13 de Maio: Nísia Floresta e Princesa Isabel – O que há, e o que não há, em comum entre ambas

Luis Carlos Freire – Professor, pesquisador e escritor

Aproveitando o dia 13 de maio, data que lembra a assinatura da Lei Áurea que colocava um ponto final na escravidão no Brasil, lembrei que, muito anos antes de a Princesa Isabel nascer, precisamente 26 antes, Nísia Floresta era abolicionista. Antes dela ninguém escreveu nada condenando a escravidão. Nísia nasceu aos 12 de outubro de1810 e faleceu aos 24 de abril de1885.

Princesa Isabel nasceu aos 29 de julho de1846 e morreu aos 14 de novembro de1921. Quando a Princesa Isabel ainda nem era nascida, Nísia Floresta era autora de livros. Quando Isabel tinha três anos de idade, Nísia perguntava em uma de suas obras: “… que uma raça não fez para sobre as outras ter revoltante primazia ilimitado poder?…”

Quando Isabel tinha 7 anos, Nísia colocava as autoridades brasileiras contra a parede e sentenciava: “Senhores do Brasil, esse solo abençoado em que respirais, mostrai-vos dignos dele, fazendo desaparecer do meio de vós a maior vergonha dos povos cristãos! Vergonha que macula ainda os vossos altivos vizinhos do Norte, apesar dos admiráveis progressos do seu gênio empreendedor e dinâmico. Cessai uma horrível profanação da natureza humana: ela deve ter, cedo ou tarde, como resultado, terríveis represálias”…

 Se desenrolarmos o novelo das referências abolicionistas feitas por Nísia Floresta em suas diversas obras, e as discutirmos aqui, este texto viraria tese. Servi-me dessas duas significativas falas para trazer à baila essa importante informação que alguns desconhecem. 

O Movimento Abolicionista, no Brasil, foi crescer em 1870, ou seja, 21 anos depois de Nísia Floresta ter aventado seu ideário abolicionista em livros. Isso é fato. Está escrito! A abolição da escravatura no Brasil só aconteceria tardiamente, em 13 de maio de 1888, comprovando o conservadorismo das elites brasileiras. E não pensem que foi um ato de bondade. A Lei Áurea foi consequência do envolvimento popular com a causa da abolição.

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O povo foi às ruas gritar sua voz. O imperador sentiu-se pressionado pelos grandes latifundiários, fazendeiros e a elite dona de milhares de “peças” ficaram enlouquecidos… não teriam mais mão de obra grátis. Não teriam mais seus brinquedos sexuais… não teriam mais válvulas de escape para dar vazão aos seus atos psicopatas, como certa vez revelou Darwin, ao visitar o Brasil e ver uma senhora de engenho batendo numa criança para se divertir…

Entre 1870 até a deflagração da abolição tivemos abolicionistas como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco André Rebouças, Luís Gama, o poeta Castro Alves e outros. Sem contar os abolicionistas pretos. Mas Nísia Floresta veio na dianteira, abrindo caminho a facão e sofrendo todo tipo de preconceito e tabu. Não poderia ser diferente. Ter sido precursora não a torna melhor que ninguém, até porque, nascida no meio da escravidão, ela foi construindo o seu comportamento abolicionista, dando conta de que aquilo não podia ser normal nem se perpetuar. E para isso precisou ser cuidadosa trabalhando o assunto nos jornais e livros aos poucos, meio impregnada daquele habitat – porque não poderia ser diferente. Foi um abolicionismo construído. Nísia é a grande referência em toda a América Latina, inclusive fomos o último país da nossa América a decretar o “fim da escravidão”. 

O seu pioneirismo também serve para reconhecermos que, além de suas ideias estarem a frente de seu tempo, havia muita audácia e coragem em sua pessoa. E o fato de se tratar de uma mulher, era como ter que matar um leão por dia. Primeiro que “mulher era para a cozinha e outras prendas domésticas”, e jamais para o mundo das ideias.

O que chama a atenção nessa história é que a “bondade” da Princesa Isabel foi apenas um ato forçado e sem responsabilidade alguma perante milhares de “ex-escravos” soltos, sem eira e nem beira. A ABOLIÇÃO FOI A ALTERNATIVA PARA O GOVERNO SE LIVRAR DA REFORMA AGRÁRIA. Desse modo eles abriram os ferrolhos das senzalas e soltaram os ex-escravos como se abre uma cancela do curral… retiraram os grilhões e tiraram de cena o pastoreio dos capitães do mato. É exatamente como – hoje – você abrir a portinha da gaiola e dar liberdade ao passarinho ali sequestrado há dez anos. Para onde ele vai? O que fará? Não sabe voar, não sabe ser predador, não conhece as árvores, os rios… não sabem nada… ASSIM FOI COM OS ESCRAVOS!

Aos pretos restou abandono. Abandonados, se viram obrigados a viver à míngua nas periferias e arrabaldes, marginalizados e discriminados. Então inauguraram as favelas. Não eram gente para muitos. A metade ficou nas cozinhas das madames, nos pastos dos senhores e em todos os serviços que branco não fazia. Assim aprenderam.

Abandonados, se viram obrigados a viver à míngua nas periferias, discriminados e marginalizados, os negros criaram as favelas

O que se pode esperar de pessoas marginalizadas? A discriminação, o desprezo é um açoite. Dói, gera revolta… E os reflexos são visíveis até hoje nas páginas policiais. Essa realidade não foi regra para todos, mas para muitos. Prova disso são as estatísticas de criminalidade. Só pretos cometem crimes? Claro que não! Comete crimes quem é abandonado por sucessivos governos inconsequentes, segregacionistas, que não oportunizam políticas públicas de dignidade para a sua nação, sem priorizar cor ou qualquer condição. Foi o caso deles! 

Pois é, o 13 de maio: dia em que Isabel Augusta Micaela Gabriela de Bragança e Bourbom aboliu a escravidão, mas num ato meramente de conveniências… ato politiqueiro como ocorre hoje, por exemplo, com algumas figuras públicas super conhecidas, que não gostam de pobre, de negros, de indígenas, de gays, mas como é ano político, a máscara do marketing os modificam como camaleões, e ficam temporariamente bem na fita, embora que PARA INGLÊS VER! 

É exatamente por isso que aproveito o detalhe de estarmos falando de Nísia Floresta, – uma mulher, diga-se de passagem -, há mais de um século e meio, sozinha, gritando contra a escravidão e diversas injustiças, mesmo sabendo que poderia sofrer retaliações, e hoje  – pasmem! – assistimos mulheres a favor de torturadores, misóginos, racistas homofóbicos todo comportamento não civilizado. O QUE ACONTECEU COM ESSAS MULHERES? E COM AS SILENCIOSAS?

Pois então, já estava mudando o assunto… como dizia, abolicionista mesmo – e precursora – foi Nísia Floresta. Leiam o currículo dela e depois leiam o currículo da Princesa Isabel. O assunto é longo.  Quis apenas deixar essa breve reflexão importante sobre a visão adiante do tempo de Nísia Floresta Brasileira Augusta.

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1 comentário

  • Diogo Pedrosa disse:

    Texto fantástico! Resgate necessário da importância de Nísia Floresta para o estado e para o país. Muito bom. Parabéns.

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