Mês: maio 2021

Professor da UFRN chama atenção para os cuidados com os encontros no dia das mães

Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, professor de saúde coletiva e ciências da saúde, Kenio Lima foi entrevistado ao vivo pela Globonews neste domingo.

O professor doutor chama atenção para o dia das mães, no segundo domingo de maio, quando muitas pessoas poderão encontrar os pais que não conviviam há bastante tempo, até mesmo em outra cidade. Para o professor, os encontros ainda pedem bastante cuidado.

O professor fez um alerta: os índices de transmissibilidade do coronavírus continua alto e o fato do número de mortes de idosos ter caído por causa da vacina, não permite o relaxamento

Governo do RN participa de audiência pública sobre a Lagoa do Bonfim

O Governo do RN, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema), da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) e do Instituto de Gestão das Águas do RN (Igarn) participou, na manhã dessa sexta-feira (30), de uma audiência promovida pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte sobre a situação volumétrica da Lagoa do Bonfim. De forma virtual, pela plataforma Google Meet, instituições, prefeituras da região e representantes da sociedade civil em geral estiveram presentes.

Na oportunidade, os gestores dos órgão do Sistema Semarh apresentaram as principais ações do Governo no intuito de manter a sustentabilidade do sistema lacustre Bonfim. A sessão pública foi presidida e coordenada pela promotora de Justiça da Comarca de Nísia Floresta, Danielli Christine de Oliveira, que destacou durante a reunião: “É uma audiência com caráter informativo com as instituições para debater o tema com foco na diminuição das águas da Lagoa”. O debate foi iniciado pela promotora Gilka da Mata que fez um breve histórico da situação do manancial, desde 1996.

Em seguida, o secretário adjunto da Semarh, Carlos Nobre, ressaltou que o Governo do Estado está atento a essa realidade e vem tomando uma série de medidas de gerenciamento hídrico do sistema lacustre Bonfim, entre elas o reforço na recuperação e ativação de uma bateria de poços em regiões próximas para abastecer o sistema por outras fontes, reduzindo a captação de água na Lagoa. “Implantamos uma bateria de 12 poços localizados em Boa Cica, além de uma adutora de 19km interligando esse poços ao sistema de captação da CAERN. Em períodos passados a SEMARH também adquiriu macromedidores e micromedidores a serem instalados nos municípios beneficiados pelo sistema, no intuito de também promover a racionalização do uso da água e o melhor controle por parte da Caern, órgão responsável pelo sistema adutor”. 

Carlos ressalta ainda que especialistas em balanço hídrico indicam que a recarga do manancial ficou afetada em decorrência da diminuição das precipitações, no período de 2010/2020, enquanto a demanda da população pelo recurso natural só aumentou. Entre outras medidas do Governo do RN, o adjunto da Semarh citou o encaminhamento do Plano de Manejo da APA Bonfim-Guaraíras, a aproximação dos órgãos responsáveis em nível municipal para o alinhamento do plano de diretor de Nísia floresta  em consonância com toda essa situação. 



“O Idema encaminhou para o Ministério Público todo o histórico do licenciamento ambiental que compreende a área da Lagoa do Bonfim. Além disso, já comunicou as instituições da necessidade de retomar a regularização dos empreendimentos existentes na localidade”, explicou a técnica do Instituto, Nataly Fernandes.

O superintendente de Empreendimentos da Caern, Fábio Siqueira, salientou a preocupação com o cenário atual, em que não há ainda outras alternativas para o abastecimento das 30 cidades atendidas pela Adutora Monsenhor Expedito. Fábio também lembrou que estão sendo providenciados estudos, em contrato celebrado com a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), que vão viabilizar a construção de um novo sistema adutor, em área localizada entre Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, e o Estado vizinho da Paraíba. A previsão de realização desse estudo, com cooperação técnica da Caern, é para o segundo semestre deste ano.

O diretor de Operações da companhia, Thiago Índio, levantou também outra preocupação, quanto ao cenário de escassez de chuvas, que vem acarretando dificuldades de abastecimento para os municípios atendidos pela Adutora Monsenhor Expedito. “Nós temos municípios com rodízio de 20 dias, passando por situações de escassez”, destacou o diretor. Thiago Índio informou ainda que, em razão desse quadro, nenhuma nova ligação está sendo autorizada, até que medidas para melhorar a situação efetivamente tenham efeito. Ao final da audiência, o diretor de Operações da Caern apresentou registros de ações de fiscalização ao longo de trechos da adutora. 

“O Igarn é responsável pela regularização dos usuários por meio das outorgas de uso da água e licenças de obra hidráulica. Não podemos considerar o rebaixamento da lagoa só pela retirada de água para a adutora. Nas últimas décadas houve o aumento do número de empreendimentos na região. Também existem os usos não regularizados, que o Igarn vem trabalhando para diminuir, tanto com fiscalização, quanto com a conscientização sobre a regularização” destacou Auricélio Costa, diretor-presidente do Igarn.

O Governo do RN, através da Semarh, já tinha encaminhado ao Ministério Público um documento com respostas sobre as principais atividades que vem desenvolvendo para manter a sustentabilidade da Lagoa do Bonfim. Como encaminhamento da audiência, a promotora Christine de Oliveira vai elaborar uma ATA com as principais contribuições do evento para posterior publicação à sociedade.

CASAS E CASARÕES DE SÃO JOSÉ DE MIPIBU

Essa casa é localizada na rua Princesa Isabel, em São José de Mipibu. No ano de 1978, o casal Pedro Antônio de Melo (in memória) e a senhora Darta Arcanjo de Melo (aposentada), venderam uma fazenda no Sitio Riacho do Brejo, em Monte Alegre. Com os recursos, compraram o imóvel ao comerciante, Manoel Golinha, quando passaram a residir na companhia dos filhos do primeiro casamento dele: Maria Soledade, que reside em Mipibu), Maria Solange (em São Paulo-SP) e Maria Severina (em Natal). E os filhos do segundo casamento: Delma Melo (mora em Mipibu), Dalma Melo (em Recife), Dário Melo (‘Dário Eletricista’ – Mipibu), Dalton Melo ( Sargento Dalton – em Mipibu), Dulce Melo (em Mipibu) e, também, nessa casa, nasceu Paula Melo ( que atualmente reside em Reykjavi, na Islândia).

 O casal passou a trabalhar no comércio local iniciando uma feirinha em frente ao antigo Bandern (próximo a Escola Estadual Barão de Mipibu) e foram pioneiros nas primeiras viagens à feira de Caruaru-PE, trazendo para a cidade os produtos da famosa Feira da Sulanca. Em meados da década de 1990, o casal se divorciou e a senhora Darta ficou com a casa (após pagar a parte que cabia ao ex-marido). Desde então, aos 75 anos de idade, Darta Arcanjo vem conservando a residência, até os dias atuais, com muito carinho mantendo a originalidade do patrimônio. Segundo o sargento PM Dalton, “há informações que essa casa pertenceu ao Senhor Miguel Ribeiro Dantas, mas. não temos comprovação. Talvez, alguém que esteja lendo essa nota, tenha informações mais precisas”.

De volta ao passado… (50)

Aguardando a passagem de um Trio Elétrico, puxando foliões, pelas ruas centrais de São José de Mipibu, por ocasião de um Carnaval fora de época, esses jovens irreverentes, tiveram a genial ideia de satiriza, lançando o “Burro Elétrico”, que animava a galera, em frente a Cigarreira do Bastinho (no centro da cidade). Na foto, vemos Ademir Matias, Oziel, Amauri Freire, Bastinho, Dário, Paulinho de Miguel, Anderson Lima e o garotinho Danilo. O fato ocorreu no ano de 1992 ( ou seria 1993 ?)

VANTAGENS DE SER SOLTEIRO

Nadja Lira Jornalista – Pedagoga – Filósofa

A principal vantagem de ser solteiro é o fato de não ter que dar satisfação a ninguém daquilo que lhe der na telha fazer. Solteiro, estando de férias, pode sentir-se um verdadeiro filho do Dono do Mundo: pode dormir a hora que quiser, acordar na hora que melhor lhe aprouver sem ter que justificar suas ações. Solteiro não precisa dividir o lençol com ninguém, mas o melhor mesmo, é que pode sair da cama pelo lado que lhe for mais satisfatório. Não ter ninguém para abrir as cortinas do quarto naquela hora em que o sono está mais gostoso, somente um solteiro pode saber o quanto é bom.

Existe um ditado, cuja afirmação é a de que “a vida de casado é boa, mas a vida de solteiro é melhor. Solteiro vai para onde quer. Casado, tem que levar a mulher ou o marido”. De fato, os solteiros podem viajar, passear no shopping, na praia, na rua, na lua, enfim, pode sair para onde bem quiser e entender, sem a necessidade de dar satisfação a quem quer que seja.

Em casa, solteiros podem deixar louça suja na pia, se assim entender e não vai ouvir reclamação de ninguém. Ao acordar, além de sair da cama por qualquer um dos lados, pode arrumá-la ou não, porque pode voltar para estar entre os lençóis quando lhe for conveniente. Pode dar-se ao luxo de andar pela casa o dia inteiro de camisola, de pijama ou mesmo sem roupa e sem medo ou preocupação de escandalizar a alguém.

Solteiros podem realizar alguns daqueles sonhos de criança, como comer bagana e tomar Coca-Cola o dia inteiro, por exemplo, sem precisar ouvir uma voz estridente atrás da sua orelha lembrando o tempo inteiro, que é preciso comer direito, especialmente as verduras e legumes.

Muitos são os privilégios aos quais os solteiros têm direito, como o domínio total e exclusivo do controle remoto, cabendo a ele mudar de canal quantas vezes quiser, na hora que quiser e sem ouvir um pio de absolutamente ninguém.

Sair do banheiro molhado deixando um rastro de água entre o banheiro e o quarto, é um pecado mortal o qual somente um solteiro pode praticar. Enxugar-se após o banho e “esquecer” a toalha molhada sobre a cama é outro pecado exclusivo de solteiros.

Ouvir sua música favorita com o som bem alto, deixar marcar de copos no centro da sala e dormir sem jantar no dia em que quiser e bem entender, são privilégios que somente solteiros e sem compromissos podem desfrutar. Nada pode ser melhor do que você se sentir dono de sua vida, não precisando dar explicação a outrem, daquilo que lhe dá prazer naquele momento.

É inegável que solteiros também têm responsabilidades a cumprir, assim como as demais pessoas têm. Solteiros, porém, podem gastar aquilo que sobra das responsabilidades, sem contar com o controle de outra pessoa. Assim, se for do seu interesse, o solteiro pode gastar seu excedente destas responsabilidades pagando cerveja para os amigos, por exemplo. 

Esse excedente também pode ser gasto com as viagens que ele sonha fazer, ou com a troca do carro, ou com a compra de roupas novas, ou com qualquer outra coisa que lhe dê prazer, sem dar explicar a ninguém. A sensação de não precisar ter alguém opinando ou supervisionando sua vida, não tem preço.

A sensação de liberdade é uma das maiores vantagens da vida de um solteiro. Afinal, você e apenas você é responsável por si mesmo e somente você poderá ditar as regras para a sua forma de viver e ser feliz. .

Somente a um solteiro é possível chegar em casa de madrugada, embriagado, vomitando e não ouvir reclamação nem choro de bebê na hora em que a cama deixar de girar e você finalmente consegue adormecer.

Somente os solteiros podem estar disponíveis para participar de programas de última hora. Para solteiros também sobra mais tempo para aprimorar seus conhecimentos. Desse modo, ele pode ocupar seu tempo lendo o livro e vendo o filme que bem entender. Também terá mais tempo para concluir aquele curso que tanto queria, ou iniciar seus estudos em determinado idioma.

É importante destacar, que ser solteiro não significa dizer que você não vai cuidar da sua casa, arrumando-a e deixando-a aconchegante para receber suas visitas. Você também não é obrigado a executar esta tarefa, para a qual existem milhares de pessoas disponíveis. Contrate uma de confiança, para que sua casa seja transformada num chiqueiro.

E por favor não confunda ser solteiro com ser solitário. Solteiro é um sujeito que não quis casar, ou saiu de um casamento infeliz. Solteiro é um ser que prefere viver sozinho a ter a companhia de uma pessoa chata, controladora, mandona e que não respeita suas preferências. Solteiro também pode ser considerado como um ser que não quer ter um envolvimento sério e prolongado com alguém, porque dá muito trabalho agradar aos outros.

Solitário é um ser que está só e carente de afeto. O solitário fica sozinho por opção. Ele escolhe ficar sozinho, isolado do convívio social, num lugar ermo, afastado, porque não gosta de dividir seu espaço com as outras pessoas, preferindo viver afastado de tudo e de todos. A única ciosa que ambos têm em comum, é o fato de não gostar de dividir seu espaço com gente chata e controladora.  (23/08/2020)

REDINHA DOS MEUS AMORES

Nilo Emerenciano – Arquiteto, escritor, articulista.

Havia duas maneiras de se ir até a praia da Redinha em busca das areias brancas, da vila dos pescadores e da paz que uma vida bucólica é capaz de nos trazer.  A primeira era pela velha ponte metálica de Igapó, ali instalada desde 1916. A ponte – da qual ainda resta parte da estrutura sobre o rio Potengi, foi projetada para o tráfego ferroviário, e umas chapas metálicas permitiam a passagem de automóveis em um sentido de cada vez, sendo necessário aguardar a passagem dos veículos que vinham de lá pra cá. A passagem dos carros era acompanhada pelo barulho das chapas: trac, trac, trac. O trajeto era para nós, garotos, uma aventura que só acabava quando tínhamos o vislumbre das dunas, a passagem pelo cemitério e o cruzeiro, e enfim, a visão do mercado, da igreja, do clube, das poucas casas, das redes de pesca estendidas, do trapiche e do rio e, pouco mais longe, a boca da barra.

Antiga Ponte férrea de Igapó – Foto: Tok de História

A segunda opção era fazer uso dos barcos que pertenciam a Luís Romão. Eram dois barcos a vela e duas lanchas a motor. Partiam do cais da Avenida Tavares de Lyra, onde ainda se viam as paredes queimadas pelo fogo da antiga loja 4.400. Os motores das lanchas eram obviamente uma adaptação barulhenta e esfumaçada, e as pessoas sentavam em torno dessa geringonça que seguia resfolegando em direção ao trapiche do outro lado do rio.

Foto: Henrique Araújo

Ainda não havia energia elétrica regular na Redinha. Um motor a diesel funcionava até às dez da noite, piscava algumas vezes como aviso e depois apagava, deixando aos retardatários o brilho do luar.  Meu pai era radialista e no veraneio se encarregava da programação da difusora local. Pescadores e veranistas vinham cantar músicas de seresta. Meu pai criou a vinheta, parodiando Catulo da Paixão: “Não há oh, gente minha, luar como esse da Redinha…”.

Geraldo Preto e dona Dalila eram as grandes figuras do lugar. Dizem que ele inventou a ginga espetada, frita no dendê e servida com tapioca que hoje é patrimônio imaterial do estado. Figuras simpáticas e generosas. Seus filhos Geraldo e Durinho eram meus companheiros de brincadeiras. As meninas até hoje tem pontos no mercado. Eu gostava de ver o peixe que os pescadores traziam dos paquetes e era despejado no chão para ser pesado em uma grande balança que havia no centro do mercado.

Ginga espetada, frita no dendê e servida com tapioca que hoje
é patrimônio imaterial do Rio Grande do Norte

 Lembro-me de um morador chamado Paulo Tubarão, com um grande tubarão tatuado no peito. Nos domingos jogava no Clube Atlético Potiguar, (o Atlético de João Machado) e , dizem, perdia o último barco da volta tomando umas na Ribeira. O recurso era atravessar o Potengi a nado usando apenas um braço, pois o outro mantinha a roupa acima da água.

Como esquecer Aderbal e Bernadão, lutadores rivais de Vale Tudo no ringue armado no ginásio Sílvio Pedrosa. Meu pai dizia que iam para a Redinha se refugiar da fúria de apostadores inconformados. Uma vez, curioso, fui mexer nos peixes que os pescadores traziam. Um deles me afastou ríspido. Bernadão, que eu não tinha visto às minhas costas, perguntou: “Qual o problema com o menino?” O pescador erguendo a vista  viu a figura robusta de Bernadão e fraquejou: “Nada não, nada não. Pegue, menino, leve esses peixinhos…” Corri  para casa levando aqueles peixes. Comecei a aprender ali sobre o valor de um pistolão. Ou da amizade certa na hora certa.

Foto: Vento Nordeste

Aos domingos era a missa na igreja dos veranistas. Era chamada assim porque sua construção resultou da iniciativa de alguns veranistas. Foi erguida em pedras escuras, com um grave defeito: ficou de costas para o mar, como não podem ser as igrejas de comunidades pesqueiras. A antiga Capelinha de Nossa Senhora dos Navegantes, erguida sobre as dunas, era modesta, porém orientada para o leste, onde o sol se levanta e de onde as jangadas retornam para casa.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é image-1024x768.png
Capelinha de Nossa Senhora dos Navegantes

Por isso mesmo houve um ano, às vésperas da festa fluvial, quando a Virgem dos Navegantes deveria percorrer em procissão as águas do Potengi, em que deram pela falta da imagem sagrada. Havia sumido e só veio aparecer no dia da procissão, tão misteriosamente como desaparecera, abrigada na velha capela dos seus filhos pescadores. E da capela saiu conduzida com toda pompa pelas águas do rio, abençoando as terras da Redinha e de quebra, a cidade do Natal. Houve até quem percebesse um sorriso nos lábios da santa.

Foto: Canindé Soares

Tanto a lembrar… A lancha vermelha do prático em busca da barra e dos grandes navios que apitavam solicitando seus serviços. As ioles com os remadores do Centro Náutico e do Sport singrando ligeiras as águas. O  quebra-mar, local de nossas pescarias. Do outro lado a Fortaleza dos Reis Magos, sobranceira. O pontal de pedras com um farol a sinalizar para as embarcações a segurança do canal. O coqueiral altivo. O cais do porto, o canto do mangue. As velas das jangadas ao longe, evocando saudades. Na Redinha cheguei a ver e me maravilhar, como Newton Navarro, danças de bumba-meu-boi e coco-de-roda.

O tempo passa, mas deixa a poeira da recordação. Peixe frito, pirão, festa do caju, banho de mar ou de rio, pesca de siris, rede avarandada, lua cheia, o sonho nos olhos dos meninos. A vida escorrendo lenta igual às águas do Potengi; se esvaindo ligeira pelas nossas mãos como a areia branca das praias da Redinha dos nossos amores.

Redes na varanda

NATAL/RN

A DOR DA SECA

Rosemilton Silva- Jornalista e escritor. Natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Minha cumade Maria Gorda reclama dizendo que eu tinha que ter me encontrado com ela ontem, primeiro de abril e eu me desculpo porque não estava muito aprumado. Pois bem, minha cumade diz que estava apreensiva porque Pedro Severino andava reunido com uns homens lá perto da cega Matilde e já ensaiava atravessar o Trairí seco esturricado no rumo da Ferreira Itajubá.

E não demorou a poeira levantar. Os homens, tendo a frente a liderança de Pedro Severino, descem pela Padre Antonio Rafael e se dividem para atravessar o rio. Uns entram na Frei Miguelinho e outros na rua do Vapor. Estrategicamente pensada a ação surte o efeito desejado. Não há como não cercar os pequenos armazéns que guardam sacos de feijão, farinha e garajaus de rapadura.

Minha cumade Maria Gorda estranha o fato de que todos os feirantes sabiam o que ia acontecer mas não fizeram um único movimento, não se abalaram de suas casas para retirar a mercadoria ou parte dela, pelo menos. De uma das janelas do sótão da casa de Mané da Viúva, minha cumade observava o quebra quebra das portas e ficava abismada com a divisão do conteúdo dos sacos entre os homens.

Houve um princípio de confusão quando ela viu alguém literalmente atracar-se com um saco de algum tipo de alimento e tentar sair sem fazer a divisão. Pedro Severino logo providencia a retirada do fulano e distribui o feijão.

Feito o saque, todos tomam o rumo de suas casas nas fazendas e sítios e Pedro Severino, como sempre, sai com suas mãos abanando. Se precisava ou não, ninguém nunca soube até porque se precisasse não demonstraria, mas certamente não precisava de um quinhão de farinha ou feijão.

Não demora, observa minha cumade Maria Gorda, a cidade que já estava cheia de jornalistas e fotógrafos, receberia a visita dos políticos. Dito e feito. O ano era 1958, seca braba no governo de Dinarte Mariz. Juntou político na cidade e, de prático foi a certeza do início das obras do Açude Novo, feito quase todo com barro transportado em lombo de jumento como forma de manter o homem no campo empregado na tal emergência

Foto Ilustrativa

E por isso mesmo, foi que minha cumade reclamou porque não conversei com ela no primeiro de abril.

POUCAS E BOAS

PEGANDO PESADO


Valério Mesquita (mesquita.valerio@gmail.com)


01) O cenário é a Ribeira do pós guerra. Espólio comercial e cultural da presença americana. Numa vesperal de domingo conversavam na sacada superior do Grande Hotel duas figuras proeminentes do velho PSD: senador Georgino Avelino e o deputado estadual Lauro Arruda Câmara. Desviando a vista para a calçada, Lauro contempla e cumprimenta o irreverente João Alfredo Pegado Cortez, o conde de Miramontes que seguia, impávido, à pouca distância, uma mulher robusta que caminhava em direção as “casas de recurso” dos Coqueiros. O líder novacruzense, curioso, interpela: “João para onde você vai, uma hora dessa?”. Estendendo os dois braços no sentido da mulher da tarde, sem acanhamento, exclamou: “Vou trepar, não está vendo??”. Lauro, ruborizado, pediu, como que arrependido de haver cutucado o cão com a vara curta “que respeitasse a presença do senador”. Resposta de João Alfredo, sem olhar para cima, estirando o dedo médio: “Táqui pro senador, ó!!”.


02) A Ribeira, saudosa de guerra e paz, sempre foi palco das melhores histórias do humor natalense. Outro habitante sentimental de suas dimensões foi o inesquecível médico Pelúsio Melo. Já relatei algumas de suas histórias em um dos meus livros. A de hoje, mais uma vez, traz a verve, o repente e a criatividade, marcas registradas do personagem. Numa inspeção portuária na barra do rio Potengi em embarcação comercial lusitana, o navegante opunha séria resistência à vacinação dos tripulantes. O nosso intrépido médico da Delegacia Federal de Saúde manteve com o gajo português intenso bate-boca. Em arremate final, ao estilo bem nordestino, o velho Pelúsio foi genial no argumento: “Se eu aqui estivesse ao tempo da chegada do seu patrício Pedro Álvares Cabral, eu o vacinaria, tá bom!!!”. A discussão terminou imediatamente.


03) Ainda dos bons tempos chegam-me os causos de Morvan Dantas, irmão dos amigos Meroveu e Milson Dantas. Era brincalhão e irreverente ao extremo. Tendo o então senador Georgino Avelino prometido-lhe uma colocação, Morvan procurou-o aqui em Natal. “Seu emprego está conseguido. Vá urgente à Delegacia Regional do Iapetec em Recife e fale, em meu nome, com o delegado”. Sem demora viajou e travou o seguinte dialogo com o chefe: “Sou a pessoa do senador Georgino para a vaga prometida”. Fitando Morvan, serenamente, o delegado foi sucinto: “A vaga que temos aqui é pra enfermeiro. O senhor não tem a formação nem o perfil”. Morvan voltou decepcionado a Natal e enviou o seguinte telegrama: “Senador Georgino Avelino, Palácio do Monroe – Rio de Janeiro. “Pode botar o emprego que prometeu no pescoço em francês”. OBS: No idioma do general De Gaulle pescoço em francês escreve-se “COUR”. Daí…


04) Em Recife, onde estudava, Morvan foi vitima de uma brincadeira de mau gosto, nascida de uma aposta com colegas. O desafio proposto seria atravessar despido a procissão que passaria entre as duas pensões que alojavam os estudantes. Na hora aprazada, nu, Morvan misturou-se à multidão e quando procurou a porta da hospedaria de frente os colegas fecharam-na. Aflito, voltou para onde havia saído e o portão também não se abriu, por obra e graça do conterrâneo Wilson Dantas, um dos mentores da fanfarronice. Morvan refugiou-se num açougue mas não escapou de ser detido pela polícia. No governo de Agamenon Magalhães, cujo secretário de segurança era Etelvino Lins, somente foi liberado quando souberam que era filho do respeitável desembargador Virgílio Pacheco Dantas, que o requisitou de volta a Natal para os corretivos de praxe.