Dia: 26 de setembro de 2021

A Vida é Mesmo Assim!

Waldick Soriano e Cláudia Barroso

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Neste domingo, vou puxar pela memória sessentona e relembrar algumas cantoras que assisti em shows. Todas vozes consagradas da nossa excelente música popular romântica brasileira. Não venham aqui chamá-las de ‘bregas’, porque vão comprar comigo uma grandiosa briga. Meu encontro com a galega cantora e compositora do meu tempo, Cláudia Barroso, uma das amadas da vida do nosso Dom Juan, o baiano cantor e compositor Waldick Soriano. Mineira de Pirapetinga, nascida em 23 de abril de 1932, não foi em show, mas em um restaurante/bar de um hotel em Mossoró, testemunhado por dois grandes amigos, Cid Augusto e Caio César Muniz. Os bares mossoroense foram fechando e já pela madrugada, demos de cara com a Cláudia. Coincidências da vida, lá estava a mesma jantando em uma das mesas do recinto. Cid e o Caio, não a conhecia, só eu. Perdi seu show, mas conversei com ela.

Eu, seu velho fã, a vi e logo fui a sua mesa para uma conversa, sem gravador e máquina fotográfica por perto. A cantora mais velha do que eu ainda tinha os traços de suas antigas belezas, como cabelos louros, agora pintados, um pouco obesa e uma finíssima educação. Acompanhada de uma linda neta e já vestida com trajes simples, depois de uma noite de show com casa cheia. Aceitou de imediato conversar comigo e sorriu quando lhe disse que sentia muito não ter em mãos seus antigos vinis e Cds para serem autografados naquele momento de surpresa.

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Também disse que era seu fã desde o tempo de seu grande romance com Waldick Soriano. Amor muito comentado nas revistas de fofocas, daquela época do programa televisivo do polêmico Flávio Cavalcanti. Falamos sobre seus grandes sucessos como: ‘Quem mandou você errar; Fracasso; Por Deus eu Juro e Ah! Se eu fosse Você’. Ela lembrou ainda do grande sucesso do Waldick: ‘Tortura de Amor’, uma belíssima canção interpretada pelas melhores vozes do Brasil.

Mas, apesar de tanta fama, naquele momento a cantora morava em Fortaleza/CE. Não era uma mulher milionária e só tinha um apartamento para morar. Mesmo com idade de descansar, ainda fazia shows para sobreviver e ajudar familiares. Infelizmente, sabemos que quase todos passam na velhice por desagradáveis apertos financeiros. Depois da fama, a história é geralmente triste para se contar! Poucos anos depois, a Cláudia, encantou-se em Fortaleza, em 09 de outubro de 2015, mesma cidade em que vivera e partira o seu antigo amado Waldick.

Eu estando certa feita em São Paulo, convidado de um seminário cultural, eis que me colocaram em um antigo hotel bem pertinho do famoso cruzamento das avenidas São João e Ypiranga. Próximo a conhecidíssima casa de show ‘Bar da Brahma’. Em duas noites assisti a dois belíssimos espetáculos das cantoras Ângela Maria e Alcione. A Ângela, eu já tinha visto e ouvido quando adolescente na parte superior do velho bar/café Quitandinha, do meu Alecrim. Sua voz era a mesma, só que agora mais velha, um pouco obesa e baixinha como antes. Vestida elegantemente de preto, com brincos, pulseiras e colares. A madrinha musical de Agnaldo Timóteo, o qual fora seu motorista particular, encantou a todos os presentes naquela noite com seus sucessos: ‘Cinderela; Tango pra Tereza; Babalú; Vida de Bailarina; Balada Triste, entre outras pérolas musicais. Infelizmente, era um estranho ali, nenhum fotógrafo por perto e seus discos e Cds estavam em minha casa em Natal. Recentemente, comprei a sua volumosa biografia escrita por Rodrigo Faour, em 2015. A carioca apelidada ‘Sapoti’, rainha do Rádio, em 1954, no tempo de seu Getúlio Vargas, nascida em 13 de maio de 1929, encantou-se em 29 de setembro de 2018, em São Paulo/SP.

A outra cantora que eu vi e ouvi no tradicional Bar da Brahma, foi a Alcione, apelidada de ‘Marrom’. Maranhense e gente finíssima, a qual nunca esquece suas origens humildes e principalmente seu pai, um pobre músico. Sambista, romântica e instrumentista de primeira qualidade e belíssima voz. Na noite de seu show, estava elegantemente vestida em um inesquecível vestido longo azul brilhoso. A referida e famosa agraciou a todos os presentes com seus principais sucessos: ‘A Loba; Não Deixe o Samba Morrer; Você Me Vira a Cabeça e Estranha Loucura’, entre outros.

Em Natal, no histórico Teatro Alberto Maranhão, tive o privilégio de ver, ouvir e conversar com várias cantoras depois dos shows. Sem fotógrafos por perto, lembro bem de Leny Andrade cantando as inesquecíveis músicas: ‘Saigon; Adeus América, Amigo não tem defeito e Chega de Saudade’, entre outras. A Leny me foi recomendada há tempos pelo saudoso amigo, cantor e compositor Chico Elion. Segundo o amigo músico e escritor Antônio Amaral, o qual mora em Aracajú/SE, a Leny está entre as 10 melhores vozes femininas do Brasil. E eu já disse ao Amaral que concordo com sua criteriosa avaliação musical. Ele entende de música, eu sou apenas um curioso. Pena que a Leny é pouco conhecida do nosso público que, como me dizia o mestre Ariano Suassuna, prefere ouvir o que não sabe e nem traduz para o nosso português muita coisa que ouve.

Ainda no mesmo citado teatro, assisti a Maria Creusa cantando o seu saudoso amado Vinícius de Moraes e lhe oferecendo uma dose de uísque no palco: “A você, meu grande amigo e amor Vinícius, esteja aonde estiver agora!”. Fez a plateia se emocionar ao tomar a dose e cantar o grandioso hino do amor: “Eu sei que vou te amar”. E ao final do referido show, mesmo sem fotógrafo, eu corri com um de meus Cds e, sorrindo e me abraçando, a carismática cantora o autografou com carinho para o Cd voltar a minha discoteca.

Outras duas cantoras autografaram meus CDs no Alberto Maranhão. Tânia Alves, a qual sorriu muito quando eu me declarei seu fã nos boleros e na televisão: “você foi a Maria Bonita mais bonita de Lampião”. O amigo fotógrafo Evaldo Filho estava bem perto desse memorável encontro, clicou logo o momento para a minha posteridade musical.

E a outra foi a grandiosa e consagrada Elza Soares. Negra linda de corpo e alma. Apesar da idade, cantou e dançou tal qual uma adolescente seus antigos sucessos, entre eles, os clássicos: ‘Maria vai com as outras; Se acaso você chegasse; Mulata Assanhada; Salve a Mocidade; Lata d’água na Cabeça e Marambaia’.

Finalizando seu grandioso espetáculo musical, corri para o seu camarim e fui o primeiro e único fã a ser fotografado, pois a cantora sentiu-se mau e teve que ir ao hospital para tomar soro e reanimar-se. Já estava com mais de setenta anos e não uma garota para pular e sambar como nos velhos e bons tempos. Sorriu muito agradecida quando eu lhe disse que tinha a biografia do seu amado Garrincha, muito bem escrita por Ruy Castro e era seu admirador desde a minha adolescência. E ficou comprovada a minha declaração quando teve que autografar vários CDs: “Eu estou vendo que o senhor é um ferrenho apaixonado pela Elza Soares. Disso não duvido!”. E imaginem se eu tivesse levado debaixo do meu braço os Vinis deixados em casa. Outro dia, a vi já sentada cantando no Rolando Boldrin e a cena do nosso encontro me fez até chorar de emoção. O tempo na velhice é muito cruel, principalmente com os famosos e famosas! Nem quero mais voltar a ler o que aconteceu com as famosas cantoras do Rádio do passado, irmãs Batista, Dircinha e Linda.

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Já a nossa Núbia Lafayette, depois de muitas noites ouvindo nas radiolas de fichas nos bares e cabarés de Natal, fui vê-la pessoalmente em uma noite no pátio do velho palácio do governo do RN. Noite memorável, convite da amiga pesquisadora musical e escritora Leide Câmara. Infelizmente, a nossa grande Núbia anda esquecida, como muitos valores culturais do RN. Ela, nascida em 21 de janeiro de 1937, na região do Assu/RN e encantada em 18 de junho de 2007, em Maricá/RJ. Não tenho como esquecer os sucessos na sua voz, como: ‘Quem eu quero não me quer; Devolvi; Lama; Casa e Comida e Vingança, entre outros. Sempre tocados em meus domingos.

Para finalizar, tenho por justiça e amizade lembrar novamente da grande amiga Glorinha Oliveira. Fui a seus vários shows e lhe prestei duas homenagens em vida quando estive a frente da nossa banda carnavalesca ‘Antigos Carnavais’. Por emoção, vou resumir aqui o nosso último encontro e almoço recheado de muitas alegrias e conversas.

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A grandíssima Glorinha veio até minha casa em Nísia Floresta, trazida pelo seu filho, Aécio Queiróz, querido amigo das antigas boemias natalense. Era um feliz domingo de sol de 18 de junho de 2017. Logo ao entrar, foi recebida com sua voz tocando em minha velha radiola. Vinha de um de seus vinis. Muito emocionada, chorou e me beijou como uma mãe faz ao ver um filho que morava agora distante. Fizemos fotos e até vídeo desse reencontro final. Nossa Glória chegou em Natal/RN a 27 de fevereiro de 1925 e encantou-se no mesmo berço nascedouro, em 23 de fevereiro de 2021. Agora me desculpem por não ter mais condições para descrever os demais detalhes desse inesquecível dia de minha vida!

Todo domingo ela volta com sua voz a embelezar meus ouvidos e minha morada, iniciando com a música de Pedro Mendes e Heraldo Palmeira – ‘Meu Tempo’. Depois, a bela composição do amigo Nelson Freire, ‘Passado’ e finalizando com a música de Regina Justa: ‘Assim é a vida’

Finalmente termino esse texto lembrando que ‘assim é a vida’ ou ‘a vida é mesmo assim’. Sou um velho jovem, ou quem sabe um jovem velho? Sou daqueles que chora e rir simultaneamente, quando relembra o passado e as boas amizades que já se foram. Se eu não reagi com lágrimas e sorrisos, ao ver as velhas fotografias guardadas, nada passou por minha vida!

E a vida é mesmo assim!

                       Morada São Saruê. Nísia Floresta/RN.

HOMENS DE TRÊS METROS

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Eu era só um garoto quando, atraído pelo título, fui ver um filme intitulado “Um homem tem três metros de altura” (Edge of the City, 1957). Ao contrário do que pensei não era ficção científica, com gigantes e homenzinhos de Marte, mas um drama denso e violento, tratando de relações sociais entre os estivadores das docas de Nova York. O personagem de Sidney Poitier desenvolve uma amizade com um branco e a coisa vai terminar em tragédia. Os gestos de grandeza naquele ambiente pesado fazem pensar sobre os três metros de altura de alguns homens.

Essa introdução é para falar sobre a sensação que às vezes a gente sente de viver entre anões morais. Pessoas que se deixam dominar por mesquinharias, maldades, ambições. O caso mais recente da operadora de saúde Prevent Sênior, em que mortes foram ocultadas, diagnósticos sofreram alterações criminosas e medicamentos foram testados em pacientes como cobaias, é um exemplo dolorido disso. Mas a existência dessas grandes almas, gente de estatura superior, nos encoraja e acende a luz da confiança no homem. Conheci várias no decorrer da vida e tenho certeza que todos, em um momento ou outro, tiveram contato com alguém assim, um tio, uma avó, um professor ou mesmo um estranho que foi uma luz na vida de pessoas. Não que fossem perfeitos, pois ninguém o é. Mas aí reside a grandeza, em não permitir que os defeitos nos paralisem ou sirvam de pretexto para a inação.

Padre Júlio Lancellotti – Foto: Geledês

E há aquelas pessoas que se tornam anjos para um grupo, uma comunidade, uma cidade. O padre Júlio Lancellotti, com certeza, é uma dessas. Sua atividade junto aos desvalidos da cidade de São Paulo é notória. Padre Júlio leva marmitas para os usuários da Cracolândia, mesmo enfrentando às vezes a polícia e a opinião dos que acham que viciados não são gente e não merecem solidariedade. Além de ameaças à sua vida. Mas ele não para. Nas noites frias distribui cobertores e barracos com os moradores de rua.  “- Humanizar a vida significa entender que existe conflito. E você não humaniza a vida numa sociedade como a nossa sem conflito”, diz, de forma corajosa.  Qual o tamanho do padre Júlio?

Benedita Fernandes – Foto: Clube de Artes

Ocorre-me uma personalidade quase anônima: Benedita Fernandes (1883-1947), de Campos Novos, São Paulo. Pobre, filha de escravos, com problemas mentais, perambulando pelas ruas de Penápolis, SP, foi colocada na cadeia como se fosse louca. Teve a sorte de receber cuidados de seu carcereiro e de tarefeiros espíritas que lhe assistiram. Foi o início de um belo trabalho, pois a gratidão pelo benefício recebido impulsionou Benedita para iniciar um trabalho de construção de casinhas de madeira para socorrer os pobres da periferia de Araçatuba para onde havia se mudado. Fundou, junto com outras senhoras, a Associação das Senhoras Cristãs (1932) para ações sociais, depois desdobrada em duas outras instituições, a Casa da Criança, para crianças órfãs desamparadas e o Asilo Dr. Jaime de Oliveira, voltado para doentes mentais. São inúmeros os relatos de suas ações pelas crianças, mendigos e doentes de todo o tipo.

Assim mãe Dita, como era chamada, pobre, semianalfabeta, teve uma vida plena de serviço para o próximo.  Alguma dúvida para a estatura dessa mulher? Daqui, de onde observo, acho que ela cresceu muito mais que três metros.   

Temos também o nosso gigante moral. O padre João Maria Cavalcanti de Brito (1848- 1905) foi (e é) o anjo da cidade. Seu lema de vida, “omnia omnibus” (tudo para todos) já evidencia o seu pensamento. Desprovido de ambições pessoais, o padre João Maria viveu para os necessitados, os deserdados da sorte, os fugitivos da seca que chegavam aos montes em Natal, aos contaminados pela varíola que assolou a cidade e todos que o procuravam.

Foto: Blog Vento Nordeste

Foi tudo para todos, na verdade. Vigário, médico, enfermeiro, assistente social, guia espiritual, abolicionista, jornalista (fundou o jornal Oito de Setembro). Contam que doava até o tecido destinado às suas próprias batinas. Seu esforço em cuidar dos doentes fez com comprometesse a própria saúde. Morreu no Alto do Juruá, ali onde hoje há a igreja Nossa Senhora de Lourdes, em Petrópolis. Dom Nivaldo Monte deixou dito sobre ele: “No despojamento da pobreza mais absoluta e no serviço de sua incansável caridade, ele cumpriu o mandamento do Senhor: amar a Deus de todo o coração e servir ao próximo até a morte. Por isso ele é chamado o Anjo da Cidade”.

Monumento homenageando o Padre João Maria, no centro do Natal. Rosalie Arruda

Nem sei se ele gostaria de ser canonizado. Essas grandes almas prezam pela simplicidade e modéstia. E essas virtudes as elevam a um patamar bem mais alto que o nosso. No meu coração o Padre João Maria ocupa um lugar muito especial assim como o padre Júlio Lancellotti e Benedita Fernandes e por isso, respeitosamente, cumprimento todos eles: – A sua bênção, padre Júlio; a benção, Mãe Dita; a benção, padre João!

NATAL/RN

DOR DE COTOVELO

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Filósofa

Há momentos na vida de cada ser humano, em que sentimos a necessidade de nos recolher e fazer uma viagem ao nosso interior, para desfrutarmos de nosso próprio eu. Especialmente quando a pessoa está sofrendo com uma das piores dores já experimentada pelo ser humano: A dor de Cotovelo.

Nessas ocasiões existem os que procuram o silêncio existente no interior de uma igreja. Outros preferem ficar trancados dentro do seu próprio quarto, enquanto existem aqueles que escolhem passear à beira-mar e nem se dão conta de que as ondas que quebram na praia, entoam uma encantadora sinfonia para uma plateia formada por uma única pessoa, que não lhe dá atenção.

Todos aqueles que padecem com essa dor, sentem a necessidade de se recolher por um tempo e assim, procuram se afastar do barulho estrondoso que nos cerca diariamente. Recolhido dentro de si mesmo, tentam esquecer sua desdita e recarregar as baterias, adquirindo novas forças para enfrentar as dificuldades inerentes à vida que, independentemente de sua dor, segue seu curso normalmente.

Então, nada pode ser melhor do que fechar os olhos e esquecer o barulho dos carros e de suas buzinas, indicando que seus condutores estão atrasados para algum compromisso. É bom tentar se concentrar nas batidas do coração e sentir que, de forma muito lenta o corpo vai relaxando, enquanto Morfeu chega para abraçar e acalentar o sofredor, até leva-lo ao mundo dos sonhos.

Enquanto muitos preferem esses locais silenciosos para uma reflexão, também existem os que escolhem esquecer tomando uma cerveja bem gelada na mesa de um bar. Afinal, o que pode ser mais saboroso do que uma cerveja estupidamente gelada depois de um dia exaustivo pensando nos cotovelos feridos? A cerveja e o bar tornam-se lugares ainda mais calorosos, quando o garçom já é conhecido de longas datas e pode-se falar com ele sobre a dor que lhe rasga o peito, sem qualquer vergonha ou receio de parecer ridículo.

Um garçom amigo não é apenas um trabalhador que serve bem a um cliente. Ele é também além de amigo, confidente e depositário de muitos segredos e histórias pessoais, que não se contam a qualquer pessoa. Não é à toa que o garçom é o personagem principal em muita letra de música brega.

Para ser um bom garçom, não basta saber atender bem ao cliente e conhecer bem o cardápio do lugar onde trabalha. É preciso antes de mais nada ser um sujeito paciente e gostar de conversar. Em muitas ocasiões, o garçom vai fazer o papel de psicólogo e ouvir histórias de amor que não deram certo. Saber ouvir é um ato de bondade.

Ele ainda vai ter que saber a hora certa de dar uma tapinha nas costas do cliente, que sofre com dor de cotovelo. Mas, o garçom bom mesmo, é aquele que não deixa o cliente deitar no chão depois que ele já bebeu todas. O bom garçom chama um táxi para levar o cliente em sua casa e jamais esquece a célebre frase: “Tudo vai passar”.

Além do cardápio, o bom garçom sempre deve ter à mão, um lenço de papel disponível para enxugar as lágrimas do cliente cuja dor de cotovelo se tornou insuportável e ele, por mais que tente ser forte não aguenta e chora. Nesse momento, o cliente precisa de muita compreensão e que o garçom torne a encher-lhe o copo. Existem garçons que são tão amigos, mas tão amigos, que até tomam uma cerveja com o cliente que chora copiosamente.

Existem vários remédios para curar a dor de cotovelo, mas cuidado para não confundir dor de cotovelo com problema de junta. Problema de junta se cura com anti-inflamatórios. Já a dor de cotovelo é mais grave, logo, sua cura é mais demorada. Primeiro de tudo é importante saber se o rompimento é definitivo, porque assim você evita sofrer à toa.

Se não tiver como retomar o romance, evite ficar muito tempo em casa pensando na pessoa que provocou a dor. Rasgue e queime todas as fotos, assim como quebre todos os discos que contenham músicas que lembrem a pessoa desalmada.

Procure lembrar tudo de ruim que a pessoa lhe fez e depois vá para o bar e encha a cara. Fique de porre e chore. Se ao acordar do porre, você sentir que fez um papel ridículo, não se preocupe. Todo ser humano que se apaixona, se torna ridículo em algum momento. Procura uma agência de viagem e faça um bom roteiro de viagem. Viajar ajuda a esquecer e ainda aumenta a possibilidade de se aumentar o número de contatos na sua agenda. E quem sabe encontrar um novo amor. Dizem que um amor se cura com outro.

Se depois de tudo isto, você ainda continuar sofrendo, então seu caso não tem jeito. Você pode ser um sofredor contumaz. Seu caso precisa ser tratado com os Santos das Causas Perdidas como Santa Rita de Cássia, Santo Expedito, São Longuinho, São Judas Tadeu e Santa Filomena.

PADRE ZÉ LUIZ

Chico Potengy

Antes de contar o “causo”, e seu principal protagonista, um preâmbulo se faz necessário para eu homenagear, ainda que brevemente, uma das figuras importante em minha formação como pessoa: o ex-padre Zé Luiz. A propósito, eu costumo dizer que, “a Deus devo o dom de escrever. A Zé Luiz, como escrever”.

 José Luiz Silva ficou conhecido, na galeria dos vultos históricos do Rio Grande do Norte, como “padre Zé Luiz” – mesmo tendo largando a batina para casar com a belíssima Maria Helena. Andou pelos corredores do Vaticano do mesmo modo como andava pelas vielas de São José de Campestre (sua terra natal), Taipu, Região do Mato Grande, e Touros no Litoral Norte. Pendências, Ipanguaçu (no Vale do Açu) e Macau, cidades onde foi vigário.

Tinha habilidade para conversar com padres, iguais a ele, e com papas, como João XXIII e Paulo VI.  Nos anos 1950 foi secretário de Dom Eugênio Sales, em Natal, e, anos depois, assessorou o saudoso monsenhor Honório e padre Penha pelos campos salinizados das terras macaunses.

Formado em filosofia, garregava em sua bagagem sacerdotal experiências vividas na “França, Europa e Bahia”. Entrava no Palácio Potengi – sede do governo estadual – pela porta da frente e foi recebido por governadores independente de partido ou ideologia. Aliás, é famosa a foto dele chegando à Casa do Executivo Estadual acompanhado de frei Damião, seu amigo de longa data.

De uma inteligência como poucos, sabia tudo de tudo. E, eu diria, um pouco mais. Existem, em Natal, vários doutores cuja monografia, eu testemunhei, Zé Luiz pesquisou, redigiu e orientou o jovem acadêmico. Assíduo frequentador do Café São Luiz, durante anos escreveu sua coluna “Na Calçada do Café São Luiz” (que depois foi transformado em um livro com o mesmo nome) no Jornal O Poti. “O Café é uma universidade. Um poço do saber”, dizia ele. E eu não me sinto em nada constrangido em assumir que sou um dos seus pequenos herdeiros – escriba na calçada do Café São Luiz.

Entre os anos 1950 e começo de 1960 ele era o padre que rezava a missa dos formandos do Rio Grande do Norte. Por isso, o Regime Militar passou a “monitorá-lo”. Dom Eugênio imediatamente arranjou fuga para Zé. Ele saiu de Natal, de carona até a divisa entre Parnamirim e São José do Mipibu, onde esperou o ônibus para Recife. Da capital pernambucana foi para Bruges, na Bélgica, e lá, foi vigário por menos de um ano. Depois seguiu para Paris onde rezou missa por mais de quatro anos na Chans Elysee – falava francês flu-em-te-men-te.

Motivado pelo seu espírito do saber, certo dia saiu da capital francesa indo à Palestina. Pretendia conhecer os ensinos da religião judaica (berço do cristianismo) na Universidade de Jerusalém. Acabou sendo operador, voluntariamente, de trator num Kibutz na região da Palestina. Voltou ao Rio Grande do Norte para ser vigário na pequena cidade de Pendências. Foi aí que escreveu um de seus mais importantes livros, narrando suas experiências fora do país, intitulado “De Paris a Pendências”.

Em 1968 deixou a batina e foi trabalhar no Dnocs – Departamento Estadual de Obras Contra a Seca. Foi nessa época que criou o inteligente: “O Vale, vale ou não vale?”, referindo ao fértil Vale do Assu. 

Quando almas boas se encontram ou meu feliz encontro com Zé Luiz

Quando cheguei ao bairro da Ribeira, em 1973, como gazeteiro, Zé Luiz foi uma das primeiras pessoas de bem que eu tive o privilégio de ter contato. E foi uma das figuras mais impressionantes que conheci em toda a minha vida. Tornou-se meu cliente. Comprava o Jornal Tribuna do Norte – que na época peitava o Regime Militar (quem diria…).

Depois me contratou. Fui trabalhar em seu escritório que ficava no primeiro andar da Estação Rodoviária Presidente Kennedy. Ele foi meu pior patrão: não tinha muita noção de quando deveria pagar pelos meus serviços. Não tinha compromisso com nada nem com ninguém, entretanto era um “socialista cristão”: apreciava compartilhar. Ele foi meu melhor patrão: foi quem primeiro me exigiu um diploma jornalístico. Dizia que o “canudo” impunha respeito e apenas isso.

Todo o pouco que sei escrever foi com ele que aprendi. “Não se preocupe com palavras ‘floridas’, excessivamente eruditas, que só servem para confundir o leitor simples. Escreva para as massas e preocupe-se em ser claro. Objetivo. Preciso. Breve. Não canse seu leitor; escreva algo que o prenda a leitura. Não se esqueça de ‘ouvir’, e se certificar do acontecido, antes de escrever. O boato só trás descrédito e pode causar danos”.

Aconselhava-me muito sério, quanto acariciava a barba. Em 1979 estagiei na Caixa Econômica Federal. Em 1980 fui para o Exército. Perdi o contato, definitivo com Zé Luiz (o que foi um grande erro meu). Um dia, casualmente o reencontrei, pela última vez, na calçada do Hotel Sol, na Rua General Osório, Cidade Alta. Era o começo dos anos 1990. Com um largo sorriso apertou-me a mão e me abraçou como se estivesse diante da pessoa mais importante que jamais vivera. Não compreendi que era a última vez. Poupo-me da gravidade de sua doença. Estava muito fragilizado. Ele me “encantava”, e por isso nada percebi. Faleceu em seguida. Depois de uma luta contra uma doença tropical adquirida na selva amazônica. Foi uma enorme perda para a cultura de um RN tão carente de cultura. Ele era o que se pode chamar, com todas as letras, um “intelectual”. Ou seja: um homem do saber.

   O “causo” numa linguagem “lá de ‘nóis’”

A Zé Luiz são atribuídas inúmeras situações engraçadas durante o seu sacerdócio, mas, todas verdadeiras. Uma delas diz que um dia, quando ainda pároco de Pendências, foi procurado por “Joaninha” de “Chupitila”. A mulher ajoelhada, com um terço entre os dedos das mãos postas, reclamava:

Padi Zé, eu sou uma muié de 45 anos com cara de véia. Tenho 25 fíi. Meu marido é muito “danado”. Eu num aguento mais tê fíi. O qui eu faço, pádi?

Pacientemente, e sério, o padre, por trás do confessionário, disse:

– Aconselho você usar um preservativo, Joaninha. – E explicou da melhor forma o que era o tal… “preservativo”.

Morta de vergonha, com a “desenvoltura” do padre, a mulher descartou a ideia dizendo:

– Mas padi, Chupitila só qué “discascado”.

– Nesse caso, Joana, quando Chupitila lhe “procurar”, fique o tempo todo com o candeeiro acesso e olhando atentamente para os olhos dele. E quando ele começar a revirar os olhos, você o empurra para o outro lado da cama. Pronto! – Concluiu esfregando as mãos em um clássico gesto de Pôncio Pilatos.

A mulher chorosa, balançando negativamente um dedo, respondeu:

– Num dá certo, não, padi. Num dá certo de jeito ninhum. Num dá certo, não sinhô.

O padre insistiu:

– E por que não dará certo, Joana?

No que ela respondeu, com um malicioso e envergonhado sorriso:

– Padi, quando ele cumeça a rivirá os zói, eu já tô é cega!

Passeio à Ribeira do passado

Beco da Quarentema, atualmente -Foto: Sandro Furtado

Chagas Lopes – Editor do jornal ONDA ALTERNATIVA

Revendo meus arquivos do jornal “ONDA ALTERNATIVA” do qual sou editor, deparei com um texto de Elísio Augusto de Medeiros e Silva (in-memória) muito interessante. O escrito, intitulado “Passeio noturno à Ribeira” trata com um saliente saudosismo, dos compassos flutuantes do velho bairro da Ribeira; suas histórias, seus contextos, suas acontecências.

O Cajá das Raparigas

Elísio Medeiros relata que o beco foi testemunha da vida boêmia da Ribeira. Ali, as risadas das mulheres da vida e dos boêmios deram lugar a um silente existir. As portas, antes abertas para a alegria dionisíaca, hoje estão serradas. O Beco “Onde os deuses desvairados do sexo barato faziam ali suas orgias” se transformou num lugar evitado por quem passa pelos arredores”. E ainda arremata: “Todo este abandono, a um dos maiores sítios históricos de Natal, assistido, placidamente por um pé de cajá, que garantem, não foi plantado. Nasceu, espontaneamente, naquele local e, na safra, os seus frutos são disputados na Ribeira, conhecidos como os ‘Cajás das Raparigas”.

Beco da Quarentena, na década de 40 – Foto: Evemundo

Já o jornalista e professor do curso de Comunicação Social da UFRN, Emanuel Barreto, num texto do seu livro “Crônicas para Natal”, registra o beco como o lugar onde

“bêbados desvalidos faziam suas farras de desespero”.

E os versos continuam…

“Na Ribeira há um caminho torto, feio, escuro. É a Travessa da Quarentena, onde, há muito, muito tempo, os deuses desvairados do sexo barato faziam ali suas orgias.

O Beco da Quarentena, como ficou na lembrança popular, é esse falido porão da cachaça barata e das mulheres de todos e de ninguém.

Ali, vez por outra, passantes cortam caminho, num atalho sem futuro. Ali, quem sabe, nas noites da velha Ribeira, fantasmas de bêbados e marias se juntam. E dançam sua dança de cachaça.”

Esses textos me fizeram voltar aos Idos de 1969, já passava do meio do ano quando tudo começava, uma fase das descobertas, a adolescência é o período de transição entre a infância e a vida adulta as mudanças, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a adolescência começa aos 10 anos, bem antes do que os pais gostariam que fossem, no meu caso, estava com meus 15 anos, amadureci mais rapidamente do que possamos perceber.

Tatiane da Silva Santos, escritora descreveu: “O sexo é curiosidade para os adolescentes, banalidade para certos jovens, entrega para alguns adultos e tabu para muitos antigos”. Aluno do colégio Padre Monte, com poucas amizades, e uma vida de adolescente peralta, tinha, apenas, 15 anos, quando ocorreu a minha abertura para a heterossexualidade e o começo de ter minha identidade sexual afirmada. Essa identidade é para consolidar.

Foto: Brechando

Como Elísio Medeiros relata:

A partir da metade do século XX, na verdade, o local se chama Travessa da Quarentena e é uma ruela de passagem entre as ruas Chile e Frei Miguelinho e se consolidou como um ponto de baixo meretrício, conhecido como o “Beco da Quarentena”. Fui com alguns amigos de escola conhecer e matar a curiosidade no “Beco da Quarentena”, que por décadas serviu como lugar de sexo barato, para os menos favorecidos e adolescentes sem recursos. Era o caminho para a iniciação sexual dos garotos, a pouco custo, mas fazê-los exercer a sexualidade sem responsabilidade. O escritor Charles Canela descreve: “O sexo não é a consequência do amor, é consequência do desejo, pois se assim fosse o mundo já seria inabitado”.

Com poucos recursos e desconhecedor da vida mundana, me atrevo a conhecer o “ Beco da Quarentena”, fui apresentado a Sra. Júlia Augusta de Medeiros, uma senhora de seus 70 e poucos anos, e um pouco gordinha, mas Augusto Cury nos traduz assim: “Toda beleza é imperfeitamente bela. Jamais deveria haver um padrão, pois toda beleza é exclusiva como um quadro de pintura, uma obra de arte”.

Júlia Augusta de Medeiros, seria ‘Rocas-Quintas”? -Foto: potiguarte.blogspot.com.br

Conhecida como: Rocas Quintas – que nasceu 1896, na Fazenda Umari, em Caicó/RN. Era uma das mulheres pioneiras no jornalismo e na educação no Rio Grande do Norte, nos anos 20. Feminista, mulher de ideias avançadas, com participação destacada na vida pública e política do RN.

Há historiadores que refutam essa história. O jornalista natalense Manoel Pereira da Rocha Neto confirma. Já, de acordo com o carnavalesco Di Carlo, Rocas-Quintas, era uma mulher nascida no bairro de Mãe Luiza e com a qual ele conviveu. “Era uma mulher bem vistosa e se chamava Edite”.

Com uma história que convergem para pobreza, desemprego, formação precária, falta de oportunidades na vida. “vendia seu corpo por necessidade mesmo, não por safadeza”. Já sua amiga que dividia o quarto, Andressa de Jesus, 54, foi levada ao “Beco” pelo aperto do orçamento. “Minha vida começou a afundar depois que comprei um carro. Perdi o emprego e não consegui mais pagar. 48 prestações de C$ 60.000,00. Não achava mais trabalho. A prostituição foi o que encontrei, faz seis meses que voltei”.

A primeira vez dela foi no início do ano 1964, quando se viu viúva e com três filhos para criar. “Você acha que eu iria deixar eles passarem fome? Um dia eu estava sentada aqui no banco, um homem perguntou se eu queria sair com ele. Eu neguei. Mas ele insistiu muito e eu acabei aceitando. Não é fácil você ir para cama com um homem que nunca viu na vida”, relatou.

Foto: Garimpo Potiguar

Um antigo frequentador das noites da Ribeira, relata “o cara dizia que, quando trepava lá, já vinha com uma dosagem de penicilina”, a miséria ali reinava, jamais a saúde pública, naquele beco passava, a polícia era constante, dava ronda a noite inteira, mas nunca evitou as brigas, vivendo de tal maneira que muitas mortes ali houveram, por causa de bebedeira. Pederastas, cafetinas, maconheiros afamados frequentavam o tal beco, sendo bastante estimados avistando com seus homens, com os quais eram amigados. Fotos: Internet

De volta ao passado… (70)

O texto é do conterrâneo mipibuense, Emmanoel Barbalho, patrulheiro da Polícia Rodoviária Federal (PRF):

“No descanso de um domingo , compulsando álbuns de família (quem não tem um álbum em casa?), bateu-me fortes recordações; Saudades é você olhar para trás e lembrar de momentos inesquecíveis e pessoas especiais que tornaram sua vida mais bela de viver… E por mais que o tempo passe, sempre estará em minha memória esses lindos momentos”.

A foto foi batida por ocasião do batizado de sua filha Hosana (atualmente casada com o publicitário Márcio Souza). Emamnoel tem três filhos: Hosana, Alessandra e Joaquim. Da esq. para direita: dona Luzia Honório (mãe) (in memorian), Emamnoel Barbalho, a professora Severina Honório Barbalho, mais conhecida por ‘Tia Bina’, o saudoso e inesquecível Monsenhor Antonio Barros, Antonio Honório Barbalho (tio) e a esposa de Emmanoel, a professora Ivanice Barbalho.

Lá se vão, 36 anos…