Dia: 13 de junho de 2021

A despedida de um amor juvenil

               

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Hoje, passadas décadas, venho aqui neste domingo contar uma história íntima tão triste. Guardada na memória a sete chaves. Rascunhada e tantas vezes rejeitada por mim mesmo, para torná-la pública aos meus poucos leitores e leitoras. Nada inspirado no grande Nelson Rodrigues ou em Rubem Braga. Nada de ficção, mas pura vivência, a qual muito pode ter acontecido a outros e outras, esses que agora me leem. Aceito as críticas e rejeições dos que só gostam de minhas historietas engraçadas, como também dos que não acreditarem em nada do que vos contarei.

Não se perguntam aos cronistas e memorialistas os pormenores de suas prosas. Não temos o direito de esclarecer tudo. Quem foi tal pessoa? Quando ocorreu e aonde o fato? Reservamos o sagrado direito de espalhar o milagre, sem contar o santo ou santa. Segredo para o túmulo. Confesso que fico chateado quando sou parado por curiosos querendo me jogar na velha fogueira da inquisição por não lhes contar os detalhes e nomes envolvidos em algumas histórias por mim vividas.

Outro dia, até me acusaram de contista. Juro ao amigo Nilo Emerenciano que ainda não escrevi um conto sequer. Como também, infelizmente, não nasci com a arte de Manoel de Barros e Mário Quintana, só para citar dois admirados poetas que já estão no céu, aonde moram os inteligentes, alegres e bons.

Bem, mas vamos lá, meus caros e caras, com meu particular amor juvenil. Namorico do tempo das radiolas de fichas, cabarés alegres da nossa velha Ribeira. Do parque São Luiz, aonde quando tinha dinheiro, lhe dedicava uma música cantada pelos chorões Maurício Reis e Evaldo Braga. Nome disfarçado, é claro, para não comprometer a jovem amada, com sua mãe tão braba, que a todo custo não queria nossa aproximação. Tudo escondido de todos: essa página musical, vai de um alguém apaixonado para uma jovem, vestida de azul…Os beijos eram ligeiros mais ainda. Eu adolescente e ela muito mais jovem do que eu. Mil planos e sonhos de fazer inveja aos filmes românticos, passados nas telas dos finados cines, Nordeste e Rex.

Uma noite, criando coragem, regado a umas cervejas, eu fui a sua casa pedir a sua mãe viúva, que era costureira, para namora-la. Naquele tempo era assim. Pai e mãe eram quem autorizavam o tal namoro público. Duas cadeiras na sala um pouco separadas. Chegávamos depois do jantar e saíamos ligeirinho depois de uma simples tossida do pai ou mãe da namorada. Era um aviso sem combinação. Nove horas, nem precisava o sino da igreja mais próxima bater.

E essa tal sogra quando me viu, sapecou verdadeiros tiros de canhões, usados na Primeira Guerra Mundial, do tipo: Você trabalha, meu jovem? Sim, senhora, desde meus 14 anos. Quem é seu pai e sua mãe e o que eles têm de posses? Tive que, mesmo gaguejando, responder em cima da bucha sem mentiras: Sou filho de seu Geraldo e dona Estela. Papai tem um caminhão velho marca Chevrolet e uma pequena casa na rua da feira do Alecrim. Minha mãe nunca trabalhou, pois desde criança criou com zelo e amor seus 7 filhos, de um total de 10 que teve.

Nem preciso contar que a vassoura de minha quase sogra já estava posta atrás da porta. Fui, então, convidado a retirar-me e nunca mais pisar os meus pés naquela morada e atelier de costuras. A velha queria um futuro genro de família rica e eu, na época, era o que se dizia lá em Pendências: ‘um reles pé rapado’. Eu andava de bolsos vazios. Não tinha aonde cair morto. Pouco tinha o dinheiro dos sorvetes e picolés Kibon, para oferecer as namoradas. Como eu ia presentear a sua filha, no seu aniversário de 15 anos, que em pouco iam comemorar com pompas e requintes?

Uma pena, que essa dita namoradinha não teve a ousadia de minha mãe, a qual aos 14 anos, brincando de bonecas de pano, fugiu de Pendências com meu pai para concretizar a sua aventura e casório, em Natal, durante a Segunda Guerra Mundial. Uma guerra ou um romance realizado contra a vontade de seus pais e familiares. Sofreu muito sair do luxo paterno, mas não deu o braço a torcer!

O meu dito namoro continuou como se dizia naquele tempo, ‘arroxado feito nó cego de corda de agave. Tudo às escondidas de minha quase sogra e das candinhas de plantão nas calçadas e janelas. Espionagem alguma, nem o famoso 007, nos achava. Depois, a pressão materna foi mais forte do que as primeiras panelas de pressão, chegadas no antigo e sortido Atraente.

Passou um tempo e já com meus 18 anos, reencontrei a bela jovem em uma madrugada no velho restaurante/bar ‘Peixada Potengi’, da rua Tavares de Lira, no bairro boêmio da Ribeira, de tantos cabarés. Um deles, era o famoso e popular ‘Arpeje’, hoje, nem paredes, devido o descaso do cruel tempo com nosso passado arquitetônico natalense.

Arpege, quando ainda funcionava, nos anos 70 – Foto: Wanderley Adams

A referida Peixada era aberta 24 horas e, nas madrugadas, uma espécie de hospital da ressaca, com seus milagrosos quentes e suculentos caldos de peixes. Serviam também sopas revigorantes em suas dezenas de mesas, cobertas com toalhas de cores variadas. Eu chegava ali acompanhando de uns três amigos integrantes também do bloco carnavalesco Magnatas. A data anotei, como anoto tudo na minha vida. Fevereiro de 1978. Durante a nossa farra, com a música de Waldick Soriano dominando o ambiente, eis que chega um grupo de raparigas, ainda jovens e vindas do mencionado ‘Arpeje’. De supetão reconheço a voz de uma delas. Um choque no passado do dois. Era a própria minha namoradinha, magrinha, de cabelos pretos, longos e lisos. Olhos pretos, diferentemente da Capitu de Machado de Assis.

Ela, envergonhada, começou a soluçar e fomos ocupar uma mesa, só nós dois. O passado nos pertencia, como o amor-paixão juvenil vivido. Sua mãe falecera e nada deixara em bens para a filha única, a qual já era órfã de pai desde criança. Mudara de bairro e, tragicamente, de vida. Como maldosamente diziam ‘caiu na zona’, literalmente, para poder sobreviver. Agora estava um pouco velha para a sua idade. Demasiadamente marcada pelas noites e violências da sua vida não tão ‘fácil’. Só lhe restava a sua voz meiga e calma do nosso passado. Choramos juntos, diante de todos os presentes. Esses não entenderiam nossos gestos naquele momento. Eu, com certa importância em dinheiro no bolso, ela lisa e com fome àquela hora, quase amanhecendo o dia. Pedi uma janta para a mesma que, ao chorar copiosamente, quase não engole o que veio lhe ser servido no prato.

Para encerrar esse drama, disse-me que havia causado um antigo aborto por ingerência de sua ranzinza e orgulhosa genitora. E o pior e trágico de tudo, esse assassinato, imposto a seu contra gosto, impedira que nosso filho ou filha viesse ao mundo. Haja cervejas e choro de ambos até o sol bater em nossos rostos. Nada prometi a pobre com destino tão sofrido. Apenas disse-lhe que voltaria sempre aquele bar para encontrá-la e ajudá-la financeiramente no que eu pudesse. Nem só na semana santa, sofrem as ditas prostitutas. Um dia é da caça e outro da caçadora. Certas coisas ficam difíceis voltar ao começo. Na época, já sabia que muitas mulheres oriundas de dona ‘Maria Boa’ eram fiéis donas de casa. Bem casadas e mães amorosas para seus filhos e netos.

Voltei logo depois e muito decidido: ia tirá-la daquele lugar e casar com meu antigo amor, mesmo contra o mundo. Minha mãe iria me apoiar, papai, com certeza, não. Nenhum garçom tinha mais a visto. Fui até o tal ‘Arpeje’ e, seu garçom, apelidado de ‘Pé de Pombo’, por causa de um defeito físico em seus pés, me contara o seu fim. Ela, depois do nosso encontro, muito envergonhada e triste, teria saído de Natal, de mala e cuia, para uma cidade distante, sem avisar o roteiro as amigas. E diante da notícia da triste partida, daquela que foi meu grande amor juvenil, pedi uma cerveja bem gelada e umas cinco fichas da radiola brilhante do cabaré, escolhendo a música cantada por Odair José, a qual não posso escutar ainda hoje, sem voltar o disco, como se diz: “Eu vou tirar você desse lugar/ Eu vou levar você pra ficar comigo/ E não interessa os que os outros vão falar…”.

Não sei se a mesma ainda vive nesse mundo. Se vive, espero que esteja muito bem de vida. Se já partiu desta, que Santa Madalena a proteja das pedras que lhe foram jogadas no passado. Eu, sem dinheiro, nunca lhe dei flores, só chocolate, tipo ‘Zorro’, nos nossos encontros.

Hoje, eu sigo adiante, escrevendo besteiras para passar o tempo. Sem traumas e remorso algum, deixado para trás! Sempre, com um olho no peixe e outro no gato, aliás, um pé no passado e outro no presente. Feliz e calmo, como as águas da Lagoa Papary, ali em baixo!

                           Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

SOBRE ENCANTOS E CANÇÕES

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor.

Retido em casa por força do tal distanciamento necessário no enfrentamento ao Covid-19, aproveito para por em dia leituras adiadas, recuperar velhos escritos e ouvir música, usando essa mina inesgotável chamada spotify. Isso clicou algum arquivo na pasta das emoções e antigos registros vieram à tona.

Minha formação musical deu-se através do meu pai e da velha radiola, um móvel enorme, com duas portas e o conjunto de rádio e vitrola. Meu pai tinha um grande número de discos de 78 rotações, bolachões pesados, com uma música em cada lado. A etiqueta, além do cantor e autores, trazia também a informação sobre o estilo: foxtrote, samba-canção, tango. A vitrola tinha um dispositivo que permitia que se empilhassem os discos e assim eles iam caindo em sequência. Então, um a um, desfilavam Carlos Galhardo, Francisco Alves, Vicente Celestino, Orlando Silva, Trio Irakitan. Nelson Eddy e Jeanette Macdonald faziam um dueto fantástico, cantando Ah! Sweet Mistery of Life. (O Cinema Rex em uma ocasião exibiu um festival de musicais da dupla e eu, garoto, tive a chance de vê-los em ação em filmes tão belos quanto melosos.)

Uma ocasião meu pai comprou um compacto em que Nelson Gonçalves cantava a dor-de-cotovelo Revolta (Hoje tão longe dos teus lábios sedutores/Sem o carinho dos teus beijos, meu amor/Não tenho horas de sossego em minha vida/Sou mais um barco que não tem navegador) e no lado B um garoto espanhol cantava com voz aguda uma canção chamada Saeta, o Canto do rouxinol. Era Joselito, que lotava as sessões de domingo do Cine Poti.

Quem também lotava as sessões de cinema e provocava o suspiro das meninas e a inveja da garotada era Elvis Presley. Por conta dessa inveja passei horas em frente ao espelho tentando, em vão, domar meu cabelo rebelde e fixar um topete à base da brilhantina Glostora.

Eram tempos das grandes orquestras e cantores de voz poderosa. Meu tio era artista contratado da TV Rádio Clube de Pernambuco e comandava um programa chamado ‘Encontro com Ernane Dantas’, onde ele cantava acompanhado do piano do maestro Nelson Ferreira. Além de cantar ele contava a história das músicas além de relatar casos engraçados. Em casa a família tentava acompanhar em frente à imagem precária da TV em preto e branco. O Bombril era um auxílio luxuoso.

Um parêntese necessário: na casa vizinha à nossa, nos fundos, funcionava a oficina das antigas radiolas de ficha que animavam a noite nas pensões e cabarés da Ribeira. Então, meio que obrigado, eu passava as tardes a ouvir tangos, boleros e bregas de toda ordem: Silvinho, Orlando Silva, Lindomar Castilho, Anísio Silva, Roberto Muller, Waldick Soriano. E de tanto ouvir a gente passa a gostar.

De repente surgiu uma nova geração, uma nova forma de cantar e de fazer arranjos. A voz afinada e um violão, além de letras refinadas, tomaram lugar dos vozeirões de artistas tipo Agnaldo Rayol, Francisco Petrônio e Moacyr Franco. Ao invés de cabarés e traições falava-se agora em barquinhos e garotas na calçada da praia. E a garotada toda queria aprender a tocar violão.

Quando achávamos que já sabíamos o caminho uma menina feiosa de cabelos encaracolados e uma afinação absurda lançou um disco com arranjos do maestro Rogério Duprat e músicas de Caetano Veloso e Jorge Ben. Gal Costa passou a ser, por muito tempo, a minha musa absoluta. Só quem ouviu os Mutantes pode avaliar a riqueza dessa revolução musical. E Tom Zé. E Gil. E Elis Regina. E outros. E tantos.

Aí, por conta da ditadura instalada em 1964 surge uma novidade e uma variante: a música de protesto e os festivais (não necessariamente nessa ordem). Com algumas exceções as letras todas passavam uma mensagem contestatória ou de resistência aliadas a uma alta riqueza melódica. Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Tom Jobim, Johnny Alf.  

Alguns artistas foram presos ou tiveram que deixar o país. Carreiras foram destruídas. Wilson Simonal, Taiguara, Geraldo Vandré. Elis Regina foi “enterrada” por Henfil por haver cantado o Hino Nacional, nas Olimpíadas do Exército. Fizeram as pazes quando a baixinha furacão gravou O Bêbado e o Equilibrista que pedia a “volta do irmão do Henfil”- Betinho – que estava exilado no Canadá.

Muitos anos passaram desde a radiola de meu pai. Tantas histórias, tantos dramas em meio a tantas belas canções. Tanto talento e tantas vítimas envoltas em meio ao tsunami social-político daqueles anos. Que não se repita. Que não seja, nunca mais, necessário. Mas se preciso é bom lembrar que “todo artista tem de ir aonde o homem está”. Resta saber para onde nós todos estamos indo ou estão nos levando. 

NATAL/RN

Santo casamenteiro

Rosemilton Silva – Jornalista e escritor – Natural de Santa Cruz/RN

Homi, seo minino, veje você que o ribuliço ta seno grande no mei do mundo mode a festança de Santantoin com dereito a quadria marcada pur Pedo Aleixo e dançada pur uma tuia de gente de idade nova que passo u ano quaje todo sajeitano pra esse dia. Apois bem. Mas hoje tomem é dia dus namorado, coisa que tem serventia pra munta gente presentiá o amou da vida!

A mais tarde, o cabra – e, claro, pode ser a mocinha tambem – sajeita todo, toma banho cum sabonete Alma de Fulô ou Cachimiri buquê, arrocha um profume de Atiquinson, bota um pente Framengo e um espêio redondo no bolso, carça de caqui cum uns remendo de pano quadriculado mode cumbiná cá camisa de manga cumpinda, chapéu de couro na mão, botas de vaqueiro e se atraca cum o presente pra ir na casa da namorada fazê bunitu e ganhá um surrizo do tamãe do mundo todo.

O cabra, se tivé intimidade cum o pai da namorada, chega mais cedo mode ajudá no acendimento da fuguêra do santo casamenteiro, ajeitando os paus, quebrano gravetos mode a danada acendê logo e num dá trabaío. Adispois disso tudo, vá sassentá a mesa e se refestelá cum um prato de cuiada, emendano com uma talagada de canjica e rebate tudo cum uma pamonha entregue ainda inrolada na paia du mii e cum dereito a sapecá uma manteiguinha da terra inriba. E tudo isso, vem acumpunhado de uma boa cunversa e munta aligria.

Triminado isso tudim, a mocinha vai saprontá toda, trajano um vistido de chita istampado todo indo inté as canela, tranças nos cabelo amarrada nas pontas cum um laço de fita ou intonce dois cocó de cada lada cum o mermo infeiti, uma sandaínha rasteira, munto rouge na cara mode ficá avermeiada e uns pontin preto pareceno sarda qué pra mode ficá mais Jovi.

E intonce, todo  mundo arrumado quinem manda a festança, vai saino de casa no prumo do Istitutu pra isperá a noiva que vem num´a carroça puxada pulum jumento e o sanfoneiro arrochano o dedo num´a daquelas marchinhas tradicioná da quadria. E tome foguetão caracaxá no rumo do céu, mijão correno atrás de minino, estrelinha brilhano e caindo faísca in cada rodada, traque peido de veia istota, chumbinho sacudido nos pés duzouto, bomba de parede inplodino e outos foguetório qui sobem a percura dazistrela qui tão piscano prá nóis num namoro infinito da beleza do firmamento qui incanta e qui a gente o prazê de vê já qui a luz do motor é fraquinha e vai primitino u ispetáculo.

E aí cumeça a foimação da quadria. Um pá pra lá, outo prá cá e todo mundo cum um farnizim da gota serena, um friviado cachorro da mulesta mode o maicadô dá o premêro grito no chamamento do formê us pá e o anavan quebrá o sussêgo dano sina mode o sofonêro arrochá uzdedo na sofona com aquela marchinha que vai inté a quadria triminá!

Adispois disso tudo voismicê pensa qui acabô? Oxente! Tá doido é? Agora é qui o tirinête é grande! Vai tê a quadria improvisada que ajunta homi, muié i minino na foimação duzpá e o maicadô manda ôta veiz o sofonêro arrocha ozdedo na merma marchinha e ramu rezá mode ninguém queimá os passu ou troca, u qui todo mundo sabe num sê difici.

Apois bem, em toda rua a foguêra ta queimano. Todo mundo na carçada inredó du fogo, uns ispeto grande mode ficá distante da labareda prá num afuguiá o mii, e a criançada na maió brincadêra de roda inquanto armocin´a se aprepara mode fazê adviação. E quem sofre cum tudo isso é a coitada da bananêra que num tem nadazavê com o terém e recebe facada de tudo qué jeito e lado prá dá u nome do amado da dona Du cutelo novin in fôía comprado só cum aquela distinação. O coitado do Santontoin? Homi, pense num caba que vai sofré tomem!

Vamu vê. Tem mocinha qui amarra o pobe de cabeça pra baixo e só será incalocado de vorta pra tráis quano aparicê um namorado. Mas tem moçoila mas muderada qui bota apenas um laçu de fita nele cum o nome da paixão, mermo que o cabra num saba disso. Apois na véspra do dia do santo, a moça compra um metro de fita azú, iscreve o nome do iscupidu, passa o dia e a noite cum a fita no peito dentu du sutião e antes di drumí, conta sete estrela inquanto faiz o pidido ao santo e de menhã amarra a fita nos pés du coitado e dêxa lá inté o cabra sapresentá. Tem outas qui sapeca um gole d’água, dá sete arrudiada num canto de sala ou quarto, sisconde atráis darguma coisa e ispera modu uví o nome do futuro anmô. E tudo isso, num sabe, cum munta fé!

Viva Santantoin! Viva nóis! Viva nossa cultura, qui teimam em acabá mas nóis luta inté a morte mode mantê!!!

PIMENTA NOS OLHOS DOS OUTROS

Nadja Lira – Jornalista – Pedagoga – Filósofa

A traição, é, segundo o Aurélio, uma palavra originada do latim tr aditione, que significa entrega. É o ato ou efeito de trair (se). Crime de quem, perfidamente, entrega, denuncia ou vende alguém ou alguma coisa ao inimigo. Perfídia, deslealdade, fingimento de amizade. Infidelidade no amor. O tema tem servido de inspiração a vários escritores tais como o célebre Madame Bovary, de Gustave Flaubert, no qual o autor teria se inspirado no romance que viveu com Louise Collet, casada e mãe de uma adolescente.


A história se passa na época em que as mulheres eram proibidas de externar seus sentimentos e desconheciam seu potencial para a participação na política, assim como eram criadas e educadas para serem apenas esposas, mães e donas-de-casa. Ema Bovary, porém, decidiu contrariar estas regras e seguir na contramão. Infeliz no casamento passa a viver num mundo irreal no qual adentra por meio da leitura de romances.


O enredo chega ao seu ápice quando a dona-de-casa trai o marido buscando a própria felicidade, situação inadmissível para os rígidos padrões do século XIX. A publicação do livro causou grandes problemas ao autor. Alguns trechos considerados “picantes” foram censurados e o escritor foi processado já que sua obra foi considerada imoral.


Traição é um tema bastante utilizado como enredo para filmes, programas humorísticos e músicas bregas. Existe, inclusive, uma peça de teatro que faz muito sucesso Brasil à fora, cujo título é: Trair e coçar é só começar. Fica claro, através da comédia, que quem trai uma vez, fica freguês. Para repetir o ato de trair, basta encontrar a ocasião oportuna.

Trair e coçar é só começar (Brasil, 2006), de Moacyr Góes, com Adriana Esteves e Ailton Graça

O traidor, o desleal, o falso, e o ladrão – aquele usurpador de algo que não lhe pertence, são, no meu entendimento, pessoas da mesma estirpe. O traidor vale-se da sua confiança para tirar-lhe algo imensurável: a confiança.  O reles ladrão, rouba-lhe bens materiais de valor palpável. Mas estes podem ser recuperados. A confiança, uma vez perdida, jamais será recuperada.

O fato é que, a dor provocada por uma traição é insuportável. É pior do que uma topada quando a unha do pé está encravada, ou uma dor de dente que só passa de manhã. É pior do que dor de ouvido; pedra nos rins ou ainda ter um filho por meio de parto normal. Nem mesmo a dor pela perda por morte de um ente querido, pode ser comparada a dor da traição. Afinal, a traição dói no corpo e na alma e somente o tempo – senhor da razão – é capaz de curá-la.

A certeza de ter sido traído por uma pessoa a quem amamos e em quem confiamos, provoca uma estranha sensação de vazio, tristeza, desespero, solidão e desejo de vingança. É como ter uma faca enterrada no meio das costas e por mais que se tente, não existem meios para retirá-la dali. A dor da traição demora a passar. É uma dor que não se esquece e que faz a pessoa perder o rumo, os objetivos, o sono, o apetite, o brilho do olhar e até mesmo a alegria de viver.

A dor se torna ainda mais profunda, quando a pessoa traída procura explicação, sem encontrar justificativas para “a quebra do trato de sinceridade e confiança firmado entre as pessoas”. Afinal, o que é amar? E o que é confiar? É escolher uma pessoa entre milhões que estão disponíveis no mundo e elegê-la como seu amor, amigo, amado, amante e confidente, de forma exclusiva e incondicional para viver e ser feliz a seu lado.

Se for para ficar com alguém e ter que dividi-la com o resto do mundo, então, é preferível viver só. A situação do traidor é bem mais confortável. Ele parece nem se importar com a dor causada no outro. Afinal, pimenta nos olhos dos outros é refresco.

POUCAS E BOAS DE LAVÔ

Valério Mesquita (mesquita.valerio@gmail.com)

01) Campanha de 1990, para senador e governador. Cenário: Praça Pública de João Câmara em plena feira multifária e multifusa. Os dois candidatos Garibaldi Filho e Lavoisier Maia iniciaram às 10h da matina o famigerado corpo a corpo. Gari, vagaroso no andar, verdadeiro “pé de chumbo”, caminha atrasado e na dianteira, disparado, vai Lavô, o famoso beijoqueiro. Lá na frente, Gari alcança Lavô. Compassadamente, Gari cumprimenta: “Doutor Lavô, nunca se cansa. Parou por quê?”. Disfarça Lavô: “Prá lhe esperar. Pois nessa pressa já beijei até um macho!!!”.

02) Corria o bom tempo em que Lavô pontificava no Senado. Certa vez, descia sozinho no elevador da Casa e deu em cima da simpática assessorista. Insinuava-se aqui, bolinava ali e a moça sempre na retranca. Nisso, abre-se a porta do 4º andar. De pé, para entrar, o senador Mário Covas e o potiguar José Bezerra Marinho. No ar, ainda, um cheiro de assédio, quando Covas, raposa velha, pergunta ao colega: “Crau, Lavô”!!. Resposta do nosso paquerador: “Não, senador. Semi-crau!!”.

03) Com relação ao sexo oposto, todos sabem que Lavô era um cortejador que nunca perdeu uma parada. Certa feita, em Brasília, uma coroa altamente “reboculosa”, insistiu tanto, que acabou convencendo o então senador a assistir uma apresentação de certo tenor nacional. O moço era uma cópia fiel do grande Pavarotti. Lavô não se ligava muito nisso. Sua ligação era o olhar fixo nas pernas da loura. O rapaz cantava: “Con te, partiró, il mondo, etc.” A companhia quis saber sua opinião: “Não é gostoso, bem?”. O parlamentar da Alta Câmara sugeriu: “Se você acha? Eu também acho. Agora, gostoso mesmo é um forró pé-de-serra lá em Mossoró!”.

04) Acontecia num luxuoso hotel em São Paulo, uma recepção do alto PIB. O então deputado federal Lavoisier Maia, levava seu bom papo para uma linda moça que mais parecia um jumbo alçando voo. Já passava da meia noite. A garota não abria a guarda e ele então apelou para o golpe de misericórdia: “Meu anjo”, Lavô cochichou, “Se surgisse um homem rico, um jovem bonito e outro inteligente, falando em casamento para você, qual escolheria?”. A linda mulher, desesperançada, segurando o copo de um bom vinho, iluminou os olhos verdes: “Na maré que eu estou, até você serve”.

CASAS E CASARÕES DE SÃO JOSÉ DE MIPIBU

Essa residência, localizada na rua Barão de Mipibu, nº 88, pertenceu ao casal Áureo Tavares de Araújo (1905-1962), que chegou a ser prefeito de São José de Mipibu e Maria da Glória Toscano de Araújo, proprietários do Engenho Taborda e da Fazenda Camurupim (na divisa dos municípios São José/Parnamirim). Tempos depois, foi adquirida pelo tabelião Rinaldo Leandro que além de sua residência, instalou o 1º Cartório de Notas da cidade.

Em 1980, indo residir em Natal, Rinaldo vendeu o imóvel a Marciano Dias Freire, militar da reserva da Aeronáutica e que depois ingressou no comércio local (foi proprietário do primeiro supermercado de São José de Mipibu).

Em 1976 Marciano casou-se com Zélia de Araújo Freire, com quem tiveram os três filhos: Danielle, Marcio e Dalliane.

Na residência há uma frondosa mangueira que o arcebispo Metropolitano, Dom Nivaldo Monte, sempre que ia a Mipibu, era recepcionado pelo casal, declarou certa vez: “essa mangueira é minha”. A despedida de Dom Antonio Costa, da Arquidiocese de Natal, para a Diocese de Caruaru/PE, que reuniu os vigários da Diocese de Natal, ocorreu nessa residência, em 2002.

Marciano nunca quis derrubar a mangueira, apesar de, ao fim de cada safra de mangas, comprar cerca de 200 telhas para recuperar as que eram quebradas pelos frutos que caiam no telhado”, diz Zélia Freire, que foi casado com Marciano por 39 anos, quando ele faleceu, em 15 de maio de 2015.

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Nessa residência, o saudoso monsenhor Antônio Barros, antigo pároco da cidade sempre fazia questão de levar arcebispos e bispos, para serem recepcionados pelo casal, para almoços ou jantares, por ser a família católica fervorosa.

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Atualmente, reside na casa, a viúva Zélia Freire e os filhos Dalliane e Marcio. Este último, após o casamento, construiu um apartamento, anexo à residência que é considerada uma das mais bem conservadas da cidade, onde anualmente é realizado serviços de pintura, mas mantendo a mesma característica original.

Nossos agradecimentos a Elza Freire, Zélia de Araújo Freire e Márcio Freire, pelas informações e fotos deste textos.

De volta ao passado… (56)

Solene procissão do Primeiro Congresso Eucarístico Paroquial de São José de Mipibu, em 1936. Os Congressos Eucarísticos foram momentos marcantes para o povo de Deus, não apenas dos municípios que os sediaram, mas de todas as regiões circunvizinhas de onde viam fieis de municípios e localidades circunvizinhas. O evento trouxe a São José de Mipibu autoridades eclesiásticas e civis do estado. Na foto percebe-se membros de diversas irmandades, que ainda hoje, existem da paróquia.

Observe os casarios da época, vendo o espaço onde futuramente seria construída uma praça que passou a se chamar Praça Monsenhor Paiva. Ao fundo, as residências do ex-prefeito Hélio Ferreira e ‘seu’ Coutinho, com inúmeras janelas (muito comum, na época). Lá se vão 85 anos…