeira, contratos para compra de vacinas que não existem…

007 – Sem Tempo Para Morrer’ vence premiação antes mesmo de sua estreia

 É. Aqui, com certeza, 007 estaria muito ocupado, na verdade sem tempo sequer para morrer.

NATAL/RN

Narciso e as redes sociais

José Olavo Ribeiro – Aposentado do BB, bacharel em Administração. Autor do livro de contos “Portas Vermelhas” – 2016

A pane mundial no Facebook, Instagram e WhatsApp esta semana leva a pensar sobre os riscos, as vantagens e desvantagens das redes sociais.

Os nascidos após 2004 não conviveram sem esses aplicativos. As mensagens corriam através do telefone, e-mail e assemelhados. Se retrocedermos mais duas décadas nos deparamos com o telefone fixo, cartas, rádios, tvs, jornais, como formas de comunicação.

O avanço tecnológico recente em todas as áreas da atividade humana, tornou indispensável o uso da internet e das redes sociais. Indústrias, comércios, bancos, escolas, hospitais, serviços em geral só funcionam com tecnologia e comunicação eficiente.

Essa tecnologia, que nos parece mágica ao tocarmos o celular, depende de uma infraestrutura sofisticada ligada por milhares de cabos e fibras que atravessam continentes, monopolizadas por Mark Zuckerberg e outros poucos, que fazem suas regras priorizando o aspecto financeiro.  

 A lembrança de Narciso, um personagem da mitologia grega, me vem à mente. Ele representou um símbolo da vaidade, ao se apaixonar de forma intensa pela sua imagem. Encantado com a própria beleza, permaneceu na beira de um lago dias e noites, sem comer ou beber, apenas olhando seu rosto refletido nas águas.

 Como seria Narciso com as redes sociais? É fato que vemos pessoas agrupadas nos restaurantes, nas residências, nos mais diversos espaços, dedilhando seus aparelhos como se fossem proibidas de conversar entre si.

 A leitura de um bom livro, as caminhadas ao ar livre, a contemplação da natureza, tudo fica dependente do bip bip da notificação dos apps.

 Pessoas parecem viver em dois universos: o das postagens sorridentes e cheias de kkkkk e o mundo real, que cobra esforço, trabalho e lutas diárias.

Foto: Jornal Correio Eletrônico

Enfim, é importante refletir sobre o uso das redes, aproveitando seus inúmeros benefícios, sem se deixar alienar, num círculo vicioso e prejudicial.

 Nem oito, nem oitenta! 

SOBRE A ORIGEM DOS CONTRATOS

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Filósofa

Contratualismo é a teoria na qual se acredita que a origem da sociedade e do poder político está determinado em um contrato; um acordo tácito ou explícito entre aqueles que aceitam fazer parte dessa sociedade e se submetem a esse poder. Os nomes de três grandes pensadores ganharam destaque sobre o estudo reflexivo acerca das questões políticas nos séculos XVI a XVIII: Thomas Hobbes, John Locke e Jean Jacques Rousseau. Eles, porém, apresentam divergências em seus pontos de vista.

Para Hobbes, a tese de que a origem da sociedade política está num contrato, implica que esta sociedade nada mais é do que um artifício. O homem firma contrato porque teme a maldade do seu semelhante. Segundo ele, “o homem é lobo do próprio homem”, daí a necessidade de um contrato para protegê-lo do outro.

Thomas Hobbes

É necessário que exista um poder acima das pessoas, para frear o instinto animal que habita dentro de cada homem, uma vez que dentro deste ser, vive um desejo de destruição e de domínio sobre os outros seres de sua espécie. É necessário, portanto, que o homem estabeleça um contrato para: 1. Resguardar-se do medo do outro; 2. Fugir do estado de natureza, ou estado de guerra.

As ideias defendidas por Hobbes são as de que, antes da instituição do contrato, os homens não tinham propriedade privada. Tudo o que havia no universo pertencia a todos. Assim, se um homem tomasse conta de um pedaço de terra, por exemplo, não havia qualquer garantia de que aquela terra lhe pertencesse de fato. Outro homem poderia se apropriar dela, já que não havia como provar o direito de posse.

Antes da instituição de um governo comum, os homens, segundo Hobbes, viviam em estado de natureza ou estado de guerra e tinham todas as razões para desconfiar dos seus semelhantes. Havia três razões para as discórdias: a competição, a desconfiança e a glória. Vivendo livre, o homem pode fazer o que bem entender, visando a realização de seus interesses pessoais.

Mas eles passam a sentir a necessidade de algo que possa lhes garantir paz, segurança e tranquilidade. É então que surge o contrato instituído pelo estado objetivando garantir a segurança.

Locke, por sua vez, defende a teoria de que os homens em estado de natureza viviam em harmonia; eram dotados de razão e possuíam suas próprias terras. Segundo ele, a terra seria um direito coletivo, porque foi doação divina e assim, trabalhando a terra, o homem se torna dono dela. O estado de natureza ou de guerra se dá no momento em que um homem tenta tirar do outro aquilo que lhe pertence.

John Locke

Para Locke o estado passa a existir em virtude da necessidade que o homem sente, de que haja um poder acima da força de cada homem, conforme seus interesses. Desse modo, cada um escolhe livremente o seu representante e delega-lhe poderes, para garantir seus direitos. O estado, porém, deve preservar o direito à liberdade e à propriedade privada. Locke defende a ideia de que o poder não pode ser absoluto e, portanto, não pode ser hereditário.

Para J.J.Rousseau, o homem é essencialmente bom; é a sociedade quem o corrompe. Para ele, o povo é detentor da soberania, uma vez que é o povo quem escolhe seus representantes. A estes representantes, portanto, é dado poderes em nome do povo; as ações deste representante devem ser voltadas para o bem do povo.

Jean Jacques Rousseau

Segundo Rousseau, os homens renunciaram à sua liberdade natural para conquistarem sua liberdade civil.

NA CASA DO MEU AVÔ

Roberto Patriota – Jornalista e escritor

Poderia afirmar sem pensar muito que ele foi um dos homens mais civilizados que conheci em toda a minha vida. Sentava-se a mesa com elegância e comia como um lorde inglês. Falava manso e era bastante cordial com todos. Morava em um amplo casarão cheio de janelas e pé direito altíssimo no centro de Nova Cruz, bem próximo a via férrea.

A antiga estação, já desativada, não estava mais abandonada em 2015. Adquirida pela Prefeitura Municipal, foi doada ao Governo do Estado do Rio Grande do Norte, que a transformou na Casa da Cultura Lauro Arruda Câmara. Ela fora totalmente recuperada por técnicos da Fundação José Augusto, com orientação do Patrimônio Histórico, preservando-se suas linhas arquitetônicas. É um monumento da história do transporte ferroviário de passageiros do nordeste, infelizmente desativado. Nova Cruz, por muitos anos, foi o elo de ligação entre Natal e o Recife

De temperamento ameno, estava sempre muito bem vestido e barbeado, costumava ser impecável com o trato pessoal. Foi ele, quem me deu as primeiras dicas de como me portar socialmente. Por mais de trinta anos ele foi um autêntico líder político do Agreste Potiguar e ao lado de amigos, como, Celso Lisboa e Lula Moreira entre outros, fundou a UDN – União Democrática Nacional após a redemocratização do país em 1946. Na época eram expoentes do partido a níveis, regional, sendo Dinarte Mariz e Carlos Lacerda respectivamente, representantes estadual e nacional. Respirava política todo o dia, por isso sua casa vivia cheia de gente na busca por favores ou para uma simples conversa sobre o trivial de Nova Cruz.

Das memórias da infância, lembro de como era atencioso com os que o procuravam em busca de ajuda. O sofrimento dos que passavam por momentos de aflição, trazia-lhe lágrimas aos olhos. Era um homem que sentia compaixão facilmente. Este homem probo, honesto, sério e ameno era Adauto José de Carvalho, mais conhecido por Adauto Carvalho, meu avô materno. Ele chegou à Nova Cruz em 1916, vindo da Serra da Raiz, localizado no vizinho Estado da Paraíba.

Quando chegou no Agreste potiguar com apenas 17 anos de vida, foi logo iniciando sua trajetória comercial vendendo vários produtos da região, inclusive o algodão na sua fase áurea e se consolidando comercialmente. Já rapaz feito e com a vida econômica organizada, se casou com Alice Pereira. Ela era filha de dona Joaninha, figura bastante estimada e conhecida na cidade porque explorava o ramo de hotelaria, e pela sua pousada passavam viajantes da Paraíba e de todo o Rio Grande do Norte. Quando se instalou comercialmente em Nova Cruz nos anos 30, fundou uma indústria de couro, tornou-se proprietário rural e em consequência um dos maiores criadores de gado da região por longos anos.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Nova Cruz ( foto atual)

Visando consolida-se e ampliar os negócios ele entrou em uma empreitada empresarial considerada ousada para a época: uniu-se no inicio da década de 60 – a Boanerges Barbalho e ao Dr. Gilberto Tinoco, dentista e seu amigo e correligionário. Essa união propiciou a aquisição do acervo da firma João Câmara & irmãos S.A; que posteriormente veio a transformar-se no Consórcio Algodoeiro de Nova Cruz S/A.

Ele era um homem simples, ligado as coisas do interior, mas constantemente fazia incursões por Natal para participar de reuniões políticas e rodadas de pif-paf no Natal Clube, ao lado de amigos como o deputado Djalma Marinho, José Brilhante, Major Teodorico Bezerra, Elói de Sousa, Gilberto Tinoco e tantos outros. Quando criança costumava brincar com meu irmão Ricardo, rolando nas montanhas de algodão do seu Consórcio Algodoeiro. O Consórcio ocupava um grande prédio as margens da linha férrea, havia sempre muita movimentação por lá, além de uma grande quantidade de trabalhadores e era secretariado por Celeste Paiva, novacruzense que anos mais tarde viria a se casar com o tourense Miguel Neri.

Nas férias em Nova Cruz costumava passear pelas ruas na companhia do meu avô. Nessas ocasiões, ele era quase sempre abordado por eleitores, muitos se aproximavam dele simplesmente para cumprimentá-lo, outros para pedir um conselho ou buscar alguma ajuda. Foi um homem respeitado e um político bastante querido pelo povo de Nova Cruz durante toda sua vida.

Politicamente ele foi sempre ligado a Totô Jacinto, Lula Moreira, Antônio e Lauro Arruda, mas após a redemocratização do país em 1946 houve um rompimento, considerado bastante traumático. Da cisão ficaram Lauro e Totô no PSD – Partido Social Democrático, já meu avô e Lula Moreira entraram na UDN – União Democrática Nacional.

A partir daí a política de Nova Cruz entrou na fase do radicalismo. Havia insultos e inimizades pessoais entre os líderes. Os partidários brigavam nos bares e esquinas defendendo suas cores com exagero e até confusões com tiro para o alto aconteceu. Mesmo sendo detentor de uma grande liderança por muito tempo, ele não buscou voos mais altos na política novacruzense, contentava-se em ser o chefe político do seu grupo partidário, o “líder”.

Recusou diversos convites para se candidatar a cargos eletivos. Mesmo assim, foi eleito vice-prefeito numa composição que teve Totô Jacinto como cabeça de chapa, aceitou candidatar-se para fortalecer a legenda e viabilizar a eleição do amigo. Ele se elegeu e Totô Jacinto perdeu a eleição.

Depois de 1962, a par da nova tendência político-partidária ele foi aos poucos se afastando da política sem se afastar de Nova Cruz. Era um homem determinado e tinha muita confiança em si, e gosto pelo comércio. A partir dessa fase passou a dedicar-se mais a atividade empresarial. Sabia como navegar em suas águas e, nesse campo, usando de suas habilidades políticas aderiu ao movimento sindical patronal, passando a estreitar seus laços com os empresários da capital.

Em 1948, participou das comitivas empresariais pelo Estado e engajou-se na luta pela criação da Federação do Comércio do Rio Grande do Norte, tornando-se um de seus fundadores. Era um homem do interior com maestria de homem da cidade grande. Durante quase toda a sua vida, mesmo morando em Nova Cruz passava alguns dias da semana em Natal. Ficava hospedado na casa dos meus pais na Cidade Alta, antigo centro da cidade. Ia para resolver negócios, mas também para ver os amigos, curtir a filha única e os netos.

Dessa época tenho as melhores lembranças da minha infância. Faleceu em 1985, aos 84 anos. Foi um exemplo como homem, pai, avô, empresário e político.

O OURO DO MAR

Chagas Lopes Editor do Jornal ONDA

Vamos falar da Norte Pesca S/A que surgiu em nosso cenário na década de 1970, instalando-se em Natal na Rua Chile, 216 – Bairro da Ribeira, em meados de 1972, uma filial da matriz de Recife/PE. No ano de 1976, ingresso na citada empresa para trabalhar no almoxarifado, nesse ambiente, tenho a sorte de conhecer pessoas, e fazer amizades com todos, também um ano de uma grande safra da lagosta. Conheço “mestres” da pesca, pescadores simples e até mesmo os armadores de embarcações, até padrinho de uma filha, consegui com as amizades.

Popularmente, “história de pescador” é sinônimo de exagero, lorota, vantagem, e mesmo mentira. Espero que este, demonstre que para além da gaiatice, existe uma história que modificou em muito o cenário do litoral natalense e brasileiro nas últimas décadas e que está viva na memória e no cotidiano de seus protagonistas.

O surgimento da indústria da pesca de lagosta no RN traz o impacto de uma nova atividade econômica e social no cotidiano de pescadores potiguares e de suas famílias. Isso foi alcançado, sobretudo, a partir da chegada da Norte Pesca S/A em Natal, os pescadores de comunidades litorâneas do interior do Estado do RN, particularmente os de Tibau do Sul e Barra de Maxaranguape.

– “Pesquisadores concordam em afirmar que a pesca da lagosta para fins comerciais teve início, no litoral do RN, em 1965, “utilizando típicas embarcações de pesca artesanal do nordeste brasileiro, de baixo rendimento e raio de ação muito limitado, que operavam usando covos (manzuás) e gérérés” –

 Tiveram a sorte de serem escolhidas como base de apoio a Norte Pesca S/A. Com esses profissionais que atuam nas áreas da pesca, a empresa ofereceu oportunidades de qualificação à comunidade que desejava se inserir no mercado de trabalho pesqueiro, com vistas a aumentar as receitas provenientes da atividade nos municípios. Com a chegada da base da Norte Pesca nesses dois municípios, surge as colônias de pescadores; em Tibau do Sul, instala-se a Z-12 e em Barra de Maxaranguape surge a Z-15.

“As Colônias de Pescadores surgiriam no século XX, em 1919, e, assim como os Distritos, tinham como objetivo segregar os pescadores para que servissem de reserva para Marinha de Guerra, mas traziam um novo aspecto: reuni-los para melhor controlá-los, atendendo aos interesses de quem detinha o poder econômico na pesca”.

Antônio Vicente, morador de Tibau do Sul, mais conhecido por “Sêo” Vicente foi, ao longo dos anos, um armador iniciante, consegue através do seu irmão, vereador da cidade, comprar um barco para, em sociedade, partirem para a pesca da lagosta. Empolgado com tanta fartura da pesca e o dinheiro entrando em seu bolso com mais frequência, resolve usufruir de forma não tanto normal. Gastar nas noitadas da Ribeira, no seu imaginário, o dinheiro nunca acabaria. “Sêo” Vicente juntamente com a tripulação do seu barco resolve conhecer a Boate Arpeje, situada no Edifício Galhardo, que ficava vizinho a Norte Pesca, no número 161, da Rua Chile.

– Segundo Gilmar de Siqueira Costa, um dos aspectos mais curiosos relacionados ao Edifício Galhardo é o fato de ter sediado durante muito tempo uma das mais famosas casas de meretrício do Nordeste – o Cabaré Arpeje. O autor aponta como sendo uma “casa de recursos vinculada à cultura da boemia e dos cabarés, geradora de toda uma série de mitologias e anedotas referentes a personagens destacados na vida social, no decorrer do seu tempo de atuação”.

Na Boate Arpeje, ele era tratado pelas prostitutas como um grande armador da pesca da lagosta, com os bolsos cheiros de dinheiro e uma concubina ao lado, as coisas ficam divertidas, e quando ele com voz rouca e pausada pede para encerrar as atividades para os próximos clientes da noite, e as despesas à partir daquela hora – 21h – era sua. As poucas pessoas que ainda estavam no recinto, ficaram surpresos com a proposta e despesa. Isso, porque elas não sabiam de quem se tratava, mas “Sêo” Vicente costumava gastar o seu dinheiro de modo diferente, não tinha orçamento nem objetivos para o futuro, sabia que no dia seguinte, tudo voltava ao normal.

Boate Arpeje, no bairro da Ribeira, em Natal/RN

Como não houve um sonho e um planejamento com o seu dinheiro, hoje ele reside em uma casinha no conjunto Nova Natal. Falando em traçar objetivos, vale a pena ressaltar que você deve começar aos poucos. Não adianta querer economizar 30% do salário se você já comprometeu boa parte da sua renda em prestações. O ideal é pagar as dívidas e ir guardando o quanto der, até o momento em que você conseguirá economizar o percentual desejado.

De volta ao passado… (72)

A foto foi batida na Praça Desembargador Celso Sales, restaurada na gestão do prefeito Janilson Ferreira, quando era bastante arborizada e tinha bancos para as pessoas sentarem sob as inúmeras árvores plantadas naquele aprazível lugar. Morando nas proximidades da praça os “meninos” aperrearam a avó, dona Zefinha (atualmente, com 100 anos), viúva do saudoso “Zé da Bicicleta”, para “tirar um retrato”. E lá se foi a avó para satisfazer a vontade dos netos… Na foto, vemos: os netos Fabiano, Kerinho (ex-presidente da Câmara Municipal de São José de Mipibu), José Carlos, Michele, Ricardo, dona Zefinha e Alex.

A foto foi batida em 1978. Lá se vão 34 anos…