Dia: 19 de setembro de 2021

Histórias do mal e do bem contadas por dona Estela

Dona Estela, com a neta Sarah Costa – Arquivo: Gutenberg Costa

      

 Gutenberg Costa – Escritor e folclorista.

 Tenho total certeza, se minha mãe, não tivesse fugido aos seus quatorze anos de idade, de Pendências/RN para a grande capital do Estado. Menina ainda agarrada as suas bonecas que veio para casar com meu pai, esta teria fugido em um circo daqueles tempos, para ser uma grande atriz circense. Ou quem sabe uma grande e famosa contadora de histórias em teatros e casas de espetáculos. Dona Estela, mudava de voz e até imitava todos os trejeitos dos personagens de suas histórias. E para exemplificar aos seus sete filhos, que não se devia praticar o mal e só fazer o bem, sem olhar a quem, a mesma contava alguns exemplos reais de pessoas de seu tempo vivido na sua querida cidade.

 O mal quando é feito, quem paga o pato é o diabo. Aquele velho de chifres de boi, pés de pato, barbicha de bode e rabo de jumento. As Igrejas continuam lhe jogam tudo nas costas, sem lhes dá o sagrado direito de defesa. E eu não aceito acusação sem uma explicação, já que sou bacharel em Direito.

E o que o dito ‘tinhoso’ tem a ver com as maldades da famigerada Flor de Liz, João de Deus e o ex-vereador carioca Jairinho, entre outros milhares de gente ruins do mundo? Dizem que o tal do diabo, até se envergonha de certos personagens que vivem nesse mundo!

João de Deus e e Flor de Liz

A maldade humana também está representada nos exemplos repassados pelo famoso português Gonçalo Fernandes Trancoso, as suas famosas histórias, conhecidas como as ‘histórias de trancoso, que ouvimos em nossas infâncias: Havia um rei que era muito mal para seu povo… houve uma rainha que era muito boa naquele castelo. Muita coisa que é ainda repassada pela oralidade popular dos nossos raros contadores de histórias do sertão. Estudo sério, já trabalhado pelo mestre Câmara Cascudo, entre outros.

Domingo passado, como costumeiramente faço, estava ouvindo em uma de minhas radiolas o belo samba ‘Juízo Final’, do genial compositor e cantor de voz fanhosa, nosso Nelson do Cavaquinho, um dos gênios da nossa MPB. Ainda bem, que pelo menos, na referida canção o amor e o bem prevalecem. Dizem que são Jorge, o guerreiro do bem, venceu o dragão da maldade. Tanto o mal quanto o bem estão na Bíblia e no Alcorão, que tenho em minha biblioteca, bem como, nas antiquíssimas lendas e fábulas repassadas por Esopo e La Fontaine.

 Vou iniciar aqui pelo mal, segundo dona Estela: eu era criança de cinco anos de idade e me recordo muito bem de um velho pedinte de porta em porta em Pendências. Era ´seu’ Zé Pedro, um negro cego e aleijado, que andava arrastando a bunda pelo chão quente. Chegava na casa de meus avós maternos, com roupas rasgadas e sujas. Muito suado, cansado, fedorento e com fome e logo era recebido por minha santa avó, dona Francisquinha, com água fria de pote e um farto almoço. O pobre era cego e deficiente e como diz o povo, além de queda, coice!

Um dia minha genitora, contou-me sobre o passado do tal sofrido mendigo assim: “Esse Zé Pedro, que todo mundo diz ter pena foi um menino muito malvado e traquino. Bom atirador de baladeira nos pobres passarinhos. Quando não os matavam na sua maldade, os furavam os olhinhos e os soltava, dando risadas estridentes. Pegava os sapos e quando não os matava a pedradas, jogava sal nas costas deles… se eu for lhe contar todas as crueldades do cego Zé Pedro, eu não vou fazer nada por três dias”. E minha mestra filósofa e influenciadora religiosa do meu passado fechava a sua história com chave de ouro e bem séria: “Tá vendo meu filho, quem pratica o mal na meninice, como pode terminar na velhice. Aqui se faz e aqui mesmo se paga!”.

 Outro exemplo era a de um filho malvado, com sua pobre velha e boa mãe. Eu não cheguei a conhecer o filho maldoso, que foi o tal ‘Gonçalo’, mas fui muito na casa da sua mãe, dona Lina, a pobre sofredora das maldades do filho. Diziam que este batia sempre na magrinha e santa sua genitora, inclusive em uma das vezes, jogando-a com força contra a parede, esta fura a cabeça em um prego que estava fincado na parede. Os vizinhos a vinha socorrer e a mesma perdoava o amado filho. Um dia, minha dona Estela, contou-me o fim do referido finado Gonçalo: “Gonçalo bebia muita cachaça e em um carnaval lá em Pendências, o mesmo raspou a metade do cabelo da cabeça e a metade da barba e se vestiu igual a figura do diabo. Pouco tempo depois, ele passou a gritar e gemer alto, dizendo a todo mundo que estava rodeado de um monte de capetas. De repente ele tomou um forte veneno e morreu se esvaindo em sangue e pedindo perdão a velha Lina, sua mãe. Quem é mal filho quando criança, será um adulto muito mal. Mal amigo, mal esposo e mal pai. Mal vizinho com certeza. Será eternamente um amaldiçoado em tudo que for fazer”. Tenho outras histórias do mal na cachola, mas deixemos para depois…

Vamos agora a uma história do bem por mim vivida. Eu já estava trabalhando de vendedor ambulante de mil coisas, de porta em porta nos bairros da cidade de Maceió, Alagoas, com meus 17 anos, em 1977, e um belo domingo de sol resolvi ir ficar conversando em um restaurante, próximo a hospedaria, aonde eu estava. A empresa atrasara o meu pagamento e só havia tomado o café da manhã. O veredicto da pensão era que a partir daquele domingo não mais serviria almoço e jantar. Só a dormida e o café da manhã. Minha chorosa mãe, distante em Natal, nem sonhava que seu filho caçula se encontrava quase as 15 horas, sem almoçar.

Foto ilustrativa

Conversa vai e conversa vem, um senhor muito rico, empresário, que estava sozinho comendo e bebendo suas cervejas perto de mim, me chama para sua mesa e a nossa conversa foi se alastrando, feito o homem da mala da cobra de feira, de antigamente: “Meu jovem estou vendo você meio amarelado de fome, peça um almoço com suco e sobremesa que eu pago. Quando criança eu era de família muito pobre. Eu carregava água do rio em dois galões pesados para abastecer as casas dos ricos da minha cidadezinha. Um dia chorando fui bater na casa de meu padrinho de batismo e lhe pedir que pelo o amor de Deus, ele me ajudasse a sair daquela seca e ele no mesmo dia, deu-me dinheiro para eu comprar roupas, malas e uma boa ajuda para eu viajar para Natal. De lá fui trabalhar e estudar em Recife. Depois vim para Maceió e me casei com uma mulher de família muito rica. Hoje sou empresário bem sucedido. Só tenho uma grande dívida com meu padrinho que nunca voltei para pagar o grande favor que me fez. Soube que ele já morreu, só é viva a minha madrinha, também uma santa mulher muito caridosa com os pobres daquela região!”.

 Como o mundo é pequeno, diz o sábio povo. Quando lhe perguntei qual era essa sua cidade, o resultado foi um surpreso choro de nós dois, ali na hora e na frente de todo mundo do dito restaurante. Este leu na minha identidade retirada do bolso, o nome de minha mãe e meu pai e aos soluços foi me dizendo ainda espantado: “Meu filho, não é possível que isto esteja acontecendo. Conheço seus pais. Sou nascido em Pendências e seu avô materno era este meu padrinho de batismo da minha história a pouco lhe contada. Foi o homem que me ajudou a mudar de vida. Sou hoje o que sou, graças a seu avô Hermógenes Medeiros, que era muito rico, dono de fazendas, automóveis e até salina”.

Igreja de São João Batista, na cidade de Pendências/RN – Foto: Alex de Olho na Notícia

E chamando o dono daquele restaurante aos gritos, lhe deu a seguinte ordem, sem eu pedir-lhe nada: “Amigo a partir de agora, tudo que este jovem quiser aqui para comer, beber e até dinheiro se precisar pode botar na minha conta, que eu jamais pagaria o imenso favor que o avô deste aqui me fez quando eu tinha a idade dele. Pelo amor de Deus, não deixe lhe faltar nada”. Nem precisa dizer-lhes que a promessa do conterrâneo de minha mãe, foi totalmente comprida até o último dia em que eu estive trabalhando em Maceió/AL.

 Recusei, apesar das insistências do homem rico em ficar morando na capital de Alagoas. Quem sabe se a minha história hoje não seria bem diferente dessa atual. Poucos meses em que eu ia completar meus 18 anos e atendendo aos apelos de minha mãe, eu voltei para a minha amada Natal. Quando lhe contei em detalhes, a dona Estela, contadora de histórias sobre o mal e o bem, aos soluços me dissera o seguinte: “Conheci muito o menino João, ele era muito bom, trabalhador, bom filho e muito honesto. Todo mundo em Pendências gostava muito dele. Taí um exemplo de quem faz o bem em vida. Ele pagou o bem que meu pai fez a ele muitos anos depois. O bem foi pago a um neto do seu antigo benfeitor. Meu filho fique certo, que o mal só termina em mal e o bem em bem.

Dona Estela com a neta – Arquivo: Gutenberg Costa

 E minha mãe, a dona Estela, eximia contadora de histórias, se foi repetindo, quase que diariamente, o seu bordão filosófico para os filhos e netos que ficaram: Dessa vida nada se leva e aqui se faz, aqui se paga, de um jeito ou outro!

                             Mês de Setembro, Morada São Saruê/Nísia Floresta/RN.

A CIGARRA E A FORMIGA

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Em criança havia, na Rádio Rural de Natal, aos domingos de manhã, um programa voltado para as crianças. Nele eram vinculadas histórias radiofônicas infantis. Robin Hood e a flecha assobiadora. O Gato de Botas. “Quando calço minhas botas / dou três saltos num segundo / vou até o fim do mundo / num minuto chego lá…” O Casamento da Senhora Baratinha com o Senhor Dom Ratão. “Quem quer casar com a Senhora Baratinha / que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha…” Havia, não lembro o nome, uma história em que a formiguinha ficava presa na neve, morrendo de frio, e ia subindo a escala de seus apelos. Primeiro ao sol, depois ao muro, ao rato, ao gato, ao cachorro, ao homem e à morte enfim, que diz: “– Mais forte que eu é Deus, que me governa”.

Foto Ilustrativa

Uma das minhas prediletas era os Quatro Heróis que depois descobri se tratar do conto de Grimm, Os Músicos de Bremen. Contava de um burro velho que ouve o dono combinar a sua morte e foge. Durante a fuga encontra um cão, um gato e um galo que passam pelo mesmo drama e passa a carregar os três em suas costas na jornada. Pra animar, cantam, imagine só a desafinação, o zurro do burro, o ladrar do cão, o miar do gato e o canto do galo. “-Só  porque  não  vou  a  feira,  meu  patrão  quer  me  matar/ – E o  meu  do  mesmo  modo,  só  porque  não  vou  caçar/ – Camundongo  agora  é  mato,  meu  patrão  quer  me  afogar/ –  Se  eu  não  ando  tão  ligeiro  na  panela  eu  vou  parar”. E aí o refrão:

 – pum!pum !

– au!au !

– miau!

– cococorocóóó-có!

Mas me fascinava a fábula da Cigarra e da Formiga. Todos sabem: a cigarra canta enquanto as formigas trabalham arduamente. Vem o inverno (o inverno pesado do norte da Europa) e a cigarra procura abrigo e calor junto às formigas, que, prevenidas, tinham a despensa cheia e o fogo garantido. A resposta é duríssima: – Você não cantou? Então agora dance! E a cigarra, supomos, era condenada a morrer enregelada.       

                   

Não sei se Esopo escreveu pensando nas crianças, mas nunca vi nada de edificante nessa fábula. Onde ficam a hospitalidade, a solidariedade e a compaixão? Que dureza de coração permitiria a alguém recusar abrigo e proteção por o outro não haver sido precavido e ter priorizado os valores da arte?                             

 Até que ouvi a canção que só muito tempo depois soube ser de Braguinha e que propunha um novo fim para essa fábula triste. Na música, a cigarra afirma sua alegria em ser artista (Sou feliz/Cigarra cantadeira/Canto a vida, canto a luz/Pois quem cantar/Canta a vida inteira/Faz os sonhos mais azuis) e coloca as coisas em seus devidos lugares, pois Braguinha, genial, arremata, fazendo as formigas abrirem a porta e acolherem a cigarra.

Braguinha

Toda ocupação útil é trabalho. Precisamos, então, entender as artes como ofício, e um duro ofício. Além de duro, necessário. O que seria de nós sem a música, a dança ou a poesia, o teatro, as artes, enfim? Como imaginar um mundo sem Beethoven, Shakespeare, Van Gogh, Maria Callas, Drummond, Niemeyer, Monteiro Lobato, Elis Regina? Seria um mundo mais árido e pobre com certeza se não existissem o Boi Calemba e o Congo de Combate de São Gonçalo, a literatura de cordel, os cantadores de feira, as rezadeiras, os artistas de rua.

Boi Calemba

Nenhum trabalho é dispensável. Deve haver, sim, intelectuais, banqueiros, cientistas, operários, políticos, os administradores; assim como os poetas e pianistas, as bailarinas, palhaços e acrobatas, enfim, toda essa variedade de funções que se complementam e nos completam para que formemos um grande conjunto, operoso e harmônico, fazendo de tudo isso um cântico de louvor e gratidão à Criação.

Senão, como conclui Braguinha fazendo cigarra e formigas cantarem juntas, como em um hino à beleza da vida: “De que vale um tesouro/Junto às flores do arrebol?/Quem quiser que junte todo o ouro/Eu prefiro a luz do sol”.

NATAL/RN

O QUANTO VALE UM SER HUMANO

Nadja Lira – Jornalista – Pedagoga – Filósofa

O sistema capitalista no qual estamos inseridos especifica um valor para cada coisa com que precisamos lidar no dia-a-dia. Tal qual o rei Midas, tudo o que tocamos tem seu valor medido em ouro. Desse modo, existe um preço para tudo neste mundo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tudo nesse mundo, aliás, custa muito caro, uma vez que tudo é taxado de acordo com a lei da oferta e da procura. E tudo custa “os olhos da cara”.

Para nascer, por exemplo, é preciso pagar um alto preço. Especialmente quando as mães optam por ter seus filhos através de cesarianas. Nascer, portanto, está pela “hora da morte” e o valor já é tão alto que, por não poder pagar o preço, muita mulher está parindo seus rebentos em qualquer lugar: dentro de ônibus, nos bancos das praças e até nas calçadas das maternidades, cujo interior seria o local mais indicado para uma pessoa chegar ao mundo.

Mas para morrer também não é barato. O valor pago para que alguém tenha direito ao descanso eterno pode chegar a uma verdadeira fortuna. Tudo vai depender da mordomia pela qual a família do morto estiver disposta a pagar. E com um agravante: tudo também vai depender do quanto o morto foi querido e quanto vai deixar de herança para seus sucessores.

A morte, inegavelmente, transformou-se em um comércio onde o faturamento é crescente ao ponto de os “papa-defuntos” travarem verdadeiras guerras diante dos hospitais e necrotérios, para faturar com a morte alheia, não demonstrando o menor constrangimento com a provável dor dos descendentes do morto.

Mas que ninguém se engane, porque no intervalo entre nascer e morrer também não existe gratuidade. A palavra de ordem enquanto todos estão vivos é CONSUMIR. A prova disso pode ser testemunhada através da velocidade com que as pessoas desse nosso mundo capitalista trocam de aparelho celular. Mal saem da loja, o aparelho comprado já está obsoleto e mesmo sem apresentar qualquer defeito, já se faz necessário adquirir outro mais moderno. Até porque a vida útil de um aparelho celular não ultrapassa quatro anos de uso. As fábricas são muito criteriosas neste ponto.

Ora, o aparelho celular tem como principal finalidade efetuar e receber chamadas. Os aparelhos de hoje, porém, não só realizam as funções básicas para as quais foram fabricados, como oferecem outras possibilidades mais atrativas.

Assim, o celular ainda pode funcionar como câmera fotográfica, rádio, gravador, filmadora, TV, enfim, os aparelhos possuem tantas funções que as pessoas preferem “brincar” com eles invés de conversar com o olho no olho com o seu semelhante.

A necessidade de consumir aquilo que não se precisa, está levando o homem moderno ao ponto de valorizar demasiadamente a conta bancária do outro, em detrimento do seu caráter. No mundo atual, as pessoas estão valorizando mais o ter do que o ser. A grande dúvida é saber o preço de um ser humano.

DA RUA DO CAPIM AO ITAMARATY


Roberto Patriota é jornalista e escritor 


Nascido na então rua do Capim no dia 29/10/1916, hoje denominada rua poeta Ferreira Itajubá na cidade de Touros, Rio Grande do Norte, o diplomata Antônio Patriota declarava-se orgulhoso por ter quatro filhos e uma neta na carreira diplomática. Antônio Patriota foi um daqueles homens, dos quais podemos qualificar como “imortal” no sentido mais amplo da expressão. Amava a vida apaixonadamente e viveu todos os seus dias com bastante intensidade e um certo projeto bicentenário em mente. Ignorava a morte e nunca falava sobre doenças ou coisas negativas. Quando informado sobre algum amigo ou parente que se encontrava enfermo, desconversava. Superou a barreira cronológica dos 100 anos, poderia ter ido mais adiante se não fosse por um acidente doméstico, uma queda em piso molhado durante a madrugada que abreviou em muito o sonhado bi-centenário. 

Igreja Matriz de Touros/RN


Quando das suas constantes visitas a Natal e Touros, a família se dividia em grupos para poder acompanha o intenso ritmo que Antônio imprimia. Amava uma mesa farta, um bom whisky e uma conversa inteligente. Já próximo do centenário esteve em Natal a passeio, se demorou uma semana e conseguiu mais uma vez manter a sua vida social em dia, acordando cedo como sempre, caminhando na praia, reunindo amigos e parentes para os almoços e jantares e por vezes esticava o bom papo pela madrugada. Tinha uma vitalidade física espantosa.

Mesmo depois do centenário continuou dirigindo com carteira de habilitação renovada, lia sem precisar usar óculos de grau e tinha uma memória privilegiadíssima. Realizou centenas de viagens Brasília – Natal – Brasília, dirigindo seu carro. Manteve-se ativo no volante e nas estradas até os 86 anos de idade. Deixou de dirigir nas estradas, mas continuou dirigindo em Brasília aonde morava. Quando das suas visitas a Natal ou exterior, locava carros. Foi o homem mais independente que conheci até hoje. Hospedava-se sempre em hotéis, não aceitava convites para alojar-se na casa de parentes ou amigos, primava, sobretudo pela sua liberdade. Quando indagado sobre o segredo da sua vitalidade respondia fácil: Chivas Regal. Era o whisky da sua preferência. Bebia pelo menos quatro doses medicinais por dia ao longo de pelo menos sete décadas. 


Apesar de ter lutado bastante para galgar seu merecido espaço no mundo da diplomacia, Antônio Patriota sempre se considerou um homem de sorte. Deixou a cidade de Touros com 14 anos de idade e foi morar em Natal. Dois anos depois a família decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro. No Rio fez a vida trabalhando no comércio e estudando. Formou-se em jornalismo e fez mestrado em Economia, nos Estados Unidos.

Ingressou no Itamaraty sem ter nenhuma tradição familiar, prestou concurso com a cara e a coragem, por esforço próprio, foi aprovado e seguiu sua carreira avante. No entanto o fato de ter ingressado no Itamarati, no Ministério das Relações Exteriores, ter servido em vários postos em consulados, missões bilaterais, multilaterais nas Nações Unidas em New York, Genebra, Caribe e outros países, possibilitou o ingresso de alguns filhos na diplomacia.

O que mais lhe envaidecia era o fato de ter por assim dizer, criado uma dinastia no Itamaraty. Encaminhou quatro filhos e uma neta para carreira, além de um genro que já foi embaixador, e por tabela uma filha embaixatriz. Isso realmente o deixava muito orgulhoso. Costumava dizer que ninguém no Itamarati tem tantos parentes na carreira diplomática quanto ele. O fato sempre foi motivo de orgulho, ter saído de uma pequena cidade como, Touros no início do século XX, e ter conseguido galgar um espaço tão importante no contexto internacional. Além dos filhos e neta que encaminhou para a diplomacia, uma outra filha, Margarida Patriota é escritora de renome no Distrito Federal, foi à primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasiliense de Letras. Outro filho, Antônio de Aguiar Patriota foi ministro das Relações Exteriores e embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Itália e Egito. 


Quando era menino, seu tio, Nelson Ferreira Patriota, morava na então rua do Capim na cidade de Touros. Antônio costumava recordar que seu tio era amante da leitura, vivia cercado de livros, era um homem bastante culto para o ambiente em que vivia. Quase todas as noites reunia a família para ler sob a luz do candeeiro. Ainda criança, por volta de 1925, Antônio conheceu a trajetória de “Os Sertões”, do grande escritor Euclides da Cunha, através da narrativa do seu tio Nelson. 


Quando indagado sobre o segredo do seu sucesso profissional dizia, que não existe segredo para conseguir o que se quer da vida, afirmava sempre que mais vale ter vontade de viver, gostar realmente de viver, não ser pessimista, hipocondríaco, ter gosto por leitura, por música e praticar esportes. Até os 85 anos de idade jogou tênis, seu esporte preferido e quase uma paixão. Na visão de Antônio, o segredo do sucesso não passa de uma somatória de fatores, incluindo a sorte, que depende muito do modo como cada um ver a vida.

 Em seu centenário comemorado em Brasília em 2016, tive a oportunidade junto com o primo Eduardo Patriota, de falar por alguns minutos sobre o que representou Antônio Patriota no contexto familiar. Ele foi um otimista incondicional que tinha uma visão extremamente positiva da vida e da sua própria trajetória dentro do contexto global. Era avesso a gestos pequenos e comentários maldosos. Foi um homem essencialmente moderno, encontrava-se posicionado sempre na vanguarda do mundo, com o olhar voltado sempre para um futuro promissor. Tinha uma incrível percepção intuitiva sobre tudo e todos. Apesar de amar seu berço materno e seu país, foi literalmente um cosmopolita incondicional, sentia-se em casa em qualquer lugar ou nação onde estivesse residindo ou passeando. Continuará a ser uma espécie de guru de toda a família Patriota ainda por muitas décadas.

O SANTO E O CANALHA

Dodora Silva Maia – Escritora, pesquisadora e poeta de Apodi/RN

Hoje li um artigo do Patriarca Davi Marroque, pastor da Igreja de Cristo, de Apodi e que na sua Palavra Pastoral escreveu um texto muito bonito, denominado ‘O SANTO E O CÍNICO”, numa alusão ao artigo do padre José Luiz Silva, um dos grandes intelectuais que o RN conheceu.

Eu tive o prazer de conhecer o padre José Luiz, na Cooperativa do Pastor Diomédio, e o ouvi contar muitas histórias vividas nas suas andanças pelo mundo, que ele conhecia como a palma da sua mão; ele andou e viveu em Paris, Lisboa, Berlim, Amsterdam, Madri, Praga, Damasco, Beirute, Roma, Budapeste, Bruxelas, Cairo, Jerusalém, Atenas, São Paulo e falava disso com a simplicidade dum nordestino em Natal, Macau, principalmente em Pendências/RN, onde foi sacerdote.

cidade de Jerusalém, visitada pelo padre Zé Luiz

Zé Luiz achava que viver era um privilégio e que o mundo foi feito para todos, por isso considerava todos iguais. Para ele o ser humano era UM e ponto final. Zé Luiz era tão apaixonante que sobre ele Dom Marcolino escreveu o seguinte: “Quando o direito canônico prescrevia normas preestabelecidas no recato dos eclesiásticos, ele gargalhava gostosamente como se o mundo precisasse de sua felicidade.”

Padre Zé Luiz abdicou dos votos sacerdotais e casou com Maria Helena, com quem teve os filhos chamados Cefas, Sulamita (nomes bíblicos) e Rosa. Sua vida não foi fácil fora do sacerdócio, naquela época da ditadura militar onde a discordância era um crime grave.

Eu conheci aquele homem barbudo e dono de uma intelectualidade vibrante e logo me apaixonei por sua humildade e inteligência. Eu adorava conversar com ele, ao lado do também ex-padre Manoel Barbosa de Lucena, um cooperativista nato.

Padre José Luiz – Fotos: Cefas Carvalho

Padre Zé Luiz era um conhecedor profundo de Filosofia, Latim, Grego, Teologia, Apologética, Exegese, Direito Canônico, Metafísica, Lógica, e que em nome do amor preferiu viver do que escrevia, imaginem!

Tenho seus livros e gosto de lê-los e fico muito emocionada com aquelas histórias dosadas de humanidade ou hilaridade, falando de deputados, camelôs, bêbados, prostitutas, futebol, vereadores, prefeitos, governadores, ou fazendo comparações e rindo muito da vida e do esforço que muitos faziam para aparecer. Ele escreveu muitas coisas bonitas e emocionantes e hoje cito apenas as frases do padre Zé Luiz (que não gostava de ser chamado de ex-padre), da crônica citada pelo pastor Davi Marroque: “O canalha ou cínico é um sertanejo às avessas. Ele é antes de tudo um fraco.”“O canalha pode ser tratado por EXCELÊNCIA, mas jamais será EXCELENTE.”

“Um país está em decadência quando não consegue distinguir quem não é canalha.”“O canalha é aquele que não concorda com você, mas diz que você está certo”“Quem disse que o canalha dorme? Ele é um eterno vigilante; com ele os bons não conseguem sobreviver.”

Voltarei com outras crônicas do meu dia a dia.

De volta ao passado… (69)

Foto da família do saudoso Geraldo Matias, falecido em 2016, quando tinha 82 anos. A família ainda tem residência na rua Santana, em São José de Mipibu, desde que era ‘seu’ Geraldo’ era servidor da antiga Base Aérea de Natal, exercendo as funções de motorista e mecânico, juntamente com outros mipibuenses, que trabalhavam na Base Militar de Parnamirim. Vemos na foto: Dona Nina Matias (atualmente, com 85 anos), o esposo Geraldo Matias e, sentados, bem comportadinhos, os filhos: Gilson Matias, na época, com 10 anos, Lúcia Matias, com 9 e Socorro Matias, com apenas 7 anos. A foto foi batida em em 1970.

Lá se vão 51 anos…