Dia: 3 de outubro de 2021

Nati Cortez: A pioneira natalense do cordel impresso

Maria Natividade Cortez Gomes no banco do jardim de sua residência na rua Felipe Camarão, 453, Cidade Alta/Natal, em 1980. Foto: Historianatividade

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Quem escreve sabe que é demasiadamente cobrado pelos seus leitores.  Você nunca mais tocou naquele assunto? Confesso que faz tempo que não toco neste tema, só de vez em quando eu troco algumas informações com o sério pesquisador de temas populares e grande amigo Kydelmir Dantas. Hoje, residente em seu chão nascedouro, Nova Floresta/PB, que rastreia o cordel nordestino há décadas. O referido escritor, como todo pesquisador, é irrequieto e sempre viaja, visita sebos e aonde quer que haja informações a respeito de suas pesquisas. Não conto suas visitas aos meus arquivos. E nem precisa dizer-lhes, que foi o dito o instigador que me deu o mote deste domingo. Como diz o sábio povo interiorano: ‘cutucou onça com vara curta’. E como dizem, não dê assunto a velho e pedra a menino, pois a desgraça vem ligeiro, como dizem.

Longe de querer ser crítico, mas atualmente percebe-se pouca seriedade, inovação e criatividade no âmbito das pesquisas do nosso antiguíssimo folheto de feira, como conheci na casa do primeiro grande vendedor e distribuidor desses, o saudoso casal seu ‘Antônio Emídio’ e dona ‘Maria Amélia de Jesus’, na Avenida Coronel Estevam, 325, no meu bairro do Alecrim.

Casa simples e desnivelada do calçamento da rua e frequentada por poetas, violeiros, folhetistas vendedores e colecionadores. Ponto de venda de folhinhas do Coração de Jesus, almanaques, livros de orações e os procurados folhetos e romances. Nos meados dos anos 70, eu chegava lá para comprar meus primeiros exemplares: – Dona Amélia, o que a senhora tem aí de novidades em folhetos? A palavra Cordel não era usada ainda nas feiras e mercados. Eram mesmo, os folhetos ou romances. Quando procurei um fotógrafo para registrar o local, seu Emídio já havia partido e foi ao lado de dona Amélia que ‘batemos uma chapa’. Ela ainda em luto fechado, como se vestiria o resto de sua vida, até sua partida desta, nos anos 80. A referida dona Amélia, foi a primeira mulher a comercializar a nossa literatura de Cordel, em Natal. Comércio, antes reservado só aos homens.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é image-28.png

E quando eu chegava em sua casa, logo me intrigava ao não ver folhetos com autorias femininas. Só os homens publicavam as fantásticas e belas histórias de reis, rainhas, valentões, tragédias e cangaceiros. Se as mulheres publicavam seus folhetos usavam pseudônimos. As mais corajosas andavam com suas violas debaixo do braço, mas não iam para as ditas ‘bancadas’ escreverem suas histórias em forma de literatura de Cordel. Os renomados pesquisadores anteriores a mim, como Câmara Cascudo, Veríssimo de Melo, Gumercindo Saraiva e Umberto Peregrino, em seus trabalhos sobre a temática, não nos deixaram rastro algum dessa presença feminina em Natal, antes dos anos 70.

A nossa poesia popular rimada e metrificada escrita do RN, já tinha sido acusada na pesquisa de viagem do genial Mário de Andrade, quando aqui esteve em 1928 e levou consigo para São Paulo/SP, vários folhetos do romanceiro sobre Lampião, principalmente contando a sua trágica derrota em 1927, em Mossoró. Só homens, como seus autores. Nada de surgimento das mulheres, as quais pareciam preferir escrever e publicar outros gêneros literários há tempos.

Quando publiquei minha longa pesquisa na área, intitulada ‘Dicionário de Poetas Cordelistas do Rio Grande do Norte’, 360 páginas, editora Queima Bucha, Mossoró/RN, de 2004, reuni mais de uma centena de poetas, entre eles homens e mulheres. Na referida obra (atualmente esgotada), página 187, está o nome da nossa pioneira natalense na publicação de folhetos em Cordel: a escritora, teatróloga e ufóloga Nati Cortez. Irrequieta dona de casa e mãe de uma dezena de filhos. Maria Natividade Cortez Gomes, nasceu em Natal/RN, no bairro da Ribeira, em 8 de setembro de 1914. Filha de Manoel Marcolino e Maria Gomes da Silva. Casada com o comerciante Manoel Genésio. Encantada em sua terra berço, em 02 de maio de 1989.

https://i1.wp.com/4.bp.blogspot.com/-3dEg1HmznYs/SyDH2RBTulI/AAAAAAAAABY/LEXB0emD_mc/s1600/nati.jpg?resize=580%2C971
Maria Natividade Cortez Gomes foi a pioneira na literatura e teatro infantil no Estado do Rio Grande do Norte.Foto escaneada e recuperada por Henriette Cortez.

Desde os anos 60 que Nati Cortez vinha publicando seus trabalhos literários e sabe-se que também chegou a publicar outros títulos em Cordel, entre eles: – ‘Brasil – Tri campeão do Mundo’, 8 páginas, 1970; ‘Os Discos Voadores’, 16 páginas; ‘A Vitória do Candidato Agenor Maria ao Senado do RN’, 8 páginas, 1974 e em 1976, ‘O Mistério dos Discos Voadores’, em formato de plaquete, com 51 páginas, através da antiga CERN. Quando procurei através de seu filho e meu amigo jornalista, pesquisador e escritor Luiz Gonzaga Cortez, (1949-2019), este me disse que parte dos escritos de sua mãe foram perdidos, pelo tempo e a traça. Com muita paciência e faro de pesquisador, eu ainda consegui pelos sebos de Natal, dois de seus folhetos em Cordel.

Também cheguei a vê-la pessoalmente algumas vezes entre 1983 e 1988, mesmo com os cumprimentos formais de visitante em sua casa de terreno espaçoso. Sempre recebido com café e poucas conversas, levado pelo seu filho Gonzaga, o jornalista. A referida casa, hoje demolida é espaço para estacionamento, esta ficava na Rua Felipe Camarão, 453, Cidade Alta. Eu a conheci ainda bem jovem, mas já nas pesquisas cordelísticas. Um de seus filhos, o Miguel Cortez, era assíduo frequentador do finado ‘Café São Luiz’, da Rua Princesa Isabel e me tinha muita estima, sempre antecipadamente pagando a ficha do meu cafezinho assim que me via chegar naquela saudosa universidade popular natalense. Além das amizades que tive com outros de seus filhos.

Nati é referendada também no meu livro ‘A Presença Feminina na Literatura de Cordel do RN’, páginas 163 e 164, Editora 8/Queima Bucha, 2015. É patrona das Academias feminina e da Literatura de Cordel do RN (ANLIC). É citada nos trabalhos sobre Trovas, de Gumercindo Saraíva e Aparício Fernandes. Também é nome relacionado no excelente livro bibliográfico do confrade escritor do IHGRN, Francisco Fernandes Marinho (2010), entre outros livros e revistas.

Aqui está hoje, meus caros leitores e leitoras, apenas um pouco dessa brava poetisa que enveredou com seu nome nas capas de folhetos da nossa literatura de Cordel, com pioneirismo natalense. Foi também pioneira nos escritos do teatro infantil, segundo a pesquisadora e escritora Sônia Othon, bem como presença feminina marcante nos estudos da ufologia.

Nati Cortez escreveu peças teatrais para crianças e adultos, enfocando temas relacionados a ufologia e a vida de Natal nos anos 20/30/40 do século passado. Reprodução de foto (sem data) enviada por João Maria Cortez G. de Melo . Extraída da Historianatividade

E como estou velho de saber que a minha Natal não tem muita memória para o seu passado, difícil de lembrar de seus filhos e filhas ilustres, sendo natalense do bairro do Alecrim, digo com justiça e reconhecimento que a quixotesca escritora e cordelista Nati Cortez é nome que não deve ficar no esquecimento, principalmente pelos seus relevantes feitos e pioneirismos. Só não sei se já foi lembrada e homenageada denominando praça ou rua, pois se não o foi, certamente deveria, senhores e senhoras, vereadores da minha cidade do Natal. Cidade, segundo o mestre Câmara Cascudo, que nem consagra e muito menos desconsagra, os seus! E eu completo: só esquece, infelizmente!

             Outubro, Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

COSME E DAMIÃO

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Atenção, caro leitor(a)! Para ler chupando balinhas

Só vamos compreender o fenômeno religioso quando entendermos o que é sincretismo, a influência que umas religiões exercem sobre outras na prática e crenças. A Umbanda, por exemplo, única religião realmente brasileira, é um mix de catolicismo, candomblé e espiritismo. No congá da Umbanda cabem, democraticamente, Jesus Cristo e Maria de Nazaré, os Orixás do Candomblé, ciganos, santos católicos como São Jorge e São Sebastião, imagens de Pretos Velhos, Caboclos, Marujos, mestres Juremeiros, Malandros, Pombas Gira e até o padre Cícero Romão Batista e a escrava Anastácia têm o seu lugar assegurado. Tudo muito junto e misturado.

Já vi o terço inteiro com todas as 50 Aves Marias e seus mistérios e glórias ser rezado no mesmo terreiro em que havia o Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec sobre o peji. E quanto à assimilação dos santos do panteão católico no terreiro? Como entender que Santo Antônio de Pádua, franciscano português, intelectual, grande pregador, tenha se tornado Ogum? São Sebastião, centurião romano, mártir cristão que morreu executado a flechadas, surja nas giras como Oxóssi guerreiro, protetor das matas?

O que pensar de Santa Bárbara da Nicomédia, degolada pelo próprio pai, que tornou-se a Orixá negra Iansã, a esplendorosa rainha dos raios e das tempestades? Isso tudo só é possível no espaço sagrado dos terreiros e dentro da facilidade que as pessoas do povo têm de compreender com o coração e de não criar obstáculos para o que vem de debaixo do barro do chão e do fundo do sentimento.

Além disso, as religiões têm sempre duas vertentes; a intelectual, representada pelos pensadores e teólogos, que elaboram os dogmas e tentam dar um ar racional às coisas da fé; e a popular, perene, incontida, espontânea e herdeira de tradições diversas. Passada de boca em boca, de pai pra filho, de geração pra geração, de mestres para iniciantes. Essa fé popular faz Santo Antônio ser pendurado de cabeça pra baixo para as moça arranjarem casamento.

Faz também as pessoas fazerem fila para esfregar notas de dois mil réis no corpo do Senhor morto. Ou dona Penha, minha mãe, guardar a vela da minha primeira comunhão para os dias de escuro de que fala o Apocalipse. Dona Penha rezava a Salve Rainha até “mostrai-nos” para só concluir depois de achar o objeto perdido. E às vezes recorria a São Longuinho (Longino, soldado que espetou a lança em Jesus, segundo a tradição): “São Longuinho, São Longuinho, se eu achar dou três pulinhos”, sem nos explicar o que são Longuinho faria com os seus três pulos.

Comemoramos, na última segunda-feira 27, a festa dos santos Cosme e Damião. E até nisso a história desses santos gêmeos é rica e representa bem as artes do sincretismo, porque o dia 26 é a data oficial, do cânone católico, mas no dia seguinte os terreiros de Umbanda de todo país realizaram festas para as crianças, com balas, pipocas, doces e refrigerantes para saudar as crianças ou cosminhos, como preferem alguns. Quando criança moramos próximos a uma fábrica de confeitos e no dia dos santos os fogos espocavam e balas eram distribuídas pra garotada.

Na Umbanda surge um terceiro irmão, Doum, menor que os outros dois, representado em algumas imagens. Nos terreiros cantam: “Cosme e Damião/Damião cadê Doum?/ Doum foi passear no cavalo de Ogum”. E os espíritos de crianças surgem, divertidos, alegres, se lambuzando com os doces e pipocas, brincando com todos e pedindo a benção aos tios e tias. Zezinho, Mariinha, Crispim, Doum. Eles nos contam em tom de fofoca que Doum tá nuzelo, pois foi assim que morreu. – “Doum não tem roupas, tio”. E haja risadas. E continua a cantoria: “Papai mandou um balão / com todas as crianças que tem lá no céu / tem doce mamãe/ tem doce mamãe/ tem doce lá no Jardim”.

A essas alturas você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com Cosme e Damião, pois eles eram adultos, médicos, nascidos na Ásia Menor, e nem esse nome tinham, eram, na verdade, Acta e Passio. Como eles vieram se tornar, no Brasil, os gêmeos orixás ibejis, filhos gêmeos de Iansã e Xangô? Há até os que, com ares eruditos, remetem a tradição aos antigos mitos gregos, afirmando serem os nossos queridos cosminhos versão “moderna” dos filhos gêmeos de Zeus, Castor e Pólux. Dá pra ver que a história vai longe.

São Cosme e Damião realizando uma cura milagrosa através do transplante de uma perna. Pintura a óleo atribuída ao Mestre de Los Balbases, cerca de 1495.

A nós interessa a riqueza da tradição, o saber e a prática popular, ameaçados hoje em dia pela intolerância religiosa que em tudo vê a presença do diabo, até nos inocentes doces distribuídos com muito amor pelos devotos. Saberes que misturam sem o menor preconceito, santos, ibejis e figuras mitológicas em nome da alegria e devoção. Alegria, aliás, que é a característica principal dos Erês, crianças queridas. Cantemos, portanto, sem discriminação alguma, saudando as crianças todas do grande jardim:

São Cosme e São Damião
Sua santa já chegou
Veio do fundo do mar
Que Santa Bárbara mandou
Dois, dois, Sereia do mar
Dois, dois, Sereia do mar.

NATAL/RN

LIBERDADE, PARA QUE VOS QUERO?

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Filósofa

O existencialismo é um conjunto de doutrinas filosóficas cujo tema central é a análise do homem em sua relação com o mundo. É também um fenômeno cultural, que teve seu apogeu na França do pós-guerra até meados da década de 1960, e que envolvia estilo de vida, moda, artes e ativismo político. Como movimento popular, o existencialismo influenciou a música, teatro e o cinema.

Este movimento filosófico, que se inspira principalmente nas ideias de Heidegger e de Kierkegaard, tem em J-P. Sartre um de seus maiores representantes. O existencialismo defende algumas ideias tais como a negação acerca da existência de uma essência universal em cada homem, assim como nega que esta essência seja atributo de Deus;

Jean-Paul Sartre

Como a existência precede a essência, para os defensores desta doutrina não existe um Deus que nos defina como homens. Desse modo, o homem nasce e somente depois é que constrói sua essência a partir de suas ações no mundo. O homem, portanto, é o único responsável por aquilo que ele é.

Para os existencialistas o homem é um ser marcado pela consciência da morte e da finitude. O homem também é o único animal que sabe que vai morrer e busca sua identidade absoluta, mas fracassa e passa a ver sua existência como absurda, solitária e sem sentido.

Na concepção do existencialismo o homem acredita que Deus o criou, mas na verdade foi o homem quem criou Deus. Tal criação, porém, se revela inútil porque o homem jamais chegará a ser como Deus; jamais atingirá o absoluto e, assim, ao homem só resta a liberdade – fonte de toda angústia humana, porque o homem é condenado a ser livre, mas a liberdade o leva ao desespero.

O homem alienado recusa essa liberdade porque não quer assumir os riscos e os desafios que tal decisão implica. Teme confrontar o vazio de sua própria existência. Desse modo, secretamente, os homens tornam-se seres vagos, sem energia, amorfos e tristes.

Dentre os pontos positivos do existencialismo destaca-se o fato de que tal doutrina tira de Deus a responsabilidade de cuidar do homem e permite que o homem seja um ser livre. O movimento existencialista foi marcante para a Filosofia, literatura, música, teatro e cinema.

O movimento também tem seus pontos negativos, tais como a falta de interesse visível em Deus, na Bíblia, na religião ou nos valores espirituais. Nega o estudo da Bíblia, a oração e as atividades religiosas perdem a importância.  O dinheiro, o álcool, as drogas, o sexo, enfim as futilidades da vida humana tomam o lugar de Deus na vida das pessoas.

O pensamento existencialista pode ser visto em algumas músicas de Roberto Carlos, como As curvas da estrada de Santos, Traumas e Todos estão surdos, entre outras. Também está presente em poesias de Cecília Meireles (Retrato), Augusto dos Anjos (Psicologia de um Vencido) e Martha Medeiros (Morre devagar). A obra de Salvador Dali e Vincent Van Gogh também existencialistas.

As irmãs inimigas

Foto: Ilustração

*Franklin Jorge – Jornalista e escritor

As duas irmãs vivem enclausuradas numa rixa que aparentemente não tem fim. Nenhuma delas consegue explicar os motivos que as levaram a tamanho desentendimento que começou quando ainda eram muito jovens. Únicas sobreviventes duma numerosa e tradicional família do Assú, digladiam-se há mais de setenta anos por nenhum motivo, apesar de se amarem muito. Julieta e Julia não conseguem viver separadas e por isso se atacam mutuamente a qualquer pretexto ou sem nenhum pretexto.

Sobrado na Praça Pedro Velho, em Assu/RN, atualmente desfigurado.
Foto: Blog Assu na Ponta da Língua

De ascendência açoriana, residem desde 1973 numa modesta casa geminada à Rua do Córrego, atualmente denominada Aureliano Lopo, cada uma delas dispondo de porta e janela que, no entanto, raramente se abrem. Antes da mudança, sempre viveram por um tempo no tradicional sobrado de seus avós, na Praça Pedro Velho, um dos mais belos exemplares arquitetônicos do Rio Grande do Norte que, demolido pelos novos proprietários, deu lugar a um supermercado em estilo incaracterístico, numa prova de que o Instituto do Patrimônio Histórico é, no Rio Grande do Norte, apenas uma repartição que não atua nem consegue ultrapassar os limites de Natal.

Filhas de Adolfo Soares de Macedo [1870-1962] e de Júlia Julieta [1872-1964], Julieta e Júlia, as irmãs inimigas, alimentam desde a infância uma desavença que ignoram como e porque começou. Elas sabem apenas que não se suportam e que estão sempre procurando motivos para justificar novas discussões e pendências, cada vez mais acirradas.

A escritora Maria Eugênia Montenegro com o jornalista, autor desta crônica, Franklin Jorge Foto batida em 1990 – e ilustra a crônica “A casa de Dona Gena”

Visitei-as a primeira vez na companhia da escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro, que as ajudou a encontrar essa casa dividida por uma parede que as mantém separadas, mas não desinformadas do que se passa na casa da outra. Elas justificam que as paredes têm ouvidos. Originalmente não havia essa divisão, porém as duas chegaram à conclusão que seria impossível viver sob o mesmo teto, trombando uma com a outra no dia a dia, por motivo injustificado. Mesmo assim, apesar da parede que as separa, continuam brigando, sem um único dia de paz.

Quando nos despedimos, batemos inutilmente à porta de Julieta. Júlia, da sua janela, informou que a irmã não abriria a porta de jeito nenhum, pois não costuma receber restos. Se quiserem falar com ela, voltem amanhã e batam à sua porta antes de me procurarem… Não esqueçam que ela não recebe restos… Entendemos então que só podíamos visitá-las em dias alternados. Nunca no mesmo dia, o que lhes pareceria uma tremenda desfeita.

Na verdade, Julieta não estava em casa, razão pela qual não atendeu ao nosso chamado. Havia pouco, conversáramos com Júlia, que nos recebeu amavelmente em sua minúscula e bem arrumada sala de estar, presidida por um retrato seu retocado a mão por um desses fotógrafos itinerantes que durante anos percorriam os sertões em busca de clientes.

Dona Gena pergunta-lhe porque não faz as pazes com a irmã. E ela quer? Contesta Júlia, agitando as mãos com vivacidade. E ela quer? E ela quer? Desde pequenas a gente brigava sem que nem pra que. Por qualquer motivo ou sem motivo nos engalfinhávamos pela casa. Com a morte de papai, que ainda podia com a gente, a coisa entre nós desmantelou-se de vez. É um caso sério”, admite, parada diante de nós, torcendo a barra da saia. Agora não vejo mais conserto para essa desavença…

Júlia explica que “não é a desunida” das duas; que Julieta, sim, é que é birrenta e não quer acordo. Ela tem o gênio de cobra e não dá o braço a torcer. Eu até já quis vender essa minha casa para ajudar a melhorar a dela, que está caindo aos pedaços… Teria sido tão bom para as duas, comenta Dona Gena. Assim vocês poderiam voltar a morar juntas… E ela quer? E ela quer? – retruca Júlia, alterando a voz. E ela quer?

Nascida em 1911, Júlia veste-se com apuro, não dispensando anéis, relógio de pulso, brincos e cordão de ouro com um pesado crucifixo que lhe pende do busto. Muito branca, quase transparente, não tem nenhuma ruga, apesar de já maior de setenta anos. Os olhos azuis são extraordinariamente límpidos e brilhantes.

Volto no dia seguinte com o fotógrafo Demócrito Amorim para conversar com Julieta, a mais velha das irmãs, nascida num lugar de nome Alto da Montanha, distrito do Mendubim, em 1907. Vestida com apuro, desculpa-se pela demora em abrir a porta, pois estava na cozinha, preparando a comida. Demócrito, seu velho amigo, explica-lhe a natureza de minha visita. E Julieta, num arranco de vaidade, protesta. E eu vou tirar retrato para jornal assim desapetrechada? Que não dirá o povo Assú, me vendo assim toda desarrumada? Estou velha, mas não estou desgarrada nem louca, para sair de qualquer jeito numa fotografia. Era só o que me faltava entrar para a história sem nenhuma camada de pó de arroz na cara… Quem não se cuida se descuida. E, num muxoxo, Era só o que faltava, além de idosa, desleixada. Ah, não…

Fotógrafo Demócrito Amorim (Teté),
faleceu em 29/08/2018 aos 78 anos
Foto: Site Assu Notícia

Louvo-lhe a elegância e o charme. Julieta ri, satisfeita. Será que eu não posso ao menos me ajeitar um pouco? Passar um pouco de pó no rosto e um traço de batom nos lábios…? Como a irmã, ostenta belos acessórios de ouro, brincos, pulseira, anéis, um grosso trancelim que lhe orna o pescoço de garça. Vá, vá se ajeitar, encorajo-a. Demore o tempo que quiser. Nós a esperaremos aqui. Embora não saiba como vai fazer para ficar mais bela do que já é, acrescento com sinceridade e admiração.

Noto que a casa, impecavelmente limpa e bem cuidada, tem muitos adornos feitos por suas mãos. Flores de papel em artísticos arranjos exorbitam dos jarros dispostos sobre os móveis. Sobre uma mesinha, coberta com uma toalha bordada, a radiola movida a pilha. Ao lado da cadeira de balanço, o rádio ligado num programa musical. Nas paredes, reproduções de quadros famosos e estampas do Coração de Jesus e de Padre Cícero, de quem é devota. Em destaque um retrato do papa João Paulo 2º, por quem tem uma grande admiração.

Julieta retorna toda produzida. Trocou o vestido por um outro, certamente usado em ocasiões especiais, como essa, pois segundo diz não é todo dia que recebe um jornalista em sua casa. Nunca pude imaginar que algum dia daria uma entrevista… Gabo-lhe a elegância, o passo felino, a fina camada de pó de arroz, o discreto carmim, o suave perfume que emana a cada movimento que faz. Julieta apenas sorri. Quando fui me aposentar, tive de levar todos os documentos porque ninguém acreditava que eu tivesse aquela idade, diz, sem dissimular a vaidade e a autossatisfação.

Demócrito, cheio de malícia, pergunta-lhe por Júlia, cujos passos se fazem ouvir do outro lado da parede que separa as duas irmãs. Me apartei dela para não brigar, responde Julieta, resignada. Meu espírito não combina com o dela. E, depois de uma pausa, Garanto que ela, curiosa como costuma ser, deve estar com o ouvido colado na parede, ouvindo a nossa conversa. Voltando-se para mim, Demócrito informa que até bem pouco tempo Julieta tinha um namorado. Ela ri, concordando. Cheguei a essa idade, mas ainda não estou morta… Sim, de fato, tive um namorado até pouco tempo. Teté [Demócrito Amorim] tem razão… Nessa idade, não tenho motivos para ficar escondendo o leite. Comigo é pão-pão, queijo-queijo. Quem gosta de subterfúgios é Júlia. É sonsa e se o senhor não abrir o olho ela lhe bota no bolso. Qualquer político teria muito a aprender com a sua dissimulação.

Julieta gosta mesmo é de festas e não dispensa o violão, que toca, segundo diz, razoavelmente. Sempre tocou, mas agora, depois de ter entrado na terceira idade, tornou-se ainda mais musical. Em casa ou na rua, quando possível, não dispensa o violão. A música é uma boa companhia. Infelizmente, no momento, minha radiola está quebrada e não posso mais rodar os meus discos. Mas o rádio está ligado sempre, dia e noite, pois sem música o fardo da vida fica mais difícil de carregar. Quem canta seus males espanta, diziam os antigos. A música faz bem à alma e alerta os sentidos. Para mim, quem não gosta de música, não presta. A música é uma arte celestial. Já ouvi dizer que a música é a linguagem através da qual os anjos se comunicam entre si e se dirigem ao Criador. É o idioma do Paraíso… Não há música no inferno. Não há música no inferno.

Despeço-me, prometendo voltar.

Natal foi palco de uma série de festivais no final da década de 60 e início dos anos 1970

Ivanildo Cortez (falecido dia 29/09/2021) era um dos líderes da ala
mais jovem formada basicamente por estudantes

Texto de Fred  Rossiter – Publicado na Tribuna do Norte

Na segunda metade dos anos 60, os adolescentes de Natal não se identificavam com os vozeirões da tradicional MPB como Vicente Celestino, Nelson Gonçalves e Cauby Peixoto. A Beatlemania e a Jovem Guarda surgiam como um estilo musical dirigido para o público jovem. Essa onda explodiu e alcançou entusiasticamente a juventude.

Em tempos de “Milagre Econômico” no Brasil, com taxa anual de crescimento chegando a superar 11% e inflação abaixo das médias anteriores, ocorreu forte crescimento da produção e do consumo de bens culturais. Nesse período, os conglomerados da comunicação de massa se consolidam e os jovens passam a consumir discos como nunca havia ocorrido no mercado fonográfico. 


O bom programa musical “O Fino da Bossa” na TV Record, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, desde 1965 começa a perder audiência para a turma da Jovem Guarda, era a “Invasão do iê iê iê”. Em 1967 o “Fino” é retirado do ar, provocando forte irritação na Pimentinha. Estava declarada “guerra às guitarras”.


Em clima de ebulição política e estimulados pelas emissoras de TV, numa maquiavélica estratégia de marketing, surge então um movimento de forte oposição “à invasão da música estrangeira”. A chamada “Frente Ampla” organizou uma passeata de protesto contra a influência anglo-americana no cenário da tradicional MPB.


Caetano Veloso foi convencido pelos argumentos de Nara Leão para não se impressionar com a retórica dos colegas e não aderir à passeata nacionalista que foi conduzida por Elis, Vandré, Edu Lobo e outros. Chico Buarque e Gilberto Gil, mesmo constrangidos, apareceram para marcar presença no evento.


Nesse clima polêmico, os jovens baianos sinalizam simpatia por Roberto Carlos, líder maior da Jovem Guarda e inimigo número um do segmento da esquerda musicalmente conservadora e nacionalista. Mas, não era só a esquerda que combatia a JG, o apresentador Flávio Cavalcanti, por exemplo, bradava; “não consigo entender como a mocidade de hoje prefere ouvir as Wanderléas que surgem por aí…”. Ao assumir a defesa do iê iê iê, Caetano, Gil e Betânia iniciam o chamado movimento Tropicalista.
Todo esse clima repercutiu nos Festivais da Canção, realizados no eixo Rio-São Paulo, especialmente entre 65 e 1972, no auditório da TV Record e assistidos no único canal de TV captado em Natal.


 Os Festivais da Canção em Natal, Anos 60/70

Na mesma linha da “guerra” existente no Sudeste, em Natal o jornalista e radialista Rubens Lemos comandava seu programa nacionalista radical de rádio com samba e MPB da velha guarda “autêntica e das raízes, sem influências do imperialismo anglo-americano” como dizia.  Pixinguinha era o astro principal que envolvia também Noel Rosa, Ciro Monteiro, Ataulfo Alves e outros.  


Outra frente musical natalense surgiu na forma de vanguarda no programa da Rádio Rural denominado “Sui Gêneris” comandado por Dailor Varela e Rejane Cardoso. O Tropicalismo era a linha mestra do programa. Músicas como “Panis et Circences” eram rodadas e comentadas didaticamente. Exposições de poemas processo, lançamentos de livros e reuniões culturais de vanguarda eram divulgadas. 


Os nossos festivais eram realizados no Palácio dos Esportes, no Ginásio do SESC, no Teatro Alberto Maranhão e até no Forte dos Reis Magos. O 1º Festival da Canção organizado pela Prefeitura de Natal (gestão Agnelo Alves) ocorreu em 1967, as quatro músicas melhor classificadas nesse evento foram gravadas em um compacto duplo: “Rosa Inteira num Pedaço de Noite” (Nadja Maria) (1º lugar), “Festa de Padroeiro” (Mirabô Dantas) (2º), “O Botão e a Rosa” (Arnaud Barros) (3º) e “Canção das Cantigas da minha Terra” (Roberto Lima) (4º).

Conjunto The Funtus, era uma banda formada por meninos
vanguardistas da classe média, entre eles, o saudoso Ivanildo Cortez


Boa parte dos compositores e músicos participantes era formada por jovens estudantes secundaristas e universitários, daí a presença maciça dos colegas em barulhentas torcidas organizadas. 


No Festival do Guriatã organizado pelo Diário de Natal, The Funthos ganharam os dois primeiros lugares com “Homo Sapiens” de Napoleão Veras e “Missa Biológica” de Carlos Gurgel e Luiz Neto. Na sequência de classificação: “Aruanda” de Iaperí Araújo, “Tecê Criança” de Rubens Góis e “Festa da Apresentação” de Roberto Lima e Heitor Varela. Mirabeau Dantas, bem ao estilo protesto da época, leu um manifesto e retirou sua música “Tô é Muito da Neurótica”.


Adrimaria foi escolhida a melhor intérprete do Festival

Também ocorriam festivais restritos às bandas de Rock, igualmente com grande participação. Se destacavam os conjuntos: Impacto Cinco, The Jetsons, Os Vândalos, The Funthus, Os Infernais e o “Sempre Alerta” de Macau. Em 1969, ocorreu o “II Festival dos Festivais” no Palácio dos Esportes e o Impacto Cinco obteve o primeiro lugar.


Os festivais daqui ocorriam normalmente em três dias seguidos. Luísa Maria Dantas e Gumercindo Saraiva eram presenças seguidamente convidadas para compor a Comissão Julgadora. É nesse contexto de efervescência cultural, que, dentre inúmeras boas revelações, se destacam três compositores importantes no cenário musical natalense.


Roberto Lima

Foto: Canindé Soares

Suas composições nos festivais buscavam a raiz das cantigas e danças populares nordestinas, representavam traços do folclore potiguar. Além de compositor, interpretava todas as suas canções, quase sempre acompanhado por suas irmãs e irmão, além do amigo Etelvino Caldas.
Dentre inúmeros sucessos de Roberto Lima, destaques para “Cavaco Chinês”, “Caixa de Fósforos” uma homenagem ao cantor Ciro Monteiro e “A Semana”.Foi disputado por gravadoras e participou de diversos LPs: “Canção para Natal”, “Reencontro” (patrocinado pelo governo Cortez Pereira e capa com foto da Praia de Areia Preta), “Cancioneiro Potiguar”, “Floração” (capa desenhada por Dorian Gray Caldas), “Bambelô” e “Cantos do Mar”.  


Incansável, enveredou também pela música sacra com incentivo de Ariano Suassuna, da UFPE e da CNBB. Dom Nivaldo Monte gostou do ritmo “Novos Baianos” implementado por Roberto e permitiu que o Impacto 5 o acompanhasse com guitarras nas missas da antiga catedral. Os fiéis, especialmente os jovens, aprovaram a ideia, em especial a adaptação musical feita para um poema de Palmira Wanderley. Em tempos de CD, Lima gravou uma música em homenagem ao sanfoneiro Zé Menininho.


Além do enorme sucesso nos festivais locais, Roberto foi laureado diversas vezes em regionais, nacionais e até internacionais, com destaque para o 1° lugar do Norte e Nordeste (Recife) no I Festival Nacional da Música Popular Brasileira “O Brasil Canta no Rio”, e 5° lugar na Finalíssima Nacional (TV Excelsior, Rio de Janeiro); 1° lugar no II Festival Natalense da Canção Popular Natal; 2° Lugar IV Festival Internacional da Canção (fase Norte/Nordeste) e Finalista do IV FIC – TV Globo, Rio de Janeiro; 2º lugar no Concurso Nacional de Música da ANDES para Professores Universitários; 3º e 2º lugar, respectivamente, no I e II Forraço.


Ivanildo Cortez

Foto: Blog Território Livre

Era um dos líderes da ala mais jovem formada basicamente por estudantes, aos 16 anos foi autor da letra de “Lágrimas de Alegria nos Olhos Tristes do meu Amor” e já conquistava o primeiro lugar em evento no Teatro Alberto Maranhão. 


Petit das Virgens, jornalista e participante do agito pop dos anos 1960-1970, resume bem a importância de Cortez no contexto musical natalense: “Ivanildo foi o maior compositor potiguar dessa época. Fazia parte do conjunto The Funtus. Era uma banda formada por meninos vanguardistas da classe média. Ele tinha uma maneira inusitada de compor suas músicas. Como não tocava qualquer instrumento musical, não sabia nenhuma nota musical, sentava-se no vaso sanitário e fazia o acompanhamento rítmico com as mãos espalmadas batendo nas pernas como se fosse um instrumento de percussão. Dali sempre saiam composições lindas, criativas e inteligentes. Ganhava todos os festivais”.


“Homo Sapiens” foi uma composição fora dos padrões tradicionais da MPB e inspirada no filme “2001 Odisseia no Espaço”. Em “Mística”, temos inversões musicais criativas baseadas no candomblé, evoluindo para um ritmo frenético num misto de música caribenha com tambores, atabaques e o belo solo na guitarra de Joca no estilo Carlos Santana. 


“Quero Talvez uma Nêga” (parceria com Napoleão), além de ganhar o festival local de 1972, arrasou no festival Nordestino de Música Popular em Recife, onde obteve a nota máxima. Cortez produziu algumas composições voltadas para o RN, como: Redinha Lenheira e Ribeira do Desamor. Em 1999 homenageou os 400 anos da cidade com “Natal Querida”. É também autor do Hino de Touros.


Outras composições importantes: “Procurando Alice”, “Safra de Fole e Viola”, “Pulo do Gato”, “Dar nome aos Bois (protesto contra a prisão política e a tortura de ditaduras de Direita e Esquerda, gravada pela banda Flor de Cactus em 1981 e em 2012 por Babal e Ivanildo, com novos arranjos) ,  Pássaro Novo, Pitanga Doce e a belíssima valsa “Sofia”. 


Em 2012 foi lançado o song-book “Pássaro Novo”, que resgata em texto o ambiente dos anos 60/70 na cidade e inclui 15 músicas produzidas pelo médico Ivanildo, boa parte com coautoria de Napoleão de Paiva. Participação de Isaac Galvão, Galvão Filho, Sílvia Sol, Tânia Soares e Pedrinho Mendes, grandes intérpretes locais, produção e participação especial de Babal. Uma obra que merece ser lida e ouvida.
Vídeos com diversos sucessos de Ivanildo estão disponibilizados em canal do You Tube: https://www.youtube.com/channel/UC1kB5sEbYy6bBFMKzctqU4Q ,

PS. Ivanildo Cortez nos deixou, na ensolarada quinta-feira dia 29 de setembro de 2021, partindo para a Eternidade e deixando uma grande saudade.


Mirabô Dantas

Foto: Costa Branca News

Foi dos compositores mais marcantes e produtivos desses festivais, era muito ligado a estrelas da MPB e parceiro musical de Raimundo Fagner e Capinam. Juntamente com Odaíres eram figuras carismáticas. 


Quando “Festa do Padroeiro” (parceria com Jônio de Freitas) foi anunciada como 2ª colocada no Festival de 1967, a torcida fiel explodiu numa grande vaia de protesto, a maioria da plateia considerava essa a melhor música do ano.


Talvez por ter ligações com músicos do sudeste, parecia haver uma preocupação especial da Censura em monitorar as letras de Mirabô. Nesse contexto, ocorriam episódios hilários como a situação em que ele e Marcos Silva foram “convidados” a comparecer à sede da PF para dar explicações sobre uma música inscrita para Festival do SESC. Os autores foram obrigados a tirar a palavra “Brasil” da letra da música, mas conseguiram convencer os censores a substituir pela palavra “país”. Dessa forma, o trecho da letra ficou “Eu vivo fluorescente / perigosamente/formidavelmente/na cidade espacial do país” (achou diferença?). Na hora de cantar, Mirabô não se conteve com o entusiasmo do público e gritou mesmo a palavra censurada “Brasil”, conquistando   Festival. 


Foram vetadas pela censura da PF canções como: “Pão e Circo” (não aplauda o circo se não houver pão/ não se faça de mico para o seu patrão…) e “Se” (se você quiser crescer- tem bola/ se você quiser brindar – tem brahma/ se você quiser morrer – não cola/ se você quiser amar -tem cama/ […] / mas se der pode ficar- na sua …).


Nascido em Areia Branca, Mirabô após o sucesso inicial nos festivais natalenses, teve mais de 30 músicas gravadas, algumas por intérpretes de renome como Quinteto Violado, Maria Odete, Maurício Tapajós e Elba Ramalho. 

De volta ao passado… (71)

No dia 29 de setembro completou 58 anos do falecimento de João Berckmans Dantas Filho, mais conhecido por ‘Joãozinho’. Na ocasião o seu filho, filho, Luiz Carlos, postou essa foto de seus pais, nas redes sociais, como uma saudosa lembrança.

Joãozinho nasceu em São José de Mipibu, em 05 de janeiro de 1935. Era filho de João Berckmans Sales Dantas e Arlinda Duarte Dantas e irmão do ex-prefeito Arlindo Dantas. Casou-se com Maria do Carmo Correia Dantas (‘Maninha”, em 18.12.1961, em Natal, com quem tiveram dois filhos: Luiz Carlos e João Berckmans (‘Béba’). Era um agropecuarista muito conhecido na região, por ser plantador de cana-de-açúcar.

A foto foi batida, no alpendre do Engenho Santo Antonio, onde o casal residia.