Dia: 23 de maio de 2021

De volta ao passado… (53)

Tradicional equipe da região Agreste potiguar, o Arsenal Sport Club, fundado em 25 de agosto de 1953. Na foto, vendo a esquerda, Ubirajara Freire, os fundadores do tradicional clube mipibuense, Moizaniel de Carvalho e João Matias. A direita, Nequinho, Luiz Barbosa  e Osvaldo de Souza (agachado). Todos, nominados e outros que não identificamos, já partiram para a Morada Eterna. O jogo comemorava o 25º aniversário do Arsenal.  Era o ano de l968. Lá se vão 53 anos…

POUCAS E BOAS

Valério Mesquita (mesquita.valerio@gmail.com)

01) Xanxo era um pedreiro macaibense, alto, magro e disponível 24 horas em favor da construção civil. Trabalhava muito e quase não sobrava tempo para a bebidinha preferida: “2 Tombos”, fabricada no engenho Califórnia, de Nilton Pessoa de Paulo, São Gonçalo. Certa vez, foi contratado pela prefeitura para construir um muro que o tempo, a história, a lenda e a legenda, passaram a congnominá-lo de “muro de Xanxo”, de geração a geração. Tido e havido como pedreiro competente, edificar um muro era tarefa tão simples que o próprio Xanxo resolveu precedê-la com alguns goles da famosa aguardente, na mercearia de Seu Alfredo de Almeida, pelas oito da matina. Tentado pelos circunstantes a misturar a “caninha” com Cinzano e Run Merino, Xanxo não fugiu do desafio, como senhor e mestre da mistura de cimento, cal, areia e barro. Depois, partiu para o trabalho oficial de forma preocupante, pelo caminhar

sinuoso, desenhando figuras geométricas. Xanxo foi rápido na construção, pois ainda queria pegar o expediente da prefeitura para receber o dinheiro. O prefeito Luís Curcio Marinho, diligente e exigente, ao observá-lo no guichê da tesouraria, convidou-o para juntos irem ver o muro. No caminho, ainda fedendo a cana, detalhou observiço, a altura do muro (2 metros) e a sua extensão (15 metros). O prefeito, diplomaticamente, com um abano de cabeça, reprovou antecipadamente o tempo exíguo gasto pelo pedreiro. Ao chegarem a “obra”, já havia uma aglomeração de curiosos. “O que foi isso, Xanxo?”, pergunta surpreso o prefeito. “Sei não, Seu Luís, mas alguma coisa me diz que foi gente adversária do senhor”. Xanxo, que bem poderia ter trabalhado no muro de de Berlin, até hoje é relembrado entre os antigos pelo coquetel de ingredientes da argamassa: aguardente, run cinzano, cimento, areia e barro.

02) Guilherme Paulino Siqueira foi motorista de praça, de caminhão e passou no vestibular de dirigir a caminhonete Chevrolet de Leonel Mesquita. Gostava de se apresentar aos desconhecidos como pessoa importante, pronunciando de forma pomposa e cabotina o seu nome: “Muito prazer, Guilherme Paulino Siqueira, às suas ordens”. Sempre pedia nos balcões das bodegas e bares da vida a bebida certa para as companhias incertas pagá-la. Invariavelmente, nas recusas, Guilherme ia curtir a enganosa diplomacia no xadrez da rua da Cruz. Em

muitas dessas caminhadas, era comum se desvencilhar dos policiais para se refugiar na casa de Seu Mesquita, em desabalada carreira, portão a dentro. “Seu Mesquita, me acuda, a polícia me persegue!!”. Lembro-me das vezes que cantava, sentado à janela gradeada da cadeia, as canções de Nelson Gonçalves e Linda Batista para os passantes que o compensavam com cigarros e comida. No volante do carro, Guilherme era exímio mas corria demais. De uma feita, estando em Macaíba, eu me preparava para viajar a Natal quando o meu pai interrompeu a viagem, ponderando ao seu sobrinho e genro Leonel de forma enfática: “Com esse doido, meu filho não vai. Pegue um ônibus ou vá na marinete (alternativo daquele tempo)”. Guilherme Paulino Siqueira saiu de Macaíba há tempos atrás e foi morar em Bom Jesus. Nunca mais o vi.

03) Zé Deca era comerciante estabelecido na esquina da Francisco da Cruz com a Dinarte Mariz. Alcancei-o nos anos 50 perto dos 70 anos, sempre por trás do balcão de sua mercearia despachando goles de aguardente, com extrema paciência, aos “pinguços” do Matadouro Municipal. A sua sobrinha por afinidade era a professora Naide Tinoco, que me ensinava particular antes de prestar exame de admissão ao Colégio Marista, juntamente com D. Enedina Bezerra. Mas, o lado popular de Zé Deca residia exatamente na facilidade com que a meninada “passava” notas do cruzeiro velho de duas cabeças que a sua vista ruim não detectava. Só desconfiou quando os fregueses de verdade começaram a

rejeitar seus trocos. “Seu Zé Deca, essa nota é duas cabeças!”. Ao cabo de algum tempo em cima da prateleira, Zé Deca já contabilizava um prejuízo enorme representado por um volumoso maço de cédulas frias amarradas num barbante. Daí pra frente, Zé Deca não trabalhava mais só, e todo garoto era um suspeito em potencial.

0l4) Seu Avelino Pinheiro foi um antigo servidor municipal que se tornou popular pelas idéias extravagantes e originais. Era também administrador do campo do Cruzeiro F.C. onde mantinha, nos fundos do estádio, uma cuidadosa plantação de milho e feijão, só não respeitada pelas boladas dos jogos dominicais. Avelino se confessava russo de nascimento e menosprezava o brasileiro, considerando-o ignorante e sem criatividade. Defendia as suas teses com tamanha seriedade que conquistava o respeito dos ouvintes e outros persuadidos. Quando o americano pisou na lua, Avelino já pregava que os russos haviam antes construído lá vários conjuntos habitacionais. O Cruzeiro F.C. era o seu time e a sua religião. Ai de quem discordasse. Vasco, Flamengo, Corinthians, ABC, todos perdiam para o “azulão”, em cujo plantel figuravam os seus filhos Bedé e Pirralha, que devorava de vinte a trinta bananas seguidas, conforme a aposta. Avelino Pinheiro, poucos anos antes de falecer, fazia ponto na Farmácia de Vinício Ferreira que, à noitinha era povoada por uma seleta turma do “Funrural”, que gostava de ouvir as suas lorotas, confirmadas por Punga,

seu amigo de juventude.

Vestidas de azul e branco

Rosemilton Silva – É jornalista e escritor. Natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Tava eu sentado na calçada de dona Noca, chupando um poli de umbu cajá, quando chegam Márcio Marques e Wellington Ribeiro com poemas de Letácio Ataíde nas mãos e admirados com o que eles chamavam de mestre além, é claro, do poeta Cosme Marques, pai de Márcio. Alias, estávamos ali na rua que levaria o nome do grande poeta de então. E aí, aquela hora, coisa de uma da tarde, vinha chegando o pessoal do Ginásio Comercial, cujas aulas eram a noite porque funcionava no Quintino Bocayuva, ali parede e meia com dona Noca, e pela manhã e tarde era a vez do primário.

Sentados, degustando o poli de dona Noca, da fruta tirada do pé do seu quintal, todos nos deliciávamos com a passagem das  meninas  da Escola  Normal, que funcionava a tarde no Instituto Cônego Monte. As normalistas, vestidas de azul e branco, como diz a canção eram o colírio Lavolho que refrescava os olhos de todos nós e davam combustível para os poemas de Márcio e Wellington. Elas vinham em turma, saiam de todas as ruas que davam no Bar Savoy. Aqui e acolá, alguma se “descuidava” quando deixava a proteção da parede do bar e o vento subia a saia. Era uma festa!

Poemas e mais poemas e promessa de serenata a noite. Ali também se encontravam os professores do Quintino e do Instituto. Maroquinha diretora do primeiro e monsenhor Emerson do segundo. E cada vez mais, a calçada era habitada. Por isso mesmo, minha cumade Maria  Gorda,  sabedora de  que  aquela hora  estaria  ali acompanhado de João Bosco, Manu, Dinarte, Hildebrando, Danilo, Zé Domingos, Antonio Aleixo e, mais tarde, Geraldo Moura e Breno, mandou nos chamar.

Escola Quintino Bocaiúva – Santa Cruz /RN – Foto: Blog do Rsantos

As meninas da Escola Normal já estavam em sala de aula recebendo ensinamentos de professoras como Júlia e Neném Galdino, Terezinha e Alda Cury, Margarida Queiroz, Deusa, Garota, Terezinha de Jesus, Doutor Jonas Leite, seo Cocó…

E lá vamos nós no rumo do mercado, beirando a Ferreira Itajubá, descendo pro cheba da minha cumade. Lá, uma enorme mesa, celebrava o início da tarde com recados para a seresta da noite. Do Paraíso, desceu João de Luiz Passo e seu violão. Dinarte e José Domingos. Danilo, Hildebrando e Breno. Antonio Aleixo e Geraldo Moura. Eu, João Bosco e Manu com João de Luiz Passo esperando Maria José Cesário que não viria, claro.

Mercado público, vendo-se o coreto ( em primeiro plano) Foto Santa Cruz em Foco

Encerrada a cervejada e as encomendas da minha cumade para a noite, voltamos pra casa já com o motor da luz funcionando e a gente se preparando para o Ginásio Comercial porque dona Marluce chegava cedo, mesmo tendo um dia duro na Cooperativa.

O danado era ter que ouvir o barulho do motor da luz em todas as classes do Quintino e ainda ter que se concentrar nas aulas de inglês do professor Acácio, de Manoel Macedo e vai por aí.

Terminada a aula, dia de lua cheia e daí a pouco era dado o primeiro sinal para desligar o motor. Todos na praça, como sempre, cada um com seu grupo. A luz some e a silhueta do Bar do Ponto vai se destacando na luz da lua. Debaixo de um dos caramanchões, estão Antonio Aleixo e seu violão junto com Geraldo Moura olhando para o hotel de Ze Dobico, e vendo do outro lado as casas de Zé João, Chico de Juca, seo Furtado e Miguel Cury. Mas abaixo, no coreto ali em frente as casas de Balelê, Ezequiel Mergelino, seo Anísio, seo Zé Dadá, se reúnem Dinarte e o violão de Zé Domingos.

Foto: Ilustativa

Do outro lado, onde fica a fonte com seus caminhos indicados por pequenas árvores desenhadas pela poda, estão Danilo, o clarinete de Hildebrando e o acordeon Breno, com os olhos voltados para as casas de Culete, Eponina, Jonas Leite, Zé Nunes e Zé de Brito. E ali, próximo aquele poste que dá choque quando chove, estão eu, João Bosco e Manu tendo a infelicidade de ouvir os roncos de João Lucas, mas de vez em quando era divertido, bastava olhar para a casa de Manoel Macedo. Na entrada da Eloy de Souza surgem João de Luiz Passo com seu violão trazendo Maria José debaixo do braço. E aí, cada um dos grupos escolhia o seu caminho em conformidade com os pedidos da minha cumade.

SALVADOR E A FILOSOFIA

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Filósofa

Durante muito tempo da minha vida acalentei o sonho de conhecer Salvador, a capital da Bahia, A Terra da Felicidade. Mas, por mais que eu me programasse, a viagem jamais dava certo. Todas as tentativas de viajar a Salvador/BA e descobrir as maravilhas das quais todos que visitam a cidade me falavam, eram fadadas ao fracasso: nunca se concretizava de modo que eu desisti da ideia e pensei: quando tiver que ser, será. E assim os anos se passaram, até que no feriado de 7 de setembro/2017, eu finalmente parti para a tão sonhada viagem a Salvador.

Devo confessar que tocar com meus pés, a cidade tão ansiosamente desejada de conhecer, foi profundamente emocionante. Fiquei encantada pelo clima de magia, alegria e a grande profusão de cores que envolve Salvador e eu não sabia para onde olhar, uma vez tudo era encantante aos meus olhos. A cidade é realmente deslumbrante, apaixonante, cativante. Salvador me conquistou com sua beleza, suas cores, seus odores e sua alegria.

A cidade, na minha ótica, tem algo em comum com a Filosofia. Como estudante da disciplina aprendi que alguns filósofos anunciaram a existência de dois mundos. Assim, René Descartes nos deixou sua contribuição sobre a dualidade entre os mundos formados pela mente e o corpo.

Platão também afirma que existem dois mundos; que a realidade é dividida em duas partes: a primeira ele nominou de mundo sensível, ou mundo material do qual nos apercebemos através dos órgãos dos sentidos. O segundo é o mundo das ideias ou mundo ideal, o qual ele denomina como o mundo da perfeição, lugar onde se encontra a essência de tudo.

Santo Agostinho, o doutor da Igreja Católica também faz uma divisão entre dois mundos: a Cidade dos Homens, na qual impera a corrupção humana e a Cidade de Deus – preparada pelo Pai para perdurar por toda a eternidade; lugar onde impera a justiça, a paz e a cura para todos os males.

Santo Agostinho

Salvador também apresenta esta dualidade de mundos: de um lado o progresso acelerado apresentando seus prédios enormes; arranha-céus imponentes que despontam em direção ao infinito, demonstrando o grande poder econômico disponível para uma parcela da sociedade. E do outro, as casas mais simples; construções pequenas e humildes retratando a desigualdade social que impera no Brasil. Uma lembrança à cidade dos homens, onde vive a população mais desafortunada, marginalizada e esquecida pelo poder público.

A Filosofia, no meu ponto de vista, ainda está presente na geografia do lugar, que divide a cidade em duas partes: Cidade alta e Cidade Baixa. Construída sobre uma falha geológica, a cidade de Salvador se formou em dois níveis, que se interligam através de ladeiras surgidas com o tempo. O acesso entre as duas partes da cidade também pode ser feito através do Elevador Lacerda, construído no ano de 1873 e que se constitui num dos mais belos e visitados pontos turísticos da cidade.

Do alto do Elevador Lacerda descortina-se uma das mais belas paisagens que meus olhos já viram: a vista da Baía de Todos os Santos e do Mercado Modelo. O elevador transporta mais de 900 mil passageiros por mês, ao custo de quinze centavos de real por passageiro, num percurso que tem duração estimada em pouco mais de 30 segundos.

Elevador Lacerda – Salvador /BA

Outro ponto que lembra a Filosofia diz respeito ao sincretismo religioso presente na cidade e que, embora diversificado convive de forma completamente harmoniosa. Salvador respira religiosidade. Onde quer que se vá, é possível vislumbrar um ícone religioso que retrata a fé do povo soteropolitano.

Em cada ponto da cidade ergue-se uma Igreja Católica em cuja cercania, pode-se visualizar as imagens dos santos do candomblé, por exemplo, tudo na mais perfeita sintonia com os símbolos religiosos de outras crenças. Salvador é formada por vários mundos dentro uma cidade alegre, de um povo caloroso e festeiro. E por toda essa riqueza de detalhes e sua beleza estonteante, Salvador conquistou meu coração.

O SHOW DO DESESPERO

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor.

Há um filme de 1969 com Jane Fonda, a musa daqueles anos, chamado A Noite dos Desesperados, feito a partir do livro de Horace McCoy. O título em inglês é They Shoot Horses, Don’t They?

O filme se passa no período da depressão nos EUA, época do desastre econômico, desemprego, miséria e desespero, em que as pessoas faziam tudo por um prato de comida. Os espertalhões de sempre bolam um show de horrores, uma maratona de dança em que cem casais dançam dias sem parar até além da exaustão física e psicológica, sob os olhos de uma plateia ávida pela desgraça alheia. Pouco a pouco os candidatos vão caindo de humilhação, fome, cansaço e desespero. Assisti quando adolescente e conservo até hoje o impacto de ver como pessoas se aviltam e podem ser tratadas como animais, mostrando o que há de pior na alma humana. O desempenho de Jane Fonda é uma atração à parte.

A TV se esmera em promover coisas semelhantes na busca por audiência. Em Largados e Pelados casais se submetem a todo tipo de provações e privações em troca de um prêmio em dinheiro. Deixam-se abandonar em uma selva, sem nenhuma roupa ou abrigo, comendo qualquer tipo de coisa que encontram – insetos, larvas, ratos. Passam frio e fome e  muitas vezes adoecem ou se desidratam, sendo obrigados a abandonar o jogo, culpando a si próprios por não terem aguentado.

Largados e Pelados

Chamam reality show a esse tipo de coisa. O BBB (minha mãe de 91 anos chama Bê-bê-bosta) confina um grupo de pessoas em uma casa-estúdio de forma promíscua, vigiadas 24 horas por dia por câmeras postadas em todos os recantos da casa. Todas as noites “festas” são promovidas com abundância de bebida, o que faz com que os ânimos (e a libido) se exaltem. E aí surgem os testes de limites físicos. Fiuck, filho de Fábio Júnior, passou onze horas seguidas pendurado em uma roda a girar constantemente como um hamster.  

BBB 21 – TV Globo

Outro canal usa a mesma fórmula só que em uma fazenda, e os participantes tem que cuidar de animais, ordenhar, etc., e exibir cenas de nudez mais ou menos explícitas dependendo do participante. O resto do tempo transam ou brigam entre si. A falta de aptidão para as tarefas do campo constitui o grau de dificuldade.

A Fazenda – TV Record

E agora outro desses programas de resistência está no ar. Chama-se No Limite. Um grupo de pessoas acampa em uma praia do Ceará e passam por inúmeros testes, inclusive de falta de comida decente. Em um dos episódios tiveram que comer cérebro de carneiro e olho de boi.

Bem, já vimos coisas piores. Basta lembrar que as execuções e tortura, na Idade Média, eram espetáculos públicos concorridos e que as famílias disputavam os melhores lugares levando suas crianças pela mão. Na cidade de Mons, França, os cidadãos chegaram a comprar um bandido apenas para assistir o seu esquartejamento em praça pública. Era a diversão dos domingos. Às vezes se retardava o golpe de misericórdia para maior deleite do público. Foucault registra, no livro Vigiar e Punir, essa sentença de 1757: “… atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento”.

Roda da Tortura fazia com que pessoas tivessem seus membros quebrados em praça pública (Foto: Reprodução)
Roda da Tortura fazia com que pessoas tivessem seus membros quebrados em praça pública (Foto: Reprodução)

Infelizmente mudamos a nossa moral muito pouco, em tanto tempo. O BBB bateu recordes de audiência. A vencedora tornou-se, do dia pra noite, ídolo de muita gente e conquistou milhões de seguidores. Talvez seja uma forma de esquecer os tantos males que se abatem sobre nós. Afinal estamos isolados, assustados, aguardando a vacina salvadora, cantando, tal como na música de Alceu, “já escuto os seus sinais”.

A paraibana Juliette foi a campeã do BBB 21

Sei não, mas ainda prefiro passar o meu tempo com um bom livro ou vendo um jogo do Flamengo de Gabigol – sofro muito menos.

NATAL/RN

Diferenças do casamento da filha do rico para a do pobre

Fotos: Ilustração

                    

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Neste domingo, vou começar recordando uma antiga expressão popular muito dita nas cidades interioranas desse nosso querido e anfitrião Nordeste: “Visita em casa de pobre é desgraça de galinha”. Também já ouvi que em casa de pobre: “Ladrão morre de susto!”. Com certeza, o larápio não morre de fome, mas sai com raiva por não achar dinheiro e ouro…

Pobre mora em casa, já rico, em condomínio bem fechado ou em apartamento bem alto. A última vez em que estive bebendo em mansão de rico, saí embriagado de ver tanto luxo, etiqueta social e pouca comida na mesa. Deixo claro aqui que não adianta me forçar, que eu não vou citar o santo e sim o milagre. Contarei duas histórias presenciadas por mim: uma festa de casamento da filha de um rico em Natal e a outra de um pobre na cidade de Eloy de Souza.

Situações completamente diferentes, mas que me marcaram para sempre! Certa vez, ouvi no mercado velho de Mossoró o dito popular de um freguês do ponto de refeição em que eu estava e este, sentado ao meu lado: “Muita farofa é sinal de pouca carne!”. Bem, vou começar pelo ‘enlaçe matrimonial’, com convite impresso muito luxuoso que recebi de um certo rico para participar dos festejos de sua filha, em uma casa de recepções, em Natal. A dita festança da filha do rico deu-se num desses salões de recepções com muito requinte e decoração cinematográfica. Inúmeros fotógrafos, cinegrafistas e seguranças. Mesas ornamentadas e violonistas acompanhando a bela noiva na triunfal entrada da festança. Muitas fotos, abraços e sorrisos. Coisa só visto em filmes de Hollywood.

Foto: Ilustrativa

Vi de tudo que se possa imaginar, agora comida que era boa para a ocasião – nada! Eu elegantemente vestido, com terno e gravata, como manda o figurino, fiquei esperando sentado por horas, vendo o glamour ambiental dos tais ricaços. Era quase início de noite e eu não havia jantado em casa, pensando que ali haveria comida e mesa farta. Quando não aguentei mais, chamei um garçom. Como diz o povo: “Saco vazio não se põe em pé!”: Amigo, me arranje, até pelo amor de Deus, uma dose de uísque e algo para o meu tira-gosto. Levei um choque de 220 volts, quando o mesmo disse que só tinha ordem para servir depois das fotos e filmagens dos recém jovens casados. Com muita insistência, supliquei-lhe que trouxesse escondido algo que aliviasse a miséria da minha barriga, que já estava até roncando. Este, educadamente, desculpou-se e deu-me a esperança de voltar com a dose e uma coxinha tão desejada. Sempre faço logo amizade com os garçons em ambientes requintados. Estratégia e arte de quem sabe beber e comer bem em festas.

Escritor pesquisador e folclorista Gutenberg Costa

Haja rituais do então casamento, para o garçom, com medo, trazer-me o meu pedido. Copo de uísque na mão e uma coxinha de frango no bolso. Espião da Segunda Guerra mundial, nem desconfiaria do coitado. Regras são regras. E com rico não se brinca. Disse-me que até as garrafas vazias iam ser devidamente contadas. A sobra seria levada pelo pai rico da noiva de volta para casa, com a velha desculpa, de que seria para os cachorros. Avisou-me, para meu espanto, que o jantar mesmo, só seria servido com pompas às 23 horas. Dizem que nem o diabo suportou fome por 40 segundos!

Contrariado com tanta demora gastronômica, tomei a bebida em um só gole, mastiguei logo a coxinha e muito ligeiro e desconfiado “capei o gato”, em disparada até a esquina e peguei um táxi para retornar a minha casa a procura de um jantar típico sertanejo e bem nutritivo. Quem me conhece sabe muito bem que em minha morada, graças a Deus, a garrafa de café está sempre cheia em cima da mesa e não falta alguma mistura pronta para uma visita de surpresa, seja que hora for. Como me dizia o amigo, poeta popular paraibano, José Costa Leite: “Dá pra enganar as tripas!”.

Quando me casei, minha saudosa tia materna, Zefinha Medeiros, deu-me um conselho de presente: “Berguinho, não deixe de ter em sua casa uma imagem de Santo Onofre. Nunca ocorrerá falta de comida em sua mesa, pois o santo morreu no deserto e com fome!”. Conselho para o bem, eu sigo a risca, não importa o santo! E desde esse longo tempo que “fujocomo o diabo da cruz” de certos ambientes luxuosos, traumatizado ainda com a espera e a fome que passei na festa do casamento da filha do tal rico lá na minha amada Natal.

Bem, agora vamos ao casamento da filha do pobre… que é outra história. Divertida e com fartura ao contrário da do rico. O finado chato estilista, o Denner Pamplona, preferia o luxo e as etiquetas. Eu, particularmente, gosto da simplicidade e das conversas em latadas ou debaixo de mangueiras frondosas. Regadas a café, caldos e boas risadas.

O casamento da filha do pobre agricultor foi especial e eu nunca o esqueci. Fico rindo quando o recordo em pequenos detalhes. Ocorreu em uma manhã de sol, na pequena e acolhedora cidade de Eloy de Souza. Eis que, estando por lá na casa de um amigo, fomos convidado às pressas para uma festinha de casamento da filha de um pobre da região. Fui sem convites impressos e mesmo sem uma lembrancinha, como me ensinara os pré- requisitos da boa visita de dona Maria Estela: “Não vá de mãos abanando a canto algum!”.

Foto: Ilustrativa

Chegando a referida festa, o pai da jovem filha recém casada, muito preocupado com minha presença, foi logo me dizendo em cima da bucha: “Dotô, me adesculpe, a mesa desocupada aqui só tem três pernas, mas encostada na parede não cai não, senhô. E me perdoe o senhor se assentar num tamborete velho”. Vendo-me tranquilo e alegre com a sincera recepção, foi logo tratando de me apresentar o casal feliz de nubentes. Ainda estavam vestidos tal qual na Igreja Católica, há pouco tempo. Os dois sorrindo sem medo do futuro e sem preocupação com os resultados da mega-sena.

O pai da moça pobre, não arredando da minha mesa, começou indagando-me: “O dotô que bebe celveja, vinho, uísque, cachaça, rum montila, conhaque ou batida de maracujá?”. “E o quê o dotô vai querê pra fazê a parede?” E emendou sem perder tempo o velho pai, que de pobre não tinha nada: “A gente tem perparado nas panela de barro: guiné, galinha caipira, poico, carne assada, guiné torrado, picado de carnêro e de poico, pato, farofa, arroz, macarrão, buchada de carneiro, cabeça de bode, panelada, feijão verde e feijoada!”. Fartura que só em tempo de eleição nas fazendas dos antigos coronéis nordestinos aos seus eleitores encabrestados!

E eu como estava na frente da casinha, ainda deu para ouvir o bom “forró pé de serra” animando os convidados do casamento pobre lá no terreiro do fundo do quintal. Zoadeira boa pra três dias. Não seria correto chamar essa festa de pobre, pois “pobre é o cão!”, como já dizia a velha máxima tão ouvida na feira do meu Alecrim.

E ainda acrescento aos leitores e leitoras para dar por encerrada estas duas longas histórias: Pobre? Somente, conheço a dupla – a miséria e a fome! Como dizia minha saudosa e sábia mãe, dona Estela: “Meu filho, rico de verdade é aquele que tem saúde, casa própria e não deve dinheiro a ninguém!”. Neste domingo, não vamos almoçar, sem antes agradecer a nossa fartura e lembrar dois santos da fome brasileira, Betinho e Dulce da Bahia!

                             Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.