Dia: 30 de maio de 2021

O FANTÁSTICO MUNDO DOS LIVROS

Visita de Nilo Emerenciano à Biblioteca “Dona Maria Estela”,
do escritor Gutenberg Costa, em Nísia Floresta/RN

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor.

Em visita a casa/museu/biblioteca do meu amigo Gutenberg Costa fui induzido a algumas reflexões. Não sei vocês, mas a leitura foi, para mim, descoberta e libertação. Garoto insone e propenso à solidão, os livros foram o caminho, a verdade, a vida. Nem lembro o que veio primeiro. As HQs tem importância nisso e tenho dívida de gratidão para com Pato Donald e Zé Carioca, os Sobrinhos do Capitão, Jerônimo, o Herói do sertão, Tarzan, Zorro, Fantasma, a turma do Pererê e tantos outros. Além de Bolinha e Luluzinha, de Marge, que guardo até hoje, e sempre que releio dou boas risadas. Daí pros livros foi um pulo.

No capítulo livros o genial Monteiro Lobato veio em primeiro lugar, junto com a sua turma do Sítio do Pica-pau amarelo. Havia também a turma do Taquara-Póca, de Francisco Marins, que nos levava ao interior do Brasil e me apresentou o mito do Curupira, ser de pés para trás e defensor das matas, inimigo dos devastadores e de gente como Ricardo Salles. Não posso esquecer os livros de bolso editados pela editora Monterrey. O Coyote, Gisele, a espiã nua, que só muito depois descobri ter sido escrito por David Nasser. O sucesso de Gisele trouxe a espiã Baby, da CIA com as maravilhosas capas desenhadas por Benício. Eram lançados títulos para todos os gostos. Histórias de guerra, de cowboys, de espionagem, policiais. Eram baratos, tinham belas capas, e por serem pequenos eram levados a qualquer lugar, inclusive na escola, disfarçados dentro dos livros. Quem nunca leu Marcial Lafuente Estefania me atire uma Delta-Larousse na cabeça.

Papai um dia trouxe a série completa dos livros de Sherlock Holmes. Foi um deslumbre. A literatura dita séria me pegou como o Covid-19. Agatha Christie, Ellery Queen, Maurice Leblanc (muito fraca a série Lupin, da Netflix, por falar nisso). Chester Himes, Chandler, Hammet.

No sebo de Cazuza, pioneiro dos sebos em Natal, eu comprava revistas que traziam contos policiais – a X-9 e outra chamada Detetive. Descobri depois que eram a versão brasileira da pulp-fiction americana. Acreditem, as revistas traziam contos de Edgar Wallace, Sax Rohmer, H.G.Wells, Jack London, Walter Scott, Edgar Allan Poe e até King Shelter, vejam só, pseudônimo da nossa Pagu – Patrícia Galvão.

E aí o gosto pela leitura se estabelece e a gente empreende voos mais altos, frequentando bibliotecas e livrarias. A Biblioteca Pública me permitiu acesso a um vasto acervo, e lá li os russos e os franceses. Dostoievsky, Thecov, Gorki, Hugo, Maupassant, Zola, Mérimée, Flaubert (Emma Bovary é um desses personagens inesquecíveis). O prefeito Djalma Maranhão, nosso melhor gestor, espalhara pela cidade pequenas bibliotecas móveis, além de telefone público, quadra de esportes e parquinhos. Frequentei a que ficava na Praça André de Albuquerque, embaixo da Concha Acústica.

Galeria de Artes, na Praça André de Albuquerque (demolida) – Foto: Natal das Antigas

Três grandes impactos para o adolescente que eu era: Grande Sertão, de Guimarães Rosa, Vidas Secas, de Graciliano e os Sertões, do trágico Euclides da Cunha. Aos que badalam Joyce, Faulkner ou Borges, me desculpem, fico com os nossos.

Enfim, nossa terrinha também tem seus autores. Lembro José Bezerra Gomes, Homero Homem, Eulício Farias de Lacerda, Fernando Sobreira, Nei Leandro, Tarcísio Gurgel. Os Mortos são Estrangeiros, de Newton Navarro, é leitura obrigatória, sem dúvida. E há os mais novos, assunto para outra crônica.

Reitero a minha admiração por Luís da Câmara Cascudo. Daquela casa da Junqueira Aires ele construiu uma obra magnífica, confirmando a frase de Tolstoi: “Se queres ser universal, cante a sua aldeia”.

Somos um povo que lê pouco – e mal. E aí algum gênio da economia fala em taxar os livros, no momento em que as livrarias, que já eram poucas, fecham as portas. E mais: quando o Brasil volta ao mapa da fome da ONU devido ao descaso dos governantes e a um auxílio emergencial insuficiente. O Papa Francisco disse que não temos jeito por que temos muita cachaça e pouca reza. Eu diria: e poucos livros, Santidade, muito poucos livros.

Livraria Universitária, em Natal/RN – Foto: Blog do Miranda Gomes

Na entrada da livraria Universitária, na Av. Rio Branco, um trecho de Espumas Flutuantes alertava: “Oh! Bendito o que semeia/Livros à mão cheia/E manda o povo pensar!/O livro, caindo n’alma/ É germe – que faz a palma,/É chuva – que faz o mar!” Castro Alves sabia perfeitamente o que dizia.

NATAL/RN

Dia de Reis

Rosemilton Silva – Jornalista e escrito. Natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Tava eu ali ajudando Mané da Viúva  a montar  sua  lambe-lambe  e  arrumando  minha caixa de engraxate na esquina do mercado daquele lado mais alto onde ficam as bicas de sangria da cisterna na rua Ferreira Itajubá quase em frente ao reservado de Zé Galego e a bodega de Zé Abdias na esquina da rua do Vapor vendo os quartos da sapataria de Chicó Fulô, os de  guardar  as  mercadorias  de  Ciço  Anulino, Tibúrcio, quase em frente a nossa casa no sobrado que dá pro beco da Aurora, pegada a casa de João de Chana e Sinhazinha, parede e meia com Edson casado com Nair irmã de Raminha, juntinho da marcenaria de compadre Arnaldo Moreira irmão de padre Moreira, coladinho dos Germanos, Chiquinha do Acordeon, Frassineth e Maria, dos foleiros Manoel e Ze de Elias, Zé do Côco e Branca que estão arrumando o matulão mode voltar pro Rio de Janeiro, quando minha cumade Maria Gorda aparece saindo da bodega de dona Chiu na esquina que encerra a rua.

Dia de Reis é dia de choro de Antonio da Ladeira e seus companheiros, é data de fazer a última apresentação e guardar o boi pros festejos do Natal deste ano.

Minha cumade vem subindo a rua na direção do mercado que já está cheio de gente comprando carnes a Chico de Juca e Zé Vicente, verduras a Hozana Brito, fã incondicional dos benefícios da berinjela e todos lamentando a cisterna seca por falta de chuva nos últimos tempos, coisa que não está fácil porque o açude Santa Rita e o Alívio também estão no barro esturricado que nem as cacimbas dão sinais de água.

Seca braba, dessas de doer no coração deixando Borrego, Meireles, Badaneco e outros botadores de água sem opção para atender os pedidos.

Minha cumade me chama pra gente ir ver e ouvir o choro dos foles e da sanfona dos Germanos. Mané e Zé de Elias nos foles mais Chiquinha com seu acordeon, numa despedia bonita com aquele coral formando por todos os demais Frassineth, Maria, Zé do Côco e Branca entoando a “Triste Partida” de Luiz Gonzaga depois de terem cantado a bela “Ave Maria Sertaneja”.

Aquele choro lindo faz a casa grande começar a encher de gente e outros ficarem do lado de fora antes de irem pra rua Grande fazer suas compras. Até Miguel Doido que não houve direito parou pra se deliciar com a sinfonia de despedida, que agora recebe a participação de Zito Borborema, casado com Chiquinha e que adotou Santa Cruz por uns tempos para sua morada naquela casa enorme de Sebastião Germano.

É assim todos os anos e minha cumade fica me dizendo que eu aprendi muita coisa com eles, tocando junto um dia pandeiro, outro zabumba, outro triângulo e, mesmo com cinco, seis anos, bateria e arremedo de sanfona. Dia de Reis é data de despedida, retorno dos padres Moreira, Assis e Tarcísio e quase hora dos seminaristas voltarem para seus estudos, mas antes vamos ter umas rodadas de poli de dona Noca na casa, ao lado do Quintino Bocayuva, onde todos estudaram as primeiras letras e, aqui e acolá sai uma cervejinha em Pedro Tico parede e meia com Gastão de um lado e Joaquim Tavares com suas ferragens do outro de frente pra casa paroquial onde monsenhor Emerson já vê a fila organizada por Meireles e Veludo para arrancar dente de muita gente que vem da zona rural, enquanto o irmão Sanderson se diverte no labirinto que é aquela casa construída por Emerson.

Bom, minha cumade me chama pra gente ir comprar alguns ingredientes de uma buchada que vamos comer mais tarde e depois disso, me sento no banquinho da minha caixa de engraxate enquanto Mané da Viúva conversa animado com um e com outro e bate seus retratos pra sustentar a gente.

DISCORDANDO DA NATUREZA

Nadja Lira – Jornalista – Pedagoga – Filósofa

Desde os meus tempos de criança ouço dizer que a natureza é sábia, mas para mim, esta afirmação tem controvérsias. A primeira delas diz respeito ao crescimento dos cabelos e das unhas, o que ocorre diariamente. Sabe-se que o homem das cavernas mantinha os cabelos compridos, entre outros fatores, para proteger o corpo. As unhas, por sua vez, ajudavam a fazer às vezes de garfo e faca e ajudar na alimentação.

Atualmente, por uma questão de higiene e estética é necessário que as pessoas mantenham seus cabelos e unhas aparadas e limpas. Mas estes continuam a crescer independentemente da nossa vontade, mesmo que a necessidade deste crescimento seja dispensável.

Nossos dentes, entretanto, que são muito mais necessários, uma vez perdidos não há como se recuperar. Depois que perdemos os dentes permanentes, a única alternativa é a de se ficar banguela. É claro que existe a possibilidade de se fazer um implante dentário. Mas esta é uma alternativa que custa “os olhos da cara”, e, portanto, não está acessível para a maioria das pessoas.

Questiono a sapiência da natureza neste aspecto: por que cargas d’água as unhas e os cabelos que não são tão necessários à sobrevivência humana, não podem ser recuperados enquanto que com os dentes a história é bem diferente? Depois que caem prejudicam seriamente nossa mastigação e ainda tem um agravante: tira a nossa vontade de sorrir.

Outro ponto que me leva a duvidar desta propalada sapiência da natureza, está relacionada ao fato das pessoas crescerem e engordarem. Por que é que a natureza controla a nossa altura e não controla nossa capacidade de engordar?

Conheço uma infinidade de pessoas que gostaria de ter crescido pelo menos 10 centímetros a mais, mas a natureza não permitiu. Estas pessoas, porém, precisam se submeter a dietas rigorosíssimas para manter o peso equilibrado.

Sendo sábia como se apregoa, a natureza deveria fazer com o peso, o mesmo que faz com a altura: se ela permite que a pessoa cresça somente até determinado ponto, então deveria fazer o mesmo com o peso permitindo que a pessoa chegasse ao peso ideal para a sua altura e então não precisaria engordar mais.

Esta, sem dúvida, seria uma atitude sábia e que evitaria as filas intermináveis nos consultórios médicos para cuidar de casos de obesidade e aumento nas taxas de colesterol, triglicérides, glicose, etc. E ainda sem contar que enquanto um considerável grupo de pessoas evita comer para se preservar destes problemas, outro contingente não come porque não têm acesso aos alimentos.

Também não consigo entender por que a natureza concentra energia demais nas crianças, que correm, pulam, gritam, caem, levantam e começam tudo de novo, enquanto os adultos, que devem correr atrás destas crianças, mal se aguentam nas pernas.

O resultado desta disparidade pode ser visto no fim do dia: as crianças dormem feito uns anjinhos, enquanto os adultos mais parecem farrapos humanos de tanto cansaço. Neste ponto, me parece que a natureza não foi tão sábia dotando as crianças com energia demais e os adultos com energia de menos. Portanto, até que me provem o contrário, eu discordo da sabedoria da natureza.

A moça do feijão verde

Foto ilustrativa

Júnior Rebouças – É escritor e radialista. Reside em São José de Mipibu/RN

João Rezende, cinquentão, funcionário bem sucedido, gerente de grande banco, chegou ao limite do estresse em sua atividade laboral e antecipou a aposentadoria.

Ao se ver sem a velha rotina e longe das pressões diárias e horários, por um tempo, ficou meio perdido sem saber o que fazer. Só as caminhadas não eram mais suficientes. Em um período de seis meses, escolheu uma cidade pequena próxima à capital, comprou uma casa, fez as reformas necessárias que imaginava, montou um pequeno escritório e tudo mais que era preciso pra viver com sua amada esposa, naquele pensado paraíso escolhido.

Preparou uma residência pequena, de um quarto, cozinha americana, tudo adaptado ao que queria, alpendrada por completo, em um terreno com 40 metros de frente e 20 de fundo, ideal para o que desejava fazer: uma horta, cuidar de plantas, de cachorros, um minúsculo galinheiro e terminar seu interminável livro. Um romance que há cinco anos, vinha tentando pôr um final.

Foto ilustrativa

Ele só esqueceu um detalhe: não era aquilo que sua amada queria.

Sua esposa simplesmente não acreditou, quando João Rezende avisou que, a partir daquele dia, iria morar na cidadezinha do interior que havia escolhido. Por cerca de três meses já vinham debatendo a enorme vontade do marido aposentado, em se mudar. Não havendo um consenso mínimo que fosse, em nenhum momento. Pelo contrário, ficavam, com o passar do tempo, mais acaloradas e agressivas. Sendo assim, João Rezende, decididamente, saiu do apartamento amplo, com todo conforto possível, localizado em área nobre e foi morar sozinho no interior.

Na primeira semana e com a euforia da novidade, não sentiu tanto. Mas com o passar vagaroso do tempo, de vez em quando a solidão se chegava, tomando conta do espaço e o deprimia um pouco.

Em curtíssimo tempo, com sua humildade e simpatia peculiar, já havia conquistado quase toda a vizinhança.

Seu Toin, homem simples, trabalhador braçal, era o responsável pela manutenção das plantas, horta, algumas poucas galinhas, da limpeza e também dos cachorros. Viúvo, pai de três filhos, Ritinha com 25 anos, uma mulher exuberante, um tanto maltratada pela condição social e financeira, João com 14 e Pedro com 12, também muito bonitos, genética certamente herdada da mãe. Mas a atividade principal de Seu Toin, era a venda de feijão verde, onde todos os membros da família participavam ativamente daquele processo comercial, aos sábados, na feira da cidade.

A esposa de João Rezende, inicialmente, todo final de semana, ia ficar com ele na casa, o tempo foi passando e as visitas de final de semana, ficavam cada vez mais raras. Ao ponto da acumular três meses que não aparecia.

O que transparecia é que o marido, apesar de solitário, não sentia muita falta de sua amada.

Nesse tempo, João Rezende já estava totalmente adaptado com a realidade local, conheceu algumas pessoas e já transitava socialmente muito à vontade pela cidade.

Havia um boteco próximo de sua casa, onde os vizinhos, no finalzinho de tarde, início da noite, costumeiramente, se reuniam ao chegarem de suas atividades de trabalho. A conversa rolava solta, falavam de tudo, futebol, política, mulheres e muita fofoca… tanto é, que o local era chamado de “fofocão de Seu Manel”. Havia também outro atrativo, o “pau dentro” – uma bebida inventada pelo dono do boteco que misturava cachaça de primeira cabeçada, raízes de plantas e casca de troncos das árvores encontradas em matas da região. Duas doses já eram suficientes pra deixar o cidadão um pouco tonto. João Rezende já fazia parte desse meio e se sentia muito a vontade com aquilo tudo, apesar de diferenças sociais e intelectuais.

Foto ilustrativa

Mesmo fazendo algumas tentativas, nunca conseguiu dar um final na estória do seu livro. Em compensação se dedicava cada dia mais a escrever poemas falando de sua vida e tudo que o rodeava. Uma espécie de terapia literária.

Foto ilustrativa

Num belo domingo de sol, chegou na casa João Rezende, uma jovem chamada Ritinha, oferecendo feijão verde, pois no dia anterior, a feira havia sido muito fraca e necessitava vender um pouco mais. Ele comprou tudo que a moça levou. Conversaram um pouco. Ela agradeceu e ao se virar para ir embora, deu meia volta na cabeça e soltou um sorriso maroto, com certa malemolência em se ir.

Até aquela ocasião, João Rezende não havia desejado mulher alguma, não fosse a esposa. Os dias se passavam e começou a visitar a casa de Seu Toin, onde passava horas conversando. 

Entre ele e Ritinha, os olhares, as trocas de sorrisos, já não haviam como disfarçar… Com o tempo, pequenos afagos, as afinidades e as necessidades mútuas, estavam conduzindo para um amor meio suave, sem pressa nem arroubos.

A venda de feijão aos domingos, tornou-se hábito. Era o dia que se amavam e namoravam candidamente. Conversavam e quando Ritinha ia embora ele ficava feliz, meio abobalhado.

Num sábado chuvoso, após chegarem da feira, Ritinha se arrumou com a melhor roupa, mas não colocou seu perfume predileto. Chamou seu pai pra uma conversa, que não demorou muito e logo depois foi para casa de João Rezende.

Chegou com um sorriso largo e foi abraçada por seu amor, que achou estranho ela ter vindo num sábado. Ela na maior alegria, aos berros, disse que estava grávida. Ele parou atônito, franziu a testa, uma fração de segundo, totalmente parado. Em seguida começou a gritar, pular de alegria, se abraçaram, se beijaram e choraram muito. Ritinha já ficou lá naquela noite.

Foto ilustrativa

Pela manhã, João Rezende fez questão de ir na casa de Seu Toin, o casal fez o percurso com as mãos dadas e felicidade estampada no rosto. Um comentário de uma vizinha logo apareceu: – Assumiru hein, danadinha, sabia, minganaru não! Riram um pouco e seguiram.

Foto ilustrativa

Lá chegando, encontraram algumas pessoas na sala e os dois irmãos de Ritinha chorando ajoelhados, um de cada lado da cama de seu pai. No final da madrugada, quase clareando, Seu Toin havia sofrido um ataque cardíaco fulminante e falecido. Ritinha aos prantos, gritava: – Matei meu pai! 

De volta ao passado… (54)

Feira livre de São José de Mipibu, em frente ao Mercado Público. A Praça Desembargador Celso Sales ainda era com o antigo coreto, de forma circular. Observa-se o grande movimento. Na época, a feira de São José de Mipibu era, praticamente, a única dos municípios circunvizinhos, que para comercializarem seus produtos, além de adquirirem frutas, verduras e carne, vendidas nas bancas. Alguns imóveis vistos, ao lado do mercado, já foram demolidos e/ou reformados. A foto foi batida pelo estagiário americano, Ronald Skrabut, quando esteve aqui, atuando no Programa Brasil-USA, “Aliança para o Progresso”. Era o ano de 1967 e a foto, provavelmente, foi batida de uma das torres da centenária Matriz de Sant’Ana e São Joaquim. Lá se vão, 54 anos.

Um amigo solidário e alegre: Machadinho

Gutenberg Costa e Machadinho – Foto: Arquivo Gutenberg

                 

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Os meus amigos mais chegados já sabem que eu não gosto de hospitais e velórios. Falo sempre de bem e de minha gratidão aos poucos que me fizeram-me o bem, nas horas mais tristes de meu passado. Alguns já se foram e outros como eu, felizmente estão por aqui e ainda fazem verdadeiros gestos de irmandade. Digo que são irmãos e irmãs, os quais a dona Maria Estela não pariu. Tem muito mais do que meu sangue. Me adotaram com carinho e lhes sou muito grato. Não importam suas crenças e ideologias. Amigos são amigos! São santos e santas no meu antigo oratório de minha sala. Ai de quem vier ataca-los pela covardia em minha casa. Fizeram e fazem parte de minha vida, sem interesses e influências. Chegam com suas histórias e risadas e saem, com livros, nada mais! Digo sempre aos meus netos, que tenho muito orgulho de minhas antigas amizades…

Os ingratos não entravam na casa de minha mãe, como também não tomam café em minhas xícaras. Meus elogios, são em vida e gosto de visitá-los em suas moradas e em suas festas. Sempre os relembro, como seres especiais alegres e solidários, desde o meu tempo das grandes secas ou poucas invernadas. O que teria sido mim, sem esses padrinhos e madrinhas, que resolveram me dar ‘empurrões’ na escalada da vida do pobre menino da feira do Alecrim? Eu sem parentes importantes e sem dinheiro algum no finado BANDERN…

Hoje, muito abalado emocionalmente, vou falar pouco de um desses, que merecia um longo texto de gratidão. Mas, sei que ele me pediu esquecimento de suas ajudas: “Vamos mudar de prosa alemão…”.

Dia 26 de maio agora, encantou-se o ‘velho’ amigo jornalista, pesquisador e escritor João Batista Machado, o nosso estimado ‘Machadinho’, o qual conheci apresentado pelo seu conterrâneo e meu saudoso compadre de fogueira Celso da Silveira, em Natal, no início dos anos 80, da agitada política do RN. Dois grandes amigos e solidários durante alguns apertos de minha vida. Eles, constantemente, viveram ‘tramando’ o bem para os outros do rol de suas amizades. Em 1983, fui convocado por Machadinho para encontrá-lo em seu gabinete, na Assessoria de Imprensa, do então governador eleito, José Agripino. Conversa rápida e lembro de seu assombro com o valor que eu recebia, vendo o meu contracheque mensal na época: “‘Lucí’, ligue urgente para o Josemá Azevedo”. Naquela hora, desbancando toda a burocracia, eu já estava lotado em ‘sua’  recém assessoria. Ia ler diariamente os jornais de fora do Estado, com direito a levar para casa os encartes culturais e históricos, que saiam aos domingos: “Aqui você não vai carimbar nada. Vá ler e pesquisar à vontade. A prisão trabalhista acabou enquanto eu estiver aqui…”. Tudo era amizade e humor com Machadinho. Mais pai e irmão, do que chefe…

Machadinho ao lado de sua esposa, a jornalista Salésia Dantas
Foto: Blog Versos e Diversos

Com sua mania humorística de apelidar carinhosamente os seus agregados, eu passava a ser convocado a sua presença, com dois nomes do batismo machadiano: ‘O Homem da Imprensa’ ou ‘O Alemão’, alusão ao meu verdadeiro nome da pia batismal da Igreja de São Pedro do Alecrim. Era um exímio caricato verbal associando os nomes dos amigos a outros já famosos. Uma arte divina, só dele. Ninguém reclamava dos novos batismos, daquele xará do João Batista, que batizara o Jesus de Nazaré.

Machadinho – Foto: Gustavo Sobral

Chamava o amigo locutor Samuel Fernandes de, ‘Samuel Wainer’. O fotógrafo Ferreira, de ‘Ferreira Itajubá’. Enfim, todo mundo devidamente batizado e protegido por aquele que tinha o coração maior do que a sua querida e amada cidade do Assu. Não podia saber que alguém ali estivesse em situações aflitivas, de saúde ou de bolso. Chamava, sem alarde e ajudava em total sigilo. Ficava alegre ou triste, com os que estavam ao seu redor. Quando publiquei meus primeiros livros, dele só obtive incentivos e apoios. Não gostava de meus agradecimentos públicos aos seus gestos fraternos. Antes de ajudar alguém, pedia logo o segredo total de estado…

Fui, acho, a quase todos os lançamentos de seus livros, como ele aos meus. Quando soube que eu estava organizando os saudosos bailes a fantasia no Clube do Rádio Amador, juntamente com o incansável Temístocles, reservava previamente uma grande mesa para seus familiares. Lá, chegava sorridente ao lado de sua Salésia Dantas. Ela elegantemente vestida de Carmem Miranda e muito mais foliã do que o marido. Era a mesa mais animada e alegre do referido baile momesco. Estão guardadas aqui no meu baú as dezenas de fotografias desses momentos. Relíquias que guardarei como boas lembranças das alegrias carnavalescas.

Antigos Carnavais – Foto: Canindé Soares

Li recentemente alguns escritos sobre o amigo Machadinho, do seu conterrâneo jornalista Wellington Medeiros, destacando seu grande trabalho de pesquisa da nossa memória política dos anos 30 até a atualidade. Obras sem ataques e paixões. Diz o sincero amigo Wellington, entre outras verdades: “… Perde o RN – especialmente o Assu – um grande filho. E, nós, jornalistas, um grande colega, amigo, benfeitor solidário, especialmente nos momentos de incertezas”. Já o amigo jornalista Flamínio Oliveira, meu ‘antigo’ colega de trabalho, enviou-me sua frase realista e, ao mesmo tempo, amiga dos velhos tempos saudosos: “Machado era a unanimidade positiva no meio das divergências”.

Não terá livro que reúna em uma antologia o seu lado humano e fraternal aos que foram por ele ajudados, seja de uma maneira ou outra. Suas ‘tramas do bem’, como dizia e fazia o mestre Câmara Cascudo. Machadinho foi daqueles que temos o grande privilégio de chamá-lo um ‘amigo irmão’. Nunca o vi falando mal de ninguém e, muito menos, juntando desafetos em seu caminho. Veio ao mundo para dar risadas estridentes e congregar as amizades em torno de uma grande mesa, na qual a fartura e o bom humor eram aliados da sua solidariedade, tão rara nos dias atuais. Dividiu a sua alegria e o seu pão como um bom religioso. Foi além de um franciscano, sem vaidades e disputas. Em nossos encontros, ele me pedia para não agradecê-lo, mas não tinha jeito, já que dona Estela, ensinou-me ser grato, desde seus acalantos noturnos: “Xô xô pavão da ingratidão…”.

E por hoje, meus leitores e leitoras, aviso que poucos serão lembrados no futuro assim por mim, com tantas saudades e gratidões juntas! 

                       Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.